domingo, 24 de janeiro de 2010

A TIRANIA DO TEMPO


Meus leitores já devem ter percebido que o tempo, com todas suas implicações, é tema recorrente em muitos de meus textos. Ora ele se apresenta em torno de relógios que tentam aprisioná-lo em seus ponteiros e dígitos; ora ele aparece na forma de poesia que o admira em sua perpetuidade e imparcialidade; ora ele é tratado como uma entidade viva que permeia os desvãos de todas as coisas e das atividades humanas. No dia-a-dia o tempo é igual para todos, acomete tudo e todos sem distinção; corrói o metal, degrada o seres vivos, eleva montanhas, seca oceanos e permanece imutável não obstante tencionarmos escravizá-lo colocando rótulos: segundos, minutos, meses, séculos etc. Contudo, é ele que nos escraviza, é um tirano implacável que não se comove com o drama da vida. A tirania do tempo é um fenômeno de nossa era, tão arraigado e presente que raramente pensamos a respeito. Mantemos o tempo em nosso pulso, nas paredes, em locais públicos, torres de igrejas e em todo local que estejamos.
Os relógios os quais decoram o pulso de todas as pessoas, de autoridades a gente comum, podem ter um mecanismo de mola que impulsiona os ponteiros ou um cristal minúsculo que oscila tão precisamente em reação a um impulso elétrico que ele nem adianta ou atrasa mais do que alguns segundos por ano. Os relógios eletrônicos, esses a bateria, são um milagre da tecnologia que passa despercebido; são aparelhos 99,9999 % exatos e ainda assim costumam ser tão baratos que podem ser descartáveis.
A história do relógio atual está ligada aos primeiros aparelhos mecânicos para controle do tempo durante a época elisabetana com o propósito da navegação em longas travessias oceânicas.
Antes disso, Galileu, ainda um jovem estudante sentado na catedral de Pisa, ao invés de prestar atenção na missa, notou a oscilação de um grande lustre suspenso. Usando o próprio pulso como cronômetro, Galileu notou que o lustre parecia levar o mesmo tempo para percorrer um grande arco como para percorrer um arco menor. Essa observação lhe sugeriu uma lei: O tempo necessário para que um pêndulo realize uma oscilação independe da amplitude da oscilação. Nasceu aí o conceito do relógio de pêndulo.
Durante a Idade Média e o Renascimento, os mestres relojoeiros eram artesãos de elite e as principais cidades da Europa disputavam seus talentos quando visavam adquirir o símbolo de status de uma torre com relógio. O mais antigo relógio ainda funcionando encontra-se na catedral de Salisbury na Inglaterra, está tiquetaqueando desde 1386.
Antes da tecnologia mecânica, todo o controle do tempo baseava-se nos ciclos do céu. Nascer e pôr do Sol e da Lua, marés, estações frias e quentes. O controle do tempo tinha o propósito prático de regular a agricultura. A necessidade de controlar o tempo é anterior à civilização, os povos nômades tinham que acompanhar as estações para determinar época de caça, de colheita, de mudança etc.
É irônico que marquemos o tempo com precisão cada vez mais acurada e, ainda assim, não prestemos atenção à vasta extensão de tempo que se estende à nossa frente. Para enfatizar esse despropósito de tempo que fluirá depois que nossa civilização se for, Danny Hills está construindo um relógio que marcará o tempo com perfeição durante cem mil anos. O seu “Clock of the Long Now” é um marcador de tempo para a falta de pensamento de longo prazo da nossa cultura. O relógio tiquetaqueará uma vez por ano, soará o gongo a cada século e o cuco sairá a cada milênio. Esse relógio reúne a melhor tecnologia digital e mecânica e terá uma precisão quase absoluta; continuará marcando o tempo muito depois de seu criador e todos nós termos morrido, é um relógio definitivo. Para muitas pessoas parece estranho que um mecanismo marque um tempo que temos dificuldade de assimilar: um tempo extremo.
Contudo, o que ressalta dessas vãs tentativas de controlar o tempo, é nossa submissão à sua transcendência, ele de nós não depende e a nós nada deve, estejamos ou não na face deste planeta azul; o tempo não espera e não apressa, não divide nem soma, não vive nem padece, a despeito de tudo ele simplesmente É. JAIR, Floripa, 24/01/10.

6 comentários:

C. Maluche disse...

Como sobrevivente que sou, acho que vivemos tempos alucinantes em que tudo acontece de forma muito rápida e vertiginosa, sem termos tempo para assimilar e compreender verdadeiramente o tempo só para viver...

Voluzia disse...

O tempo esse dilema, esse ente, esse obstáculo, esse caráter, é sempre difícil de definir, mas extremamente atraente e curioso. Parabéns pelo texto que tenta aprisionar essa entidade, mas reconhece que é ela que nos prende em seus grilhões.

Denise disse...

Boa reflexão sobre o tempo. Um tempo que vivemos correndo atrás, um tempo que parece passar muito mais rápido, um tempo que os relógios nos provam que continua passando no mesmo tempo. Um tempo que dependerá de onde vivemos e como vivemos.

serpai disse...

Paso por tu blog y te dejo saludos y agradecimientos por visitar el mío....volveré para leer no solo esta sino muchos de tus escritos.

Saludos

Sergio

R. R. Barcellos disse...

Alguém já disse: "Quanto tempo estaremos perdendo quando tentamos aprisioná-lo?"... só não me lembro quem foi.

luci vizinha disse...

Parabenizo o aeronauta aposentado pelo"TEMPO" que dedica à meditação
sobre o tempo, e tantos outros temas que fazem extrapolar o pensamento para ares nunca dantes
sobrevoados...ah! a eternidade...
O relógio,este instrumento poderoso
enunciado,vai tiquetaquear o tempo dos terremotos,inundações,etc. e tal?...
luci