quarta-feira, 21 de julho de 2010

Outra Utopia


Desenho mostrando como seria o Falanstério do Saí.




O Falanstério do Saí
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A Revolução francesa, ainda que tenha se tornado o referencial máximo de mudanças sociais na história da humanidade, pecou, segundo visão posterior, por ter derrubado a antiga e deletéria monarquia e mantido os mesmos nobres, burgueses e clérigos que a serviam. Ou seja, mudaram-se os mandantes, mas preservou-se a estrutura que lhes dava suporte, tanto é que os Bonapartes ascenderam à nobreza e passaram a ser os novos imperadores, e a tão sonhada “égalité” foi para o vinagre.
Parece que os ideais da Revolução permaneceram latentes naqueles que estavam desiludidos com o resultado da luta de 1789, até que, quase um século depois, em 1871, deu-se o movimento que ficou conhecido com “Comuna de Paris”. As propostas da Comuna encerravam uma concepção messiânica de política tão radical que foram criticadas e denominadas até por Marx e Engels de socialismo utópico. Mas, antes disso, sonhadores que não haviam nascido quando se deu a Revolução, talvez por ouvir dizer, entendiam que a Utopia era possível e construíam castelos no ar sempre que a oportunidade aparecia. Assim foi possível surgir o “Falanstério do Saí”. Do Huaiss: Falanstérioorganização comunitária concebida como uma realização plena da natureza humana, por meio do encontro entre princípios socialistas, como a propriedade dos meios de produção, e prescrições comportamentais, que incluem a plena liberdade sexual. Segundo o autor do neologismo, Fourier, falanstério significa a junção das palavras “falange” e “monastério”, porquanto as pessoas que nele habitassem seriam organizadas em falanges. Agora vejamos como essa Utopia nasceu.
O desencanto com os caminhos que a Revolução Francesa havia tomado estimulou os idealistas que viam a Utopia como uma saída. Por razões desconhecidas, quase sempre, os sonhadores elegiam o Novo Mundo como um Shangri-lá, um local ideal para experiências até então nunca tentadas, uma espécie de laboratório antropológico. Ouso inferir que o isolamento de tais locais, além de impedir interferências de outras comunidades, permitia que, se a experiência malograsse, não houvesse testemunhas.
Saint-Simon, Owen e Fourier foram os principais formuladores do pensamento utópico e apresentaram ao mundo fórmulas de liberdade e harmonia, inventando mundos novos nos quais propunham relações completamente opostas às que vigiam então. A essa inovação social deu-se o nome de Fourierismo.
A experiência fourierista deve-se ao Dr. Benoit Jules Mure. Ele nasceu em Lyon em 1809, prematuro, de sete meses, e atacado de tuberculose acabou sobrevivendo somente com metade de um pulmão. Sempre fraco por causa da doença, foi salvo de uma morte prematura pelo conde Sebastien Des Guidi, introdutor da homeopatia em Lyon. A recuperação da saúde levou-o a uma mudança radical no seu modus vivendi, tornou-se messiânico, achava que devia propalar a nova medicina e ajudar os menos favorecidos. Para isso, estudou a nova ciência, diplomou-se em Montpellier e passou a exercer a homeopatia como uma missão. Por todos os lugares onde passou, França, Itália, Inglaterra, Brasil, Egito, procurou eleger a homeopatia como a melhor terapia, e, também, consolidar, através da assistência aos pobres, a crença naquela ciência como uma alternativa aos métodos ortodoxos e, segundo ele, pouco eficientes, da medicina tradicional.
Em 1842, Benoit, juntamente com 217 franceses, embarcou no porto de Brest rumo ao Brasil, e à Utopia. Seu destino era a península do rio Saí em frente à Ilha de São Francisco do Sul, aqui em Santa Catarina. Na parte continental do Município de São Francisco do Sul, encontra-se o Distrito do Saí, o qual é composto das localidades de Torno dos Pintos, Estaleiro e Vila da Glória. Ali, supostamente longe dos vícios das metrópoles européias, pretendiam criar um mundo novo, inspirados nas idéias de Charles Fourier, principalmente naquelas que diziam respeito às relações do homem com o trabalho. Por meio de um sistema econômico baseado na livre associação, tentariam implantar um sistema coletivista e de liberdade individual, respeitando as diferenças e habilidades individuais, doutrina completamente diferente da comunista, por exemplo. Algo assim viria acontecer com a implantação do anarquismo na Colônia Cecília em Palmeira, no Paraná em 1890, a qual foi objeto de outro texto meu.
Com base na concepção fourierista Benoit idealizou o “falanstério”, ou seja, uma habitação coletiva que abrigaria um mundo no qual a harmonia garantiria o bem-estar, a justiça e a liberdade entre seus habitantes. É, sonhar não para impostos! Os índios brasileiros constroem “falanstérios” não por questões ideológicas, e sim por motivos práticos, o local fica mais aquecido e a proximidade dos parentes lhes garante segurança e divisão igualitária da comida, quase sempre escassa.
Imposição matemática aplicada à organização social: Cada falange seria composta de 1.620 pessoas, 810 homens e 810 mulheres, e divididas em séries. Por sua vez, as séries seriam divididas em grupos, segundo o número e tipos de trabalhos a realizar e as “atrações passionais” dos falansterianos. Entendendo-se por “atrações passionais” a empatia dos trabalhadores entre si, e a aptidão de cada um para o trabalho.

Quando chegou ao Brasil, Benoit tinha trinta e dois anos, e o Falanstério que construiu era constituído de vastas oficinas, salas de refeição, bar e, num futuro próximo, livrarias, museus, gabinetes de física e um teatro. A cozinha seria comum a todos, bem com o a adega, o armazém e o celeiro. E como era um nefelibata ad hoc, homeopatia e utopia caminhavam juntas nos seus planos. Uma escola para formação de homeopatas complementava seu projeto. Haja onirismo!

Contudo, mais uma vez o egocentrismo, a ambição desmedida e a falta de coesão social, destruíram o sonho de outro utopista em tempo integral. Um ano depois estava desestruturado o Falanstério e grande parte dos franceses se dispersou pelo mundo. A empresa fracassou, porém algumas famílias, como os Ledoux, Reinert e Duvoisin, permaneceram no Distrito, mesclando-se com a população da região. Plagiando alguém que disse que de boas intenções o inferno está cheio, digo: De boas intenções e utopias o inferno está cheio. As ruínas no Saí atestam até o hoje a incapacidade do homem de viver em coletividades que não possuam regras bem definidas que tolham suas idiossincrasias e não tenham uma autoridade que a todos represente, e imponha decisões quando houver choques de interesses. JAIR, Floripa, 21/07/10.

3 comentários:

Leonel disse...

É, certas ideias as vezes parecem maravilhosas no papel ou na cabeça dos sonhadores que as conceberam, mas só são aplicáveis em comunidades de ETs, desprovidos de certs características humanas.
Ótima matéria, desenterrando um evento que eu acredito ser do conhecimento de poucos, principalmente fora da região onde ocorreu.
A expressão mencionada por Marx, para mim, é um pleonasma: "socialismo utópico".

R. R. Barcellos disse...

- Os séculos XIX e XX foram ricos em experiências sociais. Os ismos surgiam a torto e a direito, como cogumelos depois da chuva. O Saí - cujos detalhes só vim conhecer agora - foi mais um sonho que nasceu na velha Europa e veio encontrar seu túmulo no Brasil, vítima das imperfeições da natureza humana. Bela matéria.

Daniela disse...

Excelente texto!! Engraçado ter a imposição matemática (810 de cada lado), frente a tantas liberdades! :\