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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tico-tico

Ninho: Ovos de Tico-tico (T) e de Chupim (C).

Tico-tico, às vezes confundico com o pardal macho.

Penso que talvez uma das aves mais tipicamente brasileira seja o tico-tico, já mereceu uma composição musical de Zequinha de Abreu, que se tornou icônica na voz de Carmem Miranda e que foi gravada até por Ray Conniff. É uma ave pequena e seu nome de origem guarani deriva de seu canto. Conhecida como jitica no Paraná, na cidade onde nasci sua sobrevivência encontra-se ameaçada pela ocupação humana e pelas ações predatórias do pardal, ave oriunda da Europa, mas que foi importada no tempo do Brasil colônia com o fito de eliminar as pragas que atacavam as lavouras. Não livrou as lavouras das pragas e a própria ave se tornou uma praga que se alimenta dos grãos nas roças, faz o ninho nos beirais das casas de madeira dos colonos, bem como expulsa o tico-tico de seu ambiente. Como quase toda solução “ecológica” sem base científica, a importação de pardais foi um tiro no pé.
Mas quero falar dessa vítima mais comum dos pardais, o tico-tico. O tico-tico é uma ave passeriforme da família Emberizidae. É um dos pássaros mais conhecidos e estimados do Patropi. Vive (ou vivia) em todas as regiões do País, com exceção das áreas florestadas da Amazônia. É migratório no Rio Grande do Sul e Paraná, aparecendo em bandos provavelmente procedentes dos países vizinhos. Encontrado também do México ao Panamá e na maior parte da América do Sul até a Terra do Fogo. Apesar dessa distribuição quase continental, não é mais tão comum vê-lo próximo aos centros urbanos.
Costumam se reproduzir na primavera-verão. Durante a reprodução vivem estritamente aos casais sendo extremamente fiéis a um território, que o macho defende com garra contra a aproximação de outros machos de sua espécie. O ninho, pouco elaborado, é uma tigela aberta e rala, feito de capim seco e raízes, às vezes rematado por dentro com crina e pêlos de animas. A fêmea bota de 2 a 4 ovos, que são de cor verde-amarelado com uma coroa de salpicos avermelhados. O fato de construir seu ninho próximo ao solo facilita a ação de predadores, especialmente cobras, que gostam de se alimentar de seus ovos e filhotes.
Contudo, o que mais torna complicada a reprodução desse passarinho são os chupins. O chupim (Molothrus bonariensis) é uma ave passeriforme da família Icteridae. O chupim não constrói ninhos, é conhecido pelo hábito de colocar seus ovos no ninho de outras aves, para que as mesmas possam chocá-los, criar e alimentar seus filhotes. Por isso, acabou virando sinônimo de aproveitador, costuma-se referir, com certa justiça é bom que se diga, àquele que vive a custa dos outros como chupim. São diversas as espécies parasitadas por essa ave, mas a mais comum de se ver alimentando um filhote de chupim, é o tico-tico, porque os ovos de ambas as aves são muito parecidos, embora os do chupim sejam um pouco maiores. E a jitica é ingênua o suficiente para não notar que os ovos não são dela. O mais perverso dessa estratégia reprodutiva adotada pelos chupins é que os filhotes destes são maiores que os do tico-tico, de forma que a maior parte da comida que os pais tico-tico trazem vai para os chupinzinhos e, muitas vezes, os filhotes do tico-tico morrem de fome. Mais uma vez a simplória jitica é enganada, é vítima dessa tragédia grega com final anunciado.
Dessa forma, o notável passarinho que deu nome a uma revista infanto-juvenil nos anos trinta e quarenta; foi objeto de um dos chorinhos mais populares e tocados do Planeta; e nomeia um tipo de serra manual usada para fazer cortes em curvas de raio bem pequeno, está à mercê de uma ave que só consegue se reproduzir parasitando outra. Será que é válido fazer uma analogia com a faustosa vida dos políticos (chupins) em Brasília, usufruída graças ao povo bisonho (tico-tico) desse país? JAIR, Floripa, 14/12/11.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Moa



Alguns leitores mostram alguma indignação, ainda que de baixo impacto, quando, em minhas diatribes, classifico o ser humano como uma espécie irresponsável cuja ação na face deste Planeta azul é deletéria e que, em virtude dessa falta de discernimento, um dia, ainda poderá causar a extinção da vida como a conhecemos. Sei que exagero na condenação que faço do Homo sapiens, contudo, a ênfase visa sensibilizar as mentes que me ouvem, se consigo meu intento não sei, mas continuo a fazê-lo porque quero ter a sensação de que “fiz a minha parte” e, se ainda durante minha existência se confirmar o pior, poderei dormir o sono tranquilo dos que estão isentos de culpa.
A maior carga de minha indignação se volta contra as ações gratuitas que o homem comete em nome da lei de Gérson. Desmatamento, caça contra animais indefesos só pelo prazer de matar, deterioração dos ambientes em troca de lucro discutível – desertificam-se extensões imensas de mata amazônica sob o pretexto de criar gado, mas o que se vê realmente é apenas a venda de madeira, por exemplo. Grande parte do quadro de extinção de animais que existe hoje pode ser debitado na conta do Homo exterminatus, essa facinorosa espécie que se arroga dono do Planeta, quando é apenas péssimo inquilino, contrário ao comportamento dos demais seres os quais respeitam uns aos outros e ao ambiente em que vivem.
Pois bem, na conta com saldo negativo que o homem mantém com a natureza, constam milhares de extermínios de animais que só queriam viver a vida e não atrapalhar ninguém. Aqui mesmo no Patropi o mico leão dourado estava no bico do corvo, só não foi extinto porque organismos internacionais, a custa de esforços piramidais, conseguiram cruzamentos em cativeiro e preservaram alguns espécimes até agora. Mas outros animais não tiveram tanta sorte: O maçarico-esquimó está extinto em território brasileiro desde os anos de 1930, e virtualmente extinto em nível mundial; o mutum-do-nordeste está oficialmente extinto na Natureza desde 2001; a perereca-de-santo-andré, está extinta desde os anos de 1920; o rato-candango foi considerado extinto em 2008; o rato-de-Fernando-de-Noronha não é visto desde o século XVI; e a ararinha azul foi considerada extinta na Natureza em 2002, pelo IBAMA. Além dessa lista, correm risco de extinção a Onça pintada pantaneira, o Puma ou onça parda, várias espécies de peixes fluviais e muitas aves como o tico-tico. Aliás, alguém tem visto algum tico-tico por aí? Pelo que lembro, eles eram abundantes na minha infância. Só tinham o temerário hábito de nidificar em arbustos bem rasteiros, o que deixava seus ovos e filhotes a mercê de predadores como cobras e ratos, além de facilitar a ação de humanos malvados que danificavam seus ninhos.
Só que hoje quero falar do moa, a maior e mais pesada ave que já cruzou à frente do homem moderno que se diz civilizado. O moa cujo nome científico é Dinornis novaezelandiae, atingia cerca de 3,7 m de altura com o pescoção estendido, e pesava cerca de 230 kg, era uma das onze espécies da ordem Struthioniformes que compreende espécies sem asas funcionais como o kiwi da Nova Zelândia também, a ema do Brasil, o avestruz da África e o emu da Austrália, além da nossa conhecida perdiz, uma das poucas que voa. A reconstituição de dezenas de esqueletos permitiu avaliar o que se sabe sobre a constituição física dessa imensa ave.
O moa vivia muito bem nas duas grandes ilhas neozelandesas só tendo como inimigo a águia haast, ave imensa que era predadora de seus ovos, filhotes e de adultos velhos ou feridos, até que, por volta de 1300 dC, o povo maori chegou e todos os gêneros moa logo foram levados ao risco de extinção pela caça e, em menor medida, pelo desmatamento. Por volta do ano 1400 quase todos os moa são considerados ​ extintos, juntamente com a águia haast que tinha confiado neles como alimento. Pesquisas recentes usando datação por carbono 14 sugerem fortemente que o moa levou menos de uma centena de anos para extinguir-se, em vez de um período de várias centenas de anos como se acreditava anteriormente.
Contudo, alguns relatos confiáveis têm confirmado que alguns espécimes continuaram persistindo nos cantos mais remotos da Nova Zelândia até os séculos 18 e mesmo 19, quando foram sistematicamente caçados pelos colonizadores brancos. O aparecimento do europeu “civilizado” deu fim a esses poucos indivíduos, e o último espécime, uma fêmea, foi morta por um fazendeiro irado que ainda esmagou com os pés os ovos do ninho que o mãe zelosa cuidava. Foi um fim ignominioso para tão formidável animal.
O moa, como o tilacino - (Thylacinus cynocephalus), comumente conhecido como lobo-da-tasmânia ou tigre-da-tasmânia, foi o maior marsupial carnívoro dos tempos modernos – e o pássaro dodô das Ilhas Maurício, é mais uma das vítimas inocentes da predação humana. Tudo que se fale contra o homem num caso como esse é pouco, o Homo sapiens é inqualificável quando se trata de transgredir as regras do ambiente ecológico em “seu favor”. A lei de Gérson aplicada na sua pior forma é quase uma segunda natureza desse energúmeno bípede. Não desejo viver o suficiente para ver como acabará esse desmando. Abraços, JAIR, Floripa, 19/06/11.

segunda-feira, 16 de março de 2009

O FALCONÍDEO, O QUELÔNIO E O DRAMATURGO


Falconídeos, como são classificados os gaviões e as águias, são aves chamadas injustamente, de rapina. Já que rapina é, segundo registram os dicionários: roubo feito com violência, extorsão, a classificação, mais uma vez, é uma forma covarde de atribuir aos animais falha exclusivamente dos homens, o que não é novidade, pois o homo sapiens humaniza os outros seres quando os quer transgressores, feios, desleais, néscios, perversos ou deformados. Mas, não é esse o escopo do texto, vamos falar sobre o carancho mesmo. Carancho é como se denomina no sul os gaviões de um modo geral e, em especial, um tipo chamado “Carancho-caramujeiro”, porque se alimenta de caramujos, os quais costuma levar nas garras até certa altura donde os solta sobre pedras para que quebrem e exponham suas carnes, que são um verdadeiro pitéu para seu paladar especializado. Existe uma variedade falconídea no norte da África e nas margens do Mediterrâneo que é chamada de Águia egípcia e se comporta de modo similar ao Carancho-caramujeiro de nossas paragens. Essa águia, que pelo porte está mais para gavião, também leva as presas nas garras e as solta das alturas para que quebrem ao cair. Pois é, além de caramujos, a Águia egípcia alimenta-se de tartarugas terrestres, quelônios abundantes nas ilhas e margens do Mediterrâneo. A história registra que Ésquilo, o primeiro grande autor trágico, nasceu em Elêusis, Grécia no ano de 525 a.C., autor de Os Persas, Os sete contra Tebas, As Suplicantes e Prometeu Acorrentado, ficou extremamente melindrado quando um conterrâneo seu, general Sófocles, foi premiado no festival de Dionísios por uma peça de grande apelo junto ao povo grego. Tão chateado ficou o autor trágico que resolveu se auto-exilar na Sicília, então província grega. Pois estava Ésquilo a deambular pelas planícies da ilha numa bela manhã ensolarada de 456 a.C., talvez, peripateticamente bolando uma nova tragédia teatral que lhe devolvesse a atenção da mídia que Sófocles lhe havia roubado, quando uma Águia egípcia, totalmente alheia ao que passava na mente do dramaturgo, soltou de grande altura a tartaruga que trazia nas garras, com intuito de quebrá-la contra as rochas que afloram naquelas campinas, e o quelônio precipitou-se sobre a cabeça do grego matando-o. Pelo que se sabe este é o único acidente desse tipo já registrado na história da humanidade. Um infeliz encontro entre um carancho, um jabuti e a cabeça de um grego inteligente e criativo privou a humanidade de um dos maiores autores da antiguidade. Enquanto isso, Sófocles, criador de mais de cem peças, entre elas as obras-primas escritas depois da morte de Ésquilo, Antígona, Édipo Rei e Elektra é o dramaturgo grego mais representado no planeta até hoje. Sófocles era uma espécie de, senão discípulo pelos menos seguidor de Ésquilo, e alunos costumam ficar à sombra dos mestres enquanto estes vivem, então vale uma ilação: Teria Sófocles entrado para a história do teatro como o maior autor de todos os tempos se aquela águia tivesse soltado o quelônio um metro distante de Ésquilo? JAIR, Floripa, 16/03/09.

domingo, 1 de março de 2009

BICHOS URBANOS


Já escrevi sobre jacarés e capivaras convivendo com humanos em ambientes que não são exatamente aqueles que estamos acostumados a vê-los e, muito menos, onde eles estão habituados a viverem. Também lembrei que a distorção no modus vivendi desses animais está associada à maneira com que o ser humano trata a natureza de um modo geral, e o ambiente no qual que vive em particular. Jacarés e Capivaras são, embora animais de famílias distintas, bichos grandes e, por isso mesmo, chamam atenção onde quer que se encontrem, com isso, torna-se fácil enxergá-los, escrever sobre eles e defendê-los. Mas, e os animais menores? Aqueles que cruzam nossas vistas a todo o momento em todos os lugares a ponto de quase não os notarmos, como as aves? Será que também há, a respeito delas, motivo para nos preocuparmos e falar sobre a deterioração de seus ambientes originais e das adaptações que elas se impuseram para sobreviver? Sim, há. Comecemos pelo nosso muito familiar e quase sempre incômodo pardal (Passer hispaniolensis). Pardal é o nome genérico dado aos pequenos pássaros da família passeridae, gênero passer e petronia. Os pardais são aves que foram obrigadas a se tornarem cosmopolitas e adaptarem-se às áreas urbanizadas e à convivência com os seres humanos aqui no Brasil, exatamente porque, na sua origem lá na Europa, elas são insetívoras e, como tal, foram trazidas para cá pelos colonizadores portugueses para combaterem as pragas das lavouras. Seria mais uma piada de português se não tivesse se tornado tão trágico, aqui os pássaros adaptaram-se a viver nas cidades onde não há predadores e a comerem sementes, tornando-se algozes das lavouras as quais esperava-se que defendessem. Além disso, ao invés de fazerem seus ninhos nas falésias e nas árvores como acontecia em Portugal e Espanha, passaram a nidificar nos beirais das casas dos colonos tornando-se verdadeiras “pragas”, no dizer de quem os tinha por agentes exterminadores de outras pragas, estas das plantações. Na minha infância lá em Palmeira no Paraná, quando queríamos observar um sabiá, esse chamado sabiá-laranjeira, - belíssimo pássaro de canto extraordinário e inconfundível que é um dos símbolos do Brasil - adentrávamos a mata fechada, em silêncio e por muito tempo até flagrar o bichinho em seu ambiente, cuidando de filhotes em ninho muito escondido nos esconsos de árvore copada e fechada, ou simplesmente cantando para a fêmea. Hoje, esta ave, porque “esconsos de árvore copada e fechada” deixaram de existir à sua disposição, tornou-se urbana. É comum encontrarmos o animalzinho nidificando em praças, jardins e pomares nos centros urbanos e nas áreas verdes de casas e condomínios. Sua alimentação, que antes era essencialmente minhocas, outros vermes, insetos e frutas que tinham que ser conseguidos a custa de algum esforço, hoje tornou-se uma espécie de fast food avícola. Sabiás urbanos alimentam-se de restos da comida humana. Outra ave modernamente urbanizada é o quero-quero (Vanellus chilensis). O quero-quero é uma ave típica da América do Sul, sendo encontrado desde a Argentina, Chile e leste da Bolívia até a margem direita do baixo Amazonas e principalmente no Rio Grande do Sul onde é conhecido por Sentinela dos Pampas, já que costuma agitar-se, soltar seus gritos característicos e até atacar com bicadas quando percebe alguém se aproximando de seu ninho. Costumava habitar as grandes campinas úmidas e os espraiados dos rios e lagoas, só que, com o avanço das grandes plantações e transformações das campinas em centros urbanos e industriais, obrigou-se a conviver com homens em suas cidades. Tornou-se um inquilino comum de nossas praças, jardins e até campos de futebol como acontece no campo do Coritiba, por exemplo. Lá, nos dias de jogos, tem-se que fazer um rastreio dos ninhos, geralmente construídos no gramado, e transferi-los para outro local a fim de não atrapalharem o espetáculo. Por último, o joão-de-barro, também conhecido por oleiro, que faz sua bela casa de lama sobre os postes e moirões por lhe faltar árvores, desmatadas que foram pela ambição desmedida do homem. Além desses quatro pássaros mais encontráveis e conhecidos, existem muitos outros como o canário-da-terra, o bico-de-lacre, a rolinha-fogo-apagou que convivem quase naturalmente com os seres humanos e suas aglomerações. De tal forma que a grande maioria das pessoas já os incorporou ao visual do dia-a-dia, que não consegue identificar, ali naquele pássaro, um migrante compulsório que foi expulso da área que lhe era própria para viver e procriar; ave deslocada como acontece com as pessoas que por motivo da seca, por exemplo, se veem obrigadas a migrar do campo para as cidades onde, o mais das vezes, passam a ter uma vida degradada vivendo em cortiços e favelas. Nossas pequenas aves, canoras como o canário e o sabiá, estrangeiras como pardal, que gostam de lugares amplos como o quero-quero são vítimas de nosso descaso para com a natureza e de nossa ganância pelos bens materiais sem o contrapondo da conservação do meio-ambiente, portanto, o mínimo que podemos fazer por elas é não perturbá-las, é deixá-las viver em paz, mesmo sendo em ambiente que lhes foi imposto, ambiente não escolhido por elas. Se quisermos deixar um mundo melhor e, minimamente habitável para nossos netos, respeitemos as pequenas aves urbanas, até o vilipendiado pombo não tem culpa de viver entre nós. JAIR, Floripa, 01/03/09.