quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre leitura





Antonio Rogério Magri, para quem não lembra, era um dirigente sindical que foi convidado pelo presidente Fernando Collor de Melo para ser ministro do trabalho de seu lamentável e felizmente curto governo. Magri, além de ter sido ministro canhestro e totalmente ineficaz nas lides administrativas, alçou seu nome na imprensa pela inclusão no anedotário pátrio de expressões, neologismos e ideias “originais” que não lhe dignificam a inteligência que por certo lhe acode.
Num laivo de criatividade com resquícios de espírito sindical, o ministro cunhou o termo “imexível” ao se referir aos ganhos dos trabalhadores contemplados pela CLT; em outra ocasião, promoveu sua cachorrinha a “ser humano” como qualquer outro e criou expressões outras que lhe valeram mais destaque que sua atuação no Ministério do Trabalho. Mas, o que quero lembrar aqui é a sua infeliz colocação sobre livros e leitura: “Não leio livros, pois estes tendem a influir na opinião de quem lê, acho muito importante manter minha opinião sobre as coisas”. Essa frase lapidar, em minha opinião, é a defesa pura e simples da treva do obscurantismo, é a pedra tumular sobre tudo que o iluminismo trouxe para a cultura ocidental. Nada tenho contra o ex-ministro em questão, apenas, como leitor, me sinto ofendido e custo a acreditar que existe gente capaz de expressar tal estranheza sobre o ato de ler como fonte de conhecimento.
Para efeito de compreensão sobre a evolução cultural do Homo sapiens neste Planeta considera-se duas fases distintas as quais se convencionou chamar de pré-história e história propriamente. Sendo que a distinção entre o período histórico e seu precedente reside apenas no aparecimento da escrita. Não é segredo algum que a escrita fundamentou a civilização, sem ela a humanidade estaria vivendo em aldeamentos e aglomerações sem regras ou prescrições gravadas e sem registros que perpetuassem as descobertas e invenções que viabilizaram as sociedades modernas, ou seja, mesmo que houvesse criações que melhorassem nossa qualidade de vida, não haveria memória que as tornassem disponíveis para gerações vindouras. Sem a escrita seríamos um pouco mais que apenas trogloditas, não haveria perpetuação dos saberes adquiridos através das gerações que nos precederam. É razoável supor seríamos apenas um bando pré tecnológico de rogérios magris contemplativos, pouco vestidos, a perambular pelas campinas primitivas e vivendo em abrigos toscos de troncos cobertos de folhas.
Então, ainda que o registro literário exista há menos de dez mil anos, ele é o único elo que nos mantém coesos como civilização. A leitura inicialmente foi considerada como um simples meio de entender uma mensagem. Nos dias de hoje, porém, pesquisas neste campo definem o ato de ler, em si mesmo, como um processo mental de vários níveis, que contribui de modo extraordinário para o desenvolvimento do intelecto. Em outras palavras, quem lê desenvolve uma maior capacidade cognitiva. O processo de transformar símbolos gráficos em conceitos, ideias ou objetos exige grande atividade do cérebro; durante o processo de elaboração da leitura coloca-se em funcionamento um número incontável de neurônios. Lembrando que neurônios ativados significa maiores ligações entre eles e mais ligações, igual a capacidade cognitiva mais acentuada. Equivale dizer que a leitura representa para o cérebro o que o exercício físico representa para o corpo.
O processo de leitura consiste, basicamente, de quatro passos: visualização, na qual o leitor identifica as palavras e a relação entre elas; fonação, que é quando o leitor “fala” as palavras com o cérebro; na audição o leitor “ouve” as palavras proferidas com a mente e identifica o som que elas representam; e, finalmente, cerebração que é a transformação das palavras em mensagem, a qual terá maior ou menor clareza dependendo de os vocábulos serem menos ou mais conhecidos. Equivale dizer que se alguns termos não pertencerem ao vocabulário do leitor, este terá compreensão reduzida do texto. Mas, para nossa felicidade, quanto mais lemos mais nosso vocabulário se amplia, ou seja, fazendo analogia com o corpo: quanto mais se pratica exercícios, mais fácil se torna fazê-los. Assim, em que pese haver grande número de pessoas que “não têm tempo” para se dedicar a leitura porque está assistindo novela das oito, não há processo sucedâneo que possibilite eliminar a leitura de nossa vida com alguma vantagem cultural. Para desgraça do boquirroto ex-ministro. JAIR, Floripa, 28/10/11.

14 comentários:

elvira carvalho disse...

Para mim a leitura, foi a escola e o mestre, já que outros não tive.
Um abraço

José Antonio disse...

Amigo gostei fico muito obrigado e uma boa semana.

Graça disse...

Querido Jair,

Se o Magri um dia conseguir finalmente chegar à fase da "cerebração", meu amigo, convide-me, que iremos todos juntos, leitores assíduos - de toda boa literatura - realizar uma bela "celebração" para ele, e comemorar, - em grande estilo - o grande feito para a humanidade!!!
Ninguém merece...dizem os jovens.
Sonhar é tão bom...já diz a música.

Excelente postagem, amigo, muito elucidativa.
Um grande abraço.

ELIZABETH DE LIMA VENÂNCIO disse...

Bom dia. Nada na vida me encanta mais do que o ato de ler. um exemplo é o seu texto, tão rico em informações, coisas que se não fosse você eu nunca iria pensar ou prestar atenção. Creio que a literatura, a escrita serve para nos mostrar possibilidades. se iremos escolhe-las é outra questão, que o ex-ministro precisaria saber, pois a escolha está em nós, nunca do outro.

Professor Alexandre disse...

"A leitura é para o intelecto o que o exercício é para o corpo".

Ótima postagem... ;)

Bom Feriado...
Abraços Fraternos!

Camila Paulinelli - Centaurus Medical LLC disse...

Olá,

Adorei o texto. Se nao tivéssemos a escrita, nossa historia seria contada a bel-prazer.
Inclusive nao daria para reproduzir verbalmente todos os seus textos para seus tetranetos por exemplo.
Com relação 'as pessoas ignorantes no poder, isso tem aos bocados por aí.

Beijos da nora,

J. Muraro disse...

Muito bom, imagino que existe gente que não lê. Esses são os perdedores. Boa colocação de gente que está assistindo novela por isso não "tem tempo" de ler, acho que é por aí mesmo. Para mim, leitura é sinônimo de diversão e cultura é o "efeito colateral" decorrente. Parabéns pelo belo texto.

R. R. Barcellos disse...

Há uma frase que gosto de citar: "O menor caminho entre o Homem e o saber é o livro". Frase lapidar - de um tal JCL, se não me engano.
Abraços.

Leonel disse...

Amigo, do ex-ministro Magri apenas aprovo seu amor pelos cães.
Este cavalheiro faz parte desta onda de obscurantismo que se abateu sobre a nação há alguns anos, quando a população decidiu que o país seria melhor dirigido por pessoas assim.
Pessoas que se orgulham de nunca ter lido um livro sequer!
Cada nação escolhe seu futuro!
Eu prefiro os meus livros!
E pessoas como você, amante e defensor da literatura, única diferença entre o homem civilizado e o troglodita primitivo!
Grande post, amigo!
Abraços!

Morelli disse...

"A leitura de todos os bons livros é como uma conversação com os melhores espíritos dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação estudada, em que eles só nos descobrem seus melhores pensamentos."
Descartes, in Discurso do Método.

Tais Luso disse...

Jair, seu texto está imexível! (rsrs) Lembro muito bem do tal político. Deixou um belo legado a todos...Aliás, falando francamente, não deixou nada.

'Equivale dizer que a leitura representa para o cérebro o que o exercício físico representa para corpo'.
Frase perfeita.

É lendo que se aprende, que se cresce, que se conquista; que saímos da ignorância para um mundo mais aberto e de mais qualidade. O povo, através de sua cultura, de sua história, de sua economia é que pode fazer uma nação forte. E isso se aprende lendo, estudando.

Infelizmente temos em nosso governo magníficos exemplos de pessoas que nunca abriram um livro, um livrinho... E estes, nunca tiveram e nunca terão noção de coisa alguma. É uma vergonha.

Grande abraço
Tais

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
nada mais acrescentar ao que teus sábios comentaristas disseram. Aqui teu texto serve para embalar a curtição da Feira do livro,
com admiração

attico chassot

Luci disse...

Conheci pessoas que assinavam com o polegar ;eram analfabetas, mas sabiam, como ninguém ,fazer a leitura do mundo com uma sabedoria invejável... O importante é saber separar o joio do trigo.Ter convicções próprias advindas por fontes diversas...principalmente ser críticos de livros, do cotidiano, dos políticos eleitos pelo nosso povo...
Mediocidade à vista !!! Luci

Anônimo disse...

O sábio faz a leitura do mundo nas entrelinhas dos acontecimentos...será que a inteligência depende dos registros dos fatos muitas vezes marcados por tais trogloditas?De onde vem o discernimento, a verdade?
O espírito crítico é fundamental,pena que uns são privilegiados em detrimento de tantos desfavorecidos...Luci