sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O linchamento

A palavra linchamento tem origem no EUA e deriva do nome Lynch, o qual tanto pode ser do coronel Charles Lynch que praticava “justiça” com as próprias mãos durante a guerra da independência, como do capitão William Lynch que mantinha um comitê independente encarregado de manter a ordem no condado de Pittsylvania por volta de 1870. De qualquer forma, independente de onde surgiu o nome, o linchamento traduz um ato de “justiça” sumária, em que a população, com ou sem razão, aplica sanções ao acusado de crime. Esses justiçamentos em geral acabam na morte do acusado.
A história registra que em quase todas as culturas existe ou existiram os linchamentos. Parece que tantos mais atos foram praticados, quanto menos aparatado juridicamente o Estado se encontrava. Embora, paradoxalmente, como se percebe pelo registro histórico, tenha sido praticado intensamente nos EUA até 1960 onde é notório um arcabouço jurídico de monta. Lá também, nos EUA, o linchamento foi amplamente usado como terrorismo racial contra negros e a Klu Klux Klan foi notória linchadora, principalmente nos estados do sul. De qualquer forma, o linchamento o mais das vezes é um ato de multidões inflamadas, e, ainda que quase sempre tenha um viés de espontaneidade, muitas vezes é resultado de incitação por parte de líderes naturais.
O que fica claro, seja o linchamento “justo” ou não, é a irreversibilidade do resultado, porquanto na quase totalidade dos casos o ato resulta em morte. Aqui no Brasil, os linchamentos já apresentaram, sobretudo no século XIX, uma conotação diretamente racial, como nos EUA; contudo, sua motivação foi sendo modificada ao longo do tempo. Atualmente, em nosso país, essas ações violentas aparecem, sobretudo, como uma atitude de combate ao crime e à criminalidade. Seguidamente os meios de comunicação nos mostram os horrores de pessoas linchadas em plena rua por motivos até fúteis.
Recentemente em São Paulo, após passar mal, perder o controle do ônibus que dirigia, atingir três carros, três motos e atropelar um homem de 26 anos, o motorista Edmilson dos Reis Alves foi linchado por cerca de 40 pessoas. O linchamento ocorreu por volta das 23h30 de domingo, 27 de novembro, no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo.
Também, assim como os meios de comunicação evoluíram, os atos de linchamento pegaram uma carona nesse comboio e mostraram sua cara adaptada às mídias, mas nem por isso menos nociva ou destrutiva. O caso da Escola Base em março de 1994 é um evento típico. Dois alunos de quatro anos deram a entender a seus pais que haviam sido abusados na escola, pelos diretores. Os pais registraram a queixa na delegacia do Cambuci e a imprensa tomou conhecimento. O delegado que assumiu o caso executou as diligências necessárias na escola e mandou as crianças para o IML. Nada foi constatado na escola e tampouco o IML positivou qualquer violação das crianças. Achando que não havia recebido a atenção necessária, a mãe de uma das crianças entrou em contato com a Rede Globo. Naquela mesma noite, o Jornal Nacional noticiava o acontecido. Mesmo com nada realmente comprovado, todos os grandes veículos de São Paulo abraçaram a denúncia e deram manchete sobre o caso. Notícias que resultaram na depredação da escola e também no linchamento moral dos envolvidos. Estava estabelecido um caso de linchamento midiático que resultou na morte cívica de dois cidadãos que, depois se provou cabalmente, eram inocentes.
Com advento da internet e das redes sociais, o linchamento deu mais um salto qualitativo - um upgrade para falar na linguagem da Web - passou a mostrar uma cara eletrônica. Hoje, 16/12/11, a imprensa tradicional e as redes sociais mostraram com detalhes uma mulher maltratando um cãozinho que acabou morrendo. O ato dantesco, filmado por um vizinho, foi feito na frente de sua filhinha de três anos o que aumentou a indignação da comunidade facebuquiana e dos espectadores dos jornais televisivos. Parece que pelo fato de ser um caso em que a vítima maior é um cão, como os demais casos congêneres neste país, não vai dar em nada. Daí então, as comunidades das redes sociais se mobilizaram e instituíram um linchamento cibernético. Publicaram em várias páginas e saites os dados completos, como nome, fotos, endereço, CPF, RG e telefone da perpetradora. Até onde essa exposição poderá afetar a tranquilidade da mulher não se sabe, mas inaugorou-se um linchamento que, ao contrário dos antecessores, não vai eliminar fisicamente ninguém, mas poderá causar a morte virtual da acusada.
Assim considerado, está estabelecido esta modalidade menos letal de linchamento, que aos olhos de pessoas adeptas da não violência deve aparecer até aceitável. JAIR, Floripa, 16/12/11.

21 comentários:

Patricia Oliveira disse...

Acho que o que mais motivou a população a este linchamento virtual é o fato de haver um vídeo, não há como negar o fato e nem o absurdo grau de violência contido nele! Acho que deve haver um minimo de responsabilidade por parte dos "linchadores" e de toda a comunidade virtual. Linchar alguém apenas porque foi publicada uma foto alegando ser de um "monstro assassino" pode ser uma grande injustiça. Quem apura a veracidade dos fatos? No caso da enfermeira, por ser um dos raros casos de violência registrado em vídeo estranho seria não nos revoltarmos!

J. Carlos disse...

Bem, essa criminosa só foi linchada virtualmente, mas deveria sê-lo fisicamente.

Paulo Sempre disse...

FELIZ NATAL!!!

Júlio Machado disse...

A malvadeza paira no ar a procura de vítimas. Esse tipo de malvadeza, infelizmente, pode ser caracterizado como um fato social... Mas eu acredito que isso não ficará impune. Foi muito impactante. E ainda na frente de uma criança pequena. Bem que advogados da monstra podem argumentar desequilíbrio psicológico. De qualquer forma, fiquemos atentos, pois o mal existe e é sempre provável.
Abraços!

Cristiano Marcell disse...

Caro Jair, boa noite!

Longe de mim acreditar que um ato hediondo como o linchamento seja algo justo e de bom alvitre. Entretanto, não há como, por exemplo, ver com maus olhos a horda insandecida que espanca a pauladas um estuprador ou álguém que executa um mal de maiores dimensões.

Talvez por pressentirem que a impunidade impera na sociedade em que vivemos, o povo "entenda" que é melhor que se faça imediatamente a justiça moisaica.

É realmente complicado!

Muita paz!

Leonel disse...

Jair, uma bem feita síntese do que pode ser um linchamento, com ou sem motivo justificável...
Quanto a quem maltrata um animalzinho indefeso (eu não vi nem quero ver o filme, e felizmente, hoje não assisti aos jornais de TV), linchamento virtual é pouco...
Nem vou falar o que devia se fazer com um verme desses!

AyméeLucaSs disse...

Eu vi isto no faceboock ontem, mas eu não quis olhar... Quando entrei no blog do Leonel, vi a imagem do cachorrinho em seu blog e quis ler o que poderia estar dizendo sobre a questão e adorei todo o texto. Muito curioso todo o seu trabalho de pesquisa... Depois, vi também que o blog que tinha entrado, era o blog do Jair,não? Eu nunca tinha vindo aqui, foi a primeira vez e gostei muito.
Feliz Natal!

Professor Alexandre disse...

"Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seus semelhantes..." Até lá, só ns resta lamentar... e em alguns casos, linchar... mesmo que virtualmente!

Abraços!

R. R. Barcellos disse...

Onde falha ou tarda a justiça institucional há um vácuo que será preenchido pelo instinto gregário de autodefesa - muitas vezes descontroladamente. E assim será até que o cidadão comum possa ter confiança no aparato jurídico - coisa que parece estar muito longe, ainda.
Abraços, amigo.

Evanir disse...

Vamos nos unir a cada Dia um pouco mais
estreitando nossos laços de amizade em longos
abraços.
Vamor fazer a diferença na vida de muitos
que esperam com ansiedade uma palavra de amor e esperança.
Vamos levar a paz onde persisitir a desunião.
Vamos fazer uma prece para Deus pois desejamos
um mundo melhor .
Embora a própria humanidade perderam as esperanças
e muitos já não sabe onde ficou sua fé.
Que seu final de semana seja felicidade suprema.
Que nossa amizade atravesse fronteiras levando amor.
Beijos no coração.
Evanir.
Quando o ser humano aprender a se amar e gostar de si mesmo.
È a unica maneira que vejo para acabar com tanta maldade.

Dulce disse...

Jair, uma coisa que observei foi a de todos se voltarem contra a pessoa que praticou o ato de matar, mas, o que mais me chocou foi o fato do (a) vizinho (a) filmar tudo pacientemente sem em nenhum momento intervir e evitar o pior. A essa pessoa cabe uma morbidez desmedida e ainda mais, expor isso na internet, quando sim, poderia ter denunciado o fato aos órgãos competentes, sem a necessidade de tornar público, isso sim, me faria acreditar nas boas intenções de tal. O que essa pessoa fez foi puro sensacionalismo digno de uma imprensa marrom, para ganhar muitos cliques nas visitações de seu vídeo no You tube. Sabe-se lá se não também alguns caraminguás. Deplorável mais que a enfermeira, a meu ver, com sérios problemas de cunho espiritual.

luci disse...

A que ponto chega o nível de stress das pessoas! Perdem a noção e o sentido de tudo... A agressividade aflora e o mal é cometido.O pior é que o mal da ibope,parece que as pessoas entram em sintonia com as tragédias...que mórbido. É preciso urgentemente aprender aquela simples lição de contar até 10 antes de tomar qualquer atitude e cerrar os dentes.Luci.

Tais Luso disse...

Jair:

Vi o vídeo... É melhor eu ficar quieta uma vez que abomino atos de tamanha covardia com animais, crianças e velhinhos, mostrados na TV e vídeos. Já escrevi sobre isso.Logicamente se trata de doença.

Abraços
Tais Luso

Alexandre Taissum disse...

Jair, como sempre você faz uma analise instrutiva e bem abrangente sobre o tema e não somente sobre o assunto em si. Bom ler suas publicações.
Bem... Sei que o seu coração está partido como o meu e é por isso que devemos usar as armas que temos para defender os indefesos...
Fui (e sou) parte desse linchamento a partir do momento em que postei tudo sobre a megera que agiu covardemente contra um cãozinho indefeso, e quando o fiz, fui consciente de que, caso ela seja absolvida, poderá recair sobre mim a acusação de causar-lhe constrangimentos e mais a invasão da sua privacidade.
Mas tanto eu quanto uma legião de blogueiros, o fizemos para que esse crime não prescreva, como tantos outros, embora tenha chocado as autoridades envolvidas no caso (e isso fortalece nossa esperança).
Imagino que você e muitos dos seus seletivos leitores concordarão que, mesmo ela se saindo bem dessa (o que é possível pelo fato de ser primária, ter curso superior e ter endereço fixo), enfrentará o movimento pessoal de cada um integrante dessa imensa população revoltada contra os seus atos e isso bastará, de certa forma, para compor todo nosso empenho na divulgação e na cobrança por uma justiça rigorosa e exemplar.
Valeu, amigo!

Attico CHASSOT disse...

Muito estimado Jair,
penso que já contei aqui que não moto nem mosquito ou barata, logo nem entro no mérito do caso.
Aprendi que existem dois Lynch. Ignorava. Não se conhecia o Charles ou William.
Mas uma vez obrigado,
achassot

Andre Martin disse...

Parabéns pelo texto!
Excelente abordagem histórica e contemporânea!

Por princípios, não acho que deve ser mais ou menos legal, só pelo fato de não ter o massacre físico.
Quem disse que o linchamento virtual não tem efeitos práticos na vida real?

Recentemente (não lembro quando), não faz muito tempo, uma moça fez um comentário jocoso no Twitter, que além do linchamento midiático e internético nas redes sociais, ela foi processada por racismo, com base na nova lei (tão racista quanto se propõe a defender)...

Uma frase, fazendo referência a "nordestinos" em São Paulo, foi o pivô de toda a polêmica e do linchamento sofrido. Dita talvez num contexto inocente e tão cotidiano na cultura paulistana, tanto quanto as piadinhas que se fazem os torcedores de times rivais, leva a outro tipo de questionamento e reflexão.

Por exemplo, desde quando "ser nordestino" é "uma raça"?!?! Existem nordestinos altos, loiros, de olhos azuis, que vestem terno, empresários, políticos, etc... Dizem que a malícia está na mente de quem vê as coisas, e não no fato em si. Pensar que um nordestino invariavelmente teria cara de índio, cabeça chata e sertanista, a ponto de achar que isto é uma ofensa, é uma distorção tão grande quanto à interpretação de qualquer frase fora de contexto, atenuantes e circunstâncias temporais e culturais!

Quantos não dizem o mesmo e não sofrem a mesma justiça?

Se a acusação procede, deveria ser igual para todos e aplicada indistintamente. Senão, é pura perseguição ou auto-promoção de quem toma a frente do discurso inflamado.

Enfim, este processo evolutivo do pensamento, e de transformá-lo em ações justas e sábias, ainda está muito no seu estágio engatinhador.

(adorei o termo "facebuqiano" rs)

Andre Martin disse...

Gostaria de fazer referência a este seu texto, no blogue ou no feicebuque, em alguma ocasião, se me permitir.
Obrigado.

vitoria disse...

o que tem aver esse yorshire na foto?

Anônimo disse...

Boa tarde:

Encontrei o blog pela gravura do tal cão_quando via imagens sobre LINCHAMENTO...
Fiquei até receoso que tal tivesse passado por tal coisa!
Isso dessa atitude bárbara/primitiva é uma das coisas mais polêmicas/questionáveis existentes_quem nunca sentiu vontade de fazer isso com pessoas que fizeram mal/prejudicaram?
E pior: em países ditos ATRASADOS/SUBDESENVOLVIDOS, isso ocorre com frequencia e de maneira injusta...pseudo-traições/punições para crimes hediondos (aí sou a favor).
Sobre a mulher que fez isso com o cão; além de achar que cometer isso com animais é um dos piores crimes que existem - a tal já é uma coitada/mal vista... Se ser famoso NO BOM SENTIDO JÁ É RUIM_imaginem ser MAL VISTO/TER A REPUTAÇÃO RUIM!
Soube de uma pessoa que era fanática por bichos e que cuidava/ajudava os abandonados (e onde não há tais?)... E esta parece que criou um perfil numa rede social para PUNIR TAL MULHER QUE FEZ ISSO C/ O CACHORRO.
Há casos em que o linchamento é permitido/liberado, em casos tenebrosos: uma detenta que matou a sobrinha até a morte (1990_SP) foi morta assim. Não entro em detalhes porque é chocante mesmo.
Por isso que a PAZ/TRANQUILIDADE seriam a melhor maneira de se viver... E evitar tais conflitos/coisas hediondas!
Vi que o senhor reside em FLORIPA: uma bela cidade, até entrei em contato com uma entidade que cuida de bichos/animais necessitados (num bairro chamado TRINDADE).

Saudações,
Rodrigo Rosa

http://rodrigo-arte.blogspot.com/

Anônimo disse...

Percebe-se que MANÉS/PROVINCIANOS não retribuem coisas POLIDAS (ou NORMAIS).
* E deves estar com uns 2 metros de altura.

São disse...

Linchamento é , além de imoral, uma total cobardia porque , geralmente. é um grupo que ataca um só indivíduo.

Boa luta neste 1º de Maio!