segunda-feira, 23 de março de 2009

TERRAE AUSTRALIS


Nada mais previsível e natural que minha atividade de beletrista eventual me compulsasse escrever sobre a Austrália, esse país continente que fascina pela exoticidade da fauna e espanta pela distância aos demais países ditos civilizados, e que tive oportunidade de visitar por três vezes em sua porção territorial leste, nordeste e sudeste. A Austrália é o único país onde, nos tempos modernos, ou seja, quando do “descobrimento”, todos os povos nativos ainda viviam sem qualquer marca da chamada civilização – desprovidos de agricultura, gado bovino, metal, arcos e flechas, construções significativas, aldeias, escrita, tribos centralizadas ou organizações sociais complexas. Ao contrário, os aborígines australianos eram (são) nômades ou caçadores-coletores seminômades organizados em bandos – mais antiga organização social humana, pelo que se sabe através de estudos arqueológicos – e vivendo em abrigos temporários ou cabanas e usando apenas instrumentos de pedra polida, como homens primitivos de quarenta ou cinqüenta mil anos atrás. Durante os últimos treze mil anos, menos mudanças culturais ocorreram na Austrália do que em qualquer outro continente. Esse estágio, aparentemente estacionário dos aborígines, levou um explorador francês, com evidente conotação racista, a dizer: “Eles são a gente mais miserável do mundo, e seres mais próximos das bestas selvagens”. Diga-se, a maior parte dos exploradores europeus que lá chegou por consequência da colonização assim pensava e agia de acordo, isto é, considerava os nativos não humanos, os quais podiam ser (e eram) caçados como se animais selvagens fossem. Dos estimados trezentos mil habitantes originais do país, restavam menos de trinta mil quando, em 1983, o Parlamento australiano os reconheceu, ainda que tardiamente, como seres humanos e, mais ainda, reconheceu-os como proprietários legítimos das terras australianas, de modo que a partir daí, o Estado paga uma indenização a cada aborígine pela ocupação que os brancos fazem de suas propriedades. Mais de quarenta mil anos atrás, sociedades nativas australianas desenvolveram as ferramentas de pedra mais antigas que se conhece e as primeiras embarcações, e isso lhes dava uma dianteira tecnológica frente a outros povos que habitavam a Europa e a Ásia, contudo, estagnaram, permaneceram no estágio da pedra polida, sequer passaram para o arco e flecha. O que teria acontecido com esses promissores povos de modo que não mais conseguiram avançar no sentido da civilização como outras populações o fizeram, de tal forma que os europeus acabaram conquistando a Austrália e não ao contrário? Por que os astralianos não fabricaram ferramentas de metal, não inventaram a escrita nem desenvolveram sociedades politicamente complexas? É, minha gente, a resposta está na aridez do solo, na esterilidade dos ambientes e na imprevisibilidade do clima das terras australianas que são uma realidade cruel onde inexistem plantas e animais domesticáveis, o que limitou a população de caçadores-coletores em trezentos mil habitantes, comparada com milhões na Eurásia, mais de dois terços do país – sua porção central – são desertos hostis onde não existe água e nada cresce, e é impossível criar tecnologia onde nada existe. Por falar em nada, a paisagem na maior parte da Austrália, descontando o Out Back que é deserto puro e inóspito, consta de regiões planas cobertas de enormes florestas secas e bem ralas de eucaliptos – existem mais de duzentas espécies dessa planta, desde pequenos arbustos até aquelas árvores grandonas que conhecemos – cortadas por pequenos córregos (creeks) que permanecem sem água nove ou dez meses por ano, e sofrem enchentes extremamente rápidas e letais na época das chuvas. A paisagem se parece muito com os sertões nordestinos e o serrado do Brasil central, é uma espécie de mistura dos dois sistemas. Se bem que, os agricultores fazendo uso de tecnologia para obter água do subsolo e criatividade, transformam vastas regiões desertas em grandes “plantations” de cana-de-açúcar, girassol e trigo, como bem vi em minhas andanças por lá. Quando se fala daquele país, as primeiras coisas que nos vêm à mente são cangurus e bumerangues, nada mais lógico já que é isso que a propaganda turística explora. Contudo, mesmo lembrando que bumerangues e cangurus são importantes fontes de atração turística, a Austrália possui outros itens que a tornam um país bem colocado no chamado concerto das nações. Maiores reservas de ferro, cobre, alumínio, zinco, carvão, ouro, pedras preciosas como diamantes, safiras e opalas. Aliás, tive oportunidade de conhecer uma região de garimpos. Vale pela curiosidade, fomos a uma cidadezinha apropriadamente chamada Saphire, onde se encontra a maior concentração safiras do planeta. Lá, mediante um pequeno pagamento pode-se garimpar um pouco. O resultado foi um monte de lixo em forma de pedrinhas não aproveitáveis comercialmente e umas cinco ou seis de boa qualidade que puderam ser lapidadas. Mandei lapidá-las aqui no Brasil e guardei como lembrança da minha primeira experiência como garimpeiro. Duas das pedrinhas têm mais de quilate e meio de peso, lembrando que um quilate vale um quinto do grama, ou seja, um grama equivale a cinco quilates. Além das belezas naturais como a maior barreira de corais do planeta, a Austrália e a Nova Zelândia são os únicos países de primeiro mundo do hemisfério sul que têm uma distribuição de renda das melhores, só perdendo para o Canadá. Longe de mim fazer apologia gratuita das virtudes de um país o qual está tão distante tanto física como culturalmente do Brasil varonil como a Terra está da Lua, mas, acontece que tenho um filho e uma nora australianos, e, quem sabe, terei um neto também num futuro próximo, e eu mesmo me sinto como pertencendo um pouco àquela terra. Abraços, JAIR. Floripa, 23/03/09.

4 comentários:

MARY disse...

Olá Jair,
Hoje, nós na praia, lembramos de ti e da Brandina; estamos com saudade.
Acabei de ler no teu blog sobre a Austrália. Penso que a Austrália, desenvolvida como tal, primeiro mundo entre aspas se desenvolve em tecnologia e esquece um pouco do desenvolvimento da cultura de seu povo. Digo isso porque quanto ao parto, ainda estão muito primitivos. A Flávia sofreu horrores com nascimento do filho. Achei um atraso de informações.
Também, andei lendo uma notícia que o governo iria incentivar o abate dos cangurus porque estão se proliferando em grande quantidade e que os gases por eles emitidos estão fazendo mal para a atmosfera. Quando lá estive, fiquei sabendo que a população não faz uso da carne do canguru na alimentação. Me pergunto: não seria mais viável o governo incentivar o consumo da referida carne? Usar o abate para alimentação? Dizem que os cangurus vivem atravessando as rodovias e provocando acidentes de carro.
Outro absurdo que fiquei sabendo ontem, que pegou fogo na casa de fazenda de uma prima do marido da Flávia. Segundo ele, a casa era antiga e a instalação elétrica só havia uma fase e ficava com muita sobrecarga, dizem, que a maioria dos incêndios, esse é o motivo e não só a alta temperatura nos serrados. Hoje, vejo as divergências que a Flávia está tendo quanto a criação do meu neto. Eu sugiro colocar o menino de lado no berço e levantar um pouco a cabeça do nível do corpo para evitar refluxo (segundo conselho médico aqui), lá, continuam como primitivos, enrolando todo o baby e colocando no berço de costas com barriga para cima. Também são contra protetor de berço nas grades, lençol, travesseiro, etc. parecem bichos. São criados bem à vontade, segundo eles, sem frescura. A criança com 5 dias já foi colocada na cadeira do carro sentada, no banco traseiro. A dita cadeira é colocada em oficina especializada e não pode ser retirada. A cadeira não deita, só sentado. O baby vai ali todo amarrado com cintos, horrível de ser ver.
Nosso país pode ser subdesenvolvido mas acompanha as mudanças de informações, e é só a gente querer e procurar informação para evoluir. Não vejo evolução no povo Australiano, vejo eles muito apegados às raízes e costumes e sem vontade de se adaptar ao novo.
Estamos pretendendo conhecer o meu neto em dezembro, mais provável no natal e ano novo.
Desculpe meu desabafo, posso estar enganada, mas é minha opinião. Beijos em ti e Brandina.
Mary

LUCI disse...

Vizinho, consegui ler alguns escritos seus; o interessante é que no Sr. Jair, existe um filósofo em potencial, com altas reflexões sociais, de caráter humanista, pensar a realidade pode trazer até uma deprê, mas nos abalar sem procurar de algum modo transformar essa realidade caótica, não leva a lugar algum e traz o medo, a apatia como consequência. Acho que a crença em algo maior, a fé pode trazer a esperança de dias melhores, e os grupos com objetivos comuns podem gerar projetos de paz... quem sabe... Luci

Adri disse...

Pois e, um dos motivos do por que os aborigenes nao se desenvolveram ao arco e flecha, pode ter sido por falta de predadores naturais... pois aqui na Australia nao existem nenhum predadores de medio ou grande porte que apresente perigo aos indigenes...
Do filho Adri

Leonel disse...

Gostei da foto ! Eu gostaria muito de "bater este papo" com os cangurus, esses gambás tamanho família ! Vocês tem o que contar !