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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O jogo



Já confessei em texto publicado aqui que sou tímido desde criança, expliquei o que é ser tímido e escrevi o que segue: “Se você morre de medo de falar em público, de declarar seu amor a alguém, de entrar num ambiente iluminado em que não conhece ninguém, torce para não ser notado em lugares abertos, não gosta de ficar nu perto dos outros, procura não atender ao telefone ou transpira ao fazê-lo, você é um tímido. Por outro lado, o isolamento do tímido lhe permite ser mais concentrado, mais introspectivo, mais criativo até, de forma que ao pensar mais e falar menos o tímido tende a errar menos também, porquanto seus ditames são fruto de reflexão mais demorada, mais madura”.
Pois então, como criança tímida, sempre me via em ambientes de adultos nos quais não me “enquadrava”, nos quais, sentado num canto sozinho e sem vontade de conversar com alguém, me via imaginando coisas, observando as pessoas e construindo histórias sobre o que elas eram ou poderiam ser.
Assim, inventei um jogo secreto, o qual eu poderia jogar por horas e horas sem sair do lugar, sem palavras e sem qualquer auxílio externo a não ser a observação das pessoas e minha imaginação que acabou se tornando cada vez mais elaborada. Eu ficava observando as pessoas no ambiente e tentava adivinhar, pelas roupas, adereços e comportamento, pelo que falavam ou pelo que comiam naquele momento, onde moravam, o que faziam normalmente, o que tinham acabado de fazer, qual era o destino delas depois que saíssem dali. Era um exercício de lógica dedutiva à Sherlock Holmes, mas sem crime para solucionar. Pela expressão do rosto, eu podia imaginar qual era o pensamento daquela senhora gorda que olhava a toda hora para o relógio no seu pulso e não parava de fumar; ou o que estava pensando aquele rapaz bem vestido que comia seu sanduíche e, às vezes, sorria para si mesmo como se tivesse ouvido uma boa piada. Como seria a pessoa que a mulher parecia esperar? Eu prestava atenção em frases e restos de conversa dos adultos, enquanto, também, desenvolvi habilidade para leitura labial, de forma que tinha uma colcha de retalho de expressões, frases soltas e assuntos com os quais eu podia tecer histórias as mais variadas e chegar a conclusões as mais fantasiosas.
Todos se tornavam minha matéria prima da qual eu montava minhas estórias. Por exemplo, aquela mulher alta e bem vestida, com vestido justo decotado, que estava sentada à mesa com sua amiga loira e magra, prometia bom material para uma estória cheia de nuances. Aquela mulher esperava por seu amado, que marcara encontro com ela e esquecera, e por isso ela estava intranqüila olhando para a porta, bebericando uma bebida fraca que não saboreava e nem sentia o gosto, estava se sentindo abandonada. E, de tempos em tempos, ela ia até o toalete retocar a maquiagem que se desfazia com suas lágrimas que teimavam de descer furtivas de seus olhos tristes.
No outro lado da sala, o garçom levou outra bebida para o sujeito entediado que parecia desiludido. Certamente sua mulher o havia deixado ele se sentia só e afogava as mágoas no fundo do copo. Seus olhos estavam opacos, sem vida, ele era um homem morto por dentro. E eu continuo em frente a tecer as teias intrincadas das vidas alheias. O jovem amante que levou a mulher daquele homem é forte, bronzeado e alto, além de ter dentes bons que lhe dão um sorriso de propaganda de creme dental. Aquele marido não teria nenhuma chance mesmo!
Tornei-me uma espécie de vampiro de histórias pessoais, o tempo e a imaginação me forneceram os instrumentos capazes de elaborar em minúcias os meandros e passagens que cada uma de minhas “vítimas” sofrera ou viria sofrer. Minhas estórias acabaram se transformando em verdadeiras novelas nas quais eu tinha liberdade de juntar dois ou mais personagens e conduzi-los da forma que me parecesse melhor e mais dramática. Também brinquei com a literatura, colocava meus personagens nas estórias de autores conhecidos e dava-lhes chance de viverem novas sensações, amores e aventuras.
É claro que minhas indiscrições envolviam certo risco, se a pessoa que eu observava notava meus olhares inquisitivos, eu sorria com a cara mais inocente do mundo e desviava o olhar. Não era minha intenção constranger ninguém. Na verdade tinha autêntico pavor de ser pego em flagrante nas minhas espiadelas indiscretas e minhas vítimas, ao perceberem, virem tirar satisfação. Mas de qualquer modo, necessito espiar apenas por poucos segundos meus alvos. Meio minuto é suficiente para apanhar aquele instantâneo que me fornecerá material para minhas estórias. Sou um paparazzo de almas, obtenho fotos de alta resolução das quais construo vidas muito mais sofisticadas e interessantes que as existências o mais das vezes medíocres e insípidas daqueles que clico. Se o leitor notou, a narrativa que se fazia com o verbo no passado, no último parágrafo passou para o presente. É que eu não era tímido, eu sou tímido, de modo que o jogo ainda existe, embora, hoje eu jogue muito menos, minhas estórias estão melhores elaboradas mais intrincadas e convincentes que antes, e cheias de detalhes. O jogo continua! JAIR, Floripa, 25/09/11

sábado, 28 de maio de 2011

Go Padres!


Ontem fomos assistir o “Padres”, time de beisebol de San Diego, jogando contra o “Cardinals” de Saint Louis, Missouri. Para começar, Padres como nome de equipe esportiva é um pouco estranho, não é comum ver-se religiosos jogando e, em geral, os nomes de times refletem animais agressivos quando é futebol e nome de pássaros no caso de beisebol, está aí o nome do Cardinals para confirmar. Contudo, lá estava o time local na quadra jogando com competência. Mas como ficam nós os brasileiros assistindo um esporte que no Brasil não figura nem entre os dez mais praticados? Bem, a meu ver, a gente tem que tentar entendê-lo um pouco antes de pagar os setenta dólares do tíquete para ocupar um lugar privilegiado no estádio.
Vamos ver o que aprendi, o beisebol é um jogo entre duas equipes de nove jogadores cada, os quais são orientados por um treinador, jogado num campo em forma de leque, limitado de acordo com regras complicadas, sendo apitado por um ou mais árbitros. O objetivo de cada equipe é o de vencer o jogo marcando mais pontos/corridas que o oponente. Não vou nem tentar falar de todas as regras que regem esta modalidade, mas sim dar umas noções sobre algumas das regras e situações básicas.
Um jogo é constituído por nove entradas ("innings", que para nós seriam tempos). Em cada entrada cada uma das equipes tem a possibilidade de atacar e de defender uma vez. A equipe visitante começa atacando, trocando de posição com a equipe da casa quando três dos seus jogadores forem eliminados, então passa a equipe da casa ao ataque. Quando três elementos de cada equipe forem eliminados acaba esse inning (tempo) iniciando-se de imediato uma nova entrada. A equipe que tiver marcado mais pontos/corridas no fim das nove entradas que dura um jogo, ganha.
Não existem empates como no futebol, pelo que se ao fim das nove entradas as equipes tiverem o mesmo número de pontos deverão realizar outra(s) entrada(s) de modo a que ao fim de um dos innings um dos times tenha mais pontos que o outro.
Num jogo de nove entradas cada equipe poderá ver os seus jogadores a serem eliminados 27 vezes (quando um jogador é eliminado só poderá voltar a atacar/bater quando os restantes oito membros da equipe já tiverem também batido).
Uma equipe quando defende coloca estrategicamente os seus nove jogadores em campo, a que ataca tem apenas um jogador (batedor) em campo. O batedor ocupa a sua posição na caixa de batimento (único jogador da equipe atacante). O lançador (jogador da equipe que defende) deverá lançar a bola para o batedor, o qual decidirá se vai ou não tentar bater essa bola. A bola deve ser lançada num quadrado imaginário que, mais ou menos, enquadra o catcher, que é o jogador do time defensor que apanha as bolas não rebatidas pelo batedor. Diga-se, bater numa bola no ar a mais de noventa quilômetros por hora com um taco roliço é quase um acaso, daí serem raras as boas tacadas que fazem home run, ou seja, bolas rebatidas para fora do estádio ou para o meio da platéia, mas fora do alcance do time adversário.
O objetivo da equipe que ataca é fazer com que o seu batedor se torne num corredor fazendo com que este avance no terreno, passando pelas três bases até chegar à Casa Base sem ser eliminado. Quando isto acontece, a equipe que ataca ganha um ponto. O negócio é esse, só o time que ataca faz ponto, portanto, o time que defende fará tudo para eliminar três atacantes de forma a encerrar a entrada e tornar-se atacante em seguida. Existem trocentas formas de eliminar os atacantes, de modo que não vou me prolongar explicando como isso acontece. Só tenho a dizer que, depois que a gente “pega o jeito” do esporte ele é bem emocionante e gostoso de assistir. Além do jogo em si, existe a tradição de os espectadores irem ao estádio munidos de luvas de beisebol para apanhar bolas lançadas fora do campo. Se alguém, numa decisão nacional, apanhar uma bola, esta poderá valer milhares de dólares para colecionadores e aficcionados. Então pode ser um bom negócio levar a luva e sentar-se numa posição estratégica onde as bolas “espirradas” possam cair. Aliás, neste jogo, de nove bolas espirradas que notei, seis caíram numa área da arquibancada à direita e atrás dos batedores.
Como disse, o “Padres” estava com a macaca, então não foi surpresa ele ter ganho de 3 x 1do “Cardinals”, embora este tenha aberto o placar e lutado com garra até o último inning. Ao contrário do que acontece em nossos estádios do Brasil, aqui as torcidas se misturam e torcem por seus times sem brigas ou confusões, inclusive, no meio o sétimo inning, todos cantam em pé o hino: “Take Me out to the Ball Game”, algo como, “leve-me ao jogo de beisebol”. Parece até desfile de quatro de julho, todos irmanados cantando juntos. Sinceramente? Gostei do jogo, até porque o time não ganhava a cinco jogos, jogou muito e ganhou bonito. Go Padres! JAIR, San Diego, 27/05/11.

domingo, 22 de maio de 2011

Sobre Vegas


Quem já esteve em Nova Iorque sabe por que ela é conhecida como “Umbigo do Mundo”, é que por lá passam todas as tendências culturais, desde moda, até teatro e cinema, passando por livros, restaurantes e grandes espetáculos. Lá se encontra a amálgama de todas as etnias e todas as cores dos povos de todos os países do Planeta, com suas idiossincrasias e costumes. Há quem diga que se um morador da cidade quiser comer todos os dias em um restaurante diferente pode viver sessenta anos sem jamais repetir um sequer. Há quem diga que se pode viver em Nova Iorque sem saber uma única palavra de inglês, e, ainda assim, não ter qualquer dificuldade no dia-a-dia. A Grande Maçã é a cosmópolis por excelência, todas as esquinas do mundo lá se encontram.

Diferentemente de Nova Iorque, Las Vegas não quer ser referência cultural ou étnica nem mesmo dos cidadãos do país, não quer ser um pólo de atração das tendências mundiais, quer somente oferecer lazer sem preconceitos e sem restrições a qualquer cidadão que esteja disposto a gastar algum dinheiro. Fazendo uma analogia, se Nova Iorque com relação à cultura representa uma biblioteca, Las Vegas com relação ao dinheiro representa um banco. Ninguém sai de Nova Iorque com menos cultura, ninguém sai de Las Vegas com mais dinheiro.

Para o crítico pode parecer que Vegas, como os iniciados a chamam, é apenas um lugar de vício e desregramentos, uma espécie de Sodoma onde as pessoas transgridem seus valores, se perdem em libertinagens e gastam fortunas em jogos viciantes. Para registrar minha impressão pessoal sobre a cidade repito aqui um trecho do que escrevi sobre este povo do norte: “Os cidadãos dos EUA acreditam que são ricos porque são um povo decente que trabalha duro (o mais das vezes isso é verdade)...”. Assim, um povo, o mais das vezes decente e que trabalha muito, se vê com direito a ter um lugar de lazer onde o “normal” é ser diferente, onde ele possa “soltar os bichos” sem culpa. Esse lugar é Vegas. É a única cidade daqui onde a prostituição é legalizada com direito a outdoor e caminhões de propaganda circulando pelas ruas com fotos e chamadas em letras grandes; é a única cidade na qual se pode beber em público nas praças e ruas.

Para obter o clima, tanto metafórico quanto real, dessa cidade construída em pleno deserto, os arquitetos não economizaram em imaginação, criatividade e custos. “The strip”, que é o núcleo onde se encontram os cassinos-hotéis, ou hotéis-cassinos, é pródigo em reproduzir com eficiência e convicção, monumentos, ambientes e cenas de outras partes do mundo. Tudo climatizado. Aqui a gente pode almoçar na torre Eiffel idêntica à de Paris, só que com metade da altura; atravessar sob Arco do Triunfo em escala um por um; é possível passear de gôndola dentro do hotel Venetian, com direito a gondoleiro veneziano autêntico que canta La Traviata e apreciar o teto da capela sistina em todo seu esplendor, nos mínimos detalhes, assim como lançar moedas numa Fontana di Trevi em todo seu esplendor; aqui há uma abundância de cascatas, tão convincentes quanto as vistas nos filmes, aliás,a sensação constante é que estamos dentro de uma cenografia de Hollywood de um bom filme sem qualquer demérito; dá para visitar o coliseu e o senado romanos; há como passar embaixo do arco do Triunfo, atravessar a ponte do Brooklin ou andar pelas ruas do “east end” em Nova Iorque. Num espaço fechado como um shopping,chamado Miracle Mile é possível andar (pela extensão de uma milha naturalmente) e fazer compras em lojas modernas e caras num “bairro” de uma cidade do oriente médio, com arquitetura mourisca medieval, sob um céu azul perfeito com poucas nuvens, ou num trecho em que nuvens carregadas debulham uma chuva intensa com raios e trovões de hora em hora. A réplica beira a perfeição, tem-se a nítida impressão que se está numa rua de verdade e que os trovões e relâmpagos são, não só verdadeiros como perigosos, pessoas desavisadas se abrigam com certa rapidez, mesmo porque a chuva molha de verdade. Parece que a “bolha” que encerra o mundo do personagem de Jim Carrey, no filme “O Show de Truman” é uma reprodução bem próxima do que vemos em Vegas.

Ainda em “The strip” há um imenso lago com milhões de litros de águas límpidas que proporciona ao público, a cada hora cheia, um espetáculo de “dança da águas” onde surgem, no ritmo de música geralmente clássica, chafarizes colossais em intrincadas coreografias que fascinam o imenso público que se reúne nas margens para apreciá-lo. Vi em um programa de tevê, Discovery Channel eu acho, a engenharia complexa que foi necessária para montar a formidável parafernália que coordena os programas de computador feitos a partir da música, com os mecanismos intrincados que fazem jorrar água, através de bombas poderosas e reservatórios de ar comprimido de alta pressão, a altura de até 60 metros. Curiosamente, todo esse caríssimo espetáculo é proporcionado pela iniciativa privada, nada de poder público se metendo em eventos comerciais onde empresários que faturam milhões se veem obrigados a oferecer àquele público que os mantém, algo de grandioso e fascinante. Gostei imensamente da dança das águas, se não foi o maior espetáculo que já assisti, chegou bem perto disso.

A finalidade de estarmos em Vegas, minha mulher, nossos dois filhos, sendo que um veio da Austrália para aqui diretamente, e eu, foi comemorar os sessenta anos dela. Para isso, nos hospedamos no MGM (Metro Goldwyn Mayer) Hotel Casino o qual, de acordo com sua propaganda, é o segundo maior do mundo, com seis mil quartos. Além disso, possui quatro cassinos, dezessete restaurantes, cinco piscinas e mais um “rio” onde se pode boiar levado pelas águas correntes num circuito fechado de oitocentos metros. Existem dezenas de lojas de luxo todas com suas portas voltadas para os cassinos ou nas proximidades deles, parece que a idéia é “pegar” o ganhador eventual que, provavelmente, não deixará de comprar um rolex ou uma jóia cara para sua mulher se tiver alguns milhares de dólares a mais no bolso. Relembrando, ninguém sai daqui com mais dinheiro que entrou.

Como eu disse, tudo é rigorosamente climatizado, não há como dar conforto a seus hóspedes no meio do deserto com altas temperaturas – às vezes muito baixas também – e graus de umidade baixíssimos, – ontem estava a menos de seis por cento – de modo que gastam-se milhões de dólares para manter temperatura e umidade do ar agradáveis em todos os ambientes. À noite o espetáculo fica por conta das luzes, não é a toa que fotos noturnas do Planeta mostrem que Vegas é o ponto de luz mais destacado, até mais que Nova Iorque ou Los Angeles. Além disso, existe um adágio muito conveniente que reza: “O que acontece em Vegas, permanece em Vegas”, de modo que o liberou geral daqueles WASP (White Anglo-Saxon Protestant) hipócritas e ultra conservadores que soltaram a franga por aqui não será comentado jamais depois que o avião decola.

Outro trecho do texto “Sobre os EUA” que escrevi: “Os americanos do norte são os melhores comerciantes do Planeta, até porque sua economia é baseada no consumismo desenfreado”, Vegas, nada mais é que o mais perfeito exemplo de cidade que se comporta dentro do espírito mercantilista desse povo cujo lema de vida é: compre! Tudo aqui está à venda, inclusive, casamento. Sim, como nos filmes, aqui é possível casar-se em questão de minutos, sem sair do hotel, para isso existe uma instalação adequada, uma espécie de capela, e um Celebrant, pessoa autorizada a celebrar casamentos, tão válidos como qualquer outro. Existem dezenas de capelas e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano, assim, é comum, tanto cidadãos virem aqui para casar de forma rápida e indolor, quando pessoas se conhecerem na mesa de Black Jack e resolverem se casar, por período curto as vezes, em alguns casos até acabar a ressaca. Britney Spears é o caso mais famoso, casou-se aqui no MGM e divorciou-se uma semana depois.

De qualquer forma, vale à pena vir a Vegas, eles a construíram e a mantém para a diversão do mundo, e estão conseguindo graças à competência com que encaram o trabalho cansativo que é proporcionar lazer! JAIR, Vegas, 20/05/11.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Cassino


Meu crachá

Nos USA, em geral, as leis estaduais se sobrepõem às federais se a matéria não for constitucional, o que, aliás, é muito frequente, visto que a Constituição se compõe de apenas sete artigos e vinte e quatro emendas.

Essa “liberalidade” legislativa se deve, evidentemente, à forma confederada de Estado adotada, nada anormal. Comparando, aqui no Patropi, nossa formação federativa de Estado determina a submissão legislativa absoluta dos estados à Constituição e às leis menores, não se podem contrariar matérias federais quaisquer que sejam.

Então, lá no irmão do norte, como a Constituição é omissa com relação a jogos de azar e, segundo o princípio que tudo que não é proibido é permitido, os estados legislam ao sabor das vontades dos eleitores matérias referentes a cassinos e apostas de modo geral. Há estados que proíbem jogos e há estados que os permitem, na Califórnia os cassinos são legais, mas só em “Reservas Indígenas”.

Opa! Reservas Indígenas? Sim, caros leitores, Reservas Indígenas, mais do que espaços físicos áridos onde se confinam os americanos naturais, são “pessoas jurídicas” de direito público onde constam índios como integrantes de uma comissão, uma espécie de clube cuja diretoria é constituída de Navajos, Seminoles, Sioux, Moicanos, Dakotas etc. As Reservas gozam de certa autonomia administrativa e funcionam como se fossem “Zonas Francas”. Essa flexibilidade conceitual do que é uma Reserva Indígena permite que se construa um cassino em plena Downtown, sem contrariar a legislação, desde que o local pertença aos índios por aquisição.

Dentro do princípio legal e consoante à liberdade individual dos que querem jogar, e de acordo com o apetite de arrecadação do estado, existem pencas de cassinos na Califórnia. A economia de San Diego, não está submetida à exploração de cassinos como Las Vegas, mas lá existe uma meia dúzia deles.

Assim, o turista que vos escreve não poderia deixar de conhecer uma casa onde se explora a jogatina sob o falso pretexto de diversão. Fomos a um. Mas como funciona realmente um cassino? Lá no Sycuan Cassino, como na maioria das casas de jogos, você, o potencial jogador, o cara que vai deixar o dinheiro nas máquinas e nas mesas, tem que ser seduzido, conquistado, tem que sentir-se confortável e até paparicado se for o caso. Você será alvo de todas as atenções, se assim o desejar.

Para seu conforto, ao adentrar o ambiente, você tem duas opções. A primeira é ser um jogador anônimo que perde ou ganha e não precisa ter contato com nenhum funcionário da casa, joga a dinheiro e, se ganhar, as máquinas e as mesas fornecem um “vale” automático que lhe dá direito de trocar por dólares em caixas eletrônicas próprias para isso ali mesmo nas salas de jogos. Se perder, ninguém fica sabendo, o anonimato é respeitado. A outra opção é identificar-se e receber um crachá de “sócio” que lhe dá direito a certas regalias. Agora como “sócio” você tem direito a uma refeição, independente da hora. Não um lanchinho qualquer ou um tira-gosto, mas uma lauta refeição tipo self service, com dezenas de pratos quentes e frios, sobremesas, refrigerantes e sucos ao gosto do freguês e sem hora para terminar, significa que você pode passar o tempo quiser comendo sem ser incomodado.

Vejamos o jogo propriamente, por ser “sócio” você não é obrigado a jogar, mas se o fizer, poderá colocar o crachá no lugar apropriado da máquina e esta registrará quanto você jogou, quanto ganhou ou perdeu e vai somando pontos à sua conta, de modo que ao atingir certa cota você terá direito a nova refeição, a qualquer dia de sua existência. Essa “liberalidade” visa estimular seu retorno.

Quanto ao ambiente físico da casa, cabem algumas observações. Os imensos salões estão sempre abarrotados de máquinas e mesas, em qualquer direção que se vá, seja ao banheiro, ao bar ou à sala de estar as tentações estão presentes, não há como “desligar-se” da atmosfera de luzes e sons convidativos ao jogo e que estimulam o estado de vigília, não há como sentir sono. Nas máquinas se pode jogar a partir de um cent, é uma atrativa maneira de induzir os pobres ao jogo. O ar condicionado é perfeito, não há qualquer variação seja inverno ou verão, dia ou noite. Por falar em dia e noite, não há janelas, não há como se ter referências externas, fica-se confinado num agradável ambiente acarpetado onde inexistem relógios ou meios que permitam “sentir” o exterior.

Contam-se histórias de jogadores compulsórios que passam dias jogando, apenas comendo e bebendo, sem dormir. Pelos exageros que custaram saúde, fortunas e, às vezes vidas, o povo da Califórnia exigiu, e o poder público acolheu, agora não são permitidas caixas eletrônicas de bancos dentro dos cassinos, se você quer jogar leve seu dinheiro em cash, nada de cartões de crédito.

Pois é, antes de entrar no Sycuan, estabeleci que ia jogar no máximo vinte dólares, perdi dezesseis, me diverti muito e saboreei uma deliciosa refeição, minha mulher jogou três dólares e ganhou sessenta e dois. Custo-benefício positivo, mas voltar, talvez daqui a três anos, não é a minha praia. JAIR, Floripa, 09/06/10.