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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Burocracia


William L. Shirer, no livro “A queda da França”, no qual ele mostra com minudências os motivos que levaram a França cair frente à invasão de Hitler em 1940, faz uma análise profunda de como os Estado francês se comportava no entre guerras. Shirer, historiador fecundo e testemunha presencial do status francês, consegue passar ao leitor com grande acurácia como a máquina estatal francesa e os funcionários públicos conduziam a organização interna das repartições responsáveis pelos serviços estatais, prestados tanto aos cidadãos como às empresas privadas e outros órgãos.
A burocracia francesa era algo pesado e cheio de caminhos tortuosos, antiquados, irredutíveis e onipresentes, mas extremamente séria e eficaz. Mostra Shirer que a burocracia estava a serviço do Estado e do cidadão e não do governo, qualquer que fosse; estava seriamente comprometida com resultados e com a normatização dos trâmites de tal modo que era impossível que um administrador (presidente, primeiro ministro ou outra autoridade de primeiro escalão) de maus bofes conseguisse desviar os objetivos aprovados por uma administração anterior, por exemplo. A burocracia seguia os planejamentos traçados e o Estado estava sempre em funcionamento “faça sol ou faça chuva”, isto é, independente de ideologias ou desvios na condução das políticas internas. Um orçamento aprovado para uma determinada obra (construções de aviões de guerra, por exemplo) não era desviado de sua destinação e não se exauria em desvãos de órgãos públicos.
O historiador demonstra cabalmente que a máquina militar francesa estava azeitada e pronta para o combate quando da invasão nazista, o que tornou a vitória alemã possível e até inevitável foi a falta de crença e de motivação dos militares franceses na vitória.
Pois bem, no Brasil atual burocracia é quase um palavrão, o cidadão comum quase sempre culpa a “burocracia” (aspas pejorativas neste caso) em tudo que não lhe é favorável quando tem que tratar assuntos que envolvem órgãos estatais. A maioria dos cidadãos comuns acha que burocracia são normas criadas para controle, mas que na prática acabam interferindo na agilidade dos processos porque criam certas restrições e procedimentos incabíveis e anômalos. Na verdade o que toca o cidadão são as necessidades de carimbos, de assinaturas, de aprovação de alguém que nem sempre está presente, de liberação do chefe do setor e aprovação da diretoria. Precisamos estabelecer o que é essa tal burocracia e para que serve.
Até os anos trinta, antes da revolução que levou Vargas ao poder, não existia burocracia no país. Isso significava que não havia normas, não havia diretrizes, não havia regras, nada orientava o cidadão ou a empresa que queria regularizar uma situação qualquer. Aos órgãos públicos, ministérios, autarquias e empresas públicas, não eram atribuídas funções específicas que determinavam o que cada um devia fazer para a máquina estatal funcionar, as funções se sobrepunham, misturavam ou inexistiam, era o caos que fazia do Estado regulador, legislador e executivo uma entidade fictícia. De forma que certidões, atestados, certificados, declarações, ofícios e papéis necessários ao trâmite da vida empresarial ou pessoal não estavam definidos nem na forma nem no conteúdo, muito menos na responsabilidade de qual órgão devia emiti-lo e qual o processo a ser usado. Por exemplo, quem emitia um passaporte? Como era a forma e conteúdo de uma certidão de nascimento? Qual a validade de um certificado de conclusão de curso? Como seriam as escrituras de imóveis? Uma cédula de identidade emitida em um estado da Federação valia em outro estado? Como os órgãos públicos deviam receber os documentos para validação de um ato cível? Quais eram os órgãos que deviam ser procurados no caso de emplacamento de veículos? Quais órgãos resguardavam o cumprimento das leis? Até onde ia a obrigação e responsabilidade de cada órgão público? Pois é, no Brasil varonil daqueles anos, não havia respostas simples para a maioria dessas perguntas e para muitas outras que surgissem em função das atividades corriqueiras do dia-a-dia.
Foi a partir da vontade política do ditador Vargas que nos anos 30 o Estado passou a intervir na economia, na organização da sociedade civil e recriou a máquina estatal, além de centralizar o poder, transformando-se numa administração burocrática – e aqui burocrática nada tinha de pejorativo. O Estado tornou-se o principal interventor no setor produtivo de bens e serviços do país, tornou-se um estado normativo dos trâmites civis.
O governo, travestido de zelador das normas estatais, instituiu atividades para autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista, bem como normatizou tudo aquilo que o cidadão e as empresas não sabiam ou não tinham como saber como funcionava. Por exemplo, as certidões de nascimento passaram a ter cartórios responsáveis pela sua emissão; passaram a ter uma forma e um conteúdo definidos; tiveram sua validade estendida a todo território nacional, coisa que anteriormente não existia. As empresas passaram a conhecer e ter acesso aos documentos necessários e indispensáveis ao seu funcionamento. A ABNT só seria criada em 1940, mas as normas já existiam então.
Podemos afirmar sem falar necedade que o processo de formação e desenvolvimento do Estado brasileiro teve começo ainda no período colonial, onde existia uma relação tutelar entre o Estado comanditário e os empresários. Entretanto, nos anos 30 que se dá o nascimento do Estado Burocrático, fortemente centralizador e intervencionista e, ao mesmo tempo, de uma classe empresarial altamente dependente de autorizações, proteções e favores oficiais. E daí podemos tomar a liberdade de inferir que essa burocracia estatal cresceu tanto que comeu o dono, isto é, a burocracia criou mais burocracia, de forma que as normas, regulamentos e papéis tornaram-se mais importantes que o fim a que se destinavam. Vou dar um exemplo pessoal. Estacionei o carro em vaga para idosos numa via pública e o guarda me multou na hora. Mostrei meus documentos provando que era idoso, mas alegação do guarda é que eu não possuía uma identificação emitida pela Prefeitura, a qual eu devia dar entrada no pedido, acompanhado de fotografia e atestado de residência. Neste caso o importante era o papel (burocracia) e não o status e a condição do contribuinte, ou seja, se você tem um papel emitido por um órgão público, você é idoso, do contrário não importa sua aparência e até sua identidade. Esta exigência vale também para deficientes, não basta ser e usar cadeira e rodas, por exemplo, tem que provar através de papel assinado por autoridade. 
Então, embora a burocracia fosse criada para azeitar a relação do estado com o cidadão, a burocracia do estado brasileiro é um arremedo do que deveria ser, tornou-se um monstro multifacetado e voraz que se alimenta tanto de papéis e carimbos como da alma do povo, e ainda custa bilhões para os cofres públicos. Tenho dito. JAIR, Floripa, 16/06/12. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Inventando um país


Depois da conclusão do canal Suez por Ferdinand De Lesseps em 1869, a França colonialista era uma potência incontestável na Europa e no mundo e, movida pelo espírito de conquistas tecnológicas despertado pela revolução industrial, achava que o céu era o limite, nada era grande demais ou difícil demais para ser conquistado ou ser construído. A Exposição Universal realizada em Paris que acontecera em 1878, era uma prova de que o umbigo do mundo, não só artístico, mas também técnico, era a apropriadamente chamada Cidade Luz. A Torre Eiffel projetada e construída pelo engenheiro francês Gustave Eiffel erguia-se sobre a cidade como um dedo apontando a abóbada celeste para atestar que aquele era o limite para a engenhosidade e operosidade dos franceses. Quem subia ao topo da Torre sentia o mundo pequeno e submisso lá embaixo, era a estrutura construída pelo homem mais alta do Planeta.
Na primeira metade do século dezenove os EUA ainda não haviam despontado como a potência militar e econômica que conhecemos a partir do século vinte. Sua costa leste estava separada da costa oeste por regiões selvagens semidesérticas, sem estradas, rios ou caminhos que permitissem uma comunicação razoável entre elas. O transporte marítimo entre as costas se fazia contornando a América do Sul pelo cabo Horn, um percurso longo demais, caro demais e perigoso demais. Espíritos empreendedores sonhavam com um caminho mais curto que se fizesse pelo sul México ou pelo istmo conhecido como América Central, mas uma tão sonhada passagem oculta que ligasse o Pacífico ao Atlântico naquela região era apenas isso: um sonho. A parte mais estreita do istmo (pertencente à Colômbia) já havia sido explorada e nada parecido com uma passagem foi encontrado, pelo contrário, havia uma continuação da “espinha dorsal” da América do Sul, os Andes, que atravessava a região e continuava pela costa Oeste até se fundir com as Montanhas Rochosas na América do Norte.
Dada a imensa dificuldade que o desenvolvido leste dos EUA tinha para contatar o “Far West” (Oeste longínquo), alguns empresários sonhavam com uma oportunidade de ganhar muito dinheiro encurtando a distância entre as regiões. Para complicar as coisas, em 1848, descobriu-se ouro na Califórnia, estado situado na costa oeste. Milhares de aventureiros, trabalhadores e garimpeiros do leste do país saíram em disparada na chamada “corrida do ouro” que os levou até o istmo da América Central onde pagavam até cem dólares para atravessar para a cidade do Panamá, depois tomariam embarcação para a Califórnia. Guias colombianos espertos enriqueciam com esse transporte.
Então, diante desse quadro, alguns anos depois, caciques industriais endinheirados e influentes de Nova Iorque deslocaram-se para Bogotá e fizeram lobby, a custa de muitos dólares, junto ao governo do país e descolaram uma concessão que lhes permitia explorar uma linha férrea a ser construída entre o Atlântico e o Pacífico naquela província chamada Panamá, na parte mais estreita do istmo. No leste, voltado para o Caribe, existia um porto natural de nome Cólon, e do lado do Pacífico ficava a cidade do Panamá, que não passava de uma vila de choupanas de pau a pique cobertas de folhas de palmeira onde imperava a malária e a febre amarela.
Ao custo de alguns milhões dólares e milhares de vidas, os empresários conseguiram vencer a selva e os obstáculos como rios, pântanos e montanhas e construíram a estrada. Inicialmente estimou-se que em seis anos seria recuperado o capital empregado, mas ao cabo de dezoito meses e ao preço de 25 dólares por cabeça (preço altíssimo para a época), mais da metade do investimento já se encontrava saldado. Era uma mina de ouro melhor do que as que se foram encontradas na costa oeste.
Como eu disse, em 1878 os franceses estavam “se achando” e, segundo se julgavam, não existia nada que não pudessem fazer – e bem feito. Foi aí que o senhor Ferdinand De Lesseps, cheio de “sou mais eu”, declarou que era possível fazer um canal que cortasse o istmo da América Central na sua parte mais estreita. Depois de ingerências diplomáticas em que usou até ameaça de que os EUA estavam dispostos a intervir na região e desanexá-la da Colômbia, como haviam feito com o Texas e partes da Califórnia depois da guerra com México, conseguiu a concessão para a construção de um canal entre Cólon e cidade do Panamá. Fortíssima campanha junto aos franceses ricos e pobres em que o próprio De Lesseps era o garoto propaganda, conseguiu arrebanhar algo em torno de novecentos milhões de francos vendendo ações da Compagnie du Canal Interocéanique. Desse modo o empreendimento era todo privado.
Os trabalhos começaram em 1880 e, desde logo, ficou claro que os engenheiros franceses tinham subestimado as dificuldades de construir na selva tropical, dificuldades agravadas pela falta de experiência e pelas doenças como malária e febre amarela que eram epidêmicas na região. Milhões de francos eram enterrados pela lama que teimava em escorrer pelos cortes nos morros e soterravam máquinas e equipamentos durantes as chuvas. No auge dos trabalhos dezenas de peões morriam de doenças tropicais, de acidentes e de conflitos entre colombianos e jamaicanos que não morriam de amores uns pelos outros. Mas o maior erro dos franceses foi julgar que era possível construir ao “nível do mar”, isto é, simplesmente rasgar o istmo de um lado ao outro, através dos morros, pântanos e rios de forma a ligar um oceano ao outro sem considerar que o caudaloso e imprevisível rio Chagres, por exemplo, ficava a doze metros acima do nível do mar. Para construir um canal assim, sem comportas, era necessário “domar” o Chagres com imensas barreiras de contenção como represas que o impedissem de invadir o canal nos tempo de enchentes. Assim o empreendimento estava fadado ao insucesso, e foi o aconteceu. Em 1892 a Compagnie faliu e deixou milhares de acionistas com o mico preto na mão, estava soterrado na selva úmida e saturada de insetos, o sonho de Lesseps e dos franceses mesmerizados por seu carisma.
Foi aí que um dos sócios da empresa, Philippe Bunau-Varilla, engenheiro e lobista fantástico conseguiu convencer o presidente americano, Theodore Roosevelt, a comprar a empresa falida e dar continuidade ao canal. Depois de levar ao debate do Congresso a proposta do francês, o presidente logrou conseguir os quarenta milhões de dólares necessários à compra, agora só faltava convencer a Colômbia sobre a necessidade do canal e que não haveria intervenção americana no país.
As coisas não saíram como previsto pelos americanos, o congresso colombiano não aprovou a concessão a não ser que os gringos entrassem com uma soma de outros quarenta milhões de dólares. Assim ficaria mais barato construir um canal na Nicarágua, onde já existia um estudo de viabilidade. Mas Roosevelt queria o canal na Colômbia, que fazer?
Como existia certa insatisfação na região do istmo com relação a Bogotá que era muito longe e pouca assistência prestava aos habitantes dalí, em 1899 houve uma rebelião que envolveu tropas locais contra tropas vindas de Bogotá. Morreu muita gente, mas a insatisfação só aumentou. Roosevelt deslocou tropas de fuzileiros para lá com a manifesta intenção de proteger os bens e os americanos que operavam a ferrovia, mas no fundo era uma ocupação branca. Não demorou muito para que os rebeldes proclamassem sua independência e fundassem o Panamá, país que nasceu com um “padrinho” poderoso que virtualmente tornou a nova nação um protetorado, como já o fizera com Porto Rico e Filipinas. O Novo país, inventado pelos americanos, assinou um tratado com os EUA que cedia por cem anos a “Zona do Canal” onde os americanos construíram e passaram a administrar o canal, só que esse é um assunto que vou abordar em outro texto. JAIR, Floripa, 04/06/12. 

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Outra Utopia


Desenho mostrando como seria o Falanstério do Saí.




O Falanstério do Saí
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A Revolução francesa, ainda que tenha se tornado o referencial máximo de mudanças sociais na história da humanidade, pecou, segundo visão posterior, por ter derrubado a antiga e deletéria monarquia e mantido os mesmos nobres, burgueses e clérigos que a serviam. Ou seja, mudaram-se os mandantes, mas preservou-se a estrutura que lhes dava suporte, tanto é que os Bonapartes ascenderam à nobreza e passaram a ser os novos imperadores, e a tão sonhada “égalité” foi para o vinagre.
Parece que os ideais da Revolução permaneceram latentes naqueles que estavam desiludidos com o resultado da luta de 1789, até que, quase um século depois, em 1871, deu-se o movimento que ficou conhecido com “Comuna de Paris”. As propostas da Comuna encerravam uma concepção messiânica de política tão radical que foram criticadas e denominadas até por Marx e Engels de socialismo utópico. Mas, antes disso, sonhadores que não haviam nascido quando se deu a Revolução, talvez por ouvir dizer, entendiam que a Utopia era possível e construíam castelos no ar sempre que a oportunidade aparecia. Assim foi possível surgir o “Falanstério do Saí”. Do Huaiss: Falanstério – organização comunitária concebida como uma realização plena da natureza humana, por meio do encontro entre princípios socialistas, como a propriedade dos meios de produção, e prescrições comportamentais, que incluem a plena liberdade sexual. Segundo o autor do neologismo, Fourier, falanstério significa a junção das palavras “falange” e “monastério”, porquanto as pessoas que nele habitassem seriam organizadas em falanges. Agora vejamos como essa Utopia nasceu.
O desencanto com os caminhos que a Revolução Francesa havia tomado estimulou os idealistas que viam a Utopia como uma saída. Por razões desconhecidas, quase sempre, os sonhadores elegiam o Novo Mundo como um Shangri-lá, um local ideal para experiências até então nunca tentadas, uma espécie de laboratório antropológico. Ouso inferir que o isolamento de tais locais, além de impedir interferências de outras comunidades, permitia que, se a experiência malograsse, não houvesse testemunhas.
Saint-Simon, Owen e Fourier foram os principais formuladores do pensamento utópico e apresentaram ao mundo fórmulas de liberdade e harmonia, inventando mundos novos nos quais propunham relações completamente opostas às que vigiam então. A essa inovação social deu-se o nome de Fourierismo.
A experiência fourierista deve-se ao Dr. Benoit Jules Mure. Ele nasceu em Lyon em 1809, prematuro, de sete meses, e atacado de tuberculose acabou sobrevivendo somente com metade de um pulmão. Sempre fraco por causa da doença, foi salvo de uma morte prematura pelo conde Sebastien Des Guidi, introdutor da homeopatia em Lyon. A recuperação da saúde levou-o a uma mudança radical no seu modus vivendi, tornou-se messiânico, achava que devia propalar a nova medicina e ajudar os menos favorecidos. Para isso, estudou a nova ciência, diplomou-se em Montpellier e passou a exercer a homeopatia como uma missão. Por todos os lugares onde passou, França, Itália, Inglaterra, Brasil, Egito, procurou eleger a homeopatia como a melhor terapia, e, também, consolidar, através da assistência aos pobres, a crença naquela ciência como uma alternativa aos métodos ortodoxos e, segundo ele, pouco eficientes, da medicina tradicional.
Em 1842, Benoit, juntamente com 217 franceses, embarcou no porto de Brest rumo ao Brasil, e à Utopia. Seu destino era a península do rio Saí em frente à Ilha de São Francisco do Sul, aqui em Santa Catarina. Na parte continental do Município de São Francisco do Sul, encontra-se o Distrito do Saí, o qual é composto das localidades de Torno dos Pintos, Estaleiro e Vila da Glória. Ali, supostamente longe dos vícios das metrópoles européias, pretendiam criar um mundo novo, inspirados nas idéias de Charles Fourier, principalmente naquelas que diziam respeito às relações do homem com o trabalho. Por meio de um sistema econômico baseado na livre associação, tentariam implantar um sistema coletivista e de liberdade individual, respeitando as diferenças e habilidades individuais, doutrina completamente diferente da comunista, por exemplo. Algo assim viria acontecer com a implantação do anarquismo na Colônia Cecília em Palmeira, no Paraná em 1890, a qual foi objeto de outro texto meu.
Com base na concepção fourierista Benoit idealizou o “falanstério”, ou seja, uma habitação coletiva que abrigaria um mundo no qual a harmonia garantiria o bem-estar, a justiça e a liberdade entre seus habitantes. É, sonhar não para impostos! Os índios brasileiros constroem “falanstérios” não por questões ideológicas, e sim por motivos práticos, o local fica mais aquecido e a proximidade dos parentes lhes garante segurança e divisão igualitária da comida, quase sempre escassa.
Imposição matemática aplicada à organização social: Cada falange seria composta de 1.620 pessoas, 810 homens e 810 mulheres, e divididas em séries. Por sua vez, as séries seriam divididas em grupos, segundo o número e tipos de trabalhos a realizar e as “atrações passionais” dos falansterianos. Entendendo-se por “atrações passionais” a empatia dos trabalhadores entre si, e a aptidão de cada um para o trabalho.

Quando chegou ao Brasil, Benoit tinha trinta e dois anos, e o Falanstério que construiu era constituído de vastas oficinas, salas de refeição, bar e, num futuro próximo, livrarias, museus, gabinetes de física e um teatro. A cozinha seria comum a todos, bem com o a adega, o armazém e o celeiro. E como era um nefelibata ad hoc, homeopatia e utopia caminhavam juntas nos seus planos. Uma escola para formação de homeopatas complementava seu projeto. Haja onirismo!

Contudo, mais uma vez o egocentrismo, a ambição desmedida e a falta de coesão social, destruíram o sonho de outro utopista em tempo integral. Um ano depois estava desestruturado o Falanstério e grande parte dos franceses se dispersou pelo mundo. A empresa fracassou, porém algumas famílias, como os Ledoux, Reinert e Duvoisin, permaneceram no Distrito, mesclando-se com a população da região. Plagiando alguém que disse que de boas intenções o inferno está cheio, digo: De boas intenções e utopias o inferno está cheio. As ruínas no Saí atestam até o hoje a incapacidade do homem de viver em coletividades que não possuam regras bem definidas que tolham suas idiossincrasias e não tenham uma autoridade que a todos represente, e imponha decisões quando houver choques de interesses. JAIR, Floripa, 21/07/10.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

REVOLUÇÕES


A sociedade, como a conhecemos, pode absorver apenas certa quantidade de mudanças num dado período, e, quando se avança no sentido de reformas radicais ou mudanças estruturais que representem corte profundo no status quo, é necessário que se faça uma avaliação prévia que meça o quantum satis (quanto basta) dessa revolução para não romper o tecido social por excesso de tensão. Os valores pétreos que formam o alicerce da sociedade como: família, trabalho e oportunidades de ascensão social não devem ser esquecidos sob o risco de a população não suportar as mudanças. A maior parte da população, - aquela que forma a chamada “maioria silenciosa” - está ocupada criando filhos, trabalhando e pagando suas contas; não está preocupada com política e suas consequências; nem sabe e não se preocupa com direita, esquerda ou qualquer nuance ideológica. Não faz sentido para a maioria: política partidária, governos, maiorias, minorias, liberais, conservadores, radicais e moderados, ela quer trabalho que lhe garanta comida à mesa e acesso à saúde; segurança para ir e vir e para seus filhos frequentarem a escola; e ensino de qualidade. As pessoas “normais” que compõem a sociedade têm muito senso comum e querem compreender as forças mais amplas que moldam sua vida, mas não se pode esperar delas o abandono dos valores e dos arranjos sociais que pelo menos lhes possibilitem sobreviver com dignidade, paz e esperança no futuro. Toda revolução traz em seu bojo um rompimento de maior ou menor grau daquilo que se convencionou definir como estabilidade, seja política, econômica ou social, em geral as três. O equilíbrio ótimo de forças, se este existir, entre o que a sociedade espera e aquele que favorece as reformas acaba determinando, deve orientar e se tornar limitante de qualquer revolução que se queira vitoriosa e permanente, e porque não dizer, popular. Há boas e más revoluções. Assim, uma boa revolução não se perde em utopias e sonhos incabíveis; não revoga os valores mais importantes da sociedade, como a Revolução francesa bem o mostrou. Em 1789 teve início, na França, uma revolução política, símbolo da destruição do absolutismo e da consolidação da hegemonia da burguesia no mundo ocidental. A Revolução Francesa tornou-se tão significativa, que os historiadores a colocam como marco divisor da história, na passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. Sob o Lema: Liberdade, Igualdade e Fraternidade os revolucionários defenestraram a monarquia do poder, mas deixaram as instituições estruturais, como as famílias, íntegras, motivo pelo qual a Revolução tornou-se popular e permanente, de forma que sua influência se faz presente até os dias de hoje. Já o que ocorreu na Rússia em 1917, foi uma má revolução, sonhou o impossível e não respeitou aqueles valores que a população tem apreço acima de ideologias; não se comprometeu com os seres humanos, colocou o Estado acima das pessoas e, por isso, deu no que deu. Outro exemplo de revolução perversa foi a revolução cultural chinesa. A Revolução Cultural foi um período de transformações políticas e sociais radicais que agitaram a China entre 1966 e 1976. Quem a desencadeou foi Mao Tsé-tung, que liderava o país desde 1949, quando os comunistas chegaram ao poder. Insatisfeito com os rumos do sistema que ele mesmo havia implantado, e para alcançar seus objetivos, Mao recrutou estudantes, os Guardas Vermelhos, que eram unidades paramilitares, organizadas pelo PCC, que ajudaram Mao Tsé-tung a derrotar seus rivais na luta pelo comando do país. O grupo, que chegou a ter 11 milhões de integrantes, iniciou uma onda de vandalismo contra monumentos históricos - que lembravam a antiga cultura chinesa -, perseguiu membros rivais do PCC, professores, médicos, literatos, religiosos, artistas, estudantes, pessoas acusadas de serem conservadoras e, pasmem, comunistas de extrema esquerda. Não respeitavam as mais atávicas células sociais, as famílias, de forma que desestruturaram a sociedade sem ofertar nada em troca, foi um fiasco que custou milhões de vidas, desagregou famílias, aldeias e cidades, e nada de aproveitável acrescentou à história. Logo, os Guardas Vermelhos, num gesto de autofagia, racharam em várias facções, cada uma julgando ser a verdadeira representante de Mao. Com isso, o grupo foi perdendo sua força aos poucos até desaparecer. Porém, deixou um legado de “terra arrasada” o qual só poderá, talvez, ser apagado da história, dentro de duas ou três gerações. A própria índole da sociedade humana, tende, de tempos em tempos, desagregar-se e moldar-se de forma diferente em seguida, de forma que sua nova feição, - mesmo propondo os velhos valores, onde “a busca da felicidade” está sempre em primeiro plano - se torna uma cópia mal feita da anterior. Parece que estamos fadados a nos comportarmos sempre assim, sem jamais compreendermos inteiramente o processo e sem ficarmos satisfeitos a cada nova mudança. Assim, mutatis mutandis, o homem muda para permanecer sempre o mesmo. JAIR, Floripa, 05/09/09.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A LEGIÃO E O GAROTO

Anos sessenta, para ser exato, 1961. Palmeira, cidade do interior do Paraná. Protagonista, um garoto que gostava de ler gibis e tinha muita imaginação, eu. Pois é, os gibis, nome das revistas em quadrinhos naquela época, que depois passaram a ser HQs, quase sempre publicavam na segunda contracapa as propagandas mais variadas, entre elas, uma que tocava no imaginário do garoto que lia e gostava de estórias de aventuras como “Beau Geste”: Conto que tratava de um jovem que assumia roubo feito pela mãe adotiva e alistava-se na Legião Estrangeira para não denunciá-la. Lá estava a propaganda da Legião, mais ou menos nestes termos: “Quer romper com o seu passado, começar uma vida nova? A Legião Estrangeira oferece a você uma oportunidade única. Sejam quais forem as suas origens, religião, cor, nacionalidade, os seus diplomas e nível escolar, sua situação familiar ou profissional, a Legião estrangeira lhe oferece nova oportunidade para uma vida nova”. Insinuando de certa maneira que mesmo que você tivesse algum débito para com justiça a Legião não se preocupava com isso. Aliás, filmes e histórias dos gibis enfatizavam a idéia de que a Legião Estrangeira sempre acolhia marginais e bandidos que estivessem prontos a servi-la bem em quaisquer circusntâncias. “Aliste-se, para tanto basta escrever para o Consulado da França, na cidade tal, rua tal, etc”. É bem verdade que eu não queria romper com meu passado, pois este nem sequer existia, mas, com certeza, a oportunidade de AVENTURA era irresistível tentação para uma mente imaginativa de adolescente interiorano. Tomei a decisão de minha vida, escrevi para o endereço indicado e aguardei ansioso a resposta que veio logo. Num folder bem impresso em quatro idiomas – Francês, Inglês, Espanhol e Português de Portugal – a Legião, para meu desgosto, informava já nas primeiras linhas as condições necessárias para ser aceite nas suas tropas: “Ter idade entre 17 e 40 anos, autorização dos pais se for menor”. Eu tinha quinze anos e nenhuma esperança de conseguir autorização paterna quando completasse dezessete. Claro, existiam outras exigências as quais naquele momento não faziam diferença alguma, que eram: “Seja qual for sua situação civil será contratado como solteiro; Ter aptidão física para servir em qualquer parte do planeta”. É bom lembrar que França tinha interesses coloniais em várias partes do mundo como, Argélia, Guiana, Nova Caledônia, Ilhas Reunião, Antilhas, Indochina etc. Uma curiosa observação: “Documentos pessoais não são obrigatórios, mas serão bem vindos”. Em seguida, para deixar claro o espirit de corps que motivava aqueles legionários a manterem-se no topo das forças combatentes como a elite do mundo, a Legião publicava seu regulamento de sete artigos que ainda guardo alguma lembrança: " 1 - Legionário, és um soldado voluntário que servirá a França com honra e lealdade; 2 - Cada legionário é teu irmão seja qual for sua nacionalidade, sua raça, sua religião. Serás sempre solidário com os membros da Legião como se fossem uma família unida; 3 - Respeitarás as tradições, serás obediente às ordens superiores, disciplina e camaradagem serão tua força, a lealdade e a coragem nortearão tua conduta; 4 - Fiel ao seu estado de legionário, vestirás a farda com apuro, teu comportamento sempre correto, teu alojamento sempre limpo; 5 - Serás um soldado de elite, tua arma vale tua vida, cuida sempre da tua forma física; 6 - A missão é sagrada, cumprirás até o fim, acatando as leis da guerra, as convenções internacionais, se for preciso com risco da própria vida; 7 - No combate, agirás sem paixão e sem ódio, respeitarás os inimigos vencidos, nunca abandonarás os mortos nem feridos, nem tua arma.” O folder fazia questão de lembrar que a Legião era a melhor constituida e mais bem treinada tropa do mundo, e mostrava fotos das tropas e equipamentos, entre estes, helicópteros de última geração usados pela cavalaria aerotransportada. A despeito da vontade, e sonho ingênuo de aventuras em desertos de areias escaldantes, batalhas ferozes em selvas úmidas e escuras e desembarque em praias fortemente defendidas num continente longínquo, a vida na cidade pequena impôs uma mudança de planos antes de completar dezoito anos, e o garoto que gostava de ler gibis e tinha imaginação alistou-se na Força Aérea Brasileira. JAIR, Floripa, 20/03/09.