sábado, 31 de dezembro de 2011

Tempo



Nota: No início do ano me propus publicar cento e cinquenta textos, hoje estou publicando o centésimo quinquagésimo, portanto, dentro da proposta e com alguns altos e baixos, consegui cumprir a meta. Os artigos, todos de minha lavra, foram distribuídos equitativamente 13 nos meses de 31 dias e 12 nos demais, de modo que no todo representaram um esforço relativamente equânime ao longo do ano. O texto abaixo, “Tempo” nada mais é que um retorno ao tema que já abordei inúmeras vezes e me parece bem adequado a uma reflexão sobre o ano que se encerra. Aproveito para desejar aos meus leitores um ano de 2012 (se o mundo não acabar) bem melhor do que esse que fecha as portas hoje. Boa leitura!

Tempo

É um ente simplesmente imaterial, transcendental até. E sempre foi essa sua característica constante, universal. Ao pensá-lo, perguntamos, muitas vezes, se essa carência de corporalidade, de materialidade, essa intangibilidade, não foi sempre seu traço fundamental que o distingue das coisas palpáveis; desde seu surgimento num suposto big bang, até a eternidade indefinível e inalcançável. Precisamente por essa fugidia característica, poder-se-ia atribuir-lhe quaisquer virtudes ou vícios que a outros entes parecessem aberrantes. A ele, quaisquer rótulos, por mais insólitos e depreciativos que pareçam, se lançam impunemente sem temor de cometer desatinos. O tempo absorve nossos caprichos, impassível e obtuso na sua marcha amoque rumo ao vir a ser. O tempo não existe em virtude de seres pensantes que o definem ou tentam enquadrá-lo em parâmetros humanos, ele simplesmente É. JAIR, Floripa, 16/06/11
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O jogo



Já confessei em texto publicado aqui que sou tímido desde criança, expliquei o que é ser tímido e escrevi o que segue: “Se você morre de medo de falar em público, de declarar seu amor a alguém, de entrar num ambiente iluminado em que não conhece ninguém, torce para não ser notado em lugares abertos, não gosta de ficar nu perto dos outros, procura não atender ao telefone ou transpira ao fazê-lo, você é um tímido. Por outro lado, o isolamento do tímido lhe permite ser mais concentrado, mais introspectivo, mais criativo até, de forma que ao pensar mais e falar menos o tímido tende a errar menos também, porquanto seus ditames são fruto de reflexão mais demorada, mais madura”.
Pois então, como criança tímida, sempre me via em ambientes de adultos nos quais não me “enquadrava”, nos quais, sentado num canto sozinho e sem vontade de conversar com alguém, me via imaginando coisas, observando as pessoas e construindo histórias sobre o que elas eram ou poderiam ser.
Assim, inventei um jogo secreto, o qual eu poderia jogar por horas e horas sem sair do lugar, sem palavras e sem qualquer auxílio externo a não ser a observação das pessoas e minha imaginação que acabou se tornando cada vez mais elaborada. Eu ficava observando as pessoas no ambiente e tentava adivinhar, pelas roupas, adereços e comportamento, pelo que falavam ou pelo que comiam naquele momento, onde moravam, o que faziam normalmente, o que tinham acabado de fazer, qual era o destino delas depois que saíssem dali. Era um exercício de lógica dedutiva à Sherlock Holmes, mas sem crime para solucionar. Pela expressão do rosto, eu podia imaginar qual era o pensamento daquela senhora gorda que olhava a toda hora para o relógio no seu pulso e não parava de fumar; ou o que estava pensando aquele rapaz bem vestido que comia seu sanduíche e, às vezes, sorria para si mesmo como se tivesse ouvido uma boa piada. Como seria a pessoa que a mulher parecia esperar? Eu prestava atenção em frases e restos de conversa dos adultos, enquanto, também, desenvolvi habilidade para leitura labial, de forma que tinha uma colcha de retalho de expressões, frases soltas e assuntos com os quais eu podia tecer histórias as mais variadas e chegar a conclusões as mais fantasiosas.
Todos se tornavam minha matéria prima da qual eu montava minhas estórias. Por exemplo, aquela mulher alta e bem vestida, com vestido justo decotado, que estava sentada à mesa com sua amiga loira e magra, prometia bom material para uma estória cheia de nuances. Aquela mulher esperava por seu amado, que marcara encontro com ela e esquecera, e por isso ela estava intranqüila olhando para a porta, bebericando uma bebida fraca que não saboreava e nem sentia o gosto, estava se sentindo abandonada. E, de tempos em tempos, ela ia até o toalete retocar a maquiagem que se desfazia com suas lágrimas que teimavam de descer furtivas de seus olhos tristes.
No outro lado da sala, o garçom levou outra bebida para o sujeito entediado que parecia desiludido. Certamente sua mulher o havia deixado ele se sentia só e afogava as mágoas no fundo do copo. Seus olhos estavam opacos, sem vida, ele era um homem morto por dentro. E eu continuo em frente a tecer as teias intrincadas das vidas alheias. O jovem amante que levou a mulher daquele homem é forte, bronzeado e alto, além de ter dentes bons que lhe dão um sorriso de propaganda de creme dental. Aquele marido não teria nenhuma chance mesmo!
Tornei-me uma espécie de vampiro de histórias pessoais, o tempo e a imaginação me forneceram os instrumentos capazes de elaborar em minúcias os meandros e passagens que cada uma de minhas “vítimas” sofrera ou viria sofrer. Minhas estórias acabaram se transformando em verdadeiras novelas nas quais eu tinha liberdade de juntar dois ou mais personagens e conduzi-los da forma que me parecesse melhor e mais dramática. Também brinquei com a literatura, colocava meus personagens nas estórias de autores conhecidos e dava-lhes chance de viverem novas sensações, amores e aventuras.
É claro que minhas indiscrições envolviam certo risco, se a pessoa que eu observava notava meus olhares inquisitivos, eu sorria com a cara mais inocente do mundo e desviava o olhar. Não era minha intenção constranger ninguém. Na verdade tinha autêntico pavor de ser pego em flagrante nas minhas espiadelas indiscretas e minhas vítimas, ao perceberem, virem tirar satisfação. Mas de qualquer modo, necessito espiar apenas por poucos segundos meus alvos. Meio minuto é suficiente para apanhar aquele instantâneo que me fornecerá material para minhas estórias. Sou um paparazzo de almas, obtenho fotos de alta resolução das quais construo vidas muito mais sofisticadas e interessantes que as existências o mais das vezes medíocres e insípidas daqueles que clico. Se o leitor notou, a narrativa que se fazia com o verbo no passado, no último parágrafo passou para o presente. É que eu não era tímido, eu sou tímido, de modo que o jogo ainda existe, embora, hoje eu jogue muito menos, minhas estórias estão melhores elaboradas mais intrincadas e convincentes que antes, e cheias de detalhes. O jogo continua! JAIR, Floripa, 25/09/11

domingo, 25 de dezembro de 2011

Os Libertos

Palmeira, não mais, e também não menos, que outras cidades também pequenas e também provincianas, sempre teve uma sociedade estratificada: ricos, remediados, pobres e os outros, estes, inqualificáveis, algo assim como os párias da sociedade indiana. A pirâmide social da cidade era um sólido geométrico degenerado, vértice fino como agulha, terço superior alongado, corpo robusto e base achatada. Ou seja, pouquíssimos muito ricos, alguns remediados, muitos pobres e outros vergando sob o peso monumental daquela Quéops nas costas raquíticas.
Mas não é de demografia que quero falar, é sobre aqueles elementos menos citados quando se fala da história da cidade. Aqueles indivíduos, geralmente oriundos da base da pirâmide, que pela sua opção de vida, geralmente opção pela liberdade, pela livre iniciativa de viver sem muitas regras, são considerados marginais.
Já tive oportunidade de falar sobre alguns desses párias sociais como, Pé-de-bicho, Juvenal Sapo e Bacilo, este mereceu uma referência especial porque se deixou imolar em nome de um amor não correspondido. Hoje quero lembrar de outros dois exemplares marginais que não deixaram rastros.
É quase regra nessas cidades pequenas, talvez nas grandes também, que existam beatos e beatas exacerbados, inofensivos e ativos que sobressaem por sua dedicação aos ritos religiosos, não importa quais. No velho burgo palmeirense, Bom Luiz e Ximbica, dois marginais religiosos, disputavam a liderança na dedicação que mostravam às suas causas.
Bom Luiz, ou Bão Luiz como o vulgo o chamava, cujo nome de batismo era Luiz, mas cujo sobrenome ninguém sabia, talvez nem ele mesmo, era conhecido pela sua obsessão pelo puro e simples peripatetismo militante. Costuma andar sem parar sequer para um descanso ou gole d’água, durante muitas horas, algo assim como das oito da manhã até as cinco da tarde. Caminhava de Palmeira a uma das localidades próximas, São João do Triunfo, Porto Amazonas, Mandaçaia ou outra qualquer, não importava, a passos largos rezando em voz alta, eram vinte ou trinta quilômetros nos quais Bom Luiz colocava toda a concentração do mundo e parecia que limpava-se de pecados. Era um auto penitente.
Já, o outro, o Ximbica, tornara-se voluntário dos afazeres da igreja católica e a eles se dedicava em tempo integral, se alguém quisesse encontrá-lo bastava se dirigir à igreja e lá ele estava. Ximbica era o que se costuma chamar de baixinho, talvez um metro cinquenta ou menos, quase anão, mas tinha energia de gente grande estava sempre ativo e pronto para ajudar os padres,
O que tornava essas duas insólitas figuras dignas afamadas nos círculos palmeirenses, era a disputa ferrenha para carregar a cruz nos enterros que eram feitos a pé naquele tempo. Quando morria um morador da cidade, sem que ninguém os avisasse ou convidasse, os dois apareciam no velório, que lá era chamado de guardamento, e o que chegava primeiro se apossava da cruz e não largava mais. No ato de traslado do corpo até o cemitério, era costume que um condutor fosse à frente do cortejo conduzindo uma cruz, e assim aquele que havia se apossado dela primeiro seria esse condutor. O cômico da situação é que, algumas vezes, ambos, Ximbica e Bão Luiz, chegavam ao mesmo tempo ao guardamento e daí o pau comia. Não foram pouca as vezes que eles chegaram às vias de fato como se dizia. Chegava-se a dizer que alguns gozadores comunicavam a morte de alguém a ambos ao mesmo tempo para que sua chegada ao local do defunto se fizesse simultaneamente de modo que houvesse conflito.
Pois é, corria a vidinha dos dois beatos assim, até que um dia ambos foram encontrados mortos no cemitério. Mistério. Nem tanto, no dia anterior houvera um enterro em que ambos disputaram a cruz como sempre. Parece que Ximbica ganhou, mas Luiz não se conformou. Depois que o falecido desceu à cova, foi devidamente coberto de terra e os acompanhantes se retiraram do cemitério, Ximbica, como era seu costume, ficou mais um pouco para ter certeza que tudo estava nos conformes. Foi nessa hora, deduziram as autoridades, que Bão Luiz chegou para tirar satisfação e eles entraram em luta corporal. Cada um muniu-se de uma cruz de madeira, das que abundavam naquele cemitério, e a agressão tomou vulto. Ambos conseguiram ferir um ao outro com gravidade na cabeça e os dois caíram inertes no chão onde morreram dos ferimentos. Acabava assim a vida de dois “libertos”, dois seres que não se enquadravam e que viveram suas vidas sem peias. Tragicamente um rebentara a cabeça do outro com uma cruz, símbolo de suas discórdias durante suas vidas. Agora, os dois que haviam sido “libertos” durante a vida, haviam escolhido de livre vontade a forma de morrer, continuaram usufruindo sua liberdade na eternidade. Os enterros em Palmeira nunca mais foram os mesmos desde então, inclusive o enterro duplo dos dois rivais que não teve quem levasse a cruz. JAIR, Floripa, 01/12/11.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Estirpe de guerra



No princípio, quando os primeiros povos se organizaram em aldeias e clãs, os homens deram início às guerras que, quase sempre, tinham como objetivo conquistas, sejam territoriais ou de fontes de recursos. Contudo, a história registra que as guerras eram empreendidas por elites masculinas, nunca pela massa amorfa de pessoas comuns ou por mulheres. Guerreiros, cavaleiros, samurais, nobres e outras denominações seriam os que terçariam armas contra os inimigos, aos demais restava apenas “torcer” pelos seus.
Para os não-guerreiros – os camponeses, por exemplo, a guerra podia ser encarada como uma praga mortal igual à peste ou a varíola. Mas, para os guerreiros, ela era a própria essência da vida, de uma vida boa e aventurosa, da qual mulheres e camponeses estavam excluídos naturalmente. Na luta, o guerreiro tinha aventura, companheirismo, emoções violentas, heroísmo, disputas, provas de masculinidade, saques e experiências novas e a possibilidade de conseguir uma morte gloriosa que lhe concederia fama e reconhecimento, ainda que, obviamente, post mortem. Entre uma guerra e outra, o guerreiro mantinha vivos os eventos passados através de disputas esportivas, as chamadas justas, que representavam as batalhas, revivendo-as em duelos e torneios e comemorando-as com desfiles que lembravam vitórias. Rituais que tinham a finalidade de manter aquele elã tão presente nas batalhas. Os guerreiros de elite de outros tempos, certamente concordariam com as palavras de um jovem oficial alemão, escritas logo depois do fim da primeira guerra: “Vieram nos avisar que a guerra tinha acabado. Achamos graça. Nós somos a guerra”.
Ao colocar todos os guerreiros no mesmo saco como uma elite que se destacava da gentalha, estamos incluindo nela grandes diferenças culturais e históricas. Para falar só da tradição européia de guerreiros, lembremos que seus conceitos de guerreiros incluíam tanto os parrudos homens armados da idade média quanto os aristocratas almofadinhas de uma época posterior. Incluímos aquele cavaleiro que lutava num estilo mais ou menos indisciplinado e individualista, e também o oficial de um exército enorme e burocratizado, que nunca deve ter lutado, mas que comandava um grande número de subalternos que, efetivamente, enfrentava o inimigo no campo de batalha. O conceito inclui também os mercenários que lutavam para qualquer príncipe que lhes pagassem um soldo e os idealistas que lutavam por um deus e, posteriormente, por uma pátria ou país. Inclui ainda homens que dificilmente poderiam integrar uma elite: cavaleiros pobres sem terras e cuja única opção para obtê-las seria a guerra.
Se existe um pretexto para generalizar as elites guerreiras, é que elas mesmas fazem essa generalização. O general MacArthur, estereótipo do guerreiro moderno, costumava dizer-se descendente de uma “longa linhagem cinza” que remontava a centenas de anos. Ele dizia preferir terçar armas corpo a corpo com o inimigo no campo, a comandar homens para fazê-lo. No filme Forrest Gump, temos o mais radical exemplo do guerreiro consumado, Tenente Dan Taylor (Gary Sinise). Quando ferido de morte no campo de batalha no Vietnã, recusa-se a ser evacuado para a salvação, evoca todos seus antecedentes que morreram em guerras anteriores. Ele queria morrer em glória, coisa que lhe foi negada, porquanto Forrest o conduz nos ombros e o salva. Taylor é uma versão extremada de MacArthur. Para um guerreiro, a idéia que uma estirpe guerreira se estende por milhares de anos não chega ser uma abstração. O general Patton achava essa idéia bem real: sua família teve várias gerações de militares famosos; quando criança ele acreditava ser uma reencarnação de heróis mortos, tanto confederados como vikings.
Patton certamente é um exemplo exagerado, mas os guerreiros de elite geralmente são estimulados a se incluir numa estirpe guerreira supranacional. O Salão Washington, em West Point, recebe os cadetes com um enorme mural onde se lê: “São mais de dois mil anos de proezas militares em meio a espadas, flechas, mosquetes, máscaras de gás, estratégias de cerco, elefantes; Ciro, na Babilônia; Guilherme, em Hastings; Meade em Gettisburg; Joffre, no Marne”.
É inegável que as tradições guerreiras cumprem seu papel de gestar guerreiros em série de uma mesma família ou clã, contudo, quando não é possível estabelecer essa correlação, costuma-se usar a imaginação. Os prussianos costumavam dizer-se herdeiros das artes bélicas dos espartanos e assírios. O general MacArthur, discursando para cadetes de West Point, citou uma série fantasmagórica de guerreiros americanos para servirem de alter ego aos jovens. Dizia que se os cadetes algum dia deixassem de cumprir seus deveres para com o país, um milhão de fantasmas de uniforme verde, cinza, azul e cáqui, levantariam de seus túmulos e suas vozes ecoariam três palavras: dever, honra e pátria. Mas, em matéria de imaginação, nada se compara a “arianologia” alemã que procurava remontar a linhagem étnica e espiritual da Wehrmacht a milhares de anos, chegando aos bandos de homens armados da pré-história indo-europeia.
Grande parte das castas guerreiras tanto do ocidente como do oriente se manteve durante anos como uma elite contínua de sangue, até chegar à época das armas de fogo. Agora não era o mais bravo, o mais destemido que contava, era o mais bem armado.
A guerra moderna tornou-se evento mortífero “por procuração”, quanto mais letais as armas se tornaram, menos envolvimento do guerreiro, este pode ser um general que simbolicamente aperta um botão a milhares de quilômetros do fronte e mata batalhões de inimigos. O infante não é mais o peão de elite que enfrenta um seu igual olho no olho, ele pode estar a centenas de metros disparando seu fuzil de precisão e apenas vislumbra o inimigo, quando muito. A guerra pode até dissociar-se do sangue, as bombas nucleares volatizam os corpos das pessoas não deixando rastros.
Contudo, mesmo inexistindo o real cheiro de sangue, mesmo que aviadores e comandantes de tanques ultra sofisticados, apenas “joguem videogame” em batalhas virtuais mortíferas, os guerreiros ainda são uma elite que vê na guerra um meio de vida - e de morte também - perfeitamente justificável pelo qual vale a pena dedicar seus melhores anos de juventude e seus melhores e mais profícuos esforços físicos e intelectuais. Patriotismo, ideologias e justificativas morais, são apenas pretextos que os verdadeiros guerreiros usam para explicar porque vão matar gente que não conhecem em um país distante e estranho. No tempo atual, quem mais encarna a fiel definição de uma estirpe guerreira, são os soldados de elite americanos: Seals, Rangers e Ghost Warriors. Mas estes merecem outro texto. JAIR, Floripa, 03/01/11.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Borsalino




Certos bens duráveis, por sua qualidade, durabilidade, classe, preço ou estilo, têm tendência a se tornar clássicos, o que quer dizer que mesmo o passar do tempo não os tira de circulação ou não consegue sucedâneos que os tornem obsoletos ou ultrapassados. Assim é com marcas de carros, por exemplo, quando se quer dar ênfase a excelência de um carro acima de comparações cita-se o Rolls Royce. Não há necessidade de se conhecer as minúcias que fazem dessa marca a referência mundial em matéria de carro, basta dizer, tal coisa é o Rolls Royce de sua categoria. Similarmente as motos também têm uma referência famosa, Harley Davidson. Há quem diga que existem motocas, motos, motocicletas e Harley Davidson, esta está tão acima das outras que não há como comparar. Relógios mecânicos também têm seu clássico, os relógios suíços Ômega, uma máquina elegante, precisa e bem acabada que foi must antes do advento dos relógios eletrônicos de quartzo. Quem tem um Ômega sabe do que estou falando.
No caso de indumentárias, adornos corporais e perfumes é óbvio que também, existem “clássicos”, só que estes estão mais relacionados ao nome do estilista que lançou a roupa ou adereço. Dior, Madame Coco Channel, Valentino, Cartier, Kenzo e outros famosos dão o tom do que é especial na alta costura, jóias e enfeites, aliás, alta costura já se refere aos grandes estilistas. Ainda nesta área temos um chapéu clássico, o Borsalino. O senhor Giuseppe Borsalino, nascido em 1834 na cidade de Alexandria, Cecília, aprendeu a arte de fabricar chapéus na França em 1850. Voltou para sua terra e montou a fábrica Borsalino de chapéus. Segundo aqueles que entendem, entre eles o ex político Paulo Brossard, o Borsalino é mais do que um simples chapéu, é uma obra de arte. É feito à mão e escovado centenas de vezes até se tornar uma peça única de acabamento impecável. É confeccionado com feltro feito de pêlos de coelhos angorá de uma variedade só encontrada no sul da França. Começou com gangsteres da Cecília, depois os marginais de alto coturno de Chicago adotaram o Borsalino, entendia-se que roubar e matar não eximia o perpetrador de ostentar uma certa classe. Tão integrado foi o chapéu aos gangsteres, que estes eram chamados de Borsalino na Itália.
Um Borsalino está para os demais chapéus assim como o Rolls Royce está para os outros carros, O Borsalino é o Harley Davidson dos chapéus. Muitos acreditam que se trata da mais notável cobertura para cabeças masculinas que já existiu no Planeta.
Por que estou elogiando um adereço que nunca usei e sequer conheço? Pois é, nas relações com nossos semelhantes, sejam relações de amizade, parentesco, profissionais ou ditadas pelas circunstâncias, nós, o mais das vezes involuntariamente, costumamos classificar as pessoas as quais por dever de ofício ou não, nos são próximas. Essa classificação costuma ter um viés de qualidade, isto é, nos perguntamos quanto confiável é tal pessoa, quanto leal ou honesta pode ser etc. Nada diferente do que fazemos ao comprar um sapato, por exemplo. Se vamos optar pela compra, queremos saber se é confortável, durável, elegante e outros atributos. As pessoas não são coisas, mas nos passam certas impressões que nos agradam ou não.
Então, com relação às relações pessoais, existe o que os experts chamam de “teste do Borsalino”. Dizem que existe um teste para revelar se um chapéu é um autêntico Borsalino ou apenas uma imitação desprezível. O teste do chapéu verdadeiro consiste em enrolá-lo como um cilindro, transformá-lo num tubo bem fino e passá-lo por uma aliança de casamento. Se ele sair dessa prova sem marcas permanentes, se voltar à forma original, se a experiência não danificá-lo, então é um Borsalino original.
Serão verdadeiros amigos aqueles que passarem galhardamente pelo teste do Borsalino. Claro que o teste dos amigos é apenas virtual, mas não deixa de ser extremamente rigoroso, e pouquíssimos são aqueles que conseguem passar. Lembrando que o teste da amizade resiste ao tempo e à distância. Particularmente, tenho amigos de infância que fico sem vê-los anos, mas quando nos encontramos parece que foi ontem que falamos a última vez. Eles passam pelo teste do Borsalino com louvor. Não descartando meus amigos, que os tenho poucos, acho que quem sempre passará pelo teste será o cachorro. Aliás, ouso dizer que o cachorro é o Borsalino dos seres vivos. JAIR, Floripa, 12/12/11.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O linchamento

A palavra linchamento tem origem no EUA e deriva do nome Lynch, o qual tanto pode ser do coronel Charles Lynch que praticava “justiça” com as próprias mãos durante a guerra da independência, como do capitão William Lynch que mantinha um comitê independente encarregado de manter a ordem no condado de Pittsylvania por volta de 1870. De qualquer forma, independente de onde surgiu o nome, o linchamento traduz um ato de “justiça” sumária, em que a população, com ou sem razão, aplica sanções ao acusado de crime. Esses justiçamentos em geral acabam na morte do acusado.
A história registra que em quase todas as culturas existe ou existiram os linchamentos. Parece que tantos mais atos foram praticados, quanto menos aparatado juridicamente o Estado se encontrava. Embora, paradoxalmente, como se percebe pelo registro histórico, tenha sido praticado intensamente nos EUA até 1960 onde é notório um arcabouço jurídico de monta. Lá também, nos EUA, o linchamento foi amplamente usado como terrorismo racial contra negros e a Klu Klux Klan foi notória linchadora, principalmente nos estados do sul. De qualquer forma, o linchamento o mais das vezes é um ato de multidões inflamadas, e, ainda que quase sempre tenha um viés de espontaneidade, muitas vezes é resultado de incitação por parte de líderes naturais.
O que fica claro, seja o linchamento “justo” ou não, é a irreversibilidade do resultado, porquanto na quase totalidade dos casos o ato resulta em morte. Aqui no Brasil, os linchamentos já apresentaram, sobretudo no século XIX, uma conotação diretamente racial, como nos EUA; contudo, sua motivação foi sendo modificada ao longo do tempo. Atualmente, em nosso país, essas ações violentas aparecem, sobretudo, como uma atitude de combate ao crime e à criminalidade. Seguidamente os meios de comunicação nos mostram os horrores de pessoas linchadas em plena rua por motivos até fúteis.
Recentemente em São Paulo, após passar mal, perder o controle do ônibus que dirigia, atingir três carros, três motos e atropelar um homem de 26 anos, o motorista Edmilson dos Reis Alves foi linchado por cerca de 40 pessoas. O linchamento ocorreu por volta das 23h30 de domingo, 27 de novembro, no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo.
Também, assim como os meios de comunicação evoluíram, os atos de linchamento pegaram uma carona nesse comboio e mostraram sua cara adaptada às mídias, mas nem por isso menos nociva ou destrutiva. O caso da Escola Base em março de 1994 é um evento típico. Dois alunos de quatro anos deram a entender a seus pais que haviam sido abusados na escola, pelos diretores. Os pais registraram a queixa na delegacia do Cambuci e a imprensa tomou conhecimento. O delegado que assumiu o caso executou as diligências necessárias na escola e mandou as crianças para o IML. Nada foi constatado na escola e tampouco o IML positivou qualquer violação das crianças. Achando que não havia recebido a atenção necessária, a mãe de uma das crianças entrou em contato com a Rede Globo. Naquela mesma noite, o Jornal Nacional noticiava o acontecido. Mesmo com nada realmente comprovado, todos os grandes veículos de São Paulo abraçaram a denúncia e deram manchete sobre o caso. Notícias que resultaram na depredação da escola e também no linchamento moral dos envolvidos. Estava estabelecido um caso de linchamento midiático que resultou na morte cívica de dois cidadãos que, depois se provou cabalmente, eram inocentes.
Com advento da internet e das redes sociais, o linchamento deu mais um salto qualitativo - um upgrade para falar na linguagem da Web - passou a mostrar uma cara eletrônica. Hoje, 16/12/11, a imprensa tradicional e as redes sociais mostraram com detalhes uma mulher maltratando um cãozinho que acabou morrendo. O ato dantesco, filmado por um vizinho, foi feito na frente de sua filhinha de três anos o que aumentou a indignação da comunidade facebuquiana e dos espectadores dos jornais televisivos. Parece que pelo fato de ser um caso em que a vítima maior é um cão, como os demais casos congêneres neste país, não vai dar em nada. Daí então, as comunidades das redes sociais se mobilizaram e instituíram um linchamento cibernético. Publicaram em várias páginas e saites os dados completos, como nome, fotos, endereço, CPF, RG e telefone da perpetradora. Até onde essa exposição poderá afetar a tranquilidade da mulher não se sabe, mas inaugorou-se um linchamento que, ao contrário dos antecessores, não vai eliminar fisicamente ninguém, mas poderá causar a morte virtual da acusada.
Assim considerado, está estabelecido esta modalidade menos letal de linchamento, que aos olhos de pessoas adeptas da não violência deve aparecer até aceitável. JAIR, Floripa, 16/12/11.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tico-tico

Ninho: Ovos de Tico-tico (T) e de Chupim (C).

Tico-tico, às vezes confundico com o pardal macho.

Penso que talvez uma das aves mais tipicamente brasileira seja o tico-tico, já mereceu uma composição musical de Zequinha de Abreu, que se tornou icônica na voz de Carmem Miranda e que foi gravada até por Ray Conniff. É uma ave pequena e seu nome de origem guarani deriva de seu canto. Conhecida como jitica no Paraná, na cidade onde nasci sua sobrevivência encontra-se ameaçada pela ocupação humana e pelas ações predatórias do pardal, ave oriunda da Europa, mas que foi importada no tempo do Brasil colônia com o fito de eliminar as pragas que atacavam as lavouras. Não livrou as lavouras das pragas e a própria ave se tornou uma praga que se alimenta dos grãos nas roças, faz o ninho nos beirais das casas de madeira dos colonos, bem como expulsa o tico-tico de seu ambiente. Como quase toda solução “ecológica” sem base científica, a importação de pardais foi um tiro no pé.
Mas quero falar dessa vítima mais comum dos pardais, o tico-tico. O tico-tico é uma ave passeriforme da família Emberizidae. É um dos pássaros mais conhecidos e estimados do Patropi. Vive (ou vivia) em todas as regiões do País, com exceção das áreas florestadas da Amazônia. É migratório no Rio Grande do Sul e Paraná, aparecendo em bandos provavelmente procedentes dos países vizinhos. Encontrado também do México ao Panamá e na maior parte da América do Sul até a Terra do Fogo. Apesar dessa distribuição quase continental, não é mais tão comum vê-lo próximo aos centros urbanos.
Costumam se reproduzir na primavera-verão. Durante a reprodução vivem estritamente aos casais sendo extremamente fiéis a um território, que o macho defende com garra contra a aproximação de outros machos de sua espécie. O ninho, pouco elaborado, é uma tigela aberta e rala, feito de capim seco e raízes, às vezes rematado por dentro com crina e pêlos de animas. A fêmea bota de 2 a 4 ovos, que são de cor verde-amarelado com uma coroa de salpicos avermelhados. O fato de construir seu ninho próximo ao solo facilita a ação de predadores, especialmente cobras, que gostam de se alimentar de seus ovos e filhotes.
Contudo, o que mais torna complicada a reprodução desse passarinho são os chupins. O chupim (Molothrus bonariensis) é uma ave passeriforme da família Icteridae. O chupim não constrói ninhos, é conhecido pelo hábito de colocar seus ovos no ninho de outras aves, para que as mesmas possam chocá-los, criar e alimentar seus filhotes. Por isso, acabou virando sinônimo de aproveitador, costuma-se referir, com certa justiça é bom que se diga, àquele que vive a custa dos outros como chupim. São diversas as espécies parasitadas por essa ave, mas a mais comum de se ver alimentando um filhote de chupim, é o tico-tico, porque os ovos de ambas as aves são muito parecidos, embora os do chupim sejam um pouco maiores. E a jitica é ingênua o suficiente para não notar que os ovos não são dela. O mais perverso dessa estratégia reprodutiva adotada pelos chupins é que os filhotes destes são maiores que os do tico-tico, de forma que a maior parte da comida que os pais tico-tico trazem vai para os chupinzinhos e, muitas vezes, os filhotes do tico-tico morrem de fome. Mais uma vez a simplória jitica é enganada, é vítima dessa tragédia grega com final anunciado.
Dessa forma, o notável passarinho que deu nome a uma revista infanto-juvenil nos anos trinta e quarenta; foi objeto de um dos chorinhos mais populares e tocados do Planeta; e nomeia um tipo de serra manual usada para fazer cortes em curvas de raio bem pequeno, está à mercê de uma ave que só consegue se reproduzir parasitando outra. Será que é válido fazer uma analogia com a faustosa vida dos políticos (chupins) em Brasília, usufruída graças ao povo bisonho (tico-tico) desse país? JAIR, Floripa, 14/12/11.