Mostrando postagens com marcador San Diego. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador San Diego. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Memorial Day



Nossos vizinhos aqui do norte têm algumas datas federais notáveis, (feriados não religiosos, já que a União é constitucionalmente laica) as quais eles se dão ao luxo de não trabalhar: New Year, Independence Day, Martin Luther King e Memorial Day, são algumas delas. Hoje, trinta de maio, última segunda feira do mês, comemora-se o Memorial Day.
Memorial Day é um feriado nacional nos EUA. Anteriormente conhecido como Decoration Day, ele foi comemorado pela primeira vez pelos escravos libertos do sul, em Charleston, Carolina do Sul em 1865, e em Washington para lembrar os soldados da União mortos na Guerra Civil. Hoje, o que agora é conhecido como o Memorial Day, homenageia todos os militares dos EUA que morreram em serviço. Numa economia de calendário o Memorial Day geralmente marca o início do verão, a estação de férias, e prepara para o Dia do Trabalho.
Começou como um ritual de recordação e reconciliação depois da Guerra Civil, mas, no início do século 20, o Memorial Day passou a ser uma ocasião para expressões mais generalizadas da memória dos mortos, em que pessoas comuns visitam os túmulos de seus parentes falecidos, se eles haviam servido nas forças armadas. Ele também se tornou um fim de semana prolongado cada vez mais dedicado às compras, encontros familiares, fogos de artifício, passeios à praia e eventos que movem a mídia nacional, como a 500 milhas de Indianápolis, corrida de automóveis realizada desde 1911, no domingo, véspera do Memorial Day.
Uma espécie de sentinela do Pacífico norte, San Diego é uma cidade bastante militarizada, possui uma super base da Marinha, uma base aqui ao lado, na ilha Coronado, de Fuzileiros Navais e outras tantas espalhadas por aí. Acho que a base de Coronado deve ser importante, possui três super porta aviões movidos a energia nuclear. Então, considerando esse perfil militarizado da cidade, não é estranho que o Memorial Day seja significativo para a população que lota os abundantes cemitérios militares daqui. Tive oportunidade de visitar um desses cemitérios em Point Loma da outra vez que estive em San Diego. Cemitério muito grande, muito organizado e muito solene, passa a impressão que os militares sabem o que fazem ao enterrar seus mortos. De qualquer forma, o feriado de hoje nos dá oportunidade de ver as festividades e solenidades comemorativas desse que é um dos importantes dias para os militares, afinal são milhões de soldados mortos em todas as guerras, desde a guerra pela independência, a guerra da secessão, a guerra com a Espanha, outra com o México, a primeira e a segunda guerras mundiais, guerra da Coréia e do Vietnam, além de muitas refregas e intervenções como no Panamá, Granada, Somália, Iraque e Afeganistão. Os militares lembram seus mortos sabendo que um dia poderão estar enterrados naquele lugar, quando algum presidente republicano declarar uma guerra de favas contadas para promover os industriais de armamentos que financiaram suas campanhas; e os civis agradecem seus parentes que deram a vida por uma tal de “liberdade”. É esse sentimento de aprovação que permite que os belicosos republicanos mantenham a máquina de guerra sempre lubrificada e pronta para o ataque em qualquer lugar do Planeta.
A impressão que se tem, é que militares são venerados guardiões voluntários da pátria, são aquela parte da população que se sacrifica pela nação para que os civis tenham a liberdade que se supõe que têm, e o nível de vida que desfrutam. Quando estávamos voando de Dallas para cá, em pleno voo cruzeiro, um comissário perguntou se havia algum militar entre os passageiros. Alguém se apresentou e foi aplaudido em pé. É possível imaginar uma cena dessas no Patropi? JAIR, San Diego, 30/05/11.

sábado, 28 de maio de 2011

Go Padres!


Ontem fomos assistir o “Padres”, time de beisebol de San Diego, jogando contra o “Cardinals” de Saint Louis, Missouri. Para começar, Padres como nome de equipe esportiva é um pouco estranho, não é comum ver-se religiosos jogando e, em geral, os nomes de times refletem animais agressivos quando é futebol e nome de pássaros no caso de beisebol, está aí o nome do Cardinals para confirmar. Contudo, lá estava o time local na quadra jogando com competência. Mas como ficam nós os brasileiros assistindo um esporte que no Brasil não figura nem entre os dez mais praticados? Bem, a meu ver, a gente tem que tentar entendê-lo um pouco antes de pagar os setenta dólares do tíquete para ocupar um lugar privilegiado no estádio.
Vamos ver o que aprendi, o beisebol é um jogo entre duas equipes de nove jogadores cada, os quais são orientados por um treinador, jogado num campo em forma de leque, limitado de acordo com regras complicadas, sendo apitado por um ou mais árbitros. O objetivo de cada equipe é o de vencer o jogo marcando mais pontos/corridas que o oponente. Não vou nem tentar falar de todas as regras que regem esta modalidade, mas sim dar umas noções sobre algumas das regras e situações básicas.
Um jogo é constituído por nove entradas ("innings", que para nós seriam tempos). Em cada entrada cada uma das equipes tem a possibilidade de atacar e de defender uma vez. A equipe visitante começa atacando, trocando de posição com a equipe da casa quando três dos seus jogadores forem eliminados, então passa a equipe da casa ao ataque. Quando três elementos de cada equipe forem eliminados acaba esse inning (tempo) iniciando-se de imediato uma nova entrada. A equipe que tiver marcado mais pontos/corridas no fim das nove entradas que dura um jogo, ganha.
Não existem empates como no futebol, pelo que se ao fim das nove entradas as equipes tiverem o mesmo número de pontos deverão realizar outra(s) entrada(s) de modo a que ao fim de um dos innings um dos times tenha mais pontos que o outro.
Num jogo de nove entradas cada equipe poderá ver os seus jogadores a serem eliminados 27 vezes (quando um jogador é eliminado só poderá voltar a atacar/bater quando os restantes oito membros da equipe já tiverem também batido).
Uma equipe quando defende coloca estrategicamente os seus nove jogadores em campo, a que ataca tem apenas um jogador (batedor) em campo. O batedor ocupa a sua posição na caixa de batimento (único jogador da equipe atacante). O lançador (jogador da equipe que defende) deverá lançar a bola para o batedor, o qual decidirá se vai ou não tentar bater essa bola. A bola deve ser lançada num quadrado imaginário que, mais ou menos, enquadra o catcher, que é o jogador do time defensor que apanha as bolas não rebatidas pelo batedor. Diga-se, bater numa bola no ar a mais de noventa quilômetros por hora com um taco roliço é quase um acaso, daí serem raras as boas tacadas que fazem home run, ou seja, bolas rebatidas para fora do estádio ou para o meio da platéia, mas fora do alcance do time adversário.
O objetivo da equipe que ataca é fazer com que o seu batedor se torne num corredor fazendo com que este avance no terreno, passando pelas três bases até chegar à Casa Base sem ser eliminado. Quando isto acontece, a equipe que ataca ganha um ponto. O negócio é esse, só o time que ataca faz ponto, portanto, o time que defende fará tudo para eliminar três atacantes de forma a encerrar a entrada e tornar-se atacante em seguida. Existem trocentas formas de eliminar os atacantes, de modo que não vou me prolongar explicando como isso acontece. Só tenho a dizer que, depois que a gente “pega o jeito” do esporte ele é bem emocionante e gostoso de assistir. Além do jogo em si, existe a tradição de os espectadores irem ao estádio munidos de luvas de beisebol para apanhar bolas lançadas fora do campo. Se alguém, numa decisão nacional, apanhar uma bola, esta poderá valer milhares de dólares para colecionadores e aficcionados. Então pode ser um bom negócio levar a luva e sentar-se numa posição estratégica onde as bolas “espirradas” possam cair. Aliás, neste jogo, de nove bolas espirradas que notei, seis caíram numa área da arquibancada à direita e atrás dos batedores.
Como disse, o “Padres” estava com a macaca, então não foi surpresa ele ter ganho de 3 x 1do “Cardinals”, embora este tenha aberto o placar e lutado com garra até o último inning. Ao contrário do que acontece em nossos estádios do Brasil, aqui as torcidas se misturam e torcem por seus times sem brigas ou confusões, inclusive, no meio o sétimo inning, todos cantam em pé o hino: “Take Me out to the Ball Game”, algo como, “leve-me ao jogo de beisebol”. Parece até desfile de quatro de julho, todos irmanados cantando juntos. Sinceramente? Gostei do jogo, até porque o time não ganhava a cinco jogos, jogou muito e ganhou bonito. Go Padres! JAIR, San Diego, 27/05/11.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Cassino


Meu crachá

Nos USA, em geral, as leis estaduais se sobrepõem às federais se a matéria não for constitucional, o que, aliás, é muito frequente, visto que a Constituição se compõe de apenas sete artigos e vinte e quatro emendas.

Essa “liberalidade” legislativa se deve, evidentemente, à forma confederada de Estado adotada, nada anormal. Comparando, aqui no Patropi, nossa formação federativa de Estado determina a submissão legislativa absoluta dos estados à Constituição e às leis menores, não se podem contrariar matérias federais quaisquer que sejam.

Então, lá no irmão do norte, como a Constituição é omissa com relação a jogos de azar e, segundo o princípio que tudo que não é proibido é permitido, os estados legislam ao sabor das vontades dos eleitores matérias referentes a cassinos e apostas de modo geral. Há estados que proíbem jogos e há estados que os permitem, na Califórnia os cassinos são legais, mas só em “Reservas Indígenas”.

Opa! Reservas Indígenas? Sim, caros leitores, Reservas Indígenas, mais do que espaços físicos áridos onde se confinam os americanos naturais, são “pessoas jurídicas” de direito público onde constam índios como integrantes de uma comissão, uma espécie de clube cuja diretoria é constituída de Navajos, Seminoles, Sioux, Moicanos, Dakotas etc. As Reservas gozam de certa autonomia administrativa e funcionam como se fossem “Zonas Francas”. Essa flexibilidade conceitual do que é uma Reserva Indígena permite que se construa um cassino em plena Downtown, sem contrariar a legislação, desde que o local pertença aos índios por aquisição.

Dentro do princípio legal e consoante à liberdade individual dos que querem jogar, e de acordo com o apetite de arrecadação do estado, existem pencas de cassinos na Califórnia. A economia de San Diego, não está submetida à exploração de cassinos como Las Vegas, mas lá existe uma meia dúzia deles.

Assim, o turista que vos escreve não poderia deixar de conhecer uma casa onde se explora a jogatina sob o falso pretexto de diversão. Fomos a um. Mas como funciona realmente um cassino? Lá no Sycuan Cassino, como na maioria das casas de jogos, você, o potencial jogador, o cara que vai deixar o dinheiro nas máquinas e nas mesas, tem que ser seduzido, conquistado, tem que sentir-se confortável e até paparicado se for o caso. Você será alvo de todas as atenções, se assim o desejar.

Para seu conforto, ao adentrar o ambiente, você tem duas opções. A primeira é ser um jogador anônimo que perde ou ganha e não precisa ter contato com nenhum funcionário da casa, joga a dinheiro e, se ganhar, as máquinas e as mesas fornecem um “vale” automático que lhe dá direito de trocar por dólares em caixas eletrônicas próprias para isso ali mesmo nas salas de jogos. Se perder, ninguém fica sabendo, o anonimato é respeitado. A outra opção é identificar-se e receber um crachá de “sócio” que lhe dá direito a certas regalias. Agora como “sócio” você tem direito a uma refeição, independente da hora. Não um lanchinho qualquer ou um tira-gosto, mas uma lauta refeição tipo self service, com dezenas de pratos quentes e frios, sobremesas, refrigerantes e sucos ao gosto do freguês e sem hora para terminar, significa que você pode passar o tempo quiser comendo sem ser incomodado.

Vejamos o jogo propriamente, por ser “sócio” você não é obrigado a jogar, mas se o fizer, poderá colocar o crachá no lugar apropriado da máquina e esta registrará quanto você jogou, quanto ganhou ou perdeu e vai somando pontos à sua conta, de modo que ao atingir certa cota você terá direito a nova refeição, a qualquer dia de sua existência. Essa “liberalidade” visa estimular seu retorno.

Quanto ao ambiente físico da casa, cabem algumas observações. Os imensos salões estão sempre abarrotados de máquinas e mesas, em qualquer direção que se vá, seja ao banheiro, ao bar ou à sala de estar as tentações estão presentes, não há como “desligar-se” da atmosfera de luzes e sons convidativos ao jogo e que estimulam o estado de vigília, não há como sentir sono. Nas máquinas se pode jogar a partir de um cent, é uma atrativa maneira de induzir os pobres ao jogo. O ar condicionado é perfeito, não há qualquer variação seja inverno ou verão, dia ou noite. Por falar em dia e noite, não há janelas, não há como se ter referências externas, fica-se confinado num agradável ambiente acarpetado onde inexistem relógios ou meios que permitam “sentir” o exterior.

Contam-se histórias de jogadores compulsórios que passam dias jogando, apenas comendo e bebendo, sem dormir. Pelos exageros que custaram saúde, fortunas e, às vezes vidas, o povo da Califórnia exigiu, e o poder público acolheu, agora não são permitidas caixas eletrônicas de bancos dentro dos cassinos, se você quer jogar leve seu dinheiro em cash, nada de cartões de crédito.

Pois é, antes de entrar no Sycuan, estabeleci que ia jogar no máximo vinte dólares, perdi dezesseis, me diverti muito e saboreei uma deliciosa refeição, minha mulher jogou três dólares e ganhou sessenta e dois. Custo-benefício positivo, mas voltar, talvez daqui a três anos, não é a minha praia. JAIR, Floripa, 09/06/10.


domingo, 23 de maio de 2010

LEGAL! HEMP AQUI É LEGAL

Biscoitos de Cannabis sativa


Na Califórnia, através de um artifício legal (vejam bem, LEGAL) pode-se consumir, usar como insumo de outros produtos, plantar, comerciar ou portar maconha de diversas formas, sem qualquer constrangimento. Para isso, o poder constituído, em perfeita consonância com a vontade da maioria dos eleitores, criou emendas às leis estaduais que sancionam o uso da Cannabis para fins médicos.

Ah! Para fins médicos! Isso mesmo, só que fins médicos incluem um gama tão grande de patologias, sintomas e males que fica legalizado seu uso para quase tudo que possa imaginar.

Vejamos o que diz outra emenda de lei, aprovada recentemente: Nenhuma pessoa, física, empresarial ou entidade deve ser presa ou processada, ser negado qualquer direito ou privilégio, nem ser objeto de quaisquer sanções penais ou civis por posse, cultivo, transporte, distribuição ou consumo de cannabis, marijuana, hemp ou maconha incluindo: Produtos industriais de Hemp que visem seu uso medicinal, nutricional, religioso, espiritual e de recreação.

Assim, o Estado governado por Schwarzenegger, um republicano conservador, resolveu colocar no papel, ou seja, tornar de jure uma situação que existia de facto. Contudo, o uso só é permitido para cidadãos residentes na Califórnia, nem pensar numa zona livre tipo Amsterdã onde qualquer habitante do planeta pode adquirir as drogas mais diversas.



Bebida de Maconha sabor baunilha



Mesmo que a lei estadual seja conflitante com a federal que proíbe o uso da maconha, a autonomia legal que gozam os Estados Confederados (Estados Unidos do nome do País), faz com estas sejam superadas por aquelas.

A legalização produz seus efeitos benéficos em todos os sentidos:

1 - Disponibiliza para os pacientes de dores crônicas mais um medicamento paliativo de suas agruras;

2 - Permite que se fabriquem roupas, cintos, bolsas, cordas e calçados das fibras de Cannabis;

3 - Deixa que o livre mercado atue no sentido de que os produtores disputem o público consumidor livremente através de melhor qualidade e preços competitivos;

4 – Abre uma fonte de arrecadação sedutora para o poder público;

5 – Permite o controle, através da saúde pública, da pureza do produto, excluindo a hipótese de envenenamento por toxidez;

6 – Estimula o aparecimento de pesquisas de novos usos alimentares do produto, o que fez surgir uma enorme gama de bolos, tortas, refrigerantes, bombons, e as guloseimas mais variadas a base de marijuana;

7 – Desinibe o potencial consumidor que se via temeroso em usar um produto ilegal;

8 – Torna o tráfico inexistente, não há como competir com produtores que pagam impostos e são protegidos por lei.

Balas de Hemp


Independente de sermos a favor ou contra seu uso,
hemp legal é um avanço da sociedade no sentido de acabar com a hipocrisia que nós do Patropi conhecemos tão bem. No Brasil os jogos de azar são ilegais, mas o poder não vê as milhares de bancas de bicho em quase todas as esquinas, e ele próprio o Estado explora dezenas de jogos através da Caixa Econômica. A maconha, produto que causa menos males que a bebida é ilegal e menores são proibidos de comprar ou consumir bebidas alcoólicas, mas podem se drogar a vontade com álcool e fumar cigarros sem qualquer restrição.

O que quero mostrar é a leveza de espírito com que se tratou o assunto aqui, não houve convulsão religiosa ou de pessoas mais conservadoras contra a liberação do produto. Desde que você seja residente permanente e tenha um atestado médico que recomende o uso da cannabis, poderá adquirir em qualquer casa especializada comidas e bebidas produzidas com hemp de boa qualidade.

Antes que haja algum mal entendido, devo esclarecer que não sou e nunca fui usuário, apenas defendo que a racionalidade faz bem para todo mundo. Do usuário ao Estado todos saem ganhando. JAIR, San Diego, 23/05/10.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

BARCOS


Vista parcial de marina de Point Loma


(Navegar não é preciso)

Estou hospedado num hotel em Point Loma, península que adentra a baía de San Diego, frontal a ilha Coronado, local onde se situa importante base aero naval dos marines americanos. Base que hospeda três super porta-aviões, um dos quais vi sair para o mar hoje, possivelmente para manobras ou para uma dessas guerras que o país está envolvido. O espaço entre a ilha e a península é de mar calmo e abrigado o que, naturalmente, nos faz imaginar intenso tráfego marítimo nestas águas. Ledo engano, as águas calmas e abrigadas, pelo que pude observar, só são singradas por navios militares e uns poucos comerciais.

Desde o primeiro momento, o que me chamou atenção de modo gritante, foi a quantidade de barcos que povoam as dezenas de marinas da área. É quase impossível descrever a densidade do universo marítimo à minha vista, os mastros formam uma espécie de densa floresta de troncos desfolhados. Estou literalmente embasbacado com as dezenas de milhares de barcos, pequenos médios e grandes estacionados, encostados, parados, fundeados, amarrados, estaqueados, ancorados, apoitados nos cais e ancoradouros em toda a orla da península. Fica-se com a impressão de grandes pátios de shoppings abarrotados de carros aí no Brasil, só que aqui são barcos. Tantos, tão alinhados, tão conservados, tão parados que deixam uma impressão um pouco estranha.

Milhares de embarcações suscitam o aparecimento de fortíssimo comércio voltado para atividades de pesca, esportes e vida no mar, são centenas de lojas pequenas e grandes que vendem todo tipo de parafernália que atendem esse universo, diga-se, lojas bem frequentadas por marinheiros e gente afeita as fainas marítimas. Contudo, pela limpeza e impressão geral de ordem, nada que lembre ambientes portuários brasileiros. Vê-se, a todo instante, os barcos sendo retirados da água para manutenção, pintura, limpeza, polimento, conserto, estocagem e otras cositas mas, mas, em nenhum momento consegue-se vê-los navegando.

Aí é que está o xis da questão, os barcos daqui são adquiridos para se TER, e não para usar; para serem admirados e curtidos, não para se navegar. O proprietário do barco o tem para equipá-lo com os últimos gadgets eletrônicos, por status, ostentação, gasto com manutenção, pagamento de impostos e de aluguel na marina, formação de empregos e para trocá-lo de tantos e tantos meses, não para navegar, pois isso é coisa de marinheiro.

Provavelmente, a última aquisição do americano feliz, será motivo para conversa entre amigos; objeto de vídeos e fotos para decorar lareiras e apresentar aos conhecidos; prova evidente de sua capacidade aquisitiva; e, mais que tudo, motor de uma economia que se move exclusivamente pelo consumismo desenfreado. Enquanto compra-se, mais a indústria produz, mais empregos são gerados e mais impostos o governo arrecada. Então, sinceramente, navegar é preciso?

É dedutível que um típico dono de embarcação, que já gastou milhares de dólares e trocou de barco três ou quatro vezes nos últimos cinco anos, ao ser interpelado por um curioso inocente sobre quando navega, navegou ou pretende navegar, sair-se com resposta mais ou menos assim: “ Hey man, are you crazy? Boats are not made to be sailed!”.

Para nós, tupiniquins, parece um pouco estranho que barcos tenham outra finalidade que não sair flutuando por aí. Mas, como se trata de americanos cheios da grana e um pouco exóticos para nossa cultura, tudo é admissível. JAIR, San Diego, 20/05/10.

terça-feira, 18 de maio de 2010

ONDE ESTÃO ELES


Talvez o fato social mais importante da segunda metade do século vinte, o que mais gerou mudanças de mentalidades e orientações ideológicas que vieram depois, foi o movimento cultural hippie. Pode-se situar o ano de 1960, quando em janeiro formou-se uma manifestação pelos direitos civis em Atlanta, USA, como o início de tudo, como o ponto de inflexão em que a juventude resolveu tomar posição em confronto com o status quo. A juventude daquela década, nascida durante ou pouco depois da guerra, num estalo, tomou consciência que vivia num mundo engessado no qual embaralhavam, davam as cartas e eram donos do baralho duas potências nucleares que, entre outras coisas, podiam destruir a humanidade e até o Planeta.

A geopolítica que comandava os destinos da civilização era a doutrina pelo medo da destruição em massa, era a guerra fria em ação; o sexo fora do casamento ainda era pecado e, às vezes, punível pelas legislações conservadoras vigentes; a família, célula mater da sociedade, era intocável e sagrada, o divórcio era visto como sacrilégio pela igreja; nos países desenvolvidos, carreiras profissionais eram projetadas e seguidas desde a infância pelo filho-objeto dos pais; a “liberdade” consistia em não dizer NÃO ao establishment; ou seja, não se ataca a elite social, econômica e política que controla o conjunto da sociedade; religiões aceitas pelas nações ocidentais eram monoteístas e acomodadas, nem pensar em religiões “exóticas” orientais; música? Só romântica ou regional que não atacasse os valores pétreos de uma sociedade estagnada e silenciosa quanto a questões como racismo, capitalismo selvagem, domínio cultural e colonialismo; roupas, calçados e cabelos eram “certinhos”, não se ousava, não se feria a estética; uso de drogas? Vade retro! Não se discute, não se encara, não se admite, é proibido e pronto!

Esse era o bucólico mundo ocidental na década de sessenta, quando a juventude sentiu-se inquieta e resolveu protestar colocando o dedo na tomada. Roupas estranhas e coloridas, cabelo comprido e rebelde, música berrante de protesto, comportamento civil contrário às ordens vigentes, pavor de guerras e proselitismo de amor livre – make love not war. Palavras de ordem: rasgue seu cartão de alistamento, virgindade dá câncer, queime sutiãs, sinta desprezo pelos bens materiais, viva e deixe viver, não confie em ninguém com mais de trinta anos, tudo que é bom é proibido, imoral ou engorda, use maconha, LSD e haxixe, o psicodelismo está na ordem do dia, é proibido proibir.

Pois bem, o movimento nasceu nos EUA e se alastrou pela Europa, chegando, ainda que com timidez, até a países da cortina de ferro, num crescendo de protestos pacíficos e desobediência que chocalhou a roseira do marasmo das sociedades estabelecidas. O ápice do movimento situa-se em 1968, quando boa parte do mundo ocidental incendiou-se numa cadeia de protestos da França à Índia, passando por quase todos os países da Europa e da Américas. A guerra do Vietnam dava azo para que os jovens se unissem por uma causa comum, corpos cobertos com a bandeira, que chegavam de uma terra distante e desconhecida, eram prova cabal de que alguma coisa muito errada estava acontecendo. As autoridades não podiam ficar inertes para sempre, e mundo nunca mais foi o mesmo, mudou, ainda que não totalmente, a golpes de peace and love.

Por volta da metade da década de setenta, os hippies agora adultos (com mais de trinta anos) viram-se, uns frustrados, outros inconformados, mas todos sem forças para continuar queimando a vela pelas duas pontas, acomodaram-se e não deixaram seguidores. O que existe hoje são artesãos que se dizem Hippies, nada parecido com o que existiu, nada radical como aquela revolução dos costumes. Contudo, as sociedades nunca mais foram as mesmas.

E os hippies para onde foram? Naturalmente, eles também envelhecem. Hoje, sessentões, eles estão por aí, o mais das vezes mesclados à população dita “normal”, aquela que passou os anos sessenta e setenta observando, sem participação ativa nos acontecimentos. Contudo, em certos lugares, os ex-hippies são perfeitamente discerníveis e identificáveis, como em San Diego. Aqui existe um bairro chamado Ocean Beach, OB para os íntimos, que é habitado exclusivamente pelos contestadores daqueles anos loucos. O bairro é típico de pessoas “alternativas”; de gente que optou pela liberdade de comportamento; de gente voltada para uma vida natureba; de gente pouco preocupada com “ter” em detrimento de “ser”; de gente que curte a natureza e educa filhos e netos na direção de um mundo diverso do capitalismo consumista a sua volta; de gente vegetariana e vegana que têm restaurantes próprios voltadas para comidas orgânicas e sem produtos de origem animal.

Na maioria, os ex-hippies são pacatos pais e avós que exercem atividades autônomas como massagistas, quiropráticos, professores de doutrinas zens, dentistas e médicos de orientação alternativa, artesões, poetas, escritores, acupunturistas, homeopatas, todos pobres e de bem com a vida. A paz é seu objetivo de vida, não se alistam nas Forças Armadas e não aconselham ninguém a fazê-lo. Não incomodam ninguém e por ninguém são incomodados. Vale a pena comprar seus produtos a base de hemp e comer suas comidas orgânicas e deliciosas, o que fiz com prazer, junto com minha mulher, minha nora e meu filho. Quem vier a San Diego não perde nada se for até OB dar um rolê. JAIR, San Diego, 20/05/10.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

FOCAS URBANAS

Focas de La Jolla.


Já publiquei texto referente a animais que, sem outra opção, urbanizaram-se para sobreviver. Isto é, na medida em que o progresso humano avança por áreas antes selvagens, os bichos que ali habitam morrem, fogem ou adaptam-se ao novo meio. Assim, aves e mamíferos, principalmente de pequeno porte, são compulsados a partilhar com humanos e suas traquitanas e modus vivendi, completamente exóticos a seres costumados a viver em harmonia com a natureza.

Pois é, aqui em San Diego, Califórnia, num encantador bairro turístico a beira do Pacífico, La Jolla, existe uma praia pequena e bem protegida cujo nome é Piscina das crianças. É de se esperar que crianças habitualmente frequentem o lugar, não é mesmo? Nada mais distante da verdade. A simpática prainha é lar exclusivo de uma população de focas. Diga-se, o litoral sul da Califórnia é formado quase exclusivamente por falésias, com escassas praias de entremeio, razão pela qual as focas aproveitam esses locais para parir e criar filhotes com segurança.

A história é interessante, em 1931, uma milionária viúva de nome Ellen Browning Scripps, preocupada com o lazer e bem estar das crianças do bairro as quais não tinham um pedaço de areia seguro para brincarem, mandou construir um quebra-mar que permitiu o surgimento de uma praia abrigada, de imediato chamada Children’s Pool.

Até aí tudo bem, mas, acontece que as águas da costa sudoeste do País são habitadas por uma espécie de foca a “Mirounga angustirostris”, endêmica dessa região. Essa espécie de mamífero prefere águas não muito frias para procriar e amamentar seus filhotes. A piscina das crianças pareceu às focas o lugar ideal para suas atividades comunitárias, e para ali elas se mudaram de mala e cuia na década de setenta.

E agora José, a praia é dos rebentos humanos ou dos mamíferos marinhos? Já que crianças e focas não podem partilhar a mesma minúscula praia sem prejuízo de ambos, formou-se uma polêmica. Legalmente a praia formada pelo muro foi doada pela viúva Ellen à prefeitura de San Diego para servir de área de lazer às crianças. Mas focas não sabem ler e o mar é seu domínio natural, não há como expulsá-las do próprio lar, e extermínio está fora de cogitação, mesmo porque a Califórnia é o estado americano que mais se preocupa com ecologia; o estado que mais leis aprovou protegendo a fauna e flora da região; como o estado é semi deserto, aqui há leis que premiam com incentivos fiscais empresas e cidadãos que conservam água ou que menos agridem a natureza.

Assim, focas ou crianças? Cidadãos adictos de crianças saltitantes, e cidadãos afeiçoados a focas protegidas encaminharam projetos de leis a favor de umas e outras à instância municipal que, depois de pareceres contraditórios, levou à corte do Estado, a qual enviou a batata quente à Suprema Corte. É, meus amigos, a Suprema Corte sentindo que estava se metendo numa enrascada sem tamanho, devolveu as ações à instância municipal alegando incompetência, isto é, o assunto devia ser resolvido pelos munícipes e seus representantes, nada mais que isso.

Diante disso, em 1998, o juiz Timothy Taylor derrubou duas decisões anteriores de outros juízes que teriam forçado San Diego dispersar as cerca de 200 focas que vivem naquela praia. A cidade já gastou perto de dois milhões de dólares nesta questão, o que inclui um milhão de custas judiciais. A municipalidade destacou que há um sentimento que o juiz tomou a decisão certa nesta controvérsia que já dura anos. Portanto, até o presente momento, as focas continuam na praia e ninguém tem direito de retirá-las, mas os descontentes com a situação querem mudar esse status e reverter a praia às crianças.

Bem típica essa atitude, o Homo sapiens sofre do que se convencionou chamar de síndrome de especismo, conduta que coloca o ser humano em primeiro lugar, mesmo a custa da vida de outros seres se necessário.

Vejamos, para as focas é uma questão de vida ou morte, sem a praia elas poderão não sobreviver, considerando que estão na terceira ou quarta geração nascidas naquele sítio e são essencialmente territoriais. Existem registros escritos de suas presenças nas proximidades há séculos. Já para as crianças, é apenas uma área de lazer que poderá ou não ser utilizada, mesmo porque as águas daquele pedaço do pacífico não são exatamente tépidas como os humanos gostam, pelo contrário, são bastante frias, próprias para focas e seus parentes, os leões marinhos. Ainda mais, as crianças gostam de ver as focas e se comprazem de acompanhar suas atividades diárias.

De qualquer forma, enquanto a estadia dos mamíferos marinhos continuar ali, percebe-se com clareza o contraste entre a sociedade mais urbana e desenvolvida do Planeta com seus carrões estacionados a menos de vinte metros da praia, e a vida primitiva das Miroungas que só querem um cantinho seu para dar prosseguimento seguro a perpetuação de sua espécie. San Diego, 15/05/10.