Meu crachá
Nos USA, em geral, as leis estaduais se sobrepõem às federais se a matéria não for constitucional, o que, aliás, é muito frequente, visto que a Constituição se compõe de apenas sete artigos e vinte e quatro emendas.
Essa “liberalidade” legislativa se deve, evidentemente, à forma confederada de Estado adotada, nada anormal. Comparando, aqui no Patropi, nossa formação federativa de Estado determina a submissão legislativa absoluta dos estados à Constituição e às leis menores, não se podem contrariar matérias federais quaisquer que sejam.
Então, lá no irmão do norte, como a Constituição é omissa com relação a jogos de azar e, segundo o princípio que tudo que não é proibido é permitido, os estados legislam ao sabor das vontades dos eleitores matérias referentes a cassinos e apostas de modo geral. Há estados que proíbem jogos e há estados que os permitem, na Califórnia os cassinos são legais, mas só em “Reservas Indígenas”.
Opa! Reservas Indígenas? Sim, caros leitores, Reservas Indígenas, mais do que espaços físicos áridos onde se confinam os americanos naturais, são “pessoas jurídicas” de direito público onde constam índios como integrantes de uma comissão, uma espécie de clube cuja diretoria é constituída de Navajos, Seminoles, Sioux, Moicanos, Dakotas etc. As Reservas gozam de certa autonomia administrativa e funcionam como se fossem “Zonas Francas”. Essa flexibilidade conceitual do que é uma Reserva Indígena permite que se construa um cassino
Dentro do princípio legal e consoante à liberdade individual dos que querem jogar, e de acordo com o apetite de arrecadação do estado, existem pencas de cassinos na Califórnia. A economia de San Diego, não está submetida à exploração de cassinos como Las Vegas, mas lá existe uma meia dúzia deles.
Assim, o turista que vos escreve não poderia deixar de conhecer uma casa onde se explora a jogatina sob o falso pretexto de diversão. Fomos a um. Mas como funciona realmente um cassino? Lá no Sycuan Cassino, como na maioria das casas de jogos, você, o potencial jogador, o cara que vai deixar o dinheiro nas máquinas e nas mesas, tem que ser seduzido, conquistado, tem que sentir-se confortável e até paparicado se for o caso. Você será alvo de todas as atenções, se assim o desejar.
Para seu conforto, ao adentrar o ambiente, você tem duas opções. A primeira é ser um jogador anônimo que perde ou ganha e não precisa ter contato com nenhum funcionário da casa, joga a dinheiro e, se ganhar, as máquinas e as mesas fornecem um “vale” automático que lhe dá direito de trocar por dólares em caixas eletrônicas próprias para isso ali mesmo nas salas de jogos. Se perder, ninguém fica sabendo, o anonimato é respeitado. A outra opção é identificar-se e receber um crachá de “sócio” que lhe dá direito a certas regalias. Agora como “sócio” você tem direito a uma refeição, independente da hora. Não um lanchinho qualquer ou um tira-gosto, mas uma lauta refeição tipo self service, com dezenas de pratos quentes e frios, sobremesas, refrigerantes e sucos ao gosto do freguês e sem hora para terminar, significa que você pode passar o tempo quiser comendo sem ser incomodado.
Vejamos o jogo propriamente, por ser “sócio” você não é obrigado a jogar, mas se o fizer, poderá colocar o crachá no lugar apropriado da máquina e esta registrará quanto você jogou, quanto ganhou ou perdeu e vai somando pontos à sua conta, de modo que ao atingir certa cota você terá direito a nova refeição, a qualquer dia de sua existência. Essa “liberalidade” visa estimular seu retorno.
Quanto ao ambiente físico da casa, cabem algumas observações. Os imensos salões estão sempre abarrotados de máquinas e mesas, em qualquer direção que se vá, seja ao banheiro, ao bar ou à sala de estar as tentações estão presentes, não há como “desligar-se” da atmosfera de luzes e sons convidativos ao jogo e que estimulam o estado de vigília, não há como sentir sono. Nas máquinas se pode jogar a partir de um cent, é uma atrativa maneira de induzir os pobres ao jogo. O ar condicionado é perfeito, não há qualquer variação seja inverno ou verão, dia ou noite. Por falar em dia e noite, não há janelas, não há como se ter referências externas, fica-se confinado num agradável ambiente acarpetado onde inexistem relógios ou meios que permitam “sentir” o exterior.
Contam-se histórias de jogadores compulsórios que passam dias jogando, apenas comendo e bebendo, sem dormir. Pelos exageros que custaram saúde, fortunas e, às vezes vidas, o povo da Califórnia exigiu, e o poder público acolheu, agora não são permitidas caixas eletrônicas de bancos dentro dos cassinos, se você quer jogar leve seu dinheiro em cash, nada de cartões de crédito.
Pois é, antes de entrar no Sycuan, estabeleci que ia jogar no máximo vinte dólares, perdi dezesseis, me diverti muito e saboreei uma deliciosa refeição, minha mulher jogou três dólares e ganhou sessenta e dois. Custo-benefício positivo, mas voltar, talvez daqui a três anos, não é a minha praia. JAIR, Floripa, 09/06/10.