domingo, 2 de outubro de 2011

Submarinos



O afundamento de dezenas de navios mercantes brasileiros efetuados por submarinos alemães e italianos, nas costas do país durante a segunda guerra mundial, é um assunto muito interessante abordado com grande competência por meu amigo Leonel no "O Asteroide". Também publiquei “O Supérstite”, texto que contava a história de um médico brasileiro que foi vítima de dois torpedeamentos e sobreviveu. Ainda que esses fatos sejam uma realidade cruel e dolorosa e provem a capacidade técnica e bélica dos perpetradores europeus, deixam certo sabor de mistério de como submarinistas alemães e italianos conseguiam informações válidas para, depois de atravessar um oceano de distância, chegarem aos pontos certos e nos horários corretos para encontrar os navios vítimas de seus torpedos. Como essas mortíferas embarcações reabasteciam ou faziam manutenção se necessário? Como funcionava a logística dessas operações complexas?
Como sabemos, os três estados sulinos foram objeto de migrações maciças de europeus desde o século dezenove até inicio do século vinte. Em consequência desses deslocamentos temos aqui na região muitas colônias de descendentes de europeus as quais colorem e dão um tempero especial à cultura e aos costumes dos brasileiros. Não só isso, a nacionalidade, o idioma e os costumes dos imigrantes geralmente foram preservados, de modo que, durante a guerra, não foi nem um pouco estranho ou surpreendente que muitos emigrados alemães “torceram” pela vitória de seu país e alguns até se voluntariaram para lutar ao lado dos nazistas.
O que não se sabe até hoje é qual papel os imigrantes que aqui ficaram tiveram com relação aos submarinos que “visitavam” nosso litoral e causaram tantos transtornos aos navios da marinha mercante brasileira e fizeram tantas vítimas indefesas. A respeito dessa atuação tenho algumas informações e conjeturas interessantes.
Tive um professor no ginasial de nome Jurandir Araujo o qual, durante a juventude, fora um “Marumbinista”, ou seja, na década de cinquenta havia pertencido a um grupo de desbravadores montanhistas que se dedicavam a explorar o pico Marumbi (1847 metros, considerado o ponto culminante do estado) e as cercanias da Serra do Mar próximo à cidade de Morretes. Pois bem, nos contava ele que seu grupo de montanhistas fora o primeiro a desbravar a trilha que subia até o pico Paraná e descobriu que este era mais alto que o Marumbi. Mas, o mais interessante é que, apesar de não haver trilhas que levassem ao Paraná e nem qualquer meio razoável para lá se chegar, eles encontraram escondido na mata, bem no cume, uma estrutura de ferro. Uma torre treliçada com trinta metros de comprimento dessas que suportam antenas de transmissão. Não havia qualquer registro de rádio ou órgão do governo que tivesse colocado aquela estrutura naquele local. Pelo que se sabia ninguém jamais havia escalado aquele pico. Uma investigação posterior feita entre os habitantes da zona rural de Morretes moradores de área próxima, deram conta que a antena fora colocada por “alemães” na década de quarenta. Havia (ainda há) colônias de imigrantes germânicos nas proximidades.
Em fevereiro de 1941 o Navio “Sea Cloud” de bandeira da África do Sul, comandado por um capitão supostamente argentino Sigfried Blaffert e com tripulação “argentina”, atracou no porto de Antonina para descarregar trigo que o Brasil normalmente importava do país platino. O “Sea Cloud”, além do trigo também desembarcou três passageiros “argentinos” que apesar do passaporte atestar sua nacionalidade platina, falavam apenas um pouco de espanhol com carregado sotaque germânico. Tratava-se de passageiros incomuns, meio misteriosos e caladões os quais se hospedaram na Pensão da Dona Custódia com uma bagagem não menos estranha: malas ou baús de madeira os quais eles carregavam com bastante cuidado e dos quais não distanciavam o olhar em momento algum. Na noite do segundo dia de hospedagem foram visitados por um indivíduo de capa e chapéu sobre os olhos carregando uma pasta, e que perguntou também com sotaque alemão para a empregada onde eles estavam. Visitou-os por um pouco mais de uma hora e saiu sem a pasta. No outro dia os visitantes pagaram a pensão e saíram com suas bagagens rumo a estação onde, se supõe, pegaram o trem para Curitiba.
Os rumores sobre esses estranhos personagens se espalharam o que encetou uma discreta verificação por parte Paulo Wendt, delegado de polícia. O pouco que ele descobriu ficou registrado no jornal “O Vespertino” de Paranaguá: O visitante misterioso provavelmente era o cônsul alemão creditado em Paranaguá e que sumiu após aquele dia. Dizia-se que partiu para local desconhecido. Os “visitantes” nunca foram encontrados. Mas, afirmava-se, eles eram técnicos alemães em eletrônica e comunicação por rádio e suas bagagens eram aparelhos de transmissão de última geração fabricados na Alemanha.
Quando morei em Florianópolis, na década de sessenta, conheci um militar da ativa que havia servido na Marinha de Guerra e fora transferido para a FAB em 1941 quando da criação do Ministério da Aeronáutica. Ele servira no então Destacamento de Base Aérea de Florianópolis onde participou durante a guerra de missões de patrulhamento do Atlântico Sul a bordo dos aviões PBY americanos, então lotados naquele Destacamento. Eu havia notado na selvagem e deserta praia do Morro das Pedras - local totalmente fora de qualquer circuito praiano freqüentável pelos nativos e turistas - três estranhas construções de tijolos bem deslocadas e aparentemente sem qualquer utilidade. As edificações mediam três por três metros e tinham portas de ferro voltadas para o mar, nada indicava para que teriam servido algum dia. Moukarzel, o militar citado, disse-me que as obras teriam abrigado bombas de recalque de combustível para submarinos durante a guerra. Caminhões contendo óleo diesel estacionavam no local, o submarino emergia nas águas profundas, abrigadas e discretas da praia e marinheiros conectavam mangueiras às bombas que, acionadas, levavam o combustível para a embarcação. Imigrantes alemães, propositalmente donos de postos de combustível, eram os supridores dos submersíveis.
Se somarmos dois mais dois fica fácil perceber como se fazia a comunicação com os guerreiros marítimos que perpetravam estragos em nossa costa. E o suprimento de combustíveis para suas máquinas mortais está explicado. Quem quiser, pode enxergar porque era tão fácil a missão deles, especialmente no sul do país. JAIR, Matinhos, 07/09/11.

8 comentários:

Leonel disse...

Eu também fui criado no sul, no período pós-guerra, e lembro bem desta atmosfera onde havia muitas histórias de "quinta-colunas", como eram chamados os supostos colaboracionistas do regime nazista.
Algumas, talvez com base em boatos ou antipatia, mas seria muita ingenuidade ignorar que haviam muitos simpatizantes do regime alemão, principalmente nas colônias germânicas do sul.
E, na época citada, o Brasil ainda mantinha neutralidade, sendo governado por um regime que nutria bastante admiração pelo nazismo.
Quando o Brasil entrou na guerra, já havia um rede significativa de espiões no nosso território, como mostra o livro O BRASIL NA MIRA DE HITLER, de Roberto Sander.
Operando tão longe de suas bases, sem dúvidas estes submarinos receberam ajuda em território sulamericano, inclusive no Brasil.
Fatos muito interessantes estes da torre no pico da montanha e dos "postos" costeiros de reabastecimento!
Ótimo resgate da história secreta!
Abraços!

Cícero disse...

Caramba! Minha cabeça deu um nó! Sempre ouvi meu pai contar que os alemães não tinham motivos para atacar navios brasileiros, ainda mais da marinha mercante, contava também que os ataques foram feitos por submarinos americanos fingindo ser os alemães para forçar o Brasil a entrar na guerra.
Eu era muito pequeno quando meu pai contava essas histórias, não estava muito interessado nos detalhes, agora que ele não vive mais, será impossível saber se havia verdade no relato ou seria mais um boato contado na época da guerra.
Abs.

JAIRCLOPES disse...

Cícero,
Atacavam porque os navios brasileiros levavam materiais como mica, diamantes industriais, café, óleo de mamona, carvão etc para o esforço de guerra dos aliados. Recentemente a família Schulmann (aquela que praticamente vive num barco) encontrou um submarino alemão afundado aqui nas costas de Santa Catarina. Aqueles boatos que os americanos estavam atacando nossas embarcações, surgiram porque a ditadura de Vargas ainda não tinha se definido a quem apoiar na guerra e aos Camisas Verdes de Plínio Salgado convinha espalhar essas falsas informações para criar um clima anti americanos que facilitaria o Brasil acolher a ideologia de Hitler. Abraços, JAIR.

R. R. Barcellos disse...

Você, meu amigo, descobriu uma cortina espessa de fumaça na nossa História. E onde há fumaça há fogo!
Abraços e parabéns.

Professor Alexandre disse...

Excelente! Um dos assuntos que mais gosto de abordar em sala de aula é a 2 Guerra Mundial, e com certeza com essas informações que até o presente momento eu desconhecia, minhas aulas ficarão muito mais interesantes... Adorei o texto! Parabéns!!!

Vida Longa e Próspera!

J. Muraro disse...

Muito bom. Essas implicações são previsíveis, porque é humanamente impossível que os migrantes que aqui estavam não sentissem patriotismo por seus países. Ao fazer algo em prol dos nazistas eles, com toda certeza, achavam-se imbuídos de amor à pátria. Esse texto está memorável, deve ser preservado difundido, não deve ser esquecido. Parabéns.

elvira carvalho disse...

Muito interessante o texto, que explica factos que de outro modo são difíceis de entender, na história recente.
Um abraço

João Alfredo disse...

"SUBMARINO". respondeu minhas inquiriçõe como os submarinos alemães vinham afundar navios mercantes na Costa Brasileira tão distante da Europa.
João ALFREDO de Oliveira.