quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre o Paleolítico







No período compreendido entre 2,5 milhões a.C. Até cerca de 10 mil a.C., que os paleontólogos convencionaram chamar de Paleolítico, os homens eram essencialmente nômades caçadores-coletores, tendo que se deslocar constantemente em busca de alimentos. Também desenvolveram os primeiros instrumentos de caça e artefatos de uso doméstico como agulhas feitos em madeira, osso ou pedra lascada, e dominaram o uso do fogo.
Existe muita literatura a respeito e o assunto é fascinante para quem, como eu, gosta de fazer ilações sobre aquela vida primitiva em contato direto com os perigos e os benefícios que a natureza poderia oferecer. Na escola aprendemos que os índios do Novo Mundo estavam, em sua maioria, vivendo sobre a égide do Paleolítico superior em transição para o Neolítico, isto é, grande parte de suas armas e artefatos eram confeccionados de pedra lascada ainda. Restos de suas culturas podem ser encontrados nos museus e atestam com veemência as assertivas sobre suas habilidades na feitura dos instrumentos que usavam. Pontas de flechas, pontas de lança, machados, facas, bordunas, vasos, pratos e urnas mortuárias são exemplos dessas culturas da idade da pedra lascada.
Contudo, para mim, sempre ficou a interrogação de quão eficiente poderiam ser os artefatos de corte, principalmente. Peças de cerâmica são fáceis de serem avaliadas porque, mesmo na atualidade, suas feituras e formas mudaram muito pouco ou quase nada com relação àquelas antigas que repousam nos museus. Qualquer vaso encontrado nas feiras de artesanato por aí não difere muito da cerâmica marajoara antiga e sua qualidade e eficiência quanto á impermeabilidade é facilmente provada. Mas, as facas e machados de pedra lascada eram realmente eficazes no corte de couro e carne dos animas abatidos, e na confecção de artefatos de madeira? Pois é, essa dúvida que me perseguia teve uma resposta bastante convincente na semana precedente ao Natal a qual passei no interior de Minas.
Primeiro, pedra lascada significa que deve existir rocha ou rochas duras que lasquem de forma que as beiradas das lascas sejam afiadas, finas e resistentes o bastante para prover corte em troncos e galhos. Existe pedra com essas propriedades? Sim, existe. O basalto, rocha ígnea encontrável em derrames que formaram grandes platôs continentais, como, por exemplo, na Bacia do Paraná, no sul do Brasil, é um excelente candidato. Lembrando que, a formação das rochas ígneas vem do resultado da solidificação por resfriamento do magma derretido ou parcialmente derretido que aflorou em eras passadas. Normalmente as rochas ígneas são extremamente duras, caso do basalto, que ainda possui a faculdade de lascar formando bordas muito finas. Essa característica das rochas chama-se clivagem, isto é, clivagem em mineralogia é a forma como muitos minerais se quebram seguindo planos relacionados com a estrutura interna, paralelos às possíveis faces do cristal que formariam. A clivagem do basalto dispõe que ele se quebre em lascas afiadas naturalmente.
Assim, estando em Buritis para passar o Natal, conheci um riacho, tributário do Urucuia que margeia o município, usado para lazer pelos buritienses, cujo leito é formado totalmente de basalto. Minha curiosidade “científica” foi despertada pela presença da rocha que atende aos requisitos para confecção de instrumento de corte paleolítico. Então, me propus a fazer um experimento: usar lasca de basalto como “faca” para cortar um galho de árvore. Não foi muito difícil encontrar uma lasca, havia sinais que algum pedreiro andou quebrando várias rochas para uso em cantaria. Colhida uma lasca afiada intentei cortar um galho de árvore, o que fiz com bastante facilidade, mesmo considerando meu primarismo e falta de habilidade. O corte ficou “limpo” e o trabalho em si não levou mais que cinco minutos, imagino que homens da idade da pedra lascada pudessem fazer o mesmo trabalho, com menos esforço e num piscar de olhos. O resultado do desafio foi um pedaço especial de galho resistente e não muito grosso, em forma de parafuso. Essa rosca se deve a cipó que enlaça o galho como uma cobra constritora e o deforma na medida em que cresce, nada muito incomum numa floresta de transição do cerrado mineiro. O galho cortado e a lasca afiada eu os trouxe para casa e suas fotos ilustram esta matéria.
Pelo que resultou do experimento: um galho com corte limpo e uma lasca de basalto ainda afiada depois do uso, dá para concluir que fazer corte em carne e pele de animais não seria tarefa muito árdua ou fora de propósito para o homem do paleolítico que dispusesse de basalto na região na qual vivia. Se houver oportunidade, pretendo demonstrar que minha lasca de pedra poderá ainda ser usada em outros cortes mais desafiadores, pois confesso que me senti quase um troglodita quando da prova a que me submeti. JAIR, Floripa, 04/01/12
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9 comentários:

Leonel disse...

Meu amigo, essa regressão à pré-história foi uma coisa fascinante!
Mas, o que me fez pensar é que em apenas pouco mais de 2,5 milhões de anos chegamos até aqui, aonde não teria ido uma civilização que teve muito mais do que isto para se desenvolver, nas eras anteriores, antes de serem eliminados por catástrofes.
Excelente blogada, Jair!

Cristiano Marcell disse...

Enciclopédico amigo! Blogada de lascar!

Muita Paz!

Attico CHASSOT disse...

Estimado paleolítico cortador de galhos,
linda regressão como acentuou o Leonel. Certamente conheces o fabuloso filme ‘Guerra do Fogo’. Naquele cenário te vi exercitando novas/velhas habilidades.
Pétreos elogios à tua façanha

attico chassot
imsmsyn

R. R. Barcellos disse...

Mais um capítulo a ser acrescentado ao nosso "Guia da Sobrevivência na Selva": Havendo basalto nas proximidades...
Excelente texto, Indiana Jones! Abraços!

António Gallobar disse...

Olá amigo Jair

Parabens pelo didáctico texto, ainda recentemente fiquei fascinado com este tema e fiz meia duzia de fotos desses artefactos.
Caso pretenda posso enviar-lhas.
Parabens e um bom ano

Evanir disse...

Que a felicidade te acompanhe sempre e que ela seja
sua companheira constante no decorrer desse Ano de 2012.
Sigamos avante, para o alto e com um sorriso no rosto! Paz e luz.
E já no final dessa primeira semana de Ano Novo.
Desejo um feliz e abençoado final de semana.
Vou continuar te seguindo e te amando sempre.
Beijos no coração.
Evanir

Tais Luso disse...

Perfeito! Eu também tenho muita curiosidade pela pré-história e vou lendo tudo que acho.
Ótimo este seu texto, prático e muito didático. E no final uma descoberta fascinante: você vestiu a camiseta de um troglodita! Deve ter sido uma experiência e tanto! rsrs

Abraços.
Tais

Luci disse...

Quem já viu de perto sua arte com galhos,imagino que este comporá uma peça artesanal...uma relíquia mineira,cortada a moda dos ancestrais.Os seus textos produzem viagens no imaginário!
Muita inspiração e produção, em 2012.Luci.

Professor Alexandre disse...

Como sempre, adorei o post!
Pré História é um de meus assuntos favoritos...
Parabéns!

Abraços...