sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sobre o Medo




Medos acompanham a humanidade desde que o Homo surgiu no Planeta. Não há e nem poderia haver evidências diretas que nossos ancestrais eram acometidos pelo medo estressante que tolhe iniciativas, causa sudorese e taquicardia. Mas é razoável supor que o homem, fisicamente frágil como é, tenha adquirido medo ao longo de sua história porque os elementos, os animais e até outros homens lhes poderiam ser hostis na luta pela sobrevivência. É muito provável que o medo seja um componente importante na conduta humana, seja uma emoção que, insuflada, estimula o homem no sentido de dominá-la e, desse modo, tornar-se mais dinâmico e criativo. A adrenalina do medo tornou o homem primitivo mais esperto e mais antenado, estimulou sua evolução, o homem medroso se expõe menos e, por conseqüência, tem maior chance de sobreviver e deixar descendentes. Somos descendentes desses Homo temerosus, sem dúvida. Não é estultice inferir que parte das armas, objetos e abrigos que os humanos primitivos construíam visavam sua proteção física contra os perigos de um mundo povoado de ameaças reais e imaginárias. Sim, reais e imaginárias. Enquanto muitas possíveis fontes de perigo, mamutes, tigres-dente-de-sabre, raios, enchentes e leões podiam ser vistas e ouvidas, existia algo mais assustador e potencialmente mais letal que não era visto nem ouvido: escuridão.

Parece que a morte, na mente de seres racionais, é uma espécie de escuridão eterna, daí uma possível explicação para esse temor atávico. Por conseqüência, seres irracionais como insetos, por exemplo, não teriam medo da morte e, claro, não temeriam a escuridão. Até a psicanálise junguiana admite que o medo primordial do ser humano é causado pela escuridão. A escuridão representa a ausência de meios para combater um possível inimigo que espreita logo ali; traduz perfeitamente a impotência absoluta do homem em se defender: Abrigar-se como? Correr para onde? Fazer o quê?

Assim, quando o fogo surgiu, era muito mais que um meio de cozer alimentos; preparar o terreno para plantio através da queima do mato, ou aquecer-se; era uma dádiva, era o instrumento que tornou possível dirimir a opressora escuridão; era o melhor amigo do homem, ele tinha o dom de clarear o ambiente da caverna, mostrar o caminho de casa depois que a luz do sol se foi e afastar os potenciais agentes causadores de injúrias à espreita. Fogo era inimigo do medo. O fogo – e agora existem provas físicas – foi o elemento mais importante no caminho da civilização, com ele o homem podia controlar o medo da escuridão e dedicar parte de suas energias em empreendimentos mais criativos que, com tempo, acabaram por traduzir-se em melhoria de vida para a sociedade como a conhecemos hoje.

Claro que a maioria dos medos está associada à sobrevivência, à manutenção da vida e da saúde, simplesmente. Contudo, defendo a idéia que, quase sempre, o medo é irracional, o medo também existe quando um componente contrário à razão está presente. Essa falta de lógica que cria o medo, em geral, se deve ao fato de que o medroso ignora o porquê de seu temor e, mais que isso, desconhece também fatos a respeito do objeto, da coisa ou do evento que gera essa apreensão, esse temor. Daí existirem medos que não podemos explicar como: medo de borboleta, de galinha, de coisas novas, de bebês, de sair de casa, de objetos brilhantes e assim por diante. A única inquestionável certeza é que todos tivemos, temos ou teremos algum tipo de medo em alguma quadra de nossa vida. Quem nunca teve medo que apague a primeira lâmpada.

Posto que sentir medo é condição humana, quero dizer que também nutri medos irracionais que até hoje não consigo explicar, mas que, por já terem sido superados, posso falar deles com tranquilidade. Na minha infância e mocidade senti irracionais medos de ficar barrigudo ou de tornar-me mendigo, num futuro distante e indeterminado. Não faço a menor idéia do porquê de tais temores, entretanto eles existiam e eram bem “reais”, na medida em que me assustavam e incutiam insegurança sobre meu futuro. Hoje, como sou esbelto e não preciso mendigar para viver, posso dizer com toda segurança, só sinto medo de atravessar ruas, nada mais. Ainda bem que esse medo posso justificar com a violência do trânsito e a vontade de preservar a vida que todos temos. Assim, podemos deduzir que, se todos estamos sujeitos aos diversos medos, irracionais ou não, o medo faz parte da evolução do homem, sem ele, possivelmente, já teríamos sucumbido às armadilhas que a natureza coloca no curso de nossa existência.

Finalmente, medo não é contrário à coragem como pode parecer, contrário à coragem é covardia e coragem é apenas domínio racional do medo, soldados na guerra e esportistas radicais que o digam. JAIR, Floripa, 23/07/10.

10 comentários:

Daniela disse...

Adorei! Mas como você disse, a evolução se deve ao medo, mas hoje, no mundo em que vivemos, parece que o medo está cada vez maior, mais presente, e já estamos tão evoluídos não é?!... então não sei se consigo entender!! Mas que a teoria é excelente, sim senhor!! Muito, muito bom!! Vamos cada um citar nossos medos? O meu é de atravessar ruas (também!) e de perder as pessoas que amo!

Leonel disse...

O homem não possui boa visão noturna, seu faro é fraco e só ouve frequências até cerca de 18, 20 Khz (cães: 40 Khz, gatos: 60 Khz). Assim, nunca esteve aparelhado para enfrentar a escuridão, sem a ajuda da tecnologia. Não tenho dúvida que o homem primitivo tinha bastante medo do escuro, pois ficava em desvantagem em relação aos grandes felinos, caninos e outros predadores.
Mas o meu medo atual, o de sair de casa, não se deve à alguma fobia ou síndrome de pânico, mas às condições reais do ambiente onde vivo. Depois de ter sido rendido, assaltado e ameaçado, eu sempre penso que cada vez que saio de casa pode ser a última...

R. R. Barcellos disse...

- É curioso... o medo que acomete um animal "irracional" geralmente tem razão de ser - é um medo "racional", que desencadeia reações de defesa. Já as fobias que afetam o homem, ser racional, são muitas vezes contrárias à lógica: são portanto irracionais e só prejudicam o indivíduo. Assim, os medos instintivos são aqueles que realmente contribuem para a evolução; os medos adquiridos são uma carga indsejável, que o digam psicoterapeutas e portadores de fobias diversas.

jefhcardoso disse...

Eu não nego que já tive sim medo de escuro. Acho isso natural. Graças a Deus passou. Quem apagou a luz? Vamos parar com essa brincadeira! Droga! (sorrio).
Jair, eu tenho medo da velhice, da morte, da aposentadoria, da solidão, das lesões que podem me impedir de praticar meu futebol de fds para sempre... sou mesmo um descendente desse “homo temerosus” do qual falou.

Parabéns pelo texto!

Aproveito este encontro e convido para uma leitura em minha última postagem. Trata-se de um pequeno texto que fala sobre a minha leitura de Historia Do Cerco De Lisboa, de José Saramago.
Abraço do Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

Adri disse...

Gostei!! E digo que o meu maior medo que tinha durante a minha infancia era de nadar no mar aberto, e de nao saber o tinha em baixo de mim... Portanto eu decidi de incarar a fera e hoje em dia o meu hobby favorito seja mergulho!!

C. Maluche disse...

O medo è parte da vida da gente. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, já outras - aprendem a conviver com ele e o encaram não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de autopreservação".

Anônimo disse...

Caro Pamplona,
Legal teu texto, no meu caso, ja to barrigudo pacas, mas apesar do grande molusco, ainda não precisei mendigar, legal que tu vistes que teus medos eram infundados. Como o seu Dudu sempre me dizia, " só dois tipos de pessoas não sentem medo de nada, os loucos e os mentirosos". Quanto aos meus medos... pô altura, é so eu pensar em chegar em uma sacada que me borro todo, mas o mais interessante disto, é que quando jovem em não os tinha. Mas o grande medo que me assusta desde o ultimo assalto, não, não é o de morrer, mas sim o de matar um caras dsetes, e ter isto no meu curricum para o resto da vida, e tendo que me clarear com o patrão velho la de cima.
abração.
Fabio

Tereza disse...

Jair, sua explanação sobre o medo é interessante. Fiquei intrigada com sua descoberta: medo de bebês?? Existe isso?
Eu, ultimamente, tenho medo de sair à noite.
Bjos,
TeTê

Almirante Águia disse...

Paranóia - Raul Seixas

Quando esqueço a hora de dormir
E de repente chega o amanhecer
Sinto a culpa que eu não sei de que
Pergunto o que que eu fiz?
Meu coração não diz e eu...
Eu sinto medo!
Eu sinto medo!

Se eu vejo um papel qualquer no chão
Tremo, corro e apanho pra esconder
Com medo de ter sido uma anotação que eu fiz
Que não se possa ler
E eu gosto de escrever, mas...
Mas eu sinto medo!
Eu sinto medo!

Tinha tanto medo de sair da cama à noite pro banheiro
Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre...
Sempre... sempre...
Eu estava com Deus!
Eu estava com Deus!
Eu estava com Deus!
Eu tava sempre com Deus!

Minha mãe me disse há tempo atrás
Onde você for Deus vai atrás
Deus vê sempre tudo que cê faz
Mas eu não via Deus
Achava assombração, mas...
Mas eu tinha medo!
Eu tinha medo!

Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha
Com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro

Para...nóia

Dedico esta canção:
Para Nóia!
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)...

Com amor e com medo...

JAIRCLOPES disse...

Genial Almirante,
A musa lhe sorriu e você encontrou o poema que enquadra essa emoção que faz transpirar. Derrotou-a, tenho certeza. Abraços, JAIR.