quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sobre dor


De acordo com a International Association for the Study of Pain: "Dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada com danos reais ou potenciais em tecidos e órgãos, ou assim percebida como tal, isto é, por se tratar de uma experiência também emocional, pode existir dor sem um real dano a qualquer parte do corpo”. E a definição continua: “A incapacidade de comunicar verbalmente não exclui a possibilidade de que um indivíduo esteja sentindo dor e necessite tratamento para alívio da mesma”, isso significa que os animais ditos irracionais, embora não possam expressar, sentem tanta dor quanto os humanos.
A dor é absolutamente subjetiva. Cada indivíduo aprende o uso da palavra dor através de experiências próprias relacionadas com traumatismos no início da sua vida. A dor é individual, particular e não pode ser delegada nem dividida, não há dor coletiva nem compartilhada. Os analgésicos e anestésicos nasceram da imperiosa necessidade de afastar dos humanos essa tão desconfortável sensação.
Os cientistas verificam que os estímulos que causam dor são os mesmos que causam provável dano nos tecidos. Portanto, a expressão “a dor é nossa amiga” se aplica plenamente, ao sentirmos o desconforto dessa sensação, procuramos evitar a causa da dor e, em consequência, a causa do dano. Para provar, basta aproximarmos a mão da chama de uma vela. Percebemos que, por reflexo, retiramos a mão tão logo sentimos dor, assim evitamos o dano da queimadura.
Por outro lado, dado a subjetividade da dor e por essa subjetividade tornar inviável a construção de um “dolorímetro” confiável que enquadre a intensidade das dores numa escala que possa comparar dores originadas em órgão e tecidos diferentes, nascem polêmicas acerbadas sobre qual ou quais as dores mais doloridas, por assim dizer.
A Bíblia é pródiga em associar dor ao parto, em Romanos (8:22) podemos ler: “a natureza criada geme até agora, como em dores de parto”. Além de, em Gênesis (3:16) está dito com referência à mulher: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores” . Ora, seja pelo fato da dor do parto ser “bíblica”, ter pedigree, por assim dizer, ou por alguma razão obscura qualquer, convencionou-se que essa é a dor mais intensa que pode acometer um ser humano. Só que, quem já teve cálculo renal, afirma de pés juntos que essa é a dor Primus inter pares, que não há dor que se compare a ela. Ainda há um adágio meio machista que afirma: “Quem acha que a dor do parto é a pior, é porque nunca levou um chute nos testículos”. E a contrapartida feminista: “Quem afirma que chute na genitália é a dor mais cruciante, tente defecar uma bola de futebol para ver”. Dessa forma, ficou estabelecido um impasse. Como já dissemos, não existe um dolorímetro, então cada um pode afirmar o que achar conveniente, em outras palavras pode puxar a brasa para sua dor. Provavelmente, as mulheres vão continuar sentindo as terríveis dores que acompanham o nascimento de mais um rebento, e os homens se queixando como bebês chorões quando levarem uma bolada na região pélvica.
Mas existe uma tribo no México que resolveu esse imbróglio de modo brilhante, criativo, com equipamento de baixíssima tecnologia e resultados surpreendentes. Os Huichol acreditam que a dor do parto deve ser partilhada por aquele co-responsável pela gravidez da mulher. Assim, a mulher em trabalho de parto agarra um cordão que fica amarrado com firmeza nos testículos do marido, e a cada contração puxa o barbante. Quanto mais intensa a contração, tanto maior o puxão.
Parece que, além de conscientizar o pai sobre o sofrimento da mãe ao parir, esse costume acarreta um “efeito colateral” de consequência social decisiva para cultura dos Huichol: tornou-se uma ferramenta eficiente no controle de natalidade. A expectativa de dor lancinante nas gônadas faz com que os maridos pensem duas vezes antes de engravidar suas mulheres, preferem a abstinência nos dias férteis delas depois de terem passado pela experiência da tortura escrotal uma ou duas vezes. Por conseguinte, os Huichol têm baixo índice de natalidade e, com isso, conseguem manter uma qualidade de vida mais elevada que seus conterrâneos que não utilizam o cordãozinho maldoso. A dor é duplamente amiga dos Huichol, de certo modo, muito mais do que para o resto da humanidade. JAIR, Floripa, 07/11/11.

12 comentários:

Cícero disse...

Fantástico! Tenho um cunhado que está no quinto filho, vou sugerir a esposa dele o cordãozinho. Abs

Tais Luso disse...

Duas coisas nos ensinam e são necessárias: a dor e o medo.

Com o medo aprendemos a ter mais cuidado com tudo, a cuidar mais dos 'riscos'. E com a dor, procuramos um médico para averiguar o que está havendo com nosso corpo.

Agora... o negócio dos irmãos lá, os Huichol, deveria ser aplicada em muitos lugares onde, principalmente, a pobreza e ignorância geram irresponsabilidades sem fim... Não tenho dúvidas quanto a um melhor controle da natalidade.

Gostei muito deste texto, Jair.
Abraços
Tais

J. Muraro disse...

Vou lançar nas redes sociais uma campanha ampla para divulgar esse método de evitar filhos. É uma maneira simples, barata e direta de controle de natalidade que pode ser adotada por famílias de baixa renda. O governo federal poderia até iniciar uma campanha de implantação do método acompanhada de um "kit sexo inócuo", o qual traria um cordãozinho e um analgésico para aliviar a dor depois. Parabéns pela postagem.

R. R. Barcellos disse...

Ainda acho que o melhor método de controle populacional é a laranjada. Não "antes" nem "depois": "em vez de"...
Abraços.

Professor Alexandre disse...

Ótimo texto...
Muitas vezes a dor é necessária ao aprendizado!
Parabéns pela postagem Nobre Colega...

Vida Longa e Próspera!

Luci disse...

Estou rindo,muito interessante!Imaginação fantástica- aparelho "dolorímetro".É tentar criar e patentear!...dai surgiriam novas estatísticas,para medir a dor física, a emocional...As fórmulas para aliviá-las...
O cordãozinho,solução barata rápida e eficaz para o controle da natalidade,mas gera o conflito entre a dor e o prazer...Gostei
do texto.Luci.

Daniela disse...

Excelente texto!!! Realmente o método 'Huichol' é de excelente qualidade e demonstração de compartilhamento de dor. E muito bom reforçar a afirmação de que os animais sentem dor, só que não conseguem se expressar com palavras, mas expressam através de seu comportamento. E, realmente, as características da dor são únicas, individuais... cada um tem um limiar para dor, tolerando mais ou menos... mas de qualquer maneira é a demonstração do corpo de que algo não está em harmonia, e deve-se averiguar! Outro tópico seria o questionamento da dor emocional (saudade, coração partido...). Adorei o texto!!

Leonel disse...

Seria legal se adotassem aqui no Brasil método de controle Huichol!
Por certo haveria menos casos de paternidade irresponsável!
Abraços, amigo!

Morelli disse...

Mandas-me, rainha, renovar uma dor indizível (infandum, regina, jubes renovare dolorem).
Palavras de Enéias ao rememorar, a pedido de Dido, rainha de Cartago, a história da queda de Tróia.
Virgílio, in Eneida, II.

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
realmente trazes algo com sabedoria: a subjetividade da dor, Há uns 10 anos quebre a tíbia e o perônio (parece que agora: fíbula e perônio) em uma queda produzida por um resvalo na garagem, Ao diagnóstico de um entorse o médico colocou bandagens em sucessivas consultas intermediadas por uma viagem de ônibus a Joinville com atividade em três turnos, uma viagem de avião de ida e volta no mês dia a São Paulo (e se caminha em Guarulhos), aulas de rotina a 30 km de Porto Alegre. Depois de quatro semanas o medico disse: vamos fazer outro raio X! Outro, não, doutor: o primeiro. Só então foi detectada a fratura e a exigência de cirurgia. Parece que o meu dolorímetro ~~ proposto pela Luci ~~ estava com a bateria fraca.
Valeu. Obrigado por nos ilustrar

attico chassot
http://mestrechassot.blogspot.com
www.professorchassot.pro.br

Camila Paulinelli - Centaurus Medical LLC disse...

Ola,

Esta foi hilária.

Fiquei imaginando o homem passar cada dor feminina, um outro exemplo seria a dor de cólica menstrual - uma paulada no dorso do sujeito. Rs... E por aí vai.

Brincadeiras a parte, acho que cada gênero tem que aceitar sua dor.

Beijos da nora,

Tiago disse...

Olá Jair!

Meu nome é Tiago Gomes e eu estava pesquisando sobre tribos que adotavam o costume de amarrar cordas aos testículos na hora do parto e encontrei seu post do dia 10 de novembro (http://jairclopes.blogspot.com/2011/11/sobre-dor.html).

Gostaria de saber se você pode me indicar, por gentileza, onde você ficou sabendo desse costume dos índios Huichol.

Preciso de uma referência, pois estou montando um estudo sobre partos naturais e o papel do homem nesse processo.

Agradeço pela sua atenção e parabéns pelo seu blog.

Até mais.

Tiago Gomes