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domingo, 15 de julho de 2012

Formigas verdes


Na região leste australiana, no estado de Queensland, existe uma espécie endêmica de formiga chamada de formiga verde porque possui o abdômen dessa cor. Talvez por existir apenas naquela região não é muito conhecida pelos entomólogos e não figura em destaque em quase nenhuma produção literária, aliás, nem mesmo os australianos de Queensland sabem muita coisa sobre ela.
Talvez nunca se viesse a conhecer qualquer coisa a respeito dessas formigas se não fosse o cineasta alemão Werner Herzog que fez um filme nem um pouco conhecido que tem como atração a fantasia mística que esses insetos exercem sobre o imaginário de tribos aborígenes que vivem no out back e têm as formigas como portadoras de bons augúrios. “Onde sonham as formigas verdes” é o nome da obra do diretor alemão. No coração selvagem da Austrália, um grupo de aborígenes de uma tribo em extinção defende um local sagrado contra o avanço dos tratores de uma companhia de mineração. É o local onde sonham as formigas verdes. Perturbar o seu sonho irá destruir a humanidade, eles acreditam. Os nativos entram em conflito com as leis da Austrália moderna, e a disputa é feita em um tribunal.
Não é caso de falar sobre as mensagens do filme onde há um confronto dos valores cultuados pelos nativos com o capitalismo selvagem que só vê lucro a tirar daquele pedaço de deserto. Mas, vale falar sobre como os australianos nativos incorporam as verdes formigas à sua cultura.
Em meados dos anos setenta, geólogos da Queensland Mines Ltd. se depararam com um pequeno sítio de terra numa região remota da Austrália, região norte de Nabarlek que acabou sendo o mais rico depósito de urânio do Planeta. O minério enterrado abaixo da paisagem encontra-se em formações altamente concentradas de fácil acesso, a menos de 18 metros de profundidade. Assumindo que os direitos de mineração poderiam ser facilmente obtidos a partir dos proprietários indígenas, a empresa australiana rapidamente assinou contratos para vender US $ 60 milhões de minério para empresas japonesas. O que os executivos de mineração não levaram em conta foi a relutância dos indígenas em perturbar as formigas verdes que vivem perto do local.
A formiga verde é um incômodo para os moradores de regiões urbanas e suburbanas da Austrália. As formigas geralmente constroem seus ninhos no subsolo sob a maioria dos tipos de gramíneas, ninhos que muitas vezes passam despercebidos até que alguém, ou às vezes algum animal, é mordido. A mordida da formiga em si é muitas vezes invisível, no entanto, o veneno que ela injeta através de uma picada, em seu abdômen, inicia uma forte sensação de queimadura segundos após a picada e permanecendo por um tempo de cinco minutos até duas horas ou às vezes mais. O veneno é geralmente inofensivo, mas se um grande número de mordidas for recebido de uma só vez, a enorme quantidade de veneno injetado no corpo às vezes pode tornar uma criança pequena doente por algumas horas ou mais, geralmente nada para se preocupar, exceto um choro perseverante que incomoda os adultos.
Contudo, para os australianos nativos que são místicos e cultuam a natureza com uma mãe benfazeja que tudo lhes dá sem nada pedir em troca, a existência das formigas verdes naquele pedaço de chão é um sinal de fartura e futuro tranquilo. Qualquer mudança no clima ou nas condições do terreno que prejudique ou impeça o sonho das formigas é um mau sinal que angustia suas mentes e traz desconforto social para todo o povo porque o mundo pode acabar. Elas fazem tudo para preservar o ambiente das formigas, equivale dizer, eles preservam a natureza e pouco modificam as condições em que elas vivem. 
Então, como entender que homens brancos, movidos por alguma coisa tão execrável como dinheiro, quisessem cavar o solo e desalojar as formigas que ali viviam por milhares de anos sem serem incomodadas e sem incomodar ninguém? Como entender que homens ditos civilizados pudessem matar as formigas para se apossar de um produto enterrado no solo que os nativos nem sabiam para que servia, e que, mesmo aqueles escavadores incréus não sabiam explicar exatamente qual era seu uso?
O conflito resultante da visão mística e até certo ponto ingênua dos aborígenes, e da fome de lucro dos capitalistas em explorar as jazidas de urânio, deu azo ao filme de Herzog. O que vemos na obra é o choque de cultura, o abismo enorme criado entre a visão natural dos nativos e a prepotência do homem branco. É um filme sobre as coisas pequenas e simples que vão além de qualquer ganância ou providência que o dinheiro pode tomar. Os nativos, mesmo seduzidos com a promessa de milhões de dólares a ser doados à sua comunidade em troca da exploração das minas, não aceitaram perturbar o sonho de suas amadas formigas, deitaram-se no solo e impediram que as máquinas iniciassem os trabalhos de escavação. A “disputa” entre esses liliputianos ecologistas, contra os gigantes operadores de máquinas famintas e poderosas, se estendeu por vários meses até que o capital irracional perdeu a luta e resolveu procurar urânio em paragens onde não moram nativos e tampouco existem formigas verdes.
Há que se notar que, a não ser pelo filme de Herzog, a imprensa mundial jamais publicou uma linha sequer sobre esse incidente em que uma comunidade, “selvagem” por definição, travou uma luta contra todo-poderosos empresários e saiu ganhando. Que o sonho das formigas verdes não seja perturbado jamais em nome daqueles que se preocupam com a sobrevivência da humanidade. JAIR, Canoas, 12/07/12.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tico-tico

Ninho: Ovos de Tico-tico (T) e de Chupim (C).

Tico-tico, às vezes confundico com o pardal macho.

Penso que talvez uma das aves mais tipicamente brasileira seja o tico-tico, já mereceu uma composição musical de Zequinha de Abreu, que se tornou icônica na voz de Carmem Miranda e que foi gravada até por Ray Conniff. É uma ave pequena e seu nome de origem guarani deriva de seu canto. Conhecida como jitica no Paraná, na cidade onde nasci sua sobrevivência encontra-se ameaçada pela ocupação humana e pelas ações predatórias do pardal, ave oriunda da Europa, mas que foi importada no tempo do Brasil colônia com o fito de eliminar as pragas que atacavam as lavouras. Não livrou as lavouras das pragas e a própria ave se tornou uma praga que se alimenta dos grãos nas roças, faz o ninho nos beirais das casas de madeira dos colonos, bem como expulsa o tico-tico de seu ambiente. Como quase toda solução “ecológica” sem base científica, a importação de pardais foi um tiro no pé.
Mas quero falar dessa vítima mais comum dos pardais, o tico-tico. O tico-tico é uma ave passeriforme da família Emberizidae. É um dos pássaros mais conhecidos e estimados do Patropi. Vive (ou vivia) em todas as regiões do País, com exceção das áreas florestadas da Amazônia. É migratório no Rio Grande do Sul e Paraná, aparecendo em bandos provavelmente procedentes dos países vizinhos. Encontrado também do México ao Panamá e na maior parte da América do Sul até a Terra do Fogo. Apesar dessa distribuição quase continental, não é mais tão comum vê-lo próximo aos centros urbanos.
Costumam se reproduzir na primavera-verão. Durante a reprodução vivem estritamente aos casais sendo extremamente fiéis a um território, que o macho defende com garra contra a aproximação de outros machos de sua espécie. O ninho, pouco elaborado, é uma tigela aberta e rala, feito de capim seco e raízes, às vezes rematado por dentro com crina e pêlos de animas. A fêmea bota de 2 a 4 ovos, que são de cor verde-amarelado com uma coroa de salpicos avermelhados. O fato de construir seu ninho próximo ao solo facilita a ação de predadores, especialmente cobras, que gostam de se alimentar de seus ovos e filhotes.
Contudo, o que mais torna complicada a reprodução desse passarinho são os chupins. O chupim (Molothrus bonariensis) é uma ave passeriforme da família Icteridae. O chupim não constrói ninhos, é conhecido pelo hábito de colocar seus ovos no ninho de outras aves, para que as mesmas possam chocá-los, criar e alimentar seus filhotes. Por isso, acabou virando sinônimo de aproveitador, costuma-se referir, com certa justiça é bom que se diga, àquele que vive a custa dos outros como chupim. São diversas as espécies parasitadas por essa ave, mas a mais comum de se ver alimentando um filhote de chupim, é o tico-tico, porque os ovos de ambas as aves são muito parecidos, embora os do chupim sejam um pouco maiores. E a jitica é ingênua o suficiente para não notar que os ovos não são dela. O mais perverso dessa estratégia reprodutiva adotada pelos chupins é que os filhotes destes são maiores que os do tico-tico, de forma que a maior parte da comida que os pais tico-tico trazem vai para os chupinzinhos e, muitas vezes, os filhotes do tico-tico morrem de fome. Mais uma vez a simplória jitica é enganada, é vítima dessa tragédia grega com final anunciado.
Dessa forma, o notável passarinho que deu nome a uma revista infanto-juvenil nos anos trinta e quarenta; foi objeto de um dos chorinhos mais populares e tocados do Planeta; e nomeia um tipo de serra manual usada para fazer cortes em curvas de raio bem pequeno, está à mercê de uma ave que só consegue se reproduzir parasitando outra. Será que é válido fazer uma analogia com a faustosa vida dos políticos (chupins) em Brasília, usufruída graças ao povo bisonho (tico-tico) desse país? JAIR, Floripa, 14/12/11.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Peixe boi

O pacífico e vegetariano peixe-boi amazônico é quase um ícone daquela região, não só porque foi caçado quase até a extinção, mas por se tratar de um mamífero aquático de características únicas. Segundo revela pesquisa de seus DNAs mitocondriais, todos os animais da família dos Sirenios como o peixe-boi amazônico, o manati, a vaca marinha africana e o dugongo são descendentes de animais terrestres que retornaram à água. Contrariando a história da evolução que registra a vida inicialmente surgindo nos mares e, posteriormente, adaptando-se a terra, alguns animais, inexplicavelmente saudosos da vida aquática, fizeram a viagem de volta e tornaram-se mamíferos marinhos como as baleias e os golfinhos. Mas quem eram esses retornantes? Ainda não se sabe, não há registros fósseis confiáveis que indiquem com precisão qual a morfologia das espécies que se adaptaram, contudo, abundam indícios que se tratava de paquidermes possivelmente anfíbios parecidos com hipopótamos e, quase certamente, parentes distantes destes.
A informação mais interessante acerca desses mamíferos aquáticos diz respeito justamente a seus ancestrais. Os testes revelam que animais, cujo habitat é tão distante como os dugongos que vivem no sul da Austrália e os peixes-bois amazônicos, são descendentes de uma mesma linhagem, isto é, seus ancestrais são comuns. Isso tanto pode revelar que suas origens remontam a Gondwana, o supercontinente que teria antecedido a atual distribuição de terras secas no Planeta, como pode indicar que houve uma migração de longuíssima distância por parte desses animais, o que parece bem pouco provável.
De qualquer forma, a docilidade e a lentidão de movimentos dos peixes-bois quase os levaram a extinção. Os ribeirinhos da Amazônia viam (alguns ainda veem) no animal uma formidável fonte de proteínas de fácil acesso, de modo que a caça era generalizada, não respeitando quaisquer regras. Aproveitavam-se quando os animais vinham à tona respirar, colocavam em suas narinas tampões que os sufocavam, de modo que os bichos permaneciam na superfície o tempo necessário para serem mortos a pauladas. A crueldade da caça e o grande número de mamíferos abatidos levou as autoridades a proibir sua caça. Ainda que a proibição continue em vigor, é bastante normal no Mercado Público de Manaus, encontrarmos bancas de peixe vendendo carne de peixe-boi. A desculpa dos comerciantes é que o mamífero enroscou-se em uma rede destinada à captura de peixes e acabou se afogando, daí os peixeiros estarem aproveitando sua carne para comercialização.
O nosso peixe-boi é o único Sirenio que vive exclusivamente em água doce, os demais vivem em estuários onde as águas dos mares se misturam com as dos rios, ou vivem somente em água salgada. Por isso, como o manati é encontrável desde o litoral da Bahia até a Flórida, há uma zona de interseção de habitats nos deltas do Orinoco e do Amazonas onde o peixe-boi acaba convivendo com o manati. Pesquisadores do museu Emílio Goeldi de Belém encontraram, próximo a ilha de Marajó, um espécime que traz características de ambas as espécies, denotando que, mais do que convivência, houve cruzamento entre o manati e o peixe-boi. Embora o primeiro possa pesar até oitocentos quilos e o segundo não passe de trezentos. Como a natureza é sábia e não permite que a evolução dê saltos, o híbrido de duas espécies distintas como cavalo e asno, por exemplo, não é fértil, sua probabilidade de gerar descendentes é nula, assim, é estultice esperar que venhamos a ter uma nova espécie oriunda do cruzamento dos dois mamíferos marinhos. Portanto, o cruzamento de dois bichos tão diferentes é um mero acidente de percurso sem maiores consequências para a evolução das espécies, o equilíbrio da natureza não está ameaçado.
Por último, para infelicidade dele, um bicho que nem de longe parece peixe, muito menos boi, e é considerado por muita gente preconceituosa um monstrinho disforme e sem graça (feio) - ao contrário do panda, por exemplo - possivelmente não terá chance de sobreviver no nosso desumano mundo que, o mais das vezes, julga o valor dos outros pela aparência. Infelizmente o destino do simpático animal, que não é campeão de beleza por qualquer critério e que tem poucos predadores naturais, está à mercê dos piores e mais arrogantes seres que já pisaram o solo deste Planetinha azul. JAIR, Floripa, 22/10/11.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A sobrevivência




Uma olhada na evolução sobre lugar que o homem ocupa na história da vida no Planeta mostra-nos que o Homo sapiens assenhora-se de seu espaço na natureza durante uma ínfima fração dos 4 bilhões e meio que se supõe seja a existência da terra. Em muitos sentidos, somos um acidente biológico recente quase improvável, o resultado de um sem número de circunstâncias favoráveis. À medida que os arqueólogos estudam o registro fóssil, camada por camada de espécies há muito tempo extintas, a maioria das quais floresceram por muito mais tempo do que provavelmente florescerá a espécie humana, somos forçados a nos lembrar de nossa mortalidade como espécie. Não há lei, como se deduz desse amplo espectro biológico, que estabeleça ser o bípede falante diferente de qualquer outro animal. Não há lei que declare ser a espécie humana imortal.
Não há dúvida que espécie humana É especial de muitos modos, assim como quaisquer outras espécies o são lá aos modos deles. Na história da Terra, animais acabaram extintos porque, por uma razão qualquer, o mesmo ambiente que lhes facilitou o aparecimento, tornou-se hostil a eles. Talvez, porque o clima tenha sofrido alterações ou porque a competição com outra espécie tenha se tornado desfavorável a uma delas, ou porque houve superpopulação e os meios disponíveis se esgotaram. Os humanos são os primeiros animais capazes de manipular o ambiente global “em seu próprio benefício”. Assim, embora no decorrer da evolução tenhamos escapado das instabilidades do ambiente natural, à medida que nos tornamos até certo ponto independentes dele, paradoxalmente, temos agora em nossas mãos os instrumentos para nossa própria destruição. E não me refiro às armas nucleares - que estas já são execradas pela sua natureza destrutiva - e sim pela manipulação irresponsável dos recursos que a natureza nos faculta. Em consequência, há hoje uma necessidade urgente da conscientização profunda de que somos ainda parte do equilíbrio maior da natureza, que fazemos parte do Planeta e que não somos “donos” dele, não importa quão especiais sejamos (ou pensamos ser) como espécie. A menos que alcancemos tal consciência, estamos caminhando amoque para a destruição do ambiente que nos sustenta.
E aqui vai uma profissão de fé sem a qual o que resta é o niilismo: O Homo sapiens é capaz de adquirir uma profunda consciência de seu lugar no mundo natural; e não há razão para que a humanidade não possa agir em sintonia, harmonia e até humildade com o Planeta no qual nascemos e vivemos. Durante nossa evolução diferenciada dos demais seres, as pressões evolucionárias forjaram um cérebro excepcional, - muitos pontos acima dos cérebros de nossos parentes mais próximos, os outros primatas - capaz de compreender o mundo a sua volta, um cérebro analítico e hábil para lucubrar pensamentos abstratos. O cômputo das conquistas científicas e intelectuais do século vinte dá-nos uma ampla visão do que a mente humana é capaz de realizar. O resultado chega a espantar, o mesmo cérebro que realiza, se assombra com as conquistas. Podemos, se assim o desejarmos, fazer praticamente qualquer coisa: terras áridas se tornarão férteis; doenças hoje consideradas incuráveis poderão ser extintas pela engenharia genética, o estudo das células tronco está aí para comprovar; viagens interplanetárias serão mais que apenas sonhos de ficcionistas; a profundeza dos oceanos será explorada; e poderemos até mesmo entender como funciona a mente humana!
Ninguém, por carente de imaginação que seja, poderá excluir essas “previsões”, elas são viáveis à luz das descobertas e pesquisas atuais. O que se pergunta é se as nações poderão viver em paz e harmonia umas com as outras para que o objetivo maior da humanidade se concretize: a sobrevivência da espécie. A resposta se impõe por não termos opção: SIM. Temos o equipamento intelectual para conseguir isso. Nossa capacidade de análise deverá conduzir-nos a compreender que o futuro só depende de nós. Seria uma suprema ironia, termos chegado ao que somos, a espécie mais bem sucedida do Planeta, para dele partir em conseqüência de nossa arrogância e falta de visão. Façamos jus à nossa inteligência e nos poupemos do vexame de sermos objetos e agentes de nossa própria extinção. JAIR, Floripa, 09/07/11

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Moa



Alguns leitores mostram alguma indignação, ainda que de baixo impacto, quando, em minhas diatribes, classifico o ser humano como uma espécie irresponsável cuja ação na face deste Planeta azul é deletéria e que, em virtude dessa falta de discernimento, um dia, ainda poderá causar a extinção da vida como a conhecemos. Sei que exagero na condenação que faço do Homo sapiens, contudo, a ênfase visa sensibilizar as mentes que me ouvem, se consigo meu intento não sei, mas continuo a fazê-lo porque quero ter a sensação de que “fiz a minha parte” e, se ainda durante minha existência se confirmar o pior, poderei dormir o sono tranquilo dos que estão isentos de culpa.
A maior carga de minha indignação se volta contra as ações gratuitas que o homem comete em nome da lei de Gérson. Desmatamento, caça contra animais indefesos só pelo prazer de matar, deterioração dos ambientes em troca de lucro discutível – desertificam-se extensões imensas de mata amazônica sob o pretexto de criar gado, mas o que se vê realmente é apenas a venda de madeira, por exemplo. Grande parte do quadro de extinção de animais que existe hoje pode ser debitado na conta do Homo exterminatus, essa facinorosa espécie que se arroga dono do Planeta, quando é apenas péssimo inquilino, contrário ao comportamento dos demais seres os quais respeitam uns aos outros e ao ambiente em que vivem.
Pois bem, na conta com saldo negativo que o homem mantém com a natureza, constam milhares de extermínios de animais que só queriam viver a vida e não atrapalhar ninguém. Aqui mesmo no Patropi o mico leão dourado estava no bico do corvo, só não foi extinto porque organismos internacionais, a custa de esforços piramidais, conseguiram cruzamentos em cativeiro e preservaram alguns espécimes até agora. Mas outros animais não tiveram tanta sorte: O maçarico-esquimó está extinto em território brasileiro desde os anos de 1930, e virtualmente extinto em nível mundial; o mutum-do-nordeste está oficialmente extinto na Natureza desde 2001; a perereca-de-santo-andré, está extinta desde os anos de 1920; o rato-candango foi considerado extinto em 2008; o rato-de-Fernando-de-Noronha não é visto desde o século XVI; e a ararinha azul foi considerada extinta na Natureza em 2002, pelo IBAMA. Além dessa lista, correm risco de extinção a Onça pintada pantaneira, o Puma ou onça parda, várias espécies de peixes fluviais e muitas aves como o tico-tico. Aliás, alguém tem visto algum tico-tico por aí? Pelo que lembro, eles eram abundantes na minha infância. Só tinham o temerário hábito de nidificar em arbustos bem rasteiros, o que deixava seus ovos e filhotes a mercê de predadores como cobras e ratos, além de facilitar a ação de humanos malvados que danificavam seus ninhos.
Só que hoje quero falar do moa, a maior e mais pesada ave que já cruzou à frente do homem moderno que se diz civilizado. O moa cujo nome científico é Dinornis novaezelandiae, atingia cerca de 3,7 m de altura com o pescoção estendido, e pesava cerca de 230 kg, era uma das onze espécies da ordem Struthioniformes que compreende espécies sem asas funcionais como o kiwi da Nova Zelândia também, a ema do Brasil, o avestruz da África e o emu da Austrália, além da nossa conhecida perdiz, uma das poucas que voa. A reconstituição de dezenas de esqueletos permitiu avaliar o que se sabe sobre a constituição física dessa imensa ave.
O moa vivia muito bem nas duas grandes ilhas neozelandesas só tendo como inimigo a águia haast, ave imensa que era predadora de seus ovos, filhotes e de adultos velhos ou feridos, até que, por volta de 1300 dC, o povo maori chegou e todos os gêneros moa logo foram levados ao risco de extinção pela caça e, em menor medida, pelo desmatamento. Por volta do ano 1400 quase todos os moa são considerados ​ extintos, juntamente com a águia haast que tinha confiado neles como alimento. Pesquisas recentes usando datação por carbono 14 sugerem fortemente que o moa levou menos de uma centena de anos para extinguir-se, em vez de um período de várias centenas de anos como se acreditava anteriormente.
Contudo, alguns relatos confiáveis têm confirmado que alguns espécimes continuaram persistindo nos cantos mais remotos da Nova Zelândia até os séculos 18 e mesmo 19, quando foram sistematicamente caçados pelos colonizadores brancos. O aparecimento do europeu “civilizado” deu fim a esses poucos indivíduos, e o último espécime, uma fêmea, foi morta por um fazendeiro irado que ainda esmagou com os pés os ovos do ninho que o mãe zelosa cuidava. Foi um fim ignominioso para tão formidável animal.
O moa, como o tilacino - (Thylacinus cynocephalus), comumente conhecido como lobo-da-tasmânia ou tigre-da-tasmânia, foi o maior marsupial carnívoro dos tempos modernos – e o pássaro dodô das Ilhas Maurício, é mais uma das vítimas inocentes da predação humana. Tudo que se fale contra o homem num caso como esse é pouco, o Homo sapiens é inqualificável quando se trata de transgredir as regras do ambiente ecológico em “seu favor”. A lei de Gérson aplicada na sua pior forma é quase uma segunda natureza desse energúmeno bípede. Não desejo viver o suficiente para ver como acabará esse desmando. Abraços, JAIR, Floripa, 19/06/11.

terça-feira, 22 de março de 2011

A cidade


A oeste do litoral e, no entanto, bem a leste do outro extremo do estado, sobre o segundo planalto, estende-se a Cidade Clima, vinda das sombras do passado, de olho nas luzes do futuro, esta era a Palmeira de minha infância. Eu a via de manhã, quando os primeiros rubores do dia começavam a despertá-la; lá estava ela, verde com tons de cinza e pincelada de mil cores por suas casinhas de madeira, plantadas no solo marrom. Naquela hora, nos arredores pobres, a fumaça azulada já subia em espirais das chaminés das modestas moradas, acusando vida no interior humilde de suas paredes. Os zunidos dos apitos das madeireiras cresciam e fundiam-se em uníssono de tal forma a despertar de seus sonhos honestos, aqueles que daí a momentos iam fervilhar, sonolentos, as ruas, apressados, rumo a seus trabalhos insalubres que lhes proporcionavam, o mais das vezes, salário de fome.

Uma vez, conta-se, Palmeira dormia o justo sono, lerda e modorrenta, no berço dos campos gerais, quando subitamente o batismo do ferro e vapor d’água acordou-a com sua fúria barulhenta de comboio apressado em busca de seu destino além. Acordou-a e ela, feliz, sentiu-se integrada ao mundo: Havia uma linha férrea a partir de então. E as colinas verdes gritaram para as araucárias e estas gritaram para os campos, capões de mato e riachos de águas límpidas, talvez já antecipando saudade do silêncio que não mais existiria, talvez sentindo que o trem haveria de trazer o “progresso” seguido da degradação ambiental, tão zelosamente guardado naquelas paragens e quadra da história. O povo feliz, entorpecido pelo inusitado evento, de nada suspeitava. No rastro do mecanismo barulhento de rodas de ferro viria a maldição do “progresso”.

A bela Cidade não era a primeira nem seria a última donzela a quem a sede de “progresso” levou a entregar seu corpo imaculado e conspurcar o belo templo que a natureza levou milhões de anos para consolidar. Também outras, além das donzelas, obsedadas pelo brilho do ouro, na corrida do lucro, deixam para trás os ideais elevados e se adornam com os atavios da impostura e adotam o jogo sujo do avilte do ambiente em troca de trinta dinheiros nas algibeiras. A cidade doou suas carnes, e as inocentes matas milenares pagaram o elevado preço do “progresso” que alguns ilustres empresários elegeram como o futuro do castíssimo feudo. Pobre Palmeira, empobrecida de suas matas ombrófilas devoradas pelos gafanhotos carcamanos que, depois de saciados, arribaram para outras plagas onde, diante de outras cidades inocentes, trarão novas devastações. Pobre Palmeira! Tão comum é esse desvio que quase todos o acham normal. Tão indiscutível parece o “progresso”, que receia-se questionar se a meta da vida não é exatamente essa; se o fim último do homem não será apenas alcançar a riqueza em detrimento da natureza. E se esse for o erro comum da civilização, que perigo terrível estende-se diante da espécie humana. O homem, em busca do ouro, vende sua alma e talvez se torne maldito para sempre.

As madeireiras de Palmeira e a opção pela extinção dos pinheirais em busca da prosperidade material foram a ruína das próprias empresas e o afundamento da cidade para a categoria dos lugares estagnados e sem o sabor buliçoso da vida esperançosa. Pobre Palmeira! Teus supostos filhos diletos te sugaram o leite copioso enquanto este existia, e extraíram a carne verde que te dava vida, poluíram rios e degradaram matas; do manto vegetal que cobria tuas terras nada mais restou; as araucárias sobranceiras à mata se tornaram tábuas e caibros nos mais distantes lugares do país; e qualquer lucro que a madeira tenha proporcionado está longe de tuas ruas. Hoje és sombra daquele pujante burgo que prometia ares puros, pelos quais foste cognominada Cidade Clima. Pobre Palmeira que apostou e perdeu; eras ingênua a ponto de acreditar no canto das sereias obesas que olhavam seus próprios umbigos sem ligar para o futuro da urbe que os acolheu. Pobre Palmeira! Tratada como rameira quando eras apenas uma vestal impúbere e crédula que aceitou a cantada do empresário madeireiro dissoluto e mal intencionado. Hoje não te vejo “vinda das sombras do passado e de olho nas luzes do futuro”, hoje és o retrato esmaecido daqueles seres moribundos por inanição e jogados no monturo comum onde tudo que já foi deixou de ser. Se há futuro, é apenas aquele onde existem ganhadores e os “outros”. Pobre Palmeira! Infelizmente hoje estás apenas entre os “outros”. JAIR, Floripa, 13/03/11.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Javalis


O Homo sapiens, durante a maior parte de sua história de caçador-coletor, cujo comportamento o levou a colonizar quase todos os continentes do Planeta, não se deu conta que a variada flora e fauna das diversas regiões faziam parte da natureza marcada pela distinção necessária à adaptação aos ambientes diferentes uns dos outros. O homem percebia que havia diferentes faunas e floras, mas não se preocupava e perguntar-se porque assim era. Em vista dessa atitude não foram poucas as “transferências” de espécies de uma região a outra, medidas que atendiam interesses das tribos e aldeias. Por exemplo, os primeiros a domesticar cavalos foram povos asiáticos, mas europeus adotaram os equinos e os levaram para as estepes do norte de forma que esses acabaram se “aclimatando” por lá e tornaram-se “nativos”. Existem muitos exemplos de plantas e animais transplantados para ambientes estranhos que, em alguns casos, ajudaram na conquista de regiões e construção da civilização, mas nem sempre as transferências foram benéficas.

A partir do século quinze quando as grandes navegações permitiram que exploradores, principalmente europeus, “descobrissem” novas terras e continentes, foi que o quadro de transferência de espécies se tornou mais intenso e, de certa forma, mais nocivo. A Austrália é um exemplo clássico dessa interferência perniciosa dos homens. Durante milhões de anos a “ilha” australiana ficou bastante isolada do resto dos continentes de forma a permitir a evolução de seus próprios animais e plantas. Naquele país, grande parte da flora é única, eucaliptos, por exemplo, são uma espécie de cartão postal da terra, eles estão divididos em centenas de espécies e não são encontrados em outra parte do mundo em estado natural. Todos os mamíferos australianos são marsupiais, bichos que carregam os filhos numa bolsa chamada marsúpio, qualquer mamífero que por lá viva e não tenha marsúpio é excêntrico, veio de outra parte do Planeta. Pois então, durante milhões de anos a flora e fauna únicas se desenvolveram sem interferência humana e a coisa ia muito bem, até que o tal de Homo sapiens (me questiono, por que sapiens?) por lá aportou há duzentos anos e começou introduzir bichos e plantas estranhos. Hoje, sapos-cururus, raposas, porcos, gatos, ratos, camelos, coelhos e algumas plantas alienígenas estão causando o maior estrago ecológico que se tem notícia. Os gados vacum, ovino e equino, não causam maiores problemas porque não saíram do controle humano, não se tornaram selvagens. Os dingos foram introduzidos pelos povos da melanésia há trinta mil anos e também são danosos à fauna nativa até hoje.

No mundo todo há inúmeros exemplos da introdução, principalmente de fauna estranha, que causou desequilíbrio da natureza tal como havia evoluído até então. No Brasil não foi diferente. O javali foi introduzido em criações na Argentina e Uruguai, de onde ingressou no Rio Grande do Sul e progressivamente avança rumo ao norte. A espécie não encontra predadores naturais, uma vez que é exótica, além de cruzar com o porco doméstico, dando origem ao chamado javaporco - neologismo criado para definir esse híbrido, tão ou mais nocivo que o javali. Sua caça e abate são permitidos e até incentivados por órgãos de controle ambiental, como o IBAMA, que em contrapartida procura incentivar a criação da espécie nativa, chamada de queixada, contudo, essa espécie ainda não se encontra em fase de criação comercial. A criação controlada do javali, e de seus híbridos, entretanto, ocorre em diversas fazendas, sobretudo destinada à exportação da carne, que possui alta cotação mercadológica. A carne do javali tem baixo teor de gordura, além de cada animal produzir mais que o porco comum. Segundo um dos últimos estudos a respeito efetuado em 2008, a população de javalis no Brasil estaria em torno de 50.000, distribuídos em menos de 400 criatórios. Em estado selvagem a coisa parece ser muito pior. Estimativas feitas a partir de relatos de caçadores dão conta que em todo o Sul do Brasil, parte do centro-oeste, São Paulo e sul de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia existem grandes concentrações em vários grupos de Javalis de 30 a 40 indivíduos.

O ônus da disseminação descontrolada desse animal vem por conta de seus hábitos alimentares que incluem legumes, tubérculos, cereais, gramíneas e verduras, lembrando que cana de açúcar é uma gramínea e altamente apreciada pelo suíno. As propriedades que cultivam batatas, trigo, feijão, milho e mandioca se veem ameaçadas quando esses animais resolvem atacar a plantações. Como esses bichos terríveis são nômades e de hábitos alimentares noturnos, é difícil prever onde eles estarão em certa época e onde atacarão os cultivares. Mesmo com caça liberada em certas regiões, tem que se levar em conta que os animais são extremamente agressivos, grandes, fortes, rápidos e tem presas poderosas, não se furtando de atacar cães de caça e os próprios caçadores, principalmente quando as fêmeas estão com filhotes. Nem as onças pintadas de nossa fauna são tão perigosas como esses porcos selvagens.

Lembro que na minha cidade natal havia vastas áreas rurais invadidas por esses animais ferozes que faziam festas nas plantações. A medida paliativa para tal nocividade era liberar a caça controlada. Os caçadores faziam-se acompanhar por guardas florestais como ficais e, na companhia de cães adentravam as matas onde quase sempre matavam enormes machos que chegavam a pesar até quinhentos quilos de pura carne. Não que a caça tenha resolvido o problema, mesmo porque, depois de algum tempo os bichos mal humorados eram encontrados em regiões distantes onde antes não os havia. Os javalis continuam a infestar a região sul do país, continuam causando prejuízos aos agricultores e, pelo jeito, enquanto houver áreas onde eles possam procriar, continuarão se reproduzindo e ameaçando conquistar terreno cada vez mais ao norte, até onde, não se pode cogitar. Graças à incúria e falta de sintonia do Homo sapiens com a natureza, grande parte das áreas ocupadas por ele estão “contaminadas” com bichos alienígenas causando transtornos a ecologia. O homem é um rei Midas ao contrário, tudo que toca vira eca. JAIR, Floripa, 05/02/11.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Destruindo o Planeta


Em outros textos já mencionei a ação deletéria do Homo sapiens em relação ao Planeta que o acolhe com tanta fartura e segurança. Já comparei o homem a um inquilino desmazelado e egoísta que só vê a si mesmo, e que maltrata a senhoria dadivosa a qual, algum dia, poderá perder a paciência e despejar esse morador incômodo.

O certo é que nosso acelerado crescimento demográfico, nosso desmedido uso de energia, a urbanização desorganizada e o emprego de novos materiais para satisfazer nossos ideais de consumo, estão num curso de colisão que deverá alterar, talvez além de um ponto de retorno, os sistemas naturais de recuperação de nosso Planeta, ameaçando a sobrevivência biológica do Homo e de todas as criaturas vivas. Hoje quando apenas metade da humanidade entrou na era tecnológica, as pressões são monumentais por parte daqueles que querem sua fatia do bolo. Explico. É natural que o ser humano almeje algo que ele chama de progresso, ninguém quer viver sem água encanada, luz elétrica, telefone, urbanização e todas as demais comodidades que a ciência pôs a disposição das pessoas. Contudo, os recursos naturais, quaisquer que sejam, não são permanentes, eles se esgotam. Por exemplo, há consenso entre os cientistas que os peixes e demais seres marinhos que nos servem de alimentos, deixarão de ser viáveis para pesca dentro de quarenta anos, ou seja, em quatro décadas não mais poderemos contar com frutos do mar em nossos cardápios, os pescados estarão virtualmente extintos.

Pois bem, hoje com algo em torno de seis bilhões de habitantes no Planeta, já vislumbramos inúmeras fontes de alimentos e de geração de energia sendo exterminadas. Então vejamos, com metade da população exigindo sua cota de progresso; níveis de consumo cada vez mais altos; e uma população de dez bilhões de seres pensantes daqui algumas décadas, a conta não vai fechar mesmo. Os riscos estão sendo equacionados com metade da população que apenas elevou sua demanda um pouco acima do homem neolítico. Mas suponhamos que dez bilhões tratem de viver como europeus ou japoneses, aliás, a China dá mostras que quer elevar o patamar de consumo daqueles bilhões que lá vivem. Suponhamos que o ideal de consumo seja o padrão americano com quase um automóvel para cada pessoa. Iríamos elevar o nível de monóxido de carbono a algo difícil de equacionar, mas, certamente, acima do suportável pelos nossos pulmões e pela natureza. Suponhamos que dois terços dos menos aquinhoados mudem para as cidades, buscando nelas os níveis de uso energético e consumo materiais do mundo desenvolvido. Não há maneira de solucionar tal equação.

Mas, neste caso, o que irá acontecer? Um aumento de Consumo? Sim, mas de onde tirar esse consumo? Demanda de comodidades urbanas? Sim, mas como? Ou será que existe alguma solução mágica pela qual o maltratado Planeta, tirando um coelho da cartola devolverá à natureza sua condição primeira e saudável? A ninguém é dada a capacidade de responder.

Em conclusão, existem dois mundos que interagem: A biosfera que o homem herdou e tecnosfera que ele criou. Esses dois mundos estão em desequilíbrio, ou melhor, estão em conflito aberto e total, e, até agora, a biosfera está apanhando de cano de ferro. E o incauto Homo sapiens, a exemplo do marisco entre o mar e a rocha, está no meio da briga. Esta é conjuntura da História na qual estamos vivendo. Um vislumbre do futuro abrindo-se para uma crise total e irreversível. Uma crise global maior e mais perversa do que qualquer outra já defrontada pela espécie humana. Que tomará forma decisiva dentro do lapso de vida das crianças que já nasceram. Alguém duvida? JAIR, Canoas, 25/12/10.