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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Solucionática

Existe uma lenda tribal africana, a qual conta que pai, avô e filho estavam num pequeno barco prestes a afundar no caudaloso Okavango. Apenas o pai sabia nadar e podia salvar um dos restantes: seu próprio pai, ou seu filho. A sua consciência lhe dizia que ambos eram igualmente importantes, mas ele salvou seu pai. O velhos, naquela tribo, eram depositários de toda a sabedoria e, sem eles,  a tribo perderia sua identidade e estaria fadada a desaparecer.

Hoje as coisas são diferentes na tribo internética, então fiz um soneto que esclarece como aconteceu recentemente na África quando um homem branco, seu filho e seu pai foram encurralados por um leão feroz e faminto:


Perigo de morte a todos naquele grotão
Encurralados os três no interior do mato
Pois, faminto a espreita estava um leão
Pai, o menino, o avô com medo de fato.

Como fazer? Alguém seria sacrificado
Para que se salvassem os outros dois
Seria o avô querido ou o filho amado?
Qualquer solução, dor causaria depois.

O pai, aos céus, fazia pungente oração
Pedindo resposta para tal problemática
Porque parecia inviável qualquer opção.

Não via como podia empregar uma tática
Mas, de repente, ouviu-se a voz do ancião:
Salve o menino, ele conhece informática!

sábado, 30 de junho de 2012

A religião


Pelo que se sabe, desde que o Homo sapiens se identificou como um ser diferente dos demais seres que o cercam, formou comunidades cada vez maiores com os seus, e passou a pensar abstratamente, criou a religião. Essa crença visava (visa ainda), basicamente responder as perguntas que angustiam o homem: Quem sou eu? Onde me encaixo? E, desde que a religião passou a existir, prosperou, ramificou-se, dividiu-se, multiplicou-se por milhares e permeou todos os povos, culturas e nações.
Contudo, com o aparecimento da ciência com respostas para quase todas as perguntas, e o tempo dedicado ao viver moderno, científico e industrial, a religião passou a ocupar menor espaço na vida das pessoas de um modo geral. Na primeira metade do século vinte, muitos pensadores achavam que a modernização econômica e social estava levando ao desaparecimento da religião como elemento importante da existência e catalisador de comunidades. Claro que essa suposição causava angústia naqueles que deploravam tal tendência, mas agradava aqueles que achavam positivo tal fato. Os agnósticos e modernizantes aplaudiam o grau que a ciência, o racionalismo e o pragmatismo estavam eliminando as superstições, os mitos, as crenças, as irracionalidades e os rituais que constituem o cerne das religiões. A sociedade que estava emergindo ia ser tolerante, racional, pragmática, progressista, humanística e totalmente laica. Em contraposição com aqueles conservadores que viam com preocupação as graves consequências do desaparecimento das crenças e instituições religiosas, e da orientação moral que elas representam. Diziam que o resultado seria a depravação moral e a degradação e anarquia social.
Mas o que realmente está acontecendo? Criou-se um vácuo de crenças por acaso? As religiões definharam? Bem, não é isso que se observa, os percentuais estatísticos revelam que a humanidade está “mais” religiosa que antes da hegemonia da ciência e da tecnologia. Desde a criação das religiões elas tenderam sempre a aumentarem, não só no número de adeptos como no número de seitas disponíveis. Essa tendência continua, as religiões cristãs se multiplicam como se houvesse um fermento celestial que as estimula, e o número de crentes também se incrementa.
Pois bem, constatado esse aumento de religiões, como ficam aqueles adeptos do racionalismo e do pragmatismo? Resposta simples, criaram uma religião para si: a internet. Embora nenhum adepto fique fazendo proselitismo por aí e nem sequer admita a céu aberto que é um seguidor, a internet é uma religião a qual tem milhões de seguidores e continua crescendo. Calcula-se que daqui a algumas poucas décadas será muito maior que as três religiões monoteístas juntas, cristianismo, islamismo e judaísmo.
A nova religião tem seus apóstolos como Bill Gates, Steve Jobs (agora um santo, provavelmente) e Stephen Wozniak. Tem também milhares de acólitos e pastores seculares espalhados por todos os continentes. Tem seus altares nos domicílios e nas empresas em forma de monitores, onde os acólitos oram, recebem instruções e fazem seus pedidos, além de olhar para o futuro e o passado. Tem seus “templos”, chamados redes sociais, onde os seguidores se reúnem e trocam experiências. Tem até uma escrita própria que usa os dígitos um e zero para expressar-se.
E, contrário a outras religiões, os internautas não creem numa vida da alma após a morte, eles sabem que tudo que restará é o que estiver salvo em seus HDs. Suas preces são em forma de baites e bits e suas reuniões são virtuais nos chats. Não são adeptos ao uso de velas e círios, lhes basta elétrons, e que a energia não caia durante seus rituais. O céu não existe, o que existe e todos desejam é o Cyber space, lá todos se visitam e se conhecem, embora nunca se tenham visto o mais das vezes. Essa nova religião não pune, a menos que você tenha violado a privacidade de algum irmão. Existe pecado? Sem dúvida. Pecado é praticar ou difundir pedofilia pela rede, por exemplo.
Por ser uma religião recém desembarcada na civilização ainda lhe falta uma estrutura melhor para fortalecer o vínculo entre seus seguidores, ainda não existe símbolo que a identifique cabalmente como a cruz do cristianismo, a estrela de David do judaísmo e o crescente do Islamismo. Contudo, continuará crescendo e penetrará em todos os desvãos da sociedade humana num tempo muito breve. Amém. JAIR, Floripa, 25/06/12.   

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O linchamento

A palavra linchamento tem origem no EUA e deriva do nome Lynch, o qual tanto pode ser do coronel Charles Lynch que praticava “justiça” com as próprias mãos durante a guerra da independência, como do capitão William Lynch que mantinha um comitê independente encarregado de manter a ordem no condado de Pittsylvania por volta de 1870. De qualquer forma, independente de onde surgiu o nome, o linchamento traduz um ato de “justiça” sumária, em que a população, com ou sem razão, aplica sanções ao acusado de crime. Esses justiçamentos em geral acabam na morte do acusado.
A história registra que em quase todas as culturas existe ou existiram os linchamentos. Parece que tantos mais atos foram praticados, quanto menos aparatado juridicamente o Estado se encontrava. Embora, paradoxalmente, como se percebe pelo registro histórico, tenha sido praticado intensamente nos EUA até 1960 onde é notório um arcabouço jurídico de monta. Lá também, nos EUA, o linchamento foi amplamente usado como terrorismo racial contra negros e a Klu Klux Klan foi notória linchadora, principalmente nos estados do sul. De qualquer forma, o linchamento o mais das vezes é um ato de multidões inflamadas, e, ainda que quase sempre tenha um viés de espontaneidade, muitas vezes é resultado de incitação por parte de líderes naturais.
O que fica claro, seja o linchamento “justo” ou não, é a irreversibilidade do resultado, porquanto na quase totalidade dos casos o ato resulta em morte. Aqui no Brasil, os linchamentos já apresentaram, sobretudo no século XIX, uma conotação diretamente racial, como nos EUA; contudo, sua motivação foi sendo modificada ao longo do tempo. Atualmente, em nosso país, essas ações violentas aparecem, sobretudo, como uma atitude de combate ao crime e à criminalidade. Seguidamente os meios de comunicação nos mostram os horrores de pessoas linchadas em plena rua por motivos até fúteis.
Recentemente em São Paulo, após passar mal, perder o controle do ônibus que dirigia, atingir três carros, três motos e atropelar um homem de 26 anos, o motorista Edmilson dos Reis Alves foi linchado por cerca de 40 pessoas. O linchamento ocorreu por volta das 23h30 de domingo, 27 de novembro, no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo.
Também, assim como os meios de comunicação evoluíram, os atos de linchamento pegaram uma carona nesse comboio e mostraram sua cara adaptada às mídias, mas nem por isso menos nociva ou destrutiva. O caso da Escola Base em março de 1994 é um evento típico. Dois alunos de quatro anos deram a entender a seus pais que haviam sido abusados na escola, pelos diretores. Os pais registraram a queixa na delegacia do Cambuci e a imprensa tomou conhecimento. O delegado que assumiu o caso executou as diligências necessárias na escola e mandou as crianças para o IML. Nada foi constatado na escola e tampouco o IML positivou qualquer violação das crianças. Achando que não havia recebido a atenção necessária, a mãe de uma das crianças entrou em contato com a Rede Globo. Naquela mesma noite, o Jornal Nacional noticiava o acontecido. Mesmo com nada realmente comprovado, todos os grandes veículos de São Paulo abraçaram a denúncia e deram manchete sobre o caso. Notícias que resultaram na depredação da escola e também no linchamento moral dos envolvidos. Estava estabelecido um caso de linchamento midiático que resultou na morte cívica de dois cidadãos que, depois se provou cabalmente, eram inocentes.
Com advento da internet e das redes sociais, o linchamento deu mais um salto qualitativo - um upgrade para falar na linguagem da Web - passou a mostrar uma cara eletrônica. Hoje, 16/12/11, a imprensa tradicional e as redes sociais mostraram com detalhes uma mulher maltratando um cãozinho que acabou morrendo. O ato dantesco, filmado por um vizinho, foi feito na frente de sua filhinha de três anos o que aumentou a indignação da comunidade facebuquiana e dos espectadores dos jornais televisivos. Parece que pelo fato de ser um caso em que a vítima maior é um cão, como os demais casos congêneres neste país, não vai dar em nada. Daí então, as comunidades das redes sociais se mobilizaram e instituíram um linchamento cibernético. Publicaram em várias páginas e saites os dados completos, como nome, fotos, endereço, CPF, RG e telefone da perpetradora. Até onde essa exposição poderá afetar a tranquilidade da mulher não se sabe, mas inaugorou-se um linchamento que, ao contrário dos antecessores, não vai eliminar fisicamente ninguém, mas poderá causar a morte virtual da acusada.
Assim considerado, está estabelecido esta modalidade menos letal de linchamento, que aos olhos de pessoas adeptas da não violência deve aparecer até aceitável. JAIR, Floripa, 16/12/11.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sobre escolas


Assim que a humanidade chegou ao estágio de aglomerações sociais, sejam cidades ou aldeias expandidas, as necessidades de serviços impuseram a aparição de artesãos, escribas e prestadores de serviços, sem os quais as demandas das pessoas deixariam de ser atendidas. É racional supor que os primeiros sapateiros, roupeiros, chapeleiros, barbeiros, peleteiros e inúmeros outros artífices tenham desenvolvido suas habilidades a partir de experimentos e observações próprias. Contudo, na medida em que as necessidades materiais e intelectuais das pessoas se tornavam maiores, mais refinadas e complexas, os mais habilidosos artesãos se viam na contingência de não conseguir atender a todos, tornava-se necessário formar novos trabalhadores para satisfazer tantos consumidores. Há registro que até Leonardo da Vinci instituiu uma “escola” na qual ensinava seus discípulos nas artes e ciências que era mestre inconteste e auto didata. Mestre, esta é palavra chave. Quando um artesão, por sua habilidade e experiência, adquiria excelência no que fazia, costumava ser classificado como mestre. Era privilégio que poucos pretendentes conseguiam: Serem admitidos na oficina ou atelier de um mestre.

Escolas não surgiram ad hoc, por capricho de alguns governantes generosos ou por diletantismo de mestres entediados, escolas foram respostas às necessidades imperiosas das sociedades. A própria escrita, que fora privilégio de castas sacerdotais ou de escribas das cortes durantes séculos, passou a ser ensinada em escolas. Não se pode afirmar que escolas tenham se tornado populares tão logo passaram a existir, admite-se que foram privilégios de poucos, geralmente nobres, os quais se viam sob a tutela de mestres que os introduziam nas artes e ciências milenares. Contudo, há evidências que no Egito antigo, na Suméria, na Mesopotâmia e até entre Astecas e Incas, tenha havido locais destinados a ministrar aos jovens matérias de interesse que os tornassem conhecedores capazes, úteis à sociedade.

Não é estultice afirmar que civilização e escolas têm relações tão estreitas que é inconcebível existir uma sem a contrapartida da outra. Aliás, no mundo moderno, a qualidade do ensino e a quantidade de escolas estão relacionadas diretamente ao nível de desenvolvimento das sociedades e à qualidade de vida das populações. A humanidade só pode se afirmar civilizada com o advento de escolas. Impensável admitir algo diferente dessa ligação poderosa e formadora do que veio a ser o diferencial do homem com relação a seus parentes primatas: Um cérebro inteligente organizado. A inteligência por si só, não organizada, é apenas um potencial a ser explorado. A inteligência necessita orientar-se com método e organizar-se segundo conhecimentos já consagrados para conduzir seu dono a descobertas e lucubrações utilizáveis. As escolas, numa concepção ideal, não devem apenas ensinar, apenas colocar na cabeça dos jovens conhecimentos estáticos, deve propor aos aprendizes modos de pensar sobre as coisas, deve estimular o pensamento criativo e abstrato.

No mundo atual escolas estão disseminadas em todas as culturas e todas as nações, mesmo nos países mais pobres escolas são entendidas como fatores essenciais para manter o tecido social sadio, não há substituto que mantenha a coesão social de um povo. As trevas do desconhecimento são o que há de mais pernicioso numa sociedade, escolas são como faróis que iluminam o caminho a seguir rumo à segurança de um futuro onde as pessoas possam explorar o potencial de suas habilidades e de seus cérebros organizados. Déspotas, ditadores e mandatários autocráticos, se não forem muito obtusos, percebem que escolas tendem a permitir que seus súditos pensem, e, pensando, pode ser que eles não concordem com a opressão. Por isso, o mais das vezes, esses mandantes ilegítimos e prepotentes limitam o acesso do povo às escolas. Povo ignorante é povo controlável.

Um exemplo clássico do poder extraordinário do ensino numa sociedade se deu depois da segunda guerra, quando Alemanha e Japão emergiram quase que reduzidos à idade medieval, seus parques industriais e infra estruturas estavam totalmente destruídos. Na Alemanha o pouco que havia restado de suas indústrias fora desmontado e levado pelos russos, a título de “reparações” de guerra; no Japão os bombardeios convencionais americanos e as bombas atômicas haviam reduzido a zero suas instalações, de modo que não havia por onde começar a produção tão necessária à recuperação econômica. Contudo, tanto no Oriente como na Europa central, existiam em abundância escolas e professores, e na população que sobrevivera à guerra havia milhares de técnicos e formados em universidades capazes de alavancar o progresso, como se viu no surto de desenvolvimento que se seguiu à derrota. As escolas haviam feito a diferença. O Plano Marshall e o Plano de Recuperação Econômica instituídos pelos americanos, apenas ofereceram capital onde existiam cérebros prontos a trabalhar, o resultado foi o maior boom econômico da história e duas potências industriais que se impõe até hoje.

Ouso dizer que no Brasil nunca houve preocupação séria com o futuro, nunca se investiu pesado na construção de escolas, formação de professores e numa política educacional que valorizasse a carreira de mestres desde o ensino básico até o universitário. Construir estradas (ruins) e apostar na indústria automobilística constituiu objetivo prioritário de nossos governantes desde que o país entrou na era industrial tardia, escolas e professores não entraram seriamente na lista de temas políticos das campanhas desde o advento da República.

Com surgimento da internet e a disseminação da informática por todos os setores da sociedade, muitos administradores, políticos e educadores estão certos que a escola passou a ter uma importância secundária na educação de nossos jovens. É quase implícito admitir que os meios eletrônicos que adentram os lares substituem com vantagem as escolas. A estupidez desse raciocínio é tão piramidal que não merece nem ser comentada. JAIR, Matinhos, 31/12/11.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Sobre gerações


Minha geração, sessentona com filhos já gerando netos, caracteriza-se, entre outras peculiaridades, por ser limítrofe entre os não usuários da informática e os que já a utilizam praticamente desde o momento que nascem. Claro que fomos nós que desenvolvemos as tecnologias as quais as gerações mais novas incorporaram aos seus modus vivendi, apenas somos menos usuários, porque ainda somos do tempo em que o quadro negro e o giz eram os meios mais ordinários de explanação numa sala de aula; Nos escritórios e repartições escrevíamos com máquinas de datilografia e, quando crianças, usamos até canetas tinteiro.

Podemos nos espantar em ver nossos filhos e netos se divertirem com tanta familiaridade com brinquedos eletrônicos, com jogos cheios de desafios, que nós da geração Atari não experimentamos na nossa infância e adolescência. Às vezes, chegamos até a afirmar que as crianças de hoje são mais inteligentes em comparação conosco em nossa infância. Admiramos crianças de 5, 6 anos manuseando computadores, comunicando-se com linguagens outras, desafiando truques eletrônicos que necessitam de raciocínio rápido, absorvendo sem quaisquer dificuldades uma gama incalculável de informações e processando-as facilmente. Como fazem isso se nós nunca o fizemos?

Pode parecer que as crianças de hoje são muito mais “espertas” e inteligentes que as de nossa geração, mas devemos lembrar que nossos pais também se orgulhavam de seus filhos brilhantes e criativos. Éramos tão “espertos” como os filhos atuais, só não tínhamos os mesmos meios e tecnologia. Pode parecer que a geração informatizada deu um salto evolutivo enorme e inexplicável, mas se observarmos com atenção veremos que não é o caso.

O que devemos levar em conta é que, ao lado da evolução natural dos seres vivos, a qual se dá em milhares de anos através do acúmulo de pequenas mutações, existe a evolução não natural que “força” a adaptação a um novo ambiente. Desde o princípio da sociedade humana o homem usou meios de evolução não natural para adaptar animais ao seu cotidiano. Fez isso com aves, mamíferos e até insetos como as abelhas e o bicho da seda. Ele próprio, o homem, sem o saber, também sofreu e sofre forças externas que o obrigam a adaptar-se ao novo, seja esse novo decorrente de condições alteradas de clima, ou seja por obra do próprio homo. Por exemplo, durante as eras glaciais os humanos foram compulsados a pensar em abrigos resistentes ao frio, novas fontes de alimento, roupas e utensílios adaptados ao clima adverso, sob o risco de se extinguirem. Se um homo pré era glacial visse seu equivalente sobrevivendo naquele mundo gelado, certamente pensaria que o potencial esquimó era muito “inteligente” por ter desenvolvido toda aquela “tecnologia” que ele, homem que vivia nu ou quase nu, não teria condições de fazê-lo.

Obviamente, não podemos afirmar de pés juntos que as adaptações evolutivas não naturais alteraram os HDs dos seres a elas submetidos, quando muito seus programas sofreram upgrades que os tornaram mais ágeis e completos. Não há base científica para provarmos que o cão doméstico ou a vaca leiteira são mais inteligentes que seus similares selvagens. Também é veleidade dizer que o homem contemporâneo é mais inteligente do que o homem das gerações de Shakespeare ou de Leonardo Da Vinci, por exemplo, até porque eles são dois exemplos cósmicos de inteligência superior. Não é estultice inferir que uma criança da era vitoriana, submetida aos estímulos certos, seria tão capaz de operar com desenvoltura um computador de última geração como o fazem as nossas do século vinte e um. Num experimento hipotético, se importamos uma criança das selvas de Nova Guiné e a colocarmos em contacto bem precoce com a informática, seu desempenho e interação com a máquina será indiscernível do desempenho de uma criança urbana de qualquer cidade grande do século vinte e um. Assim, tanto espacial quanto temporariamente somos os mesmos, geração após geração.

Então como se explica esse abismo colossal entre gerações pré e pós informática? Ou qualquer outro “salto” evolutivo entre quaisquer outras gerações? Simples, nossa capacidade cerebral é desconhecida, só sabemos que sempre temos uma reserva técnica no nosso HD, e que essa reserva pode ser usada sem limites durante nossa fase mais fecunda de aprendizado, dos zero aos seis anos de idade. Veja bem, não me refiro a gente com QI acima da média, falo de pessoas normais, pessoas como eu e você, as quais têm capacidade cerebral não utilizada, e que, com algum esforço, podem superar qualquer obstáculo intelectual que se apresente. A diferença entre um adulto e uma criança é que o intelecto do adulto, como uma casa cheia de móveis e trastes inaproveitáveis, tem mais dificuldade em encontrar o espaço em branco onde armazenar novos dados, mas que esse espaço existe não há dúvidas. Já, a criança, ainda não atulhou suas salas de bagulhos de modo que seus espaços brancos estão bem “visíveis”, bem acessíveis.

Isso me faz lembrar de minha professora de português no ginasial, dona Maria Jamur. Ela era famosa pela ortodoxia como tratava a língua pátria e pelo rigor disciplinar que aplicava a seus discípulos. Não foram poucos os alunos que saíram traumatizados de suas classes, e até hoje a tem como castradora e despótica. Eu não a vejo assim, pelo contrário, foi graças a suas exigências que hoje sei escrever razoavelmente bem e jogo xadrez que aprendi com ela. Bem, não era esse o assunto, minha intenção é apenas situar nossa capacidade de aprendizado. Pois é, dona Maria Jamur, além de professora rigorosa, gostava de citar frases, nada original, é claro, mas bem de acordo com suas idiossincrasias. Por exemplo: “Se você não tem educação, pelo menos finja que tem”, e outra, “O saber não ocupa lugar”. É isso aí! Dona Maria sabia o que estava dizendo, nosso cérebro nunca estará ocupado demais, sempre teremos espaço para aproveitá-lo, o saber, na prática, jamais esgota a capacidade de nosso HD, apenas somos preguiçosos demais para explorá-lo, ou não vemos necessidade de fazê-lo, mas somos tão capazes quanto quaisquer gerações que consideremos, da pré-história, da era medieval, de hoje, de amanhã, da Europa, da Ásia, da África ou de Congonhas do Campo. JAIR, Floripa, 15/09/10.

sábado, 3 de janeiro de 2009

MUDANÇA ORTOGRÁFICA E VÁCUO


A anunciada mudança ortográfica que vigora a partir do primeiro dia de 2009 vai cair num vácuo, não deve afetar em nada os internéticos e seus textos pós-modernos, ou seja lá qual for o nome dessa escrita quase cifrada que transita pela web. Ora, desde a criação da internet e seus saites e salas de relacionamento, vimos sendo bombardeados, cada dia com mais intensidade, por um neo-idioma que suprime “s”, acentos, til, cedilha, além de ignorar as mais elementares regras vernaculares. Vejam bem, antes que algum irado patrulheiro neogramatical venha com os velhos chavões: “a língua é dinâmica”, “um idioma evolui de acordo com os usuários”, “não há regras” e outras bobagens, quero explicar que entendo perfeitamente donde vêm essas quebras de decoro para com nossa bela flor do Lácio: Todos os primeiros computadores e muitos ainda hoje, trazem o teclado adaptado para a língua inglesa, ou seja, sem cedilha e sem acentos, e isto, somado ao fato que a geração mais nova – essa que mais usa a internet – não lê, portanto, não retém na memória a forma consagrada (não digo correta para evitar que patrulheiros venham com os chavões citados) de escrever, temos como resultado essa esdrúxula ortografia. O internético escreve como fala e como lhe permite o teclado, não há nenhum mistério nisso. Se há alguma coisa a lamentar, não é a criação dessa linguagem escrita feita por e para semi-alfabetizados, mas sim o fato de que se está formando toda uma geração que deverá herdar o planeta, mas que não gosta de ler nem sabe escrever e, muito pior, não se preocupa com isso. JAIR, Floripa, 02/01/09.

sábado, 8 de novembro de 2008

BLOGANDO

Blogar é o que interessa, colocar opiniões, pensamentos, comentários, reflexões, meras abobrinhas ou outros legumes é estar “in” como se dizia, ou plugado como se diz. Ter este espaço e aproveitá-lo tantas e quantas vezes quiser é ter um veículo próprio para registrar idéias e divulgá-las, mesmo que seja para público de um só leitor. Viva a liberdade que o blog nos dá!