quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

MINI CONTO


REFLEXÃO DO VELHO CASANOVA
Não havia razão para se queixar de nada que vivera até então. Setenta anos e contabilizava uma mocidade, vida adulta e vida madura plenas. Se não tivera todas as mulheres do mundo, pelo menos havia tentado. O que lhe dói, dói de verdade, é saber que agora as mulheres que se aproximam já não veem seus atributos físicos ou admiram sua inteligência sagaz, olham apenas sua conta bancária. JAIR, Floripa, 07/12/09.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

AO MESTRE MINHA HOMENAGEM


Creio que todos nós ao longo da vida escolar, profissional ou mesmo familiar temos nossos ídolos, nossos heróis, nossos gurus ou nossos mestres. Pessoas de nossas relações que pela inteligência, perspicácia, saber ou por algum outro atributo, nos conquistam, agregam algum valor a nossa vida, ou nos causam impressão duradoura. Na verdade, sem percebermos, de maneira implícita, nós procuramos nosso alter ego. É, talvez, parte da condição humana, projetar no outro aquilo que gostaria de ser. Lembro que meu primeiro mestre inesquecível foi o professor de geografia do ginasial, Arthur Orlando Klas, cujo, além de ótimo professor, conhecedor ilustrado da matéria, tinha uma inteligência aguda e uma visão futurística admirável, via o mundo cinquenta anos à frente com grande acuidade e sensatez. Fora ele, alguns outros amigos ou colegas assinalaram suas passagens em minha juventude e na faculdade à maneira de heróis e ídolos também. Mas, quero aqui homenagear o mais extraordinário mestre e guru, aquele que mais marcou minha vida profissional: um colega de trabalho, Rodolfo Rodrigues Barcelos, mente brilhante, inteligência ágil, interesses variados e conhecimentos enciclopédicos; dominava com segurança uma gama de assuntos, matérias e temas com a simplicidade que só os dotados de QI superior o fazem. Barcelos é um exemplo raro de pessoa, por causa da combinação de grande argúcia técnica com sua capacidade de resolução simples para problemas complicados. Tive a felicidade de compartilhar o mesmo ambiente de trabalho com ele durante uns bons oito ou nove anos, ocasião em que pude observá-lo como profissional e conviver como amigo com interesses comuns. O Barcelos era, assim como eu, um profissional de aviação, tínhamos a mesma formação, havíamos estudado nas mesmas escolas, mas, anos-luz separavam meus limitados conhecimentos acadêmicos de matérias e sistemas inerentes a aeronaves, das vastas e quase filosóficas informações que ele detinha sobre quase tudo. Além de ser respeitado no setor, era desenhista habilidoso, jogava xadrez com maestria, conhecia informática numa época que esta ainda era incipiente no país e possuía excelente ouvido para música; tocava vários instrumentos de cordas; e até cantava um pouco, além de ser um ótimo caráter. Possuía, além disso, um humor refinado e era autodidata no idioma inglês. Conversar com o Barcelos, qualquer que fosse o assunto, era enriquecer o acervo, era deliciar-se com a intimidade que ele abordava o tema e se fazia entender com simplicidade. Muitas vezes eu “puxava” um assunto qualquer só para instigá-lo, nunca me decepcionei, ele, como autêntico mestre que era, explanava com didatismo o tema e o aprofundava até onde meu interesse ou meu conhecimento permitiam-me acompanhá-lo. Fui seu discípulo, se não aplicado, pelo menos atento. Claro que suas habilidades e ideias nem sempre eram reconhecidas, ou recebiam a atenção que mereciam. Infelizmente, num ambiente de trabalho onde “ser” é mais importante que “saber”, o intelecto tem menos valia do que dragonas e postos. Muitas vezes acontecia que, o apedeuta chefe, do alto de seu majestático posto, determinava que assim fosse “por que estou mandando”, e lá se ia uma boa e proveitosa ideia para a lata de lixo das soluções não adotadas por emanarem de subordinados. Felizmente, portador de um estoicismo ingente, mestre Barcelos nunca se deixou abalar por estultices ecumênicas, tão comuns naquele ambiente no qual trabalhávamos. Para finalizar, quero compartilhar caso que ocorreu numa viagem a trabalho que fizemos juntos a Recife, um pouco antes de minha passagem da ativa para meus confortáveis chinelos caseiros. Devo dizer que aprendi jogar xadrez aos doze anos e que fui um jogador juvenil razoável, apenas isso, razoável. Nunca mais depois dos vinte e quatro anos de idade enfrentei qualquer adversário nas sessenta e quatro quadrículas, isso me rebaixou para o nível de capivara, de acordo com o jargão dos enxadristas. Já Barcelos, como disse no início, era um jogador criativo e um adversário imponente para qualquer um que o enfrentasse. Na referida viagem a Recife, estava o Barcelos sentado à mesa onde se encontrava um tabuleiro de xadrez já com a peças em posição, quando entrei no local. Convidado a enfrentá-lo em uma partida, num momento de pura idiotice aceitei. Ele costumava jogar com o computador e evoluía até o nível seis antes de perder, eu nunca passei do nível um. Iniciamos o jogo e, por sorte de principiante, lá pelo décimo oitavo movimento, para surpresa de ambos, venci com um xeque-mate improvável. Vejam bem, o discípulo infiel e meio bisonho deu uma rasteira no mestre que admirava. Que fazer? Barcelos colocou as peças em posição novamente, com toda razão querendo sair para uma nova partida, uma merecida revanche. NÃO, meu amigo! Nunca mais jogo contigo. Quero e preciso contar para os amigos comuns que ganhei de você, pode existir maior mérito? Nunca mais joguei com ele. Espero que ele tenha compreendido que eu necessitava de meu momento de glória. JAIR, Floripa, 05/12/09.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

MINI CONTO


ENCRUZILHADA

Sentia-se deslocado sentado no banquinho em meio a mecânicos de macacões cheios de graxa, mãos enegrecidas e falando palavrões enquanto tentam colocar peça renitente debaixo de um chassi qualquer. Concentrado, relia sua erudita tese sobre fusão de partículas e interação galáctica enquanto esperava seu carro ficar pronto. Em algum ponto os dois mundos se cruzam sem quem ninguém desconfie. JAIR, Floripa, 03/12/09.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

MINI CONTO


RÉQUIEM PARA NAGAZAKI
Missão cumprida. Bárbaros presunçosos de olhos claros que semearam, como mortalha sinistra, o maldito cogumelo sobre a cidade que dormia, com almas pesadas, impenitentes, a lhes torturar para sempre, seguem para o inferno de seus lares onde beijos dos filhos queimarão suas faces, comida de suas mesas lhes saberá amarga como fel e camas se tornarão inauditos tapetes de pregos. JAIR, Floripa, 07/12/09.

domingo, 6 de dezembro de 2009

MINI CONTO


RÉQUIEM PARA IROSHIMA
Asas de prata brilhantes ao sol sobre o chão de nuvens, impiedoso e determinado, Enola Gay gravado no flanco, como um anjo pejado, carrega no ventre a semente maldita da ruína, cujo nome é Little Boy. No rés do chão, milhares de almas que evolarão dali a minutos, dançam a música inocente de suas vidas comuns destinadas ao holocausto que marcará, a ferro e fogo, o início da era na qual o homem, na sua suprema arrogância, passou a se julgar Deus. JAIR, Floripa, 06/12/09.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

MINI CONTO



MUNDO, VASTO MUNDO!
Havia nascido, crescido e se tornara adulto naquele vilarejo medíocre de casas frágeis, ruas confusas e horizontes apertados, sem eletricidade e sem estradas que o ligassem a outros lugares. Povoação distante da vida e de tudo que esta significa. Dali nunca se afastara e nada sabia do resto. Contudo, suspeitava, vagamente, que existia um mundo lá adiante, onde começava sua imaginação. JAIR, 28/11/09.

MISTÉRIOS DA ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO


Confesso que sou fissurado por dicionários, tenho nove. Pelo fato de que gosto de escrever e pretendo não atropelar com muita frequência o vernáculo, e quero tratar com carinho a última flor do Lácio, consulto suas páginas com bastante assiduidade, ou seja, todos os dias. Comumente mais de uma vez por dia. Há tempos me chama atenção nas placas e anúncios de serviços a palavra UNISSEX, às vezes grafada UNISEX. Sei que é uma adaptação, uma espécie de neologismo usado para indicar um serviço ou um objeto que pode ser usado por ambos os sexos, até o Houaiss registra. Contudo, se olharmos com atenção aos dicionários, verificamos que o termo é constituído do prefixo UNI que significa: anteposição latina que se refere a apenas um, único. As palavras, Unicelular, Unicolor, Unicórnio, Unidirecional, Uniforme, Univitelino que se referem a uma célula, uma cor, um chifre, uma direção, uma forma, um óvulo, dão provas suficientes para garantir que UNI é isso: Um, único, sem qualquer espécie de conotação desviante. Agora eu pergunto, se UNI relaciona-se a apenas UM, por que UNISSEX é usado para referir-se a DOIS sexos? Sem querer dar uma de Policarpo Quaresma, não seria mais lógico escrever AMBISSEX, ou coisa que o valha, quando se quiser dizer ambos os sexos? Essa é uma dúvida que me assalta e que não consigo explicar. Alguém se habilita a resolver esse mistério? JAIR, Floripa, 01/12/09.