quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sobre a beleza


Andei incursionando pelas artes plásticas – desenho e pintura - durante um período de descobertas o qual me proporcionei depois que deixei a Força Aérea. O universo das artes visuais sempre fascina pelas formas e movimentos que cria e, geralmente, pela beleza que apresenta, seja em esculturas, pinturas, modelagens, colagens, cerâmicas e toda uma variedade de técnicas que foram desenvolvidas por pessoas sensíveis, os chamados artistas, que tentam aprisionar o belo e apresenta-lo ao público. Mas, o que é realmente a beleza? Existe definição de beleza? Existe fórmula matemática de beleza?

Pois é, as definições de beleza talvez sejam tão numerosas quanto a quantidade de pessoas que tentam defini-la, afinal: “a beleza está nos olhos de quem a vê” ou “quem ama o feio, bonito lhe parece”, não é mesmo? Mas, independente da retórica ou das áreas de abordagem do tema no campo filosófico, artístico, literário, antropológico e científico, descobriu-se que existe consenso, ainda que de maneira não consciente, quando se trata de beleza visual. Beleza é simetria.

Cientistas construíram experimentos para “medir” a quantidade de beleza de um rosto a partir de observadores absolutamente isentos de influências culturais como a mídia e outros meios, crianças de colo. Sim, crianças que, tecnicamente, não têm ainda capacidade de ser influenciadas pelo que os mais velhos entendem o que é e o que não é belo. Bebês de colo foram colocados frente a duas fotos: 1 - de uma mulher considerada bonita, uma atriz ou modelo famosa; 2 – uma mulher “normal” que pelos padrões atuais não seria considerada bonita. Durante algumas horas mediu-se a quantidade de tempo que as crianças olhavam para atriz e para a outra foto. A experiência contou com um número enorme de crianças, uma de cada vez para não sofrerem influência das outras; várias fotos, tanto de atrizes e modelos famosas como de mulheres comuns; e ambiente isolado de sons ou imagens que pudessem atrair a atenção dos bebês. O resultado mostrou que os bebês olhavam mais para o rosto “bonito” do que para o comum, na ordem de oitenta por cento para os primeiros contra vinte para os outros. O mais interessante ainda é que entre os rostos “comuns”, às vezes aparecia o rosto da própria mãe da criança e, ainda assim, o rosto bonito era mais notado.

Bem, até aqui o que se deduziu é que gente sem influências culturais evidentes opta por um rosto “bonito” em contrapartida a um rosto “normal”, mas qual a diferença entre um e outro?

Antes de responder quero falar sobre o Cânone de Vitruvio. Marco Vitruvio Polião, foi um arquiteto romano que mediu o corpo humano e estabeleceu as proporções “ideais” do que seria um corpo perfeito, segundo o padrão clássico de beleza. As medidas estabelecidas por ele são chamadas Cânone de Vitruvio. Atualmente quando se estuda desenho, principalmente o nu artístico, têm-se que levar em consideração o Cânone com suas proporções matemáticas quase exatas para depois divergir, ou seja, o artista conhecendo a ortodoxia pode criar em cima, algo assim como o escritor que conhece o vernáculo e então cria seus próprios neologismos e construções gramaticais, Guimarães Rosa e James Joyce eram verdadeiros mestres nessa arte. E arte é isso.

Pois bem, o que o Cânone nos ensina é que, além das proporções, corpo bonito tem simetria, ou seja, um lado é, aproximadamente, espelho do outro. Um rosto, quanto mais simétrico mais bonito. E daí? Daí que os cientistas descobriram, medindo, que os rostos mais observados pelos bebês eram mais simétricos que os menos observados; que o rosto da Michelle Pfeiffer, por exemplo, é mais simétrico do que o rosto daquela simpática senhora que serve cafezinho na repartição, mas não é especialmente atraente. Assim, na arte como na vida comum, beleza e simetria estão fortemente ligados. Mas, e na natureza?

Bem, na natureza, Darwin descreveu o que ele chamou apropriadamente de “Seleção sexual”, que é a escolha do(a) parceiro(a) para procriação visando proles mais aptas à sobrevivência num ambiente que não facilita a vida dos menos dotados. Então, o que existe são sinais que os animais observam nos potenciais parceiros os quais indiquem que, se cruzarem, os descendentes serão saudáveis. Quais sinas? Simetria é a resposta. Beleza, em outras palavras. A maioria dos animais demonstra forte atração pela simetria, possivelmente porque ela é indício confiável de boa saúde. Até grupos humanos não contaminados pelos preconceitos culturais da civilização se comportam desse modo. Em um estudo, David Waynforth, da Universidade do México, mediu a simetria nas faces dos homens de Belize e descobriu que aqueles que tinham rostos assimétricos eram mais suscetíveis de adquirir doenças graves. Não é de admirar que fêmeas humanas de tribos primitivas, como os aborígines australianos, prefiram os machos com caras mais simétricas (bonitas).

Os pavões machos se reúnem e expõem suas belas caudas às fêmeas, e estas, segundo observação feitas por cientistas, escolhem aqueles que apresentam caudas mais simétricas. Para o estudo foram retiradas penas de alguns rabos, que, embora grandes e coloridos haviam deixado de ser simétricos, as fêmeas escolheram machos com rabos menores e menos vistosos, mas simétricos.

É claro que a civilização, com suas interferências estéticas e econômicas, veio embolar o meio de campo do Homo sapiens, as referências culturais são a regra de escolha na sociedade humana. Mulheres que fazem upgrade em clínicas de cirurgia plástica, spas de emagrecimento e salões de beleza acabam obnubilando a tendência natural atávica do Homo em escolher as mais simétricas = bonitas = saudáveis, e estes acabam escolhendo as mais “produzidas” embora nem sempre mais saudáveis. No lado oposto ocorre fenômeno igual, as fêmeas, contrariando suas mensagens genéticas, escolhem os homens pelo volume da conta bancária ao invés da simetria e beleza, embora esta, se aliada ao dinheiro, seja a preferência de onze entre dez mulheres. Só que esse assunto antropológico é tão complexo, extenso e interessante que fica para outro texto. JAIR, Floripa, 15/07/10.

8 comentários:

Leonel disse...

Jair, se eu entendi, até pela natureza dos experimentos,a beleza de que o seu artigo trata é a beleza dos animais, incluindo o homo sapiens. Nestes seres, pelas regras da natureza segundo as quais foram criados, a assimetria só me ocorre como um defeito. A simetria, neste caso, é um requisito mínimo para a normalidade.
Porém, em outras obras de arte plástica, figuras ou formas abstratas podem ter beleza mesmo sendo assimétricas. Assim, eu creio que cabe acrescentar à sua colocação que beleza é simetria quando se trata do reino animal, incluindo é claro, os seres humanos.

R. R. Barcellos disse...

- Discordo um pouco do Leonel. Vitrúvio é apenas um padrão, como frisou bem o Jair, que liga a "beleza ideal" à "beleza material", através de um atributo (simetria). Vale o conceito tanto para uma ameba como para um diamante. Mas o conceito clássico de beleza como "simetria" só é válido entre seres com acuidade visual acentuada, como homens, pássaros e chimpanzés. Amebas e caracóis pouco ligam para a simetria. Os feromônios são mais importantes para eles.

R. R. Barcellos disse...

- Complementando: salvo engano (o Jair me corrija, se for o caso), Vitruvio edificou seu Cânone não só na Simetria, mas também em outras propriedades geométricas (como a proporção áurea), bem conhecidas na época. Por isso, seus conceitos se aplicam também aos reinos vegetal e mineral, embora focados na representação do corpo humano.

JAIRCLOPES disse...

Barcellos,
Você tem razão, Vitruvio era um artista que adorava projetar construções obedecendo as "proporções áureas", e via o ponto de ouro na totalidade da natureza.
Quem, como nós, leu Malba Tahan sabe o quanto é elegante, atraente e até poético um objeto apresente aquelas proporções. A descoberta dos fractais só veio confirmar que a natureza baseia-se na simetria e usa proporções compatíveis com as áureas. Algum dia ainda escrevo sobre isso. Abraços, JAIR.

JAIRCLOPES disse...

Leonel,
Sem dúvida, as criações artísticas assimétricas podem ser bonitas. Como a subjetividade de quem olha é que torna a coisa feia ou bonita, vale o adágio "A beleza está nos olhos de quem vê".
Talvez eu não tenha sido claro, até por falta de espaço, o que tentei passar é que, mesmo os artistas plásticos como Picasso, que viam assimetria em tudo, para alcançar esse estágio, passavam pelo conhecimento da simetria. Ao entender a simetria os artistas a subvertem, mas sempre deixam uma margem para que o espectador olhe e veja que aquilo é uma representação assimétrica de algo simétrico. A mulher do Picasso com um olho na testa e uma orelha no queixo é a maneira "artística" dele representar o belo, ainda que o belo esteja subjacente na tela. Abraços, JAIR.

Leonel disse...

Eu me rendo aos esmagadores argumentos.
Só quem não estava ligando muito para a simetria era um projetista do estaleiro alemão Blöhm und Voss, que projetou uma aeronave bem estranha. Veja em:
http://www.vrcurassow.com/2dvrc/sscuracao/BlohmundVoss.html
Não era nada bonita, mas dizem que tinha excelentes características de vôo.

Daniela disse...

Mudei meu conceito de beleza, racionalmente nunca tinha reparado na simetria! Mas dá para entender que no fundo tudo que é simétrico é belo aos nossos olhos! Qualquer anormalidade, diferença, desequilíbrio leva a um outro olhar e, em alguns casos, nos humanos, à exclusão social, piadinhas de mau gosto, insultos etc... mas o que será que leva a assimetria? É genético?? Ou molde da natureza? Erro de fabricação?? Não sei se o que é belo seria só simetria, mas questão de gosto e cultura tbm influencia!! É complexo!! Mas o texto é um show de informações incríveis!! Tudo que eu leio aqui eu morreria sem saber!! Rsrsrs...

gorettiguerreira disse...

“a beleza está nos olhos de quem a vê” ou “quem ama o feio, bonito lhe parece”
Belo espaço com informações diversas Jair.
Super interessante seus textos.
Obrigada por seu carinho e um beijo de luz. Te sigo.
A beleza é também a corrente de elos formados aqui por "Blogueiros."
Goretti Albuquerque