terça-feira, 10 de março de 2009

A ÍNDIA É UM ENIGMA


Estou lendo o excelente livro “Criação” de Gore Vidal onde autor faz um retrato riquíssimo da sociedade indiana com suas castas, etnias, milhares de deuses e inúmeras religiões, e assisti ao filme ganhador de três Oscars, “Quem quer ser milionário” o qual exibe, com chocante previsibilidade, os contrastes sociais da Índia, nação onde as diferenças entre a maioria miserável e analfabeta e a elites ricas e poderosas, são milenares, aviltantes, astronômicas e sem quaisquer possibilidades de mudança num futuro previsível. O sistema de castas sociais, onde o nascimento determina a impossibilidade de ascensão social; onde o indivíduo só é entendido como pertencente a uma casta a qual ele deve fidelidade absoluta e vitalícia; onde infringir as normas de sua casta significa expulsão e inclusão na casta dos párias ou intocáveis, o que é o mesmo que destituí-lo da condição de ser humano, torna a sociedade indiana a mais ignominiosa e injusta do planeta. Grosso modo, são quatro as castas clássicas: Brâmanes, Xátrias, Vaixás e Sudras, e, uma quinta, os Párias, que são uma espécie de classe de seres abaixo de classificação, mas que, curiosamente, possui suas próprias subcastas. Todas as castas são divididas em subcastas, subsubcastas de tal forma que são discerníveis mais de oito mil subdivisões, o que torna a sociedade indiana de uma complexidade macarrônica. O perverso do sistema é que, como não há mobilidade vertical intercastas, quem nasce pária, por exemplo, não tem qualquer possibilidade de estudar e se tornar médico, engenheiro, professor, técnico em alguma coisa, sua vida estará traçada com rigor numa profissão humilde e mal remunerada que poderá ser carregador de água ou limpador de fossa sanitária, não há escolha. Seus filhos, netos e demais descendentes também estarão destinados à mesma profissão. É claro que lá existem cientistas, prêmios nobéis em medicina, física, matemática e outros luminares, mas, estes são todos das castas Brâmanes ou Xátrias. Não sei e não me interessa extrair alguma ilação proveitosa dessa incrível situação heterodoxa de uma nação tão antiga e que, parece, optou pelo caos como organização social. A Índia já foi colônia inglesa e se tornou independente em 15 de agosto de 1947, separando-se em duas nações diferentes: A República da Índia que ocupava o coração do sub continente e a nova República do Paquistão, a qual foi dividida em dois lados, Ocidental e Oriental, sendo que este se tornaria a nação de Bangladesh. O propósito inicial dessa divisão era que os muçulmanos ficassem no Paquistão e os hindus na Índia, não foi o que aconteceu, houve uma mistureba federal em ambos os países, o que não contribuiu nem um pouco para a harmonia social. O inusitado da situação é que, apesar da salada de etnias, multiplicidade de idiomas, número infinito de deuses e inúmeras religiões com disposições antagônicas, favelas maiores e mais miseráveis do planeta e esse absurdo sistema de castas, a Índia ainda é uma democracia estável e uma potência atômica. Durma-se com um barulho destes. JAIR, Floripa, 10/03/09.

3 comentários:

Adri disse...

Boa leitura...

Pois e, onde haver civilizacao, sempre havera diferencas de classes sociais, algumas mais complexas do que outras... mas nunca fugiremos delas.....

Anônimo disse...

Macarrão + Fossa Sanitária = Democrácia Atômica

Se as duas palavras somadas fossem lançadas para um debate, acredito que o mais imaginativo físico filósofo moderno jamais encontraria a Democrácia Atômica como resultante.

Esta complexidade e interactividade insana é exemplo que nos permite acreditar que o mundo possa ter um amanhã melhor!!!

Saulo

De Rose disse...

Esta é a nova resposta:
Estimado Jair, você tem uma maneira de colocar as coisas parecida com a minha. Às vezes, isso pode não ser bom. Eu contratei uma assessora cuja função é moderar o meu discurso para que ele não agrida sem querer a quem quer que seja, já que essa não é a minha intenção e certamente também não é a sua. Embora você tenha razão em quase tudo, é preciso saber dizê-lo. Eu estou aprendendo a fazer isso (devagarinho). Contudo, as coisas não são exatamente como nos contam sobre a Índia, a maior democracia do mundo. Depois de vinte e quatro anos revisitando a Índia, passei a admirá-la cada vez mais. Cada vez que eu retornava ao Brasil percebia que a percepção que alguns têm da Índia é similar àquela que os Europeus têm da América Latina. O que nem sempre corresponde à realidade. Sobre as castas há um caso interessante. Um pária (intocável) chegou a Presidente da República na Índia. Isso é sensacional e coloca em dúvida a questão da rigidez da d! ivisão das castas. Também não sei por que isso escandaliza tanto os ocidentais, já que temos um sistema de castas igual e tão rígido quanto. Se um jovem da favela resolver namorar e se casar com uma jovem de outra classe social isso vira uma tragédia grega e pode sair até morte. A discriminação social no ocidente é atroz. Posso lhe testemunhar isso, pois nasci em uma família aristocrática, mas rejeitei o "sistema". Optei por tornar-me um sem-casta. E o mundo me fechou as portas. Aos poucos estou aprendendo a deixar de ser adolescente (com a minha idade, já estava em tempo) e à medida que comecei a aceitar o stablishment ele também passou a me aceitar. A Índia não é o que a percepção ocidental diz dela. Há exageros para cima e para baixo.