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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A peste



No princípio parecia apenas que um número maior de pessoas estava gripado, os acometidos por um possível vírus apresentavam sintomas iguais ou parecidos com os da gripe, como irritação na garganta, coriza, alguma obstrução nasal e, em alguns casos, uma febre leve.
Palmeira era uma cidade pequena e as ocorrências, fatos e eventos que lá se passavam eram de conhecimento de todos, como se pertencessem a uma grande família. Então, quando os casos de “gripe” começaram a levar gente ao único hospital do burgo em busca de tratamento, os dois médicos e as irmãs de caridade que atendiam os doentes perceberam que eles estavam mais prostrados do que se poderia esperar se estivessem apenas gripados. Toda a cidade tomou conhecimento que mais gente e com gravíssimos sintomas estavam baixando aos leitos hospitalares.
Mais ou menos no segundo mês depois que os primeiros casos apareceram quase um terço da população, inclusive um dos médicos, estava acometido dessa doença que passou a preocupar tanto as autoridades quando os cidadãos que ainda não tinham sido contaminados. Pelo que se sabia era uma doença virótica ou bacteriana contagiosa, porque era comum pessoas de uma mesma família ou que conviviam em ambientes confinados como salas de aula ou escritórios, apresentassem sintomas em cadeia. As primeiras mortes vieram logo a seguir, mortes horríveis com os doentes assumindo posições arqueadas, olhos esbugalhados, boca aberta e gritando como se o fogo do inferno os tivesse queimando, parecendo possuídos por demônios. Em um mês, mais da metade dos cidadãos já estavam doentes e os coveiros passaram a fazer horas extras para enterrar os mortos. Notadamente, a doença não escolhia classe social, idade ou sexo, ainda que os primeiros mortos tenham sido pessoas idosas e crianças muito novas.
O prefeito apressou-se em decretar estado de vigilância e decretou que escolas fossem fechadas, dispensou os funcionários públicos municipais e sugeriu que todos os serviços que não fossem essenciais deixassem de funcionar.
Muitos dos mais ricos arrumaram as malas e se mandaram para Curitiba ou outra cidade onde tivessem parentes ou amigos. Aos pobres coube apenas se trancar em casa tanto quanto possível, e rezar para que a doença não os alcançasse. Houve dois ou três casos nos quais todas as pessoas de uma mesma família confinada foram atacadas morreram e só se tomou conhecimento disso quando os corpos começaram a exalar mau cheiro.
O padre, alguns pastores, beatas e outros devotos faziam penitências, rezavam, oravam e pediam perdão por pecados nunca cometidos e por faltas nunca acontecidas. Apareceram três pregadores místicos que bradavam pelas ruas vazias dizendo que aquele era um castigo de Deus pelas iniquidades daquele povo incréu e pecaminoso. Se alguém acreditava nisso nada dizia, mas era aparente o medo e a desconfiança. Será que Deus estava castigando a todos por algo que alguns fizeram? Será que o Criador havia escolhido aquela cidade para servir de exemplo para uma humanidade pecadora, cruel e belicosa? Foi nesse clima que alguém ressuscitou a palavra PESTE. Para a crendice do povão ignaro palmeirense, peste significava muito mais que uma grave doença ocasional, ou mesmo um epidemia inesperada e fatal; peste significava algo determinado por uma força superior como punição; peste era penitência por pecados cometidos, e isso mexia com o imaginário daquelas pessoas simples. Então, a partir da lembrança da palavra, muitos passaram admitir que estavam sendo punidos com a peste. Por estranho que pareça, o fato de agora saberem o que era e qual a finalidade do mal, fez com que alguns se conformassem com o destino e, com humildade, admitissem que eram pecadores e deviam ser punidos.
Mas a peste continuou ampliando seu alcance e mortalidade, mais gente foi infectada e muitas mais morreram. Os cemitérios já não comportavam tantos defuntos e as autoridades liberam outros dois terrenos públicos para os sepultamentos, que agora se faziam até a noite. Calculava-se que um terço dos cidadãos havia falecido, outro terço estava doente e o terço final rezando e tremendo em suas casas. Dos que partiram, depois se soube, também um terço havia deixado de viver nessa mesma época.
Ainda que o apelo das autoridades médicas tivesse sensibilizado a Secretaria de Saúde do Estado, e esta tenha enviado uma equipe médica e um hospital de campanha cedido pelo Exército, os casos da doença misteriosa só aumentavam e o número de mortos também. Curiosamente, ninguém que tenha vindo para a cidade para trabalhar ou que por lá tenha passado adquiriu a doença. Parecia uma epidemia seletiva, só atacava os moradores de Palmeira. Mas, assim como havia começado seis meses antes sem trombetas ou foguetórios, saiu de cena de mansinho sem deixar saudades, acabou. Os últimos doentes sararam de um dia para outro e os que não haviam ficado doentes saíram de suas casas e perderam o medo. Palmeira, agora rarefeita de gente, começou lentamente e se recuperar da catástrofe, era uma cidade convalescente e com outro espírito, como fênix renascida, purificou-se.
O formoso burgo, que já era conhecido como Cidade Clima do Brasil, agora aguilhoado pela mórbida moléstia, podia ser chamado de Cidade Bem-aventurada do Brasil, a bondade, o denodo, o altruísmo, o bom mocismo, a benevolência, a filantropia, a caridade, a prodigalidade, a piedade, o brio, a consideração, a reflexão, a tolerância, a candidez, a moralidade, a nobreza de caráter, o pundonor, a gentileza, a compostura, a fineza, a probidade, o esmero, a maturidade, a sobriedade, o recato, o equilíbrio, a calma, a elegância no trato aos outros, a prudência e a lealdade passaram a ser a marca registrada dos habitantes daquela comunidade. Todos se tornaram mais felizes e passaram a contagiar de felicidade quem viesse morar na cidade.
Muitos anos depois, cronistas relataram que mais da metade da população havia perecido, dos que sobraram mais da metade mudou-se para sempre. Os que ficaram formaram uma pequena sociedade extremamente coesa, honesta e solidária, a mais exemplar do país a qual até hoje pode ser citada por suas realizações humanitárias. Palmeira é a melhor cidade do Brasil desde então. JAIR, Floripa, 16/09/11
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sexta-feira, 14 de maio de 2010

FOCAS URBANAS

Focas de La Jolla.


Já publiquei texto referente a animais que, sem outra opção, urbanizaram-se para sobreviver. Isto é, na medida em que o progresso humano avança por áreas antes selvagens, os bichos que ali habitam morrem, fogem ou adaptam-se ao novo meio. Assim, aves e mamíferos, principalmente de pequeno porte, são compulsados a partilhar com humanos e suas traquitanas e modus vivendi, completamente exóticos a seres costumados a viver em harmonia com a natureza.

Pois é, aqui em San Diego, Califórnia, num encantador bairro turístico a beira do Pacífico, La Jolla, existe uma praia pequena e bem protegida cujo nome é Piscina das crianças. É de se esperar que crianças habitualmente frequentem o lugar, não é mesmo? Nada mais distante da verdade. A simpática prainha é lar exclusivo de uma população de focas. Diga-se, o litoral sul da Califórnia é formado quase exclusivamente por falésias, com escassas praias de entremeio, razão pela qual as focas aproveitam esses locais para parir e criar filhotes com segurança.

A história é interessante, em 1931, uma milionária viúva de nome Ellen Browning Scripps, preocupada com o lazer e bem estar das crianças do bairro as quais não tinham um pedaço de areia seguro para brincarem, mandou construir um quebra-mar que permitiu o surgimento de uma praia abrigada, de imediato chamada Children’s Pool.

Até aí tudo bem, mas, acontece que as águas da costa sudoeste do País são habitadas por uma espécie de foca a “Mirounga angustirostris”, endêmica dessa região. Essa espécie de mamífero prefere águas não muito frias para procriar e amamentar seus filhotes. A piscina das crianças pareceu às focas o lugar ideal para suas atividades comunitárias, e para ali elas se mudaram de mala e cuia na década de setenta.

E agora José, a praia é dos rebentos humanos ou dos mamíferos marinhos? Já que crianças e focas não podem partilhar a mesma minúscula praia sem prejuízo de ambos, formou-se uma polêmica. Legalmente a praia formada pelo muro foi doada pela viúva Ellen à prefeitura de San Diego para servir de área de lazer às crianças. Mas focas não sabem ler e o mar é seu domínio natural, não há como expulsá-las do próprio lar, e extermínio está fora de cogitação, mesmo porque a Califórnia é o estado americano que mais se preocupa com ecologia; o estado que mais leis aprovou protegendo a fauna e flora da região; como o estado é semi deserto, aqui há leis que premiam com incentivos fiscais empresas e cidadãos que conservam água ou que menos agridem a natureza.

Assim, focas ou crianças? Cidadãos adictos de crianças saltitantes, e cidadãos afeiçoados a focas protegidas encaminharam projetos de leis a favor de umas e outras à instância municipal que, depois de pareceres contraditórios, levou à corte do Estado, a qual enviou a batata quente à Suprema Corte. É, meus amigos, a Suprema Corte sentindo que estava se metendo numa enrascada sem tamanho, devolveu as ações à instância municipal alegando incompetência, isto é, o assunto devia ser resolvido pelos munícipes e seus representantes, nada mais que isso.

Diante disso, em 1998, o juiz Timothy Taylor derrubou duas decisões anteriores de outros juízes que teriam forçado San Diego dispersar as cerca de 200 focas que vivem naquela praia. A cidade já gastou perto de dois milhões de dólares nesta questão, o que inclui um milhão de custas judiciais. A municipalidade destacou que há um sentimento que o juiz tomou a decisão certa nesta controvérsia que já dura anos. Portanto, até o presente momento, as focas continuam na praia e ninguém tem direito de retirá-las, mas os descontentes com a situação querem mudar esse status e reverter a praia às crianças.

Bem típica essa atitude, o Homo sapiens sofre do que se convencionou chamar de síndrome de especismo, conduta que coloca o ser humano em primeiro lugar, mesmo a custa da vida de outros seres se necessário.

Vejamos, para as focas é uma questão de vida ou morte, sem a praia elas poderão não sobreviver, considerando que estão na terceira ou quarta geração nascidas naquele sítio e são essencialmente territoriais. Existem registros escritos de suas presenças nas proximidades há séculos. Já para as crianças, é apenas uma área de lazer que poderá ou não ser utilizada, mesmo porque as águas daquele pedaço do pacífico não são exatamente tépidas como os humanos gostam, pelo contrário, são bastante frias, próprias para focas e seus parentes, os leões marinhos. Ainda mais, as crianças gostam de ver as focas e se comprazem de acompanhar suas atividades diárias.

De qualquer forma, enquanto a estadia dos mamíferos marinhos continuar ali, percebe-se com clareza o contraste entre a sociedade mais urbana e desenvolvida do Planeta com seus carrões estacionados a menos de vinte metros da praia, e a vida primitiva das Miroungas que só querem um cantinho seu para dar prosseguimento seguro a perpetuação de sua espécie. San Diego, 15/05/10.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

OS CFCs E A CAMADA DE OZÔNIO






A partir da década de vinte do século passado, especialmente nos países desenvolvidos, generalizou-se o uso de refrigeradores. Claro, essas engenhocas eram consideradas só pelo que de bom podiam proporcionar a seus usuários. Por razões de conveniência e saúde pública, para que produtores de frutas, carnes, legumes e laticínios pudessem negociar seus produtos a maiores distâncias, e para que as famílias consumidoras pudessem desfrutar refeições frescas e saudáveis. Parecia carro a álcool, todo mundo queria ter um. Na época, os fluidos ativos, cujos aquecimentos e esfriamentos forneciam a refrigeração, eram amônia e dióxido de enxofre – produtos tóxicos e fedorentos. Vazamentos desses gases constituíam pequenos desastres que deveriam ser evitados, razão pela qual um gás substituto devia ser encontrado. Idealizava-se um líquido que, nas condições corretas, circulasse, mas não causasse danos se vazasse dentro o refrigerador, ou quando este fosse descartado como ferro-velho. Para isso, seria ótimo que cientistas encontrassem um material que não fosse tóxico, nem inflamável, que não oxidasse, não queimasse os olhos, não atraísse insetos, não exalasse mau cheiro, nem incomodasse os animais domésticos. Contudo, ainda que procurassem muito, parecia não haver tal produto na natureza.

Assim, químicos dos EUA e da Alemanha desenvolveram (independentes) uma classe de moléculas que nunca existira antes. Eles lhes deram o nome de (CFCs), clorofluorcarbonetos, compostos de um ou mais átomos de carbono combinados com alguns átomos de cloro e/ou flúor.

O sucesso do no produto foi espetacular, indo muito além das mais otimistas expectativas dos inventores. Os CFCs não só se tornaram o principal fluido ativo dos refrigeradores, mas também dos condicionadores de ar, de residências e carros. Encontraram aplicações amplas em latas de spray, espuma isolante, solventes industriais e produtos de limpeza, em especial na indústria de eletro-eletrônicos. O nome de marca mais conhecido dessa maravilha é Freon, marca registrada da DuPont, famosa indústria química que também detém o monopólio da fabricação do polímero por ela desenvolvido, Teflon.

Considerados inofensivos para o meio ambiente os CFCs foram largamente utilizados pela indústria por décadas. No início da década de setenta, um milhão de toneladas de CFCs era manufaturado por ano, número que, na década seguinte, decresceu à força de acordos internacionais.

Agora, digamos que na década de setenta você tenha utilizado um prosaico desodorante em spray em seu banheiro. As moléculas de CFC em aerossol, propulsor do produto, saem em fina névoa e não aderem a seu corpo ou a qualquer parede ou objeto do banheiro. Elas tendem a elevar-se, sair pela janela e, já ao ar livre, carregados pelas correntes de convecção e pela circulação atmosférica global, atingirem qualquer parte do Planeta. Não existem CFCs localizados, sedentários, nacionais, bairristas, todos são nômades cosmopolitas e circulam livremente. Com raras exceções, não se desfazem e não se combinam quimicamente com outras moléculas. São praticamente inertes. Depois de alguns anos, lá estão eles belos e formosos flanando na alta atmosfera, onde sobrevivem por cem anos, aproximadamente.

Acontece que a alta atmosfera, cerca de 25 quilômetros de altitude, é berço do ozônio. Isso mesmo, aquele ozônio que serve de escudo contra os raios ultravioleta emanados do astro Rei. Os mesmos raios UV nocivos à nossa pele são responsáveis pela desagregação dos CFCs, livrando-os do cloro. Esse danado cloro, agora livre de sua prisão CFC, é um catalisador extraordinário que ataca as moléculas de ozônio destruindo-as, mas não é ele próprio destruído. Calcula-se que um átomo de cloro pode decompor cem mil moléculas de ozônio antes de a gravidade trazê-lo para uma altitude onde será carregado pela chuva até o solo.

E daí cara pálida? Que importância tem que algumas moléculas inocentes, lá no alto onde praticamente ninguém vai, sejam destruídas por um átomo malvadão? Acontece que o ozônio é o escudo natural de Gaia contra os malditos raios ultravioletas. A camada de ozônio é tênue, mas é a ÚNICA proteção que temos contra os UV, cancerígenos e nocivos queimadores da pele dos humanos. Especialmente de humanos com pele clara, com baixo teor de melanina.

Mas, por mais importante que seja protegermos a pele, os raios UV atacam ainda com mais vigor, os ácidos nucléicos e as proteínas, que são as moléculas básicas da vida, ácidos nucléicos formam o DNA e o RNA dos seres vivos, além do mais, enfraquecem o sistema imunológico de plantas e animais.

Concluindo, mesmo que não vejamos e muito menos sintamos os efeitos malévolos imediatos da destruição do ozônio protetor, eles existem e são diretamente causados por um produto inventado e manipulado pelo Homo sapiens. A ninguém mais podemos inculpar por nossos elevados índices de câncer de pele e outros males relacionados com a incidência de raios UV, a não ser a nós mesmos e a nossa incúria. É isso aí. JAIR, Floripa, 06/05/10.