terça-feira, 19 de janeiro de 2010

COMO FABRICAR UMA BRUXA



Os regimes ditatoriais e monopartidários do século vinte, embora de acordo com suas origens, cada um se revestisse de modus operandi diferente, todos tinham características comuns: consideravam inimigos quem a eles se opusesse, sendo que, se não houvesse inimigos eles os criavam. Parece que instituições contrárias a corrente de paz e convivência harmoniosa entre pessoas e povos, mesmo de opiniões diferentes, necessitam de inimigos para mostrar força, poder, eliminando-os. Assim foi o Santo Ofício, ou Inquisição. Empenhada em acabar com a heresia, palavra de significado amplo que abarcava desde pessoas deficientes físicas até malfeitores que, de propósito, ofendessem a religião católica, a Inquisição caçava bruxas, mas, onde não as houvesse, ela as fabricava. Assim, uma vez que a mulher fosse acusada de bruxaria ela ERA culpada, agora cabia aos inquisidores provar sua culpa, ou seja, fabricar uma bruxa através de tortura, para puni-la em seguida. O resultado dessa prática era: a mulher confessa ou não. Se confessar, sua culpa é clara: ela será executada. Qualquer retratação é em vão. Se não confessa, a tortura será repetida – duas, três, quatro vezes. Em crimes “excepcionais”, a tortura é ilimitada em duração, frequência e severidade. Se, durante a tortura, a mulher contorce as feições de dor, acusam-na de estar rindo; se desmaia, é que está dormindo ou enfeitiçou a si própria, tornando-se taciturna. E, se é taciturna, merece ser queimada viva, como aconteceu a tantas que, embora torturadas várias vezes, não se dispuseram a dizer o que os torturadores queriam ouvir. Nesse ponto, até os padres concordam que ela irá para a fogueira obstinada e impenitente; que ela não quis se converter nem abandonar seu íncubo que, segundo antiga superstição, é o demônio masculino que copula com as bruxas durante o sono destas.


Mas, pode ocorrer que ela morra de tanta tortura, neste caso o diabo quebrou seu pescoço, eles dizem. Por isso, o cadáver da pecadora impenitente será enterrado debaixo do patíbulo. Por outro lado, se ela não morre sob tortura, e se um juiz bastante escrupuloso hesita em continuar a torturá-la sem provas, ou queimá-la sem confissão, ela será mantida em cárcere e acorrentada mais severamente, para apodrecer na prisão ou até se render, mesmo que leve anos. Em geral ela morre nessas condições. Ela nunca consegue ver-se livre das acusações. O inquisidor se sentiria miserável, se absolvesse uma acusada; uma vez presa e acorrentada, ela tem que ser culpada, por meios legítimos ou torpes. Enquanto isso, padres ignorantes e teimosos atormentam a infeliz criatura para que ela se confesse culpada, quer isso seja verdade, quer não; se não confessar, dizem eles, não poderá ser salva, nem receber os sacramentos. Os padres mais humanitários não podem visitá-la na prisão, para que não lhe deem conselhos, nem lhe informem quais são os crimes de que é acusada. Nada é mais temido do que a possibilidade de ser apresentada alguma evidência que prove a inocência da acusada. Quem tenta tal coisa é rotulado de suspeito e pode provar do remédio aplicado aos hereges, ou seja, pode ser queimado vivo na fogueira. Enquanto ela for mantida na prisão e torturada, os inquisidores inventam estratagemas inteligentes para criar provas de culpa que a condenem sem sombra de dúvida, para que, ao revisar o julgamento, um juiz secular possa confirmar o castigo de ser queimada viva. Para dar a impressão de muito escrupulosos, alguns inquisidores mandam que a acusada seja exorcizada, transferida para outra prisão e novamente torturada, para quebrar seu silêncio; Se ela continua calada, eles podem finalmente queimá-la. Como aquela que confessa e aquela que não confessa morrem ambas da mesma forma, como pode alguém escapar? Ninguém escapará, pois isso seria uma desgraça para o zelo das instituições católicas e uma fonte a menos de renda para a Inquisição, visto que os bens da condenada revertem à Igreja. Ainda mais, depois que, sob o estresse da dor a bruxa confessa, sua situação torna-se indescritível. Não só ela não consegue escapar de sua situação como é compelida a acusar outras pessoas as quais não conhece, cujos nomes são, frequentemente, postos na sua boca pelos inquisidores crápulas ou sugeridos pelo carrasco, ansioso para faturar mais algumas execuções. Os novos acusados, por sua vez, são obrigados a acusar outras pessoas, que são obrigadas etc. E o processo deve continuar indefinidamente. Não é de espantar que tenham existido tantas bruxas, mais de cem mil foram queimadas e centenas de milhares sofreram outras penas degradantes. A fábrica de bruxas foi uma máquina impositiva da Inquisição para se auto alimentar de riquezas, e para alimentar de carne pecaminosa as fogueiras que purificavam os cânones da igreja católica. JAIR, Floripa 19/01/10.

4 comentários:

Ângela Coelho disse...

Jair! O que eu entendia era que a Igreja precisava de vitimas para oferecer então fabricavam suas bruxas. Pela sua pesquisa vejo que eu tenho razão.
Beijos.

R. R. Barcellos disse...

Jair, suas matérias sobre "o lado negro" são sempre elucidativas. Que tal um pequeno estudo sobre a inquisição protestante? A pesquisa será dificultada pela polarização pró e contra de cada corrente, mas você já provou que tem cacife para navegar nessas águas...

Maringa disse...

Nossa, fiquei arrepiado lendo esse texto, é de chocar realmente. É inconcebíbel que isso tenha existido e tenha sido legitimado por tanto tempo. O que a Igreja Católica fez ou faz para ressarcir quem sofreu na mão dela?

Adri disse...

A igreja do mundo de hoje é o governo.....