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domingo, 25 de dezembro de 2011

Os Libertos

Palmeira, não mais, e também não menos, que outras cidades também pequenas e também provincianas, sempre teve uma sociedade estratificada: ricos, remediados, pobres e os outros, estes, inqualificáveis, algo assim como os párias da sociedade indiana. A pirâmide social da cidade era um sólido geométrico degenerado, vértice fino como agulha, terço superior alongado, corpo robusto e base achatada. Ou seja, pouquíssimos muito ricos, alguns remediados, muitos pobres e outros vergando sob o peso monumental daquela Quéops nas costas raquíticas.
Mas não é de demografia que quero falar, é sobre aqueles elementos menos citados quando se fala da história da cidade. Aqueles indivíduos, geralmente oriundos da base da pirâmide, que pela sua opção de vida, geralmente opção pela liberdade, pela livre iniciativa de viver sem muitas regras, são considerados marginais.
Já tive oportunidade de falar sobre alguns desses párias sociais como, Pé-de-bicho, Juvenal Sapo e Bacilo, este mereceu uma referência especial porque se deixou imolar em nome de um amor não correspondido. Hoje quero lembrar de outros dois exemplares marginais que não deixaram rastros.
É quase regra nessas cidades pequenas, talvez nas grandes também, que existam beatos e beatas exacerbados, inofensivos e ativos que sobressaem por sua dedicação aos ritos religiosos, não importa quais. No velho burgo palmeirense, Bom Luiz e Ximbica, dois marginais religiosos, disputavam a liderança na dedicação que mostravam às suas causas.
Bom Luiz, ou Bão Luiz como o vulgo o chamava, cujo nome de batismo era Luiz, mas cujo sobrenome ninguém sabia, talvez nem ele mesmo, era conhecido pela sua obsessão pelo puro e simples peripatetismo militante. Costuma andar sem parar sequer para um descanso ou gole d’água, durante muitas horas, algo assim como das oito da manhã até as cinco da tarde. Caminhava de Palmeira a uma das localidades próximas, São João do Triunfo, Porto Amazonas, Mandaçaia ou outra qualquer, não importava, a passos largos rezando em voz alta, eram vinte ou trinta quilômetros nos quais Bom Luiz colocava toda a concentração do mundo e parecia que limpava-se de pecados. Era um auto penitente.
Já, o outro, o Ximbica, tornara-se voluntário dos afazeres da igreja católica e a eles se dedicava em tempo integral, se alguém quisesse encontrá-lo bastava se dirigir à igreja e lá ele estava. Ximbica era o que se costuma chamar de baixinho, talvez um metro cinquenta ou menos, quase anão, mas tinha energia de gente grande estava sempre ativo e pronto para ajudar os padres,
O que tornava essas duas insólitas figuras dignas afamadas nos círculos palmeirenses, era a disputa ferrenha para carregar a cruz nos enterros que eram feitos a pé naquele tempo. Quando morria um morador da cidade, sem que ninguém os avisasse ou convidasse, os dois apareciam no velório, que lá era chamado de guardamento, e o que chegava primeiro se apossava da cruz e não largava mais. No ato de traslado do corpo até o cemitério, era costume que um condutor fosse à frente do cortejo conduzindo uma cruz, e assim aquele que havia se apossado dela primeiro seria esse condutor. O cômico da situação é que, algumas vezes, ambos, Ximbica e Bão Luiz, chegavam ao mesmo tempo ao guardamento e daí o pau comia. Não foram pouca as vezes que eles chegaram às vias de fato como se dizia. Chegava-se a dizer que alguns gozadores comunicavam a morte de alguém a ambos ao mesmo tempo para que sua chegada ao local do defunto se fizesse simultaneamente de modo que houvesse conflito.
Pois é, corria a vidinha dos dois beatos assim, até que um dia ambos foram encontrados mortos no cemitério. Mistério. Nem tanto, no dia anterior houvera um enterro em que ambos disputaram a cruz como sempre. Parece que Ximbica ganhou, mas Luiz não se conformou. Depois que o falecido desceu à cova, foi devidamente coberto de terra e os acompanhantes se retiraram do cemitério, Ximbica, como era seu costume, ficou mais um pouco para ter certeza que tudo estava nos conformes. Foi nessa hora, deduziram as autoridades, que Bão Luiz chegou para tirar satisfação e eles entraram em luta corporal. Cada um muniu-se de uma cruz de madeira, das que abundavam naquele cemitério, e a agressão tomou vulto. Ambos conseguiram ferir um ao outro com gravidade na cabeça e os dois caíram inertes no chão onde morreram dos ferimentos. Acabava assim a vida de dois “libertos”, dois seres que não se enquadravam e que viveram suas vidas sem peias. Tragicamente um rebentara a cabeça do outro com uma cruz, símbolo de suas discórdias durante suas vidas. Agora, os dois que haviam sido “libertos” durante a vida, haviam escolhido de livre vontade a forma de morrer, continuaram usufruindo sua liberdade na eternidade. Os enterros em Palmeira nunca mais foram os mesmos desde então, inclusive o enterro duplo dos dois rivais que não teve quem levasse a cruz. JAIR, Floripa, 01/12/11.



quarta-feira, 1 de junho de 2011

Memorial Day



Nossos vizinhos aqui do norte têm algumas datas federais notáveis, (feriados não religiosos, já que a União é constitucionalmente laica) as quais eles se dão ao luxo de não trabalhar: New Year, Independence Day, Martin Luther King e Memorial Day, são algumas delas. Hoje, trinta de maio, última segunda feira do mês, comemora-se o Memorial Day.
Memorial Day é um feriado nacional nos EUA. Anteriormente conhecido como Decoration Day, ele foi comemorado pela primeira vez pelos escravos libertos do sul, em Charleston, Carolina do Sul em 1865, e em Washington para lembrar os soldados da União mortos na Guerra Civil. Hoje, o que agora é conhecido como o Memorial Day, homenageia todos os militares dos EUA que morreram em serviço. Numa economia de calendário o Memorial Day geralmente marca o início do verão, a estação de férias, e prepara para o Dia do Trabalho.
Começou como um ritual de recordação e reconciliação depois da Guerra Civil, mas, no início do século 20, o Memorial Day passou a ser uma ocasião para expressões mais generalizadas da memória dos mortos, em que pessoas comuns visitam os túmulos de seus parentes falecidos, se eles haviam servido nas forças armadas. Ele também se tornou um fim de semana prolongado cada vez mais dedicado às compras, encontros familiares, fogos de artifício, passeios à praia e eventos que movem a mídia nacional, como a 500 milhas de Indianápolis, corrida de automóveis realizada desde 1911, no domingo, véspera do Memorial Day.
Uma espécie de sentinela do Pacífico norte, San Diego é uma cidade bastante militarizada, possui uma super base da Marinha, uma base aqui ao lado, na ilha Coronado, de Fuzileiros Navais e outras tantas espalhadas por aí. Acho que a base de Coronado deve ser importante, possui três super porta aviões movidos a energia nuclear. Então, considerando esse perfil militarizado da cidade, não é estranho que o Memorial Day seja significativo para a população que lota os abundantes cemitérios militares daqui. Tive oportunidade de visitar um desses cemitérios em Point Loma da outra vez que estive em San Diego. Cemitério muito grande, muito organizado e muito solene, passa a impressão que os militares sabem o que fazem ao enterrar seus mortos. De qualquer forma, o feriado de hoje nos dá oportunidade de ver as festividades e solenidades comemorativas desse que é um dos importantes dias para os militares, afinal são milhões de soldados mortos em todas as guerras, desde a guerra pela independência, a guerra da secessão, a guerra com a Espanha, outra com o México, a primeira e a segunda guerras mundiais, guerra da Coréia e do Vietnam, além de muitas refregas e intervenções como no Panamá, Granada, Somália, Iraque e Afeganistão. Os militares lembram seus mortos sabendo que um dia poderão estar enterrados naquele lugar, quando algum presidente republicano declarar uma guerra de favas contadas para promover os industriais de armamentos que financiaram suas campanhas; e os civis agradecem seus parentes que deram a vida por uma tal de “liberdade”. É esse sentimento de aprovação que permite que os belicosos republicanos mantenham a máquina de guerra sempre lubrificada e pronta para o ataque em qualquer lugar do Planeta.
A impressão que se tem, é que militares são venerados guardiões voluntários da pátria, são aquela parte da população que se sacrifica pela nação para que os civis tenham a liberdade que se supõe que têm, e o nível de vida que desfrutam. Quando estávamos voando de Dallas para cá, em pleno voo cruzeiro, um comissário perguntou se havia algum militar entre os passageiros. Alguém se apresentou e foi aplaudido em pé. É possível imaginar uma cena dessas no Patropi? JAIR, San Diego, 30/05/11.

sábado, 21 de novembro de 2009

MINI CONTO


INFINDÁVEL CURIOSIDADE
Oito ou mais horas por dia, de sol a sol, trabalho bruto e cansativo que se repete todos os dias e todas as horas; semanas e meses consecutivos, sempre. Cavar buracos de certa dimensão que devem acolher corpos daqueles que, por algum motivo, deixaram esta atribulada existência terrena. Coveiro por necessidade, a morte lhe proporcionava os meios de vida. Os infindáveis desfiles de cadáveres que sumiam nas covas que cavava, não lhes eram indiferentes, faziam-no pensar, sentir-se curioso. Para onde iam? O que lhes esperava além? Seriam felizes? Estarão melhores lá, do que eu aqui? A curiosidade e o cansaço convenceram-no. Deitou-se na cavidade que acabara de criar e deixou-se cobrir de terra. JAIR, Floripa, 21/11/09.