domingo, 29 de janeiro de 2012

Paz




Desde sempre, mas especialmente desde o século passado, somos bombardeados com notícias sobre as guerras do Oriente Médio. Árabes e judeus, numa incruenta disputa, arreganham os dentes ou entram em batalhas abertas por um pedaço de terra que, sob quase todos os aspectos, não é atraente, não possui riquezas naturais e não parece ser estratégico do ponto de vista militar.
O fato histórico concreto é que dentre as tribos que conviviam, mais ou menos pacificamente, naquele pedaço do mundo quatro mil anos atrás, algumas resolveram adotar o monoteísmo como conduta religiosa, afrontando diretamente a maioria que cultuava deuses domésticos que representavam seus ancestrais. Da dissidência religiosa nasceu o antagonismo que, de tempos em tempos, gerava rusgas tribais que, eventualmente, se transformavam em contendas limitadas, no mais, a vida seguia em frente.
O “povo diferente” que seguia um Deus invisível foi aos poucos se isolando e, em conseqüência, cada vez mais, adotando costumes e hábitos diferenciados, já que sua religião era “de tempo integral e dedicação exclusiva”, não se limitando a rezas e rituais em oratórios domésticos em horas aprazadas. O isolamento religioso não impedia que houvesse um constante intercâmbio comercial e social entre as tribos de monoteístas e politeístas, elas compartilhavam seus negócios, casamentos, festas, atividades e idioma (aramaico), não havia ainda árabes ou judeus, ou sionistas, ou islamitas, muito menos cristãos.
Durante séculos de guerras, invasões, êxodos, migrações limitadas e evolução de hábitos religiosos o “povo de um Deus só” continuou coeso nas suas convicções e unido socialmente, o politeísmo esboroou. Com o nascimento de Cristo, judeu da Galiléia, alguns monoteístas elegeram-no “enviado de Deus”, outros não. Nova dissidência, agora entre judeus que acreditavam no Messias e judeus que não acreditavam; surgia nova religião, o cristianismo. Para azar de todos, cristãos e judeus, os romanos invadiram a região na década de setenta da nossa era e massacraram os moradores de Jerusalém, especialmente os judeus, que eram menos submissos. Era o ano de 73, nascia a diáspora.
Os judeus dispersaram-se pelo Planeta, mas, quase nunca, foram “integrados” às nações e povos que os acolheram, em alguns casos foram “assimilados” sem, contudo, tornarem-se cidadãos de plenos direitos. Essa anomalia civil crônica, além de perseguições e discriminações, oficiais ou não de todo tipo, fizeram com que uma grande parte desse povo visse na volta a casa sua opção de tranquilidade e plena realização de seus sonhos de cidadania. A volta a Israel – Aliá, substantivo hebraico que significa subida - tornou-se o que se convencionou chamar de sionismo, em referência ao monte Sião ou Zion situado nos arredores de Jerusalém.
Depois do genocídio perpetrado pelos alemães e seus aliados na segunda guerra mundial, tornou-se imperativo que as Nações Unidas permitissem que os judeus mais errantes que nunca, se reunissem em sua terra original e formassem uma nação. Israel nasceu por decreto da ONU, e, em 1948, o “povo do livro” teve, finalmente, um lugar seu onde podia chamar de lar.
Mas, muito antes disso, há uma história que gostaria de contar para lembrar que a paz é possível por simples vontade de cidadãos. Em 1845, o novo cônsul inglês em Jerusalém, James Finn, e sua esposa, Elisabeth, apresentaram suas credenciais às autoridades turcas naquela cidade, já que a Palestina como era chamada a área, pertencia ao império otomano. O cônsul era católico falava hebraico e era filiado à Fraternidade Londrina para Propagação do Cristianismo entre Judeus. Finn acreditava que o retorno dos Judeus a sua pátria de origem aceleraria a redenção do mundo; acreditava que lhes dando condição de trabalho dignas eles conseguiriam uma vida melhor. Ele se propôs a ajudar os judeus pobres porque entendia que se eles tivessem renda decente, mais se fixariam ao local em que viviam e tenderiam a criar uma nação. Assim, em 1853, comprou uma gleba de terra abandonada e árida de quatro hectares onde construiu sua linda morada. Era um pedaço de terra que ninguém queria, mas que o cônsul resolveu transformar numa fazenda produtiva a qual deu o nome de Kerem Avraham (Vinha de Abraão). Nos arredores da casa eles construíram o empreendimento agrícola, as oficinas e as benfeitorias. Atrás da casa, no pátio protegido por um muro, cavaram-se poços e foram construídos estábulos, curral, um celeiro depósitos, uma prensa para uvas e uma prensa para azeitonas.
A Colônia Industrial empregava cerca de duzentos judeus pobres na fazenda dos Finn em trabalhos tais como retirar pedras das encostas, construir cercas, plantar árvores frutíferas, trabalhar na horta, no pomar e também numa pequena pedreira e na construção civil. Com o passar dos anos e depois da morte do cônsul, sua viúva construiu uma fábrica de sabão, na qual também empregava trabalhadores judeus.
Quase na mesma época, lindeiro à propriedade dos Finn, o missionário protestante alemão Johann Ludwig Schneller, construiu um orfanato para árabes cristãos refugiados dos conflitos entre cristãos e drusos no Líbano. Ele tinha como objetivo preparar os órfãos para uma vida produtiva que pudesse lhes proporcionar meios de traduzir o trabalho em qualidade de vida. Finn e Schneller, cada uma a sua maneira, ambos cristãos fervorosos, e a miséria, o sofrimento e o desamparo de árabes e judeus da Terra Santa lhes tocavam o coração. Ambos acreditavam que na medida em que os habitantes se preparassem para uma vida produtiva, uma vida de trabalho, o Oriente Médio estaria a salvo das garras do desespero, da degeneração, da miséria e da indiferença e, podemos dizer, estariam motivados a viver em paz. Talvez ambos acreditassem, cada um a seu modo, que sua generosidade iluminasse judeus e muçulmanos de modo a encaminhá-los ao cristianismo e a paz entre eles.
Que se pode inferir desses fatos? Vejamos, dois cristãos europeus que poderíamos julgar indiferentes ao que acontecia num local muito distante daqueles que viviam; onde as culturas envolvidas nada lhes dizem, dedicam-se a projetos visando alcançar a paz sem, aparentemente, outro objetivo que não o trabalho produtivo. Registre-se que nunca houve qualquer atrito entre as comunidades dos dois projetos. Finn e Schneller sequer foram indicados para o prêmio Nobel da paz como o foi Nixon, por exemplo. JAIR, Floripa, 10/08/11.

7 comentários:

R. R. Barcellos disse...

O instrumento da Guerra é a força, o da Paz é o trabalho. Quanto ao Nobel, eu já abri e fechei aspas, mas ainda não sei o que botar no meio.
Abraços.

Cristiano Marcell disse...

Enciclopédico amigo, seu texto, como de costume é muito bom e elucidativo. Sou muito ligado à música e enquanto lia seus dizeres lembrei-me de uma canção de Gil.

Ouça-a também...

http://www.youtube.com/watch?v=LlQLV2oUjCg&feature=related

Professor Alexandre disse...

Muito interessante e informativo... Penso que os conflitos no Oriente Médio são mais 'estimulados' do que imaginamos, pelas grandes potencias mundias a fim de garantir seus interesses na região...

Parabéns pela ótima postagem!
Abraços...

Joel G Costa disse...

A paz é um sonho desejável pela maioria, sou um destes, mas os caminhos que levam a uma completa paz passam por uma questionável guerra de interesses...

Abraços!

Tais Luso disse...

Jair:
Desde os tempos mais remotos a humanidade esteve em conflitos e assim continuará. Quando se lida com humanos, a paz é escassa. Muitos se esforçam para manter uma fictícia paz enquanto outros não estão nem aí, estão em guerra constante consigo mesmo. E estando consigo, pobre mundo!

O ser humano precisaria mudar, buscar diferenças e verdades. Creio que os resultados de manifestos coletivos começam na individualidade de nossos atos; estão nas mutações dos nossos sentimentos. E nisso gostaria de acreditar. Mas nunca acontecerá, é utopia.

Você fez uma abordagem geral do real, e mostrou a realidade verdadeira desde sempre.
Muito interessante.

Abraços
Tais Luso

Attico CHASSOT disse...

Muito estimado Jair,
que maravilha os fatos singulares que nos premias nesta edição do blogue, que tem como título a palavra que deveria ser anel natural dos humanos: PAZ.
Todavia nós que estamos na grandes religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo, islamismos) temos num texto fundante: Quem é o primogênito de Abraão (Ismael ou Isaac) aquém o Deus invisível que recordas tudo prometeu? A rixa entre os pastores de Ismael e de Isaac (ou antes a briga entre os dois, que leva Abraão a fazer que Agar e Ismael sejam levados para longe) parece ser (metaforicamente) a semente de toda esta discórdia.
Obrigado por nos ilustrares hoje, como sempre

attico chassot

Luci disse...

Já vi trabalho de pastorais da terra semelhante ao que narrou,com bóias-frias,os sem terras...Neste trabalho aconteciam conflitos motivados pelo poder, imagine, briga para ser o pastor evangélico,num assentamento rural nas imediações de Palmeira,nos Campos Gerais...No geral, os resultados foram muito produtivos.Sempre acreditei que é por este caminho, o do trabalho, que dignificará o homem,investir no seu talento... A paz será possível se cada cidadão despertar a sua consciência, nos moldes do AVATAR...Luci.