quinta-feira, 1 de outubro de 2009

RATOS


Ninguém morre de amores por eles, talvez sejam os mamíferos mais execrados do Planeta. Mulheres sobem em cadeiras e berram sem controle a visão desses roedores, e homens, movidos por um estímulo amoque, tomam providências imediatas para eliminá-los. A curto prazo chinelos e vassouras se prestam para a execução; a médio prazo, ratoeiras; e, a longo, venenos e iscas tóxicas os eliminam às pencas. Rato bom é rato morto. Não se tem notícia que sejam admirados ou tolerados a não ser na cidade de Bikaner na Índia onde existe um templo dedicado a sua adoração, e onde são criados e alimentados com o carinho que se dispensa a um animal de estimação. Fora essa excrescência do comportamento humano em relação a esses animais, todas as culturas, países, civilizações e povos sempre os consideraram nojentos, promíscuos, nocivos à saúde humana, sujos, feios e predadores. O que não está longe da verdade, entretanto, a ciência vale-se de ratos como cobaias de pesquisas importantes no desenvolvimento de medicamentos e métodos de combate a doenças que, de outro modo, estariam fora da possibilidade de cura sem colaboração dos roedores de laboratório. Ao lado dessa franca utilidade dos bichos há o desprezo que calunia: rato, na linguagem popular, costuma-se chamar ao ladrão, ao malfeitor que se apodera do alheio. Camundongo é a designação dada, no Brasil, à espécie mus musculus, um pequeno roedor da família dos murídeos, encontrado originalmente em Portugal. É o animal mais utilizado como cobaia em laboratórios de biologia como um modelo aproximado do organismo humano, além de ter uma gestação curta que contribui para estudo das mudanças genéticas. Pois é, Rato é o nome genérico dos mamíferos roedores da família muridae. É a maior família de mamíferos existente na atualidade, cerca de 650 espécies, classificadas em cerca de 140 gêneros e em cinco ou seis subfamílias. Uma grande quantidade de informações sobre a anatomia, fisiologia, comportamento e doenças estão disponíveis devido à sua popularidade como animais de laboratório. E esta popularidade se dá por conta de em muitos aspectos assemelharem-se ao humano, sendo fundamental o imunológico que o faz a melhor escolha para laboratório e vetor de muitas doenças. Os ratos silvestres foram, aparentemente, originados nas regiões temperadas da Ásia Central. Através de migrações pelas rotas comerciais e militares, o rato se espalhou pelo mundo, na Austrália, depois de desembarcar de navios dos colonos, tornou-se praga inextinguível por falta de predadores. Muitos tipos de rato transformaram-se em espécies invasoras e causaram estragos nos ecossistemas ocupados através da sua migração. Os ratos são conhecidos especialmente pelo risco à saúde, são portadores de variadas doenças transmissíveis ao homem, como a leptospirose, o hantavírus e a peste bubônica, além de ser hospedeiro para outras doenças. Paradoxalmente a este lado pernóstico do animal que o torna impopular e até odiado pelo homem, a figura do roedor é explorada ad nauseum pelas indústrias de entretenimento, tornando-se fonte que gera milhões de dólares para aqueles que a usam. Refiro-me ao Mikey Mouse e similares. O fato comprovado é que o comportamento social desses bichos é extremamente adaptado ao convívio humano, nossas cidades, labirínticas e cheias de nichos, fendas e vãos, lixos orgânicos em abundância, oferecem o que há de mais adequado para sua segurança, alimentação e procriação. Verdadeiros paraísos feitos sob encomenda para que os murídeos tornem-se nossos incômodos sócios parasitas que roem nossas roupas e móveis, urinam e defecam na nossa comida. Por isso, o termo rato doméstico, criado para nomear aqueles animais os quais vivem nas proximidades dos homens, é a designação que define melhor os roedores cujos modus vivendi estão atrelados a nós, pelo visto para sempre. Enquanto houver homens haverá RATOS. Mais até, para aqueles que se julgam muito superiores a esses mamíferos, veio-me à mente que, a propósito do término do "Projeto Genoma", o qual depois de consumir milhões de dólares e milhares de horas das cabeças pensantes mais poderosas do planeta e, de tempos em tempos, movimentar a mídia com notícias sensacionais a respeito de descobertas fantásticas, chegou à conclusão que: contados todos os genes do homem, estes não passam de uns meros trinta mil, o mesmo número de genes do rato. Para a ciência, que achava que os genes do homem chegariam à casa dos cem mil, foi um balde água fria esta conclusão, pois, se depender dos genes, o arrogante bicho-homem é apenas um rato que fala. JAIR, Floripa, 01/10/09.

5 comentários:

Ângela Coelho disse...

Tenho nojo de ratos, mas não subo em cadeiras e se for preciso eu os mato.
Existia em Porto Alegre uma pastelaria famosa na rua da praia, cansei de comer lá. Anos depois estourou o escândalo, o dono, um japonês, criava ratos para seus pastéis maravilhosos. Ele disse que era tudo limpinho pois criava estes bichinhos asquerosos em gaiolas. Com este teu post eu vejo que ele criou e eu comi parentes.kkkkkkk
Beijos.

neo-orkuteiro disse...

Tudo bem, Jair? Sou seguidor culpadamente absentista de seu blog e venho hoje remir-me um pouco em seu pensante blog.
Ratos, que contradição! Úteis e nocivos, abomináveis e adorados, meros roedores e geneticamente assemelhados a nós humanos.
Acudiu-me enquanto lia a expressão em inglês "to be as poor as a church mouse". Estes roedores são de fato indissociáveis da nossa pobreza. Na nossa pobreza extrema as condições de asseio são de fato muito atraentes para eles, e não há desratização. Mas rato de igreja, esse está ... mal pago, mesmo.

Ananias Duarte disse...

Você sabe que não é bem assim ...
Tem gente que adora rataos. Para os hindus, templo de Karni Mata não é apenas o local onde habita a deusa Karni Mata, mas também os dos bem alimentados ratos (chamados kabas) que são grandemente reverenciados. Neste templo, ratos são adorados e alimentados com doces e leite, visto que os hindus crêem que, os corpos dos ratos são casas para as almas dos devotos de Kanri Mata que já morreram.
Em alguns paises, rato é uma iguaria, sendo devorados em banquetes.
abraços

J. Muraro disse...

"O bicho-homem é um rato que pensa" é uma sacada genial! O texto está ótimo e o tema inusitado, quase ninguém se dá ao trabalho de escrever sobre esses mamíferos marginalizados, parabéns!

GUILHERME PIÃO disse...

Aprendi mais um pouco sobre ratos.
Mas continuo a não gostar deles e principalmente os que estão em Brasilia.
Abraços