sábado, 10 de julho de 2010

A Utopia


Anarquistas posando para foto.

Quando a revolução social se instalou em Palmeira.
Tenho a discutível honra de ter nascido na cidade de Palmeira, situada no planalto dos campos gerais do Paraná, local onde foi tentada na prática a única experiência de comunidade anarquista que se tem notícia na história da humanidade, a Colônia Cecília.
Tudo começou quando um movimento capitaneado por Giovanni Rossi, filósofo anarquista, pregava o anarquismo como forma de combater a pobreza, no norte da Itália em fins do século dezenove. Mas, vamos ver como o Brasil entra nessa jogada. Lembram que quando a Princesa Isabel aboliu a escravidão Don Pedro II encontrava-se na Europa? Pois é, o velhinho havia ido à Itália, em abril de 1888, para tratamento de saúde. Não é que Imperador toma conhecimento da obra “Il Commune in Riva al Mare”, de Rossi, e, logo ele um Monarca com pedigree impecável, mostra-se interessado pelo conteúdo humano dos escritos do revolucionário? Coisas que a História não consegue explicar. Os textos descreviam uma hipotética experiência anarquista em país americano, onde individualismo livre só cederia ao coletivismo se estivesse totalmente impregnado de egoísmo, onde o ideal de liberdade suporia amor livre, inexistência da propriedade privada, ausência de qualquer dogmatismo. Já em agosto, após o regresso ao Brasil, D. Pedro II escreve ao jovem professor, oferecendo-lhe oportunidade de efetivar, na região sul brasileira, na Província do Paraná, a consecução de seu ideal. Estava lançada a pedra fundamental do Anarquismo na minha cidade.
No Brasil, o Imperador havia implantado uma política de migração de europeus pobres com intuito de ocupar áreas de solo fértil e escassamente povoadas. Dizem que por trás da nobreza do gesto estava a intenção de “branquear” a população brasileira através da miscigenação, contudo, nada se comprova a respeito. Como havia fracassado uma primeira tentativa de trazer colonos alemães para o município de Palmeira, o Monarca resolveu oferecer aos seguidores de Rossi trezentos alqueires de terra antes destinados aos germanos. Veio o último baile da Ilha Fiscal, o Império ruiu, a República se instalou, mas a oferta do Imperador continuou em pé.
Na Itália, Rossi, através do semanário Lo Sperimentale, continuava sua campanha de convencimento junto a intelectuais, lavradores pobres e financiadores com a meta de conquistar pessoas para o experimento. Diga-se, Rossi e os demais utopistas eram perseguidos pelo poder e não tinham uma vida fácil, uma razão a mais para ansiarem por fazerem as malas. Enfim, a 20 de fevereiro de 1890 zarparam de Gênova cerca de 150 anarquistas italianos. Chegando ao planalto dos campos gerais, instalaram-se no que seria o núcleo Cecília em abril de 1890. Com o lema, “Um ideal na cabeça e solo fértil sob os pés” fundaram o que seria a primeira colônia agrícola anarquista do Planeta. Estava iniciada a Utopia!
Concluídas as habitações individuais para os casados, e coletivas para os solteiros, dividido racionalmente o trabalho, respeitando a habilidade individual de cada um, iniciou-se o plantio de milho, produto ideal para o cultivo naquelas circunstâncias. No começo, tiveram condições de subsistirem e laborarem a terra graças aos poucos recursos que trouxeram, aos instrumentos de trabalho que adquiriram e à compra de sementes e mantimentos. No entanto, viram-se obrigados, mais tarde, a procurar tarefas que lhes proporcionassem o sustento até que pudessem viver tão somente das atividades do núcleo. Os anarquistas concentrados, uns na lavoura, outros em empreitadas contratadas junto ao governo para a construção da estrada de rodagem Serrinha-Santa Bárbara, recebiam salários semanais que auxiliavam os companheiros da Colônia. No suor de cada dia, os anarquistas plantaram mais de oitenta alqueires de chão, na área em que lhe foi cedida, mais dez quilômetros de estrada construíram com pás, picaretas e carrinhos de mão, em época onde inexistiam máquinas nem tratores. Um barracão coletivo, vinte barracões individuais, celeiros, casa da escola, moinho de fubá, tanque de peixes, pavilhão coletivo, que também servia de consultório médico, viveiro de mudas, poços, valos, pomar de peras, estábulos, tudo denunciava dinamismo. Proporcionalmente ao suor do trabalho, cresceu a interação das famílias com a população das cidades circunvizinhas.
Só que, se o trabalho duro sem tréguas lhes trouxe alguma esperança de conquistar seus sonhos, o mesmo não acontecia quando se tratava da relação com os poderes, secular e religioso; também não contavam com a iniquidade humana nas suas próprias fileiras. Já os padres de Palmeira queriam chamar a colônia de Santa Cecília, denominação frontalmente contrária ao espírito laico da comunidade; também insistiam no intento de batizar as crianças ali nascidas, evento que os anarquistas se opunham. As autoridades municipais, por sua vez, davam ouvidos a boatos que ali se praticava o “amor livre”, verdadeira aberração que ofendia a pudicícia da sociedade palmeirense. Não fossem esses contratempos, o governo da República não havia honrado compromisso que o Império assumira de fornecer escrituras definitivas das terras aos anarquistas; e, mais ainda, surgiram na colônia desavenças sérias sobre uso dos recursos comuns que, produto do labor de todos, eram guardados para uso coletivo. José Gariga, tesoureiro e agente de compras nas cidades vizinhas, sumiu e levou com ele o que havia na caixa comum, deixando a comunidade a ver navios. No somatório de crises que vivia o núcleo, o furto representou a mais considerável, porque violentou a ordem anárquica dominante. A semente da desconfiança nascera com o episódio, e poucos demonstraram interesse em tentar tudo de novo, partindo do zero, sem dinheiro e sem confiança no próximo. Oportunidades de trabalho em outras comunidades, vantagens materiais em cidades servidas de luz, água, diversões, fizeram com que o núcleo fosse, aos poucos, abandonado. Em 1897 o sonho estava acabado.
A utopia terminou e uns poucos colonos continuaram vivendo na colônia que passou a plantar e colher uvas do modo tradicional, e a fazer um vinho até palatável para sobreviver. E aqueles que saíram, o que foi feito deles? Bem, Mezzadris, Agottanis, Gubertis, Fornaris e outros decidiram se instalar em Palmeira e seus descendentes se mesclaram com os locais e lá vivem até hoje. Uns poucos se dispersaram pelo país e alguns se tornaram empresários como os Rossi que fundaram a fábrica de armas; os Cini montaram uma empresa de refrigerantes em Curitiba; os Gattai foram para São Paulo e deram origem a Zélia, escritora de sucesso e mulher de Jorge Amado. Aliás, a experiência anarquista de seus antepassados deu azo para que ela escrevesse, “Anarquistas, graças a Deus”, livro que virou best seller.
E nós, palmeirenses sem vínculos étnicos com os italianos “rossistas”, que não partilhamos genes com eles, herdamos do anarquismo certa rebeldia que sempre permeou nossa cidade e nos contaminou. Não toleramos peias, somos indomáveis frente a autoridades despóticas, aliás, somos contra autoridades simplesmente. Portanto, saímos no lucro. JAIR, Floripa, 07/07/10.

8 comentários:

Daniela disse...

O sonho de quase todos os adolescentes da minha época era viver num mundo anarquista!! Utopia pura!! Muito bom o texto, recheado de detalhes históricos que eu mal sabia e nem imaginava!!

Leonel disse...

Muito interessante e um pouco triste a história dessa experiência comunitária. Eu gostaria que eles tivessem dado certo. Eles eram uma espécie de hippies mais realistas, pois planejavam seu próprio sustento.
Este livro da Zélia Gattai foi filmado e apresentado como minisérie pela Globo, nos anos 80.
Mas, essa anarquia não foi a única! O que você acha do Brasil atual?

JAIRCLOPES disse...

O Brasil se aproxima mais da anarquia, não do anarquismo. Quando as leis são aplicadas a apenas alguns, não se pode afirmar que existe uma estrutura sólida que a todos trata igual. A anarquia é isso, o caos organizado, que dispõe é privilegiado, o resto... é o resto.

R. R. Barcellos disse...

- Vivendo e aprendendo... mais um belo retalho de boa cultura que recebo do Jair.
- Anarquismo, comunismo e tantos outros "ismos" naufragaram na mesma praia: a imperfeição do caráter humano. O texto ilustra isso com perfeição.
- Já dizia Churchill que, com todas as suas mazelas, a democracia ainda é a melhor opção para minimizar esses defeitos. Pelo menos, até hoje não inventaram nada melhor.
- Belo texto, Jair. Parabéns.

Joel disse...

Jair. Nosso avô, o lendario Davi Lapeano, mesmo sem saber era tbm um anarquista. Tudo bem, ele nunca falou que governo bom é aquele que é dissolvido no dia da posse nem que o mundo será melhor quando o último padre for enforcado com as tripas do último militar. Nunca disse, é verdade, mas ao longo da vida teve atitudes que demonstraram seu espírito anarquista. Minha mãe falou que certa vez ele foi convidado para trabalhar numa serraria na cidade de Pinheiral e recusou o convite dizendo: "Eu não trabalho por apito. Entro em serviço quando melhor me convier e me retiro à tarde quando me sentir cansado ou quando julgar que o que fiz é o suficiente para aquele dia, seja antes ou depois desse tal apito" Disse mais: "Eu almoço quando tenho fome e não quando a fábrica apita me mandando almoçar" Como vê, caro primo, nosso avô carregava em si os principios básicos do anarquismo.

RECADO. Ruy, manifeste-se. Dentre os primos, vc e o Amadeu foram os únicos privilegiados que foram carregados no colo pelo anarquista Davi Lapeano.

Ruy disse...

Caro Jair:

Sobre a experiência anarquista que em priscas eras visitou Palmeira, só lamento que tenha ficado apenas na seara da utopia. Mas, mesmo que tenha sido inglória, não deixou de ser um evento histórico de “marca maior”, isso pra ficarmos com uma expressão muito usada no velho burgo d’antanho. E como bem lembrou primo “Joe”, aí acima, o nosso avô, dito Davi Lapeano, foi, segundo nossa mãe e tios, um representante da melhor estirpe dos anarquistas, embora nada tivesse a ver com os rossianos. Evidente que não lembro, mas de ouvir contado pelos nossos tios Beto, Edo e Fredo, eu deveria ser um cara “sem medo”, pois que na crendice popular quem passa por baixo de um caixão de defunto, será sempre um “sem medo”, e eu, ainda um mero piá de bosta com meus aproximados cinco anos de idade, passei por baixo da mesa onde estava sendo velado o corpo do nosso avô Davi, lá no Pinheiral. Talvez alguma coisa do anarquismo do nosso avô tenha permanecido comigo, pois sempre fico indignado (pra não dizer mais) quando vejo injustiças sendo cometidas, quando ouço o cantar das cassandras a lamentar — mesmo que nas entrelinhas —, os “tempos bons da ditadura”, enfim, me sinto às vezes como um “quixotesco sancho pança” a dar murros em ponta de faca. Deve ser por isso que me vêem como o “oveja negra” da família. Menos male.
Grande abraço,
Ruy.

JAIRCLOPES disse...

Ruy,
Desconheço que você seja visto como ovelha negra do que quer que seja. Se essa concepção existir, me inclua fora dessa!
Quanto à conduta anarquista do velho David, acho que todos concordamos que realmente ela existia, apenas não tinha esse nome, alguns a chamavam de rebeldia outros de teimosia e assim por diante.

Ruy disse...

Jair, não esquente com esse lance do “oveja negra”. É apenas mais uma “criação” sacaneja da minha mente impudica que vive sempre a pensar coisas que não se enquadrem nos padrões. Só isso, nada mais.
Abraço.