quinta-feira, 24 de setembro de 2009

AVIÕES


Os aviões parecem sólidos, pétreos, firmes, mas na verdade são máquinas frágeis e elegantes. Não é à toa que os aviadores preferem chamá-los de aeronaves, nome feminino mais de acordo com sua natureza débil, seu perfil nobre e suas curvas suaves e, por que não dizer, sensuais. Mesmo aviões imponentes com turbinas enormes e de grande potência como o gigante de transporte militar Galaxy; ou o Airbus 380 com capacidade para mais de quinhentos passageiros, são máquinas meigas e femininas com aparências voluptuosas.
Aeronaves, desde as mais prosaicas e quase artesanais dos primórdios da aviação quando eram confeccionadas de madeira, tela e fios de aço, até as moderníssimas em cujas estruturas entram ligas de carbono e materiais como titânio, têm seu encanto nos contornos sinuosos que não agridem o olhar do mais exigente esteta. Mesmo incorporando tecnologia de ponta, sendo utilizadas para fins de agressões e combates, possuindo potência e capacidade de carga elevadíssimas, elas, as aeronaves, são como esculturas sexis, obras de arte que acariciam olhares e deleitam gostos refinados.
Ao alçarem voo não parecem e nem desejam parecer pássaros altaneiros, pois estes lhes são êmulos de performances inalcansáveis; não voluteiam e nem batem asas; não trafegam por curvas erráticas e nem fazem mudanças bruscas de altitude; pelo contrário, seu itinerário é resoluto, sem inflexões levianas desprovidas de sentido; desenham curvas langorosas e equilibradas, parábolas perfeitas; parecem saber o que querem e aonde vão, não são dispersivas; traçam itinerários observando nuvens e respeitando ventos.
O aviador dentro da aeronave, se funde com ela, passa a ser componente intangível e dissociável da própria máquina. Juntos, avião e piloto parecem um centauro, com uma cabeça minúscula e um corpo enorme que obedece às mínimas vontades da mente que manda. O que resta do corpo do piloto, integrado ao corpo da máquina, move-se em consonância sincrônica com tudo que a máquina faz obedecendo aos comandos que a fazem voar. O piloto sabe que a vida dele depende, justamente, da capacidade da aeronave de aderir a ele como um mecanismo obediente de peças variadas, perfeitamente justapostas e funcionando sem defeitos. Há uma associação de idéias que leva a pensar que o corpo humano se desintegra totalmente, deixando de existir por moto próprio. Mas a mente humana, simbolizada pela cabeça do piloto, continua controlando o corpo mecânico do avião, muito mais poderoso. Então, quando se alcança essa completa unicidade homem/máquina o voo se torna muito mais que um simples deslocamento, perde-se a dimensão clara da velocidade e das distâncias, atinge-se a metafísica.
É lícito supor que alcança-se um nível mágico de interação adimensional, transcendental até. Nesta hora, a máquina fêmea e o piloto viril unem-se em conjunção cósmica que os leva ao êxtase astral além do plano terreno. O avião passa a ter vida exclusiva a qual não se define e nem se explica, apenas se percebe. Neste estágio, a vida da aeronave possui uma alma que, embora efêmera, lhe acrescenta luz própria enquanto existe, enquanto o voo se realiza, enquanto ela flutua no éter invisível que a sustenta.
No ar, as formas do avião são as que menos agridem o céu que não o deseja perturbando suas nuvens e revolvendo sua atmosfera. No solo, ao pousar, a aeronave descansa orgulhosa exibindo suas formas lascivas, sua pele suave, sua geometria limpa, esperançosa que se faça aos ares tão logo seja preparada. Ela não se encontra neste mundo para sofrer os efeitos da gravidade opressora; sentir-se pesadona e apegada ao duro chão que a suporta; ela é uma entidade destinada a ser abraçada pelo vento, envolvida pelas nuvens que a acolhem, e iluminada pelo pela luz crua do sol da alta troposfera. JAIR, Floripa, 23/09/09.

17 comentários:

Maria L. Bózoli disse...

Simplesmente lindo como voce fala de uma aeronave.......é como se estivesse descrevendo uma pessoa.

Parabéns........M@ria

Olegário disse...

JJ,
Belíssimo texto. Parabéns.
Ousei sugerir algumas modificações, elas seguem de volta, no texto, usando os recursos de revisão / alteração do Word.
Um forte abraço.
Alegário

Jorge disse...

Jair,
Excelente descrição dessas máquinas maravilhosas. Nunca li um texto tão poético e que compara a aeronave a uma lida e sensual mulher. Alias, tanto as mulheres como as aeronaves merecem a comparação. Parabéns.

Graça disse...

Maravilha que enche nossos olhos!!!
Jair, você é tudo isso que disse em seu perfil e, sem exagero, um pouquinho mais...
Parabéns; fico agraciada por conhecer o poeta das naves sensível e conhecedor do íntimo de uma máquina voadora (se é que isto é humanamente possível)...

Adri disse...

Muito bom o texto...

Guimarães disse...

Gostei muito do que li. Realmente nossa atividade é exercida no nosso dia-a-dia sem nos darmos conta de sua beleza e talvez da significância de podermos realizar tal "trabalho" ...

Cyro disse...

Caro Jair
Gostei muito do texto. Uma bela obra que nos faz a todos sentir emocao e perceber o privilegio de fazer parte deste magico "bailado".
Cyro

Ananias Duarte disse...

Dr. Jair,
obrigado pela visita;
vamos mtrocar 'figurinha'.
gosto de gente do bem!!, hehehe
abraços

Estela disse...

Não é à toa que por aqui se diz que uma mulher bonita é um "avião".(rss...)
Adorei!
Bjs.

Ananias Duarte disse...

Jair, você é um bigode perigoso....
A sua frase "O homem criou Deus ..." é simplesmente um ACHADO!
Vocês, ainda, será tão famoso como Sócrates, por essa frase; Creia!
Obrigado pelos comentários.

Alma inquieta disse...

Olá Jair,

passa pelo meu blog...
tem lá uma coisa pra ti!

Beijos.

Ângela Coelho disse...

Incrível a paixão como descreves a aeronave. O homem e a aeronave se fundindo em uma peça só. Gostaría de ler a tua descrição sobre o amor de tua vida.
Beijos.

analuiza disse...

Olá, voando cheguei até aqui e para aqueles que tem medo de avião, doravante devem conhecer uma linda mulher que voa. Abraços e parabéns

Leonel disse...

Jair, você está virando um Saint-Exupéry ! Nunca te imaginei falando com tanta poesia de um avião!
Mas, eu, que desde que me conheço por gente sempre tive fascínio por estes engenhos maravilhosos, me arrisco a dizer que, embora outras invenções talvez tenham tido mais impacto ou importância na nossa vida, na nossa evolução e nos nossos costumes, A que eu acho mais notável é o avião! Desde criança eu já procurava identificar e conhecer os tipos e modelos que eu via no céu e em fotos. Afinal, consegui passar a maior parte da minha vida envolvido diariamente com eles ! Apesar de algumas situações desgastantes, eu sempre tive entusiasmo pela atividade aérea e toda a sua problemática, que também é fascinante! Nada funciona por acaso na aviação ! Só se as coisas forem feitas da forma correta ! O fato de conseguirmos isto já é por demais gratificante, pois, se funcionou, é porque, com certeza, fizemos tudo certo!

JAIRCLOPES disse...

Leonel,
Você e eu partilhamos uma vida profissional em comum por um bom tempo, tempo esse que me fez admirador de tua inteligência e ácie, e me obrigou a respeitar tuas opiniões que são sempre bemvindas. Obrigado pelo comentário e aproveito para lembrar que meu lado "Saint Exupery" sempre existiu, mas encontrava pouco espaço para se externar. Aeronaves e aeronáutica são uma daquelas coisas que nossas carreira nos proporcionaram conhecer em profundidade e que temos o prazer de curtir, hoje, como um passatempo agradável e estimulante. Abraços, JAIR.

Luísa N. disse...

É, parece que agora vou me sentir mais segura ao entrar numa 'avioa', quer dizer, em um avião macho com corpo de mulher! Obrigada, poeta dos ares, por nos deixar menos apreensivos - homens e mulheres - em relação à essa 'máquina voadora'!
Luísa

Graça disse...

Jair,
tem um poema meu lá na vitrine do Empório que foi inspirado em você e na tua profissão, com meus respeitos!
Vai dar uma espiadinha...