sexta-feira, 6 de março de 2009

O SILÊNCIO DAS CURUCACAS


Curucacas (ou Curicacas) são aves do porte de perdizes que vivem nos campos secos e nas matas ciliares da Colômbia à Terra do Fogo, inclusive nos Andes e em quase todo o Brasil. São (ou eram) comuns nos Campos Gerais, como é chamado o segundo planalto paranaense. Cresci tendo essas aves como familiares e comuns, já que eram avistadas nas proximidades de minha cidade natal no Paraná. A maior parte das aves dessa família possui o bico longo, fino e curvo, lembrando muito a figura da íbis-sagrada dos antigos egípcios. As penas da nuca são mais longas e parecem “despenteadas”, ficando um pouco eriçadas. Possui uma testa clara, quase branca, contrastando com os olhos amarelos. As pernas são alaranjadas ou vermelhas. Comem gafanhotos, aranhas, centopéias, ratos do campo, lagartixas e, sobretudo, cobras, o que lhes confere certa imunidade por parte dos fazendeiros, os quais não costumam perturbá-las por que elas supostamente livram seus campos de serpentes venenosas que poderiam picar o gado. Para apanhar larvas de besouro a ave enfia o bico na terra até a base. Mesmo sapos considerados venenosos para o estômago da maioria dos animais não escapa do apetite da Curucaca. Nidifica sobre árvores ou lajes de rochas no campo e põe cerca de cinco ovos. O casal reveza-se para cuidar dos filhotes que são alimentados por regurgitação. São aves barulhentas e sua voz forte, do timbre de uma galinha d'angola, acusa logo sua presença nos campos. Era comum ouvi-las antes de vê-las nos campos ao redor de Palmeira onde íamos apanhar gabiroba, ou passávamos com destino às matas ombrófilas catar pinhões, enquanto elas, geralmente empoleiradas nos afloramentos de arenito que são comuns naquelas paragens, faziam algazarra como um bando de crianças despreocupadas. Por que estou, meio saudoso, falando das Curucacas? Porque essas aves, cujas presenças atestam a boa saúde ecológica do local onde vivem, sumiram, desapareceram, se calaram, não mais se ouve seu canto desafinado e estridente nos campos lindeiros de Palmeira! As Curucacas se foram juntamente com os campos e matas ciliares que lhes davam abrigo, alimento e segurança para reprodução. Toda a região no entorno de minha querida Cidade Clima é hoje dominada pela monocultura de soja. A monocultura, além de ser uma atividade burra porque facilita a proliferação de pragas e obriga o agricultor usar cada vez mais agrotóxicos, é, na maioria das vezes, empreendimento de risco que leva para o buraco o produtor que está atrelado a apenas um produto o qual, cotado nas Bolsas de Cereais, pode, de um dia para outro, sofrer tropeço especulativo ou de forças outras que não apenas do clima ou das leis de mercado, as quais refletem a oferta e procura. Também força a importação de outros alimentos, geralmente mais caros, não produzidos na região porque optou-se pela cultura de apenas uma espécie. Além desses efeitos, digamos, diretos, existem outros menos claros e imediatos, mas que são mais amplos, nocivos e permanentes para um número maior de pessoas, de animais e plantas nativas: São as modificações ecológicas ruinosas introduzidas no ambiente pela não observância de um mínimo de respeito pela disposição orográfica da região; pela desconsideração com as curvas de nível de modo a permitir assoreamento dos mananciais, rios e regatos da região; pela exterminação sumária das matas ciliares, as quais além de resguardarem às margens dos cursos d’água asseguram ambiente propício à vida a pequenos mamíferos e aves como curucacas e saracuras que, para dizer pouco, são fatores de equilíbrio ecológico porque alimentam-se de insetos e roedores os quais atacam, justamente, as lavouras monoculturais que permitiram sua proliferação. Existe maior estultice que essa? Hoje, o arroio Monjolo onde uma pequena represa formava o “Tanque dos Cherubins”, no qual toda a garotada da Rua Barão aprendeu a nadar, não existe mais. Foi engolido pelo desmatamento criminoso que destruiu sua mata ciliar. Já o Rio do Pugas, cuja “Cachoeira” foi palco de muitas alegrias da gurizada nas tardes de domingo porque lá iam banhar-se e tomar sol as putas dos “Cedrinhos”, puteiro próximo à linha férrea onde esta é cruzada pela Rua Quinze, hoje se resume a um fiozinho d'água que não faz juz ao riacho de águas claras e muito frias que foi no passado. Os chamados tanques “Quarenta” e "Vinte e cinco” também são apenas lembranças dos mais idosos e saudosos, sumiram para sempre, juntamente com as matas adjacentes, tragados pela ganância monocultural criminosa daqueles que põem os lucros acima da qualidade de vida, seja dos animais e plantas, seja do bicho homem. Lamentável. O silêncio das Curucacas, para quem quer ouvir, é o grito da natureza pedindo socorro aos homens de boa vontade, únicos que podem fazer regredir esse quadro triste e funesto, quadro este de aridez e morte num dos lugares que foi o mais cheio de vida e formoso dos Campos Gerais. JAIR, Floripa, 06/03/09.

5 comentários:

Ruy disse...

Jair, muito boa essa tacada curucacal, aliás, eu nem lembrava mais desses pássaros, mas foi só começar a ler o texticulozinho e as lembranças foram renascendo. Apenas fiquei com uma dúvida: o “Quinze” que vc citou seria o nosso “Vinte e Cinco”? No mais, acho que tá bem enquadrado o contexto que levou à desaparição bixos de quatro patas e avuantes. Nosso tio Benvindo — há quase trinta anos —, já vinha alertando para o desaparecimento de várias espécies de aves campesinas, vitimadas pela ingestão de sementes contaminadas pelos potentes agrotóxicos utilizados na então nascente cultura (ou seria melhor dizer praga?) da soja.
Abração, do Ruy.

JAIRCLOPES disse...

Pois é, Ruy, minha memória decrépita deve ter subtraído dez do tanque que tanta diversão nos trouxe. Já fiz a correção, obrigado pela observação. JAIR.

Anônimo disse...

Nao só elas que estao a este mal sucumbidas...
A humanidade é ótima em uma coisa...e só nisso tem sido perfeita: a Auto-Destruição.
Valeu pela reflexão e pesquisas.
Saulo

Leonel disse...

Muito triste saber que não veremos mais alguns bichinhos que nos despertaram o interesse na infância...Eu, no ano passado, fui premiado com a visita de um autêntico carcará (os gaúchos chamam cará-cará), que pousou no muro dos fundos da minh casa. O bicho era muito bonito, com seu bico bem amarelo e a sua "boina preta"! Eu tentei fotografa-lo, mas não queria abrir os vidros da janela para não espanta-lo. O foco automático da câmera foi confundido pelos vidros e pelas grades da janela, e a foto ficou desfocada! Uma pena! Ele não voltou a aparecer, o que é lamentável! Talvez tenha sido morto ou enxotado por vizinhos que tem passarinhos engaiolados e odeiam os gaviões. Eu gosto mais dos gaviões do que deles!

MALGAXE disse...

Meu caro Jair, prazer em conhecê-lo, estava pesquisando a respeito de Curucacas e me deparei com seu Blog, muito bom, é bom saber que o amigo é escritor, pois navego amadoristicamente neste mar, sob o pseudonimo de MALGAXE, e o que me chamou a atenção é p fato de tu escrever das paragens de Palmeira, pois servi 2 anos no quartel da Fazenda Baroneza, e bem sei a riqueza natural desta região, mas receio pela preservação ja que servi nos anos 1980 e 81 e desde então não voltei mais a esta bela região, apesar de ser de Irati, moro há 30 anos em Pato Branco, meu Email, o meu Blog é no endereço http://malgaxe1907.blogspot.com/ e também publico meus textos no Recanto das Letras. Feliz, por te encontrar meu amigo, felicidades. Edilson (Malgaxe)