sábado, 22 de janeiro de 2011

O Piano


O filme “O piano” foca a presença desse instrumento numa província neozelandesa extremamente afastada da civilização, e selvagem o suficiente para que o instrumento se mostre uma excentricidade incompreensível para os habitantes da região. Na época vitoriana, quando a Nova Zelândia estava há pouco tempo sendo colonizada, para lá se muda Ada McGrath, um mulher que quando tinha seis anos de idade resolveu parar de falar. O motivo de ter ido para lá é que Ada se casou com um neozelandês, Stewart, em um casamento arranjado, já que ela nem conhecia seu noivo. Ada imediatamente antipatiza com Stewart quando ele se recusa a transportar seu amado piano, contudo, este acaba cedendo e o piano vai parar naquela aldeia no meio da mata.
Em Palmeira, guardadas as diferenças culturais, de tempo e de espaço, um piano por lá fez morada no nobre casarão da Baronesa de Tibagi no tempo do império e também foi objeto de espanto e admiração. Tratava-se de um instrumento alemão de marca, A. H. Francke construído na cidade de Dusseldorf em 1857, importado diretamente por JOSÉ CAETANO DE OLIVEIRA para presentear sua querida mulher quando foi a ele conferido o título de Barão em 1858. O ilustre palmeirense, nascido em 1794, em 1858 teve notícia que lhe fora concedido o título de 1º Barão de Tibagi que, dessa forma, passou a ser o primeiro paranaense a receber título nobiliário, na novel província do Paraná. Diga-se, sua digníssima esposa, senhora Querubina Rosa Marcondes de Sá, nascida na capital do império, filha de rico proprietário de terras, teve uma educação esmerada a qual incluía cinco anos na França onde aprendeu a tocar os clássicos no piano.
Mas o que realmente impressionava era a odisséia que seu belo instrumento passou para vir de Dusseldorf até aquela província esquecida no interior do Paraná. Depois de comprado pelo Barão, foi embarcado num navio da Hamburg Süd que vinha para Buenos Aires e fez escala em Paranaguá especialmente para desembarcar a bela peça. Como não havia estrada entre litoral e interior do estado, depois de um acerto com tropeiros que faziam a subida da serra do mar trazendo produtos como farinha de mandioca, cachaça, frutas e melaço, o Barão conseguiu que o instrumento fosse embarcado “em lombo de burro” e transportado, primeiro até Curitiba onde permaneceu por duas ou três semanas, depois embarcado em carroça, venceu a distância até Palmeira em seis dias de duras etapas. Era o ano de 1865 e, finalmente, o sofisticado instrumento encontrava-se no salão de festas da mansão da Baronesa de Tibagi e agora ela poderia dar vazão ao seu talento musical como tanto desejava.
Pois então, moravam os nobres cidadãos num grande casarão situado na esquina da Praça Conceição com Rua quinze, onde sua criadagem, além de oito ou nove escravos, incluía lavadeiras, cozinheiras, jardineiros, arrumadeiras e pajens. Pode-se deduzir que uma pessoa instruída e que viveu perto da corte no Rio de Janeiro tenha sentido certo tédio naquela freguesia onde nada acontecia e onde a maioria dos habitantes era de gente rústica, de pouca instrução. Seu piano representava a ligação dela com a cultura européia da qual sentia saudade, então programava serões onde os convidados, pessoas gradas da paróquia, o padre, alguns latifundiários, o prefeito e um ou outro viajante endinheirado que vinha de outro rincão para comprar gado do Barão, sempre compareciam. Seu repertório incluía tanto os românticos Paganini, Schubert e Berlioz, como os barrocos Vivaldi, Bach e Handel e até os renascentistas Grabrieli e Lassus, ela era uma virtuose no seu Francke, afinado por um técnico que vinha de Curitiba especialmente pra esse fim.
O mais interessante é que os saraus de piano acabaram influenciando os rudes habitantes do lugar que, primeiramente estranharam aquela música tão envolvente que saía daquela casa, contudo, com o tempo acabaram incorporando ao seu dia-a-dia parar na frente do sobrado e permanecer em silêncio absoluto escutando os Berlioz, Schubert e outros mestres que invadiam a rua. A Baronesa, percebendo o interesse das pessoas comuns, as quais estavam acostumadas apenas com violões, sanfonas e pandeiros nos seus bailes populares, toda vez que tocava, abria as janelas do salão de música para que sua “platéia” espontânea a ouvisse. Não só isso, também mandava criados distribuírem limonada, sonhos e empadinhas aos ouvintes caipiras, nessa altura ouvintes especiais. Estabeleceu-se uma cumplicidade tácita entre a artista e o público nativo, ela fazia questão de tocar as sonatas e minuetos bem altos para que todos ouvissem, e eles faziam silêncio total para ouvi-la. Às vezes ela perguntava, através dos criados, o que o público local desejava ouvir e atendia suas preferências. Acho que nunca na história da música clássica existiram ouvintes tão destituídos de nascimento nobre, e uma nobre tão interessada em agradá-los.
O resultado dessa estranha parceria é que, mais de oitenta anos depois, na década de 1950, ainda se ouvia os mais velhos falar no grande Paganini, no sublime Lassus, no inesquecível Vivaldi, que seus pais e avós contavam ter ouvido na Praça Conceição. Meus antepassados todos, parece, adquiriram o gosto pelas músicas eruditas a partir desse período musical pianístico patrocinado pela Baronesa.
Além dessa herança musical que marcou os cidadãos da “cidade clima”, os Tibagi nobres se foram, mas deixaram uma fazenda na área rural que hoje é um quartel do exército; uns familiares Tibagi comuns que se mesclaram à população mais pobre; e o casarão da esquina que se transformou em “assombrado” na minha época de grupo escolar, e no qual costumávamos brincar de procurar tesouro. Assim termina a história do Piano que de “estranho no ninho” na minha Palmeira natal, se transformou no instrumento de integração entre nobreza e plebe e, parece, ambos saíram ganhando. JAIR, Floripa, 20/01/11.

9 comentários:

Leonel disse...

Que linda história dos tempos em que a nobreza era mesmo nobre e repartia sua cultura com a plebe!
Enquanto lia, eu imaginava aquelas pessoas acomodadas defronte à casa, murmurando comentários ocasionalmente, enquanto as notas do piano soavam pela janela.
E de quebra, você ainda citou um marcante e dramático filme, "O Piano", que me deu vontade de rever!
Bela matéria, Jair!
Como sempre!
Abraços!

António Gallobar disse...

Olá

Parabens pelo excelente texto, sim é uma bela história. Gostei muito, obrigado pelos comentários deixados nas minhas páginas.

Grande abraço e continua a encantar a plateia, com as belas histórias que bem sabe contar.

Milena Bozek disse...

òtima história!
parabéns pelo Blog

visite-nos:

[ indigestaosocial.blogspot.com ]

att: equipe Indigestão Social - por um mundo menos desumano

J. Muraro disse...

Teus textos pessoais estão cada vez melhores. Parabéns.

R. R. Barcellos disse...

- E mais uma vez fica provado o valur da boa música como instrumento de integração social.
- Cara, você realmente aproveitou aquele recesso... parabéns!

Anônimo disse...

Vážení. Mám přítele v online Sulawesi - Indonésie, která mi ukázala svůj blog. Velmi dobře!
Užíval jsem si nesmírně obsahu a také dát svým přátelům.

JAIRCLOPES disse...

O "anônimo" aí de cima é mesmo que já comentou outro texto em indonésio. Ele está fazendo uma brincadeira para ver se eu advinho o idioma do comentário, desta vez foi em tcheco e, traduzindo meia-boca através do Google ficou assim: "Caro. Eu tenho um amigo online em Sulawesi - Indonésia, que me mostrou seu blog. Muito bom!
Gostei imensamente do conteúdo e dos seus amigos.

Anônimo disse...

Drahé. Mé jméno je Gustav a já jsem jen dělal komentovat na svém blogu. Můj přítel a já vím, na Novém Zélandu je virtuální pod přezdívkou Kiwi. V každém případě se mi opravdu líbil jeho psaní. Obejmout

Enio disse...

Muito interessante!
Esse Paraná tem histórias...