quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Livros e cães



Certa vez quando eu tinha doze ou treze anos e cursava o antigo Ginasial, estava absorto lendo um livro na biblioteca quando minha professora de português, Maria Jamur, - a qual nunca desperdiçava uma única palavra, jamais jogava conversa fora – aproximou-se assim como não querendo nada, mas, olhando-me nos olhos com uma intensidade desconcertante, e, com uma reverência que eu a julgava incapaz de manifestar, falou-me algo que ficou gravado em minha mente e que , ainda hoje, continuo lembrando como se tivesse acabado de ouvir.
Embora se espere que os livros possam mudar ao longo dos tempos
(futurologia? os livros eletrônicos de hoje parecem corroborar essa previsão), assim como as pessoas também o fazem, a diferença está em que, as pessoas sempre se afastam quando percebem que não podem obter nenhuma vantagem, interação positiva, prazer, interesse ou pelo menos um momento aprazível em nossa companhia, um livro nunca nos abandona. Nós com certeza vamos abandoná-lo, algumas vezes por muitos anos, ou até para sempre talvez. Mas eles, os livros, mesmo traídos ou maltratados, nunca vão nos dar as costas: vão continuar esperando por nós silenciosos e humildes nas prateleiras ou nos cantos e porões onde foram deixados. E eles nos esperam por dezenas de anos, só sua destruição por traças, umidade ou fogo, impedirá que eles estejam à nossa espera. Não se queixam e não se cansam. Até que um dia qualquer, quando nós precisamos de um deles, quando sentimos necessidade de folhear suas páginas silenciosas e sábias, mesmo que seja numa noite chuvosa ou num dia frio, ou mesmo que seja um livro velho e maltratado que tenhamos jogado num canto sem qualquer cuidado, e que tenha ficado esquecido por muitos anos, ele não vai decepcionar-nos – descerá da prateleira poeirenta ou sairá de seu canto úmido e bolorento e virá conviver conosco como se nada tivesse acontecido. Não fará cobranças, não inventará desculpas e não perguntará se vale a pena, se ele nos merece, se nós o merecemos, se nós temos ainda algo a ver com ele, ou se tem algo a ver conosco, mas virá às nossas mãos no momento que nós quisermos, jamais fugirá ou nos trairá”.
Hoje, refletindo sobre isso, descobri porque gosto igualmente de cães e livros. Livros e cachorros são as duas faces da mesma moeda, a moeda da fidelidade. JAIR, Floripa, 24/09/11.

16 comentários:

Anônimo disse...

È verdade Jair! Sou muito apegada aos meus livros,muitos deles me esperam para serem lidos... Muitos já foram doados na Biblioteca Pública, para os primos que tem filhos...e, um deles que li,sem você o saber ,por influência do seu blog... Já mudei de residência algumas vezes,e eles são os primeiros a serem embalados...O seu está junto,o escritor motivador por excelência!!!Luci.

Cícero disse...

Sensível, inteligente e direta, gostaria de ter conhecido sua professora.

Andre Martin disse...

Sem dúvida, dela é uma visão apaixonada sobre o que é ser livro!
Sem dívida, cabe a nós compreendermos o que vivenciamos ao ler livro!

E com toda razão, o paralelo do descrever da sua professora sobre o comportamento dos livros, em comparação ao dos cães, faz todo sentido.

Os cachorros até podem ter traumas, mas vivem constantemente o presente, sem mágoas, sempre prontos a aprender e a brincar com seus "donos".

Quer dizer então que livro tem alma de cão?

R. R. Barcellos disse...

Abrir um livro é embarcar numa aventura. Relê-lo esporadicamente é folhear um álbum de fotos. Condená-lo ao ostracismo de uma prateleira empoeirada é aprisioná-lo.
Abraços.

Guilherme Schnekenberg disse...

Muito bom!

E nós às vezes podemos ser tão negligentes com estes seres inanimados que nos oferecem tanto. Assim como os cachorros, animados, que também estão sempre ao nosso dispor!

Excelente texto, abraços!

Tais Luso disse...

Esta dupla é imbatível! E você falou em livros cobertos de poeira, traças etc. Mas uma das minhas paixões são os sebos, onde encontro o que foi desprezado!

E cães... bem, sem eles a vida não tem graça. Dizem que para uma família se completar, só existindo nela, um cão! Acredito, sim, eles nos ensinam tanto!

Abraços, Jair.
Tais

Leonel disse...

Grandes verdades!
Duas entidades das mais fiéis e confiáveis são os livros e os bichos, principalmente os cães.
(Minha gatinha não gosta muito quando eu falo isto!)
Só não dá para confiar é em quem nos pede livros emprestados!
Abraços, Jair!

J. Muraro disse...

Concordo completamente. Tenho um cachorro cuja fidelidade é um fato incontestável e os livros não nos deixam na mão jamais. Gostei da potage, parabéns.

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
quando a chamada deste texto, no Dia Nacional da Leitura tentei imaginar que assemblage farias com cães e livros. Saíste bem. Parabéns! Para mim é algo impensável, pois nunca me afeiçoei a cães. Na minha infância, a visceral repulsa de minha mãe a cachorros e gatos. Com meus filhos aprendi tolerá-los e os fiz até personagem de algumas historias infantis. Agora, minha resistência a qualquer cativeiro, permite-me ter apenas seis lindas carpas que tem ‘serventia’ para devorarem larvas de mosquitos de uma fonte que tenho em meu jardim.
E os livros: estes são meu xodó. Permitem a única vazão a meu lado consumista e pior, possessivos. Mesmo os já inservíveis continuam presente em uma biblioteca de cerca de 3,5 mil livros. Tenho discutido com os administradores de bibliotecas (especialmente universitárias) que para esta não se faz seguro e sim se aumenta a segurança.
Com admiração,

attico chassot

Professor Alexandre disse...

Ótimo texto!
Depois de lê-lo (mais de uma vez para melhor absorver sua essência)fiquei na dúvida se gosto mais de Cães ou de Livros... Sinceramente não tenho resposta pra isso, pois se por um lado concordo com Victor Hugo quando o mesmo afirma que "O cão é a virtude que impedido de tomar a forma humana, fez-se animal". Também concordo com Franz Kafka quando o mesmo diz que "Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós." Por hora, vou afirmar que para mim seria impossível ser feliz, tanto sem "um" quanto sem o "outro"...
Parabéns pelo texto!

Abraços Fraternos...

Anônimo disse...

Prezado,

Sensível texto!

Me fez perceber que sou humano e não um livro.

Pela fidelidade, como sabe, sou fã de cães e os protejo tanto que se para isso tiver que colocar minha vida em risco, não pensarei duas vezes. Volto a lembrar, tenho mais de 30 em minha casa.

Agora, convencido pelo texto, vou dedicar-me também aos livros, ou seja, vou montar uma "sebo", pois adoro "fidelidade".

Grande abraço,

Taxista (8451-6252 às suas ordens!)

estranhasedução2012 disse...

Um texto simples, mas que falou tudo! Sou que nem você, adoro livros e cães, só que não sei se é na medida exata, acho que dependo do momento... mas ambos são muito importantes!
Parabéns pelo texto Jair.
Beijos, Duda

MARILENE disse...

Relativamente aos cães, nada posso dizer, pois não os tenho. Apenas me lembro que meu pai nos ensinou a tratar bem os animais, evidenciando que os cães são grandes amigos.
Já os livros, são excelência na vida. Companheiros que nunca se ausentam.
Sua professora demonstrou sabedoria em seus ensinamentos.

Bjs.

Zilda Santiago disse...

Amo meus livro.Amo ler no papel.Texto muito longo imprimo pra ler.Amo os livros em geral e ler é fundamental.Bjsss

Maria Emilia Xavier disse...

Essa sua postagem me encantoupela verdade e transparência da sua conclusão. Perfeita!

Otávia Pequeno disse...

Sensível, lindo...