segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A passagem



Morrer, como nascer, é um ato individual e absolutamente solitário, não se compartilha um e outro. Só quem já ultrapassou o divisor de águas entre estar vivo e não mais fazer parte desses que podem ler isto que escrevo, é que pode falar sobre a morte, tudo o mais é especulação. A morte nem sequer é dolorosa em si, o ato de morrer é menos que indolor é passivo, ninguém morre “ativamente”. O indivíduo pode até ter provocado o ato que o levou a morte, mas a passagem é própria do corpo, e este não a delega a ninguém. Se a morte se aproxima por doença, perdemos a vontade de nos alimentar e beber, o corpo torna-se pouco exigente, não há necessidade de repor energias a um corpo que não tem como aproveitá-las. Então nos desidratamos e inanimos sem maiores traumas. Deixamos de secretar, nos secam as mucosas e não há lágrimas, e isso se torna reconfortante, nosso corpo está concentrado no ato de partir apenas. Os sofrimentos deixam de existir, não há passagem dolorosa, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas. Se o moribundo está gemendo no leito de morte, não é esta que lhe está sendo desconfortável, o que dói é a vida. Nosso cérebro esvazia, se acalma, deixamos de pensar. Uma espécie de cansaço se instala em nossos neurônios e estes deixam de fazer sinapses, a não ser aquelas ligadas ao ato de morrer. Nesse momento se instala em nós um sentimento de bem estar, às vezes até de euforia, uma espécie de portal convincente e atrativo se abre a nossa frente, queremos adentrá-lo, mas não temos pressa, não estamos estressados, ansiosos, apenas calmos e contemplativos. As vontades, desejos, necessidades angústias e incertezas se esvaem, surge um vácuo de sensações. Vemos e ouvimos tudo ao redor, só não sentimos mais necessidade de conversar ou interagir com coisas e pessoas que nos circundam. Neste momento, o ato de segurar a mão de um ente querido não pode ser interpretado como vontade de viver, é um simples gesto de despedida. Às vezes, nos chamados momentos finais, podemos entrar numa espécie de sono profundo, estado que os médicos costumam chamar comatoso, nesta hora enxergamos uma luz branca difusa que preenche todo nosso campo visual, não há sombras nem pontos escuros. Deixa de existir frio ou calor, que são substituídos pela total ausência de temperatura, os sons também dão lugar a uma espécie de silêncio que preenche todo o universo. Em seguida nossa respiração cessa. Nesse momento os músculos relaxam e se instala uma sensação de paz completa, o mundo, como o conhecemos, deixa e existir, e do lado de cá as dores e sofrimentos são sentimentos desconhecidos. Acreditem, sei do que estou falando, já passei para o lado de cá.

20 comentários:

Cristiano Marcell disse...

Um texto digno de um ceifador não tão sinistro!

Muita Paz!

Carlos Alencar Quintana de Abreu disse...

Realmente a vida deve ser mais dolorosa do que a morte. Mas infelizmente estamos sujeitos a isso!
Parabéns pelo excelente texto.
Abraço"

Leonel disse...

Que isso, amigo?
Já passou para que lado?
Eu creio que você ainda está conosco...
Apesar da comodidade que possa ser estar morto, eu ainda prefiro insistir em tentar viver, apesar das durezas deste mundo...
Um abração, Jair!
E fique um pouco mais com a gente!

Tais Luso disse...

Jair:
...'O que dói é a vida'. Pois isso me fez pensar muito; sim, a vida. A perda.
A morte vem suave, talvez tranquila, enquanto a vida debate-se num turbilhão de emoções. Já escrevi sobre a tal morte no qual nunca queremos ser amigos. Deixo aqui um trecho citado com a doçura de Gilberto Freire quando diz:

'Venha doce morte... Não, a morte não é doce, mas peço a amarga morte que ela venha docemente...'

Espero, no entanto, quando meu dia chegar, quando meu olhar tiver o brilho opaco da despedida, que eu tenha a doce ilusão de que a morte não me venha tão amarga, que me toque docemente e, sobretudo, com compaixão.

Só não entendi, também, de que lado você esteve!!
Um texto ótimo, poxa...
Abraços.
Tais Luso

Andre Martin disse...

Caro Jair,

Primeiro, me explique: como pode dizer "sei do que estou falando, já passei para o lado de cá" e antes afirmou que "só quem já ultrapassou o divisor de águas entre estar vivo e não mais fazer parte desses que podem ler isto que escrevo, é que pode falar sobre a morte" ?

Acho que minha lógica, penso que ainda viva, falhou nesta link... rs

Segundo, acho válido conjecturar a morte, falar sobre ela e discuti-la (longe de desejá-la), pois é a ÚNICA certeza que temos na vida (de que um dia certamente iremos morrer) e que nunca estamos preparados (porque nunca queremos crer que será com a gente, então melhor nem tocar no assunto, quem sabe pensando que isto possa adiar o evento, ou amenizar o impacto, pois a ignorância é prima-irmã da felicidade).

Terceiro, concordo que numa morte de entes queridos, parentes ou amigos, sofre mais quem fica, quem segue vivendo e tem que enterrar seus mortos e lembrar-se deles, conviver com suas ausências e lamentar por um tempo que jamais será vivido (novamente ou de outra forma).

Existem ainda as mortes (não mencionadas) por acidente trágico ou por tortura (onde a dor física e/ou psicológica é imputada ao futuro defunto), que não são tão indolor nem insofrível assim, né?

Enfim, lembrar é uma forma de imortalizar, além da propagação genética (memória celular). Então, que nossos feitos e palavras sejam memoráveis!

E fique sempre de bem com a vida, pois é tudo que temos (enquanto a temos)!

Abraço.

JGCosta disse...

É isso aí amigo, a passagem só poderá ser descoberta pelos que a fazem, na sua plenitude.

Coincidentemente hoje, ao caminhar para o trabalho, e já ontem, tudo me empurrava na direção de um amigo, que eu ainda não sabia, havia partido e finalmente agora pode conhecer o segredo que a passagem revela. Fiquei sabendo através desses papéis que ficam pendurados nos comércios e nos convidam para dar o último adeus no velório.

E para completar a coincidência eis que o amigo faz o chamamento para o tema da passagem, um tema tão importante quanto o nascimento, ou com o mesmo peso, pois encerra um ciclo pessoal, uma história, coloca um fim e as dores, como citadas pelo amigo, são tais os créditos que sobem no final de um filme, pois nomeiam todos aqueles envolvidos com a produção que gerou essa vida, diversos atores figurantes, outros protagonistas e antagonistas seguindo as regras do Diretor...

Grande abraço amigo, que 2012 seja infinitamente maior na alegria para todos nós!

R. R. Barcellos disse...

Não há como separar as duas faces de uma mesma moeda.
"O processo biológico que resulta na morte começa no exato momento da concepção; chama-se vida."
UM 2012 CHEIO DE VIDA PRA VOCÊ, amigo!

Felipe F Falcao disse...

Texto bem coerente com o estado de estar, ou ver-se de frente com a morte... ma crio que seja bem assim. - Quando eu tinha cinco anos, o que já faz muito tempo – lembro-me de ter sido atropelado por um ciclista, eu corria ao atravessar uma rodovia, escapei de um caminha, mas não vi o ciclista... Pois bem, a ocasião, eu só vi tudo ficando num to meio que amarelado, só fui acordar três horas depois... mas não me lembro de nada do que aconteceu nesse ínterim... ao acordar eu já estava no hospital... a vida e a morte é um mistério, mas eu prefiro descobri o que a vida tem a me oferecer os dias que me restam. Grande abraço.

Cilas Medi disse...

Ter a certeza é ótimo. E você escreve em todas as letras da mensagem que clama para ser ouvida pela população como um todo, não somente aos poetas ou quem lhe faz bem na companhia. Somos um, para ir e vir. E somos muitos para compreender que isso é mesmo o mais forte. Desistir não é perder. Simplesmente conceder à vida, descanso. E depois da passagem, levantar, tirar o pó do corpo que ficou e voltar a conviver entre os seus iguais, do outro lado. Eu sei que você sabe porque somos, todos, iguais. Na compreensão um dia, próxima futuro. Parabéns, poeta!

Severa Cabral(escritora) disse...

Desculpas invadir teu espaço.Vim só te convidar para a homenagem que fiz para teu amigo Leonel no meu blog.Te aguardo lá!
Bjs e tenha um lindo dia!

Gilson Faustino Maia disse...

Muito interessante o seu texto! Entretanto: "Pai afasta de mim este cálice!"
Veja bem: uma vez que você com toda a sua experiência de já ter mudado de posição (?) nos afirma que a morte é indolor, que a gente não pensa mais em nada, que só quer partir, que é grande o sentimento de paz que sentimos, etc. etc., perdi o medo de morrer, restou, apenas, o apego à vida. Mas, para que o meu apego à vida continue, é preciso que eu esteja bem. O primeiro caso, então, seria a saúde e, o segundo caso, o carinho, o amor, a atenção que esteja recebendo daqueles que são os meus companheiros de viagem. Então, aproveito a grande oportunidade que você nos está oferecendo, para recomendar a todos que esbanjem gentileza, carinho, amor, atenção com todos, para que ninguém desista deste passeio, às vezes difícil, perigoso e ao mesmo tempo agradável, interessante, gostoso. Que todos nós tenhamos um excelente 2012 e preparemos a chegada do 13, 14, 15... Amigo, você não afirmou que lá do outro lado é melhor, então fiquemos por aqui. Meu abraço.

Rosi Alves... disse...

A VIDA É A MORTE DA ALMA...ELA VAI MORRENDO AOS POUCOS AO LONGO DO ANO E ESPERO QUE MINHA CHEGUE COM MEUS CABELOS BRANQUINHOS PARA EU PODER PLANTAR MUITO AMOR EM MEU CAMINHO INDEPENDENTE DAS PEDRAS.BEIJOSS FICO AQUI SEGUINDO-TE SE QUISER APAREÇA
http://gotaspoesiarosialves.blogspot.com/

Jorge soares disse...

A morte e somente uma mudança, uma troca de comportamento, deixamos os vícios e toda nossa ignorância de comportamentos pra termos um tempo concedido por Deus, um descanso da carne e do inferno que muitos de nos constrói pra suas vidas neste mundo de dores e sofrimentos onde a felicidade são tão pequenos momentos.

Daniela disse...

Excelente texto! Bela descrição da 'passagem'... Um 2012 cheio de saúde, paz, luz, amor = vida!!!

Professor Alexandre disse...

"Morrer é transitar de um estado para outro. Quem morre transforma-se. Continua a viver inorganicamente, transmutado em gases e sais, ou organicamente, feito lucílias, necróforas e uma centena de outras vidinhas esvoaçantes."

(Do conto "Pollice verso" de Monteiro Lobato)

Parabéns pelo post Nobre Colega...
Abraços!

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
muito tétrica a abertura de ano no teu blogue.
Não tenho a mesma leitura da morte que tu. Ela me acabrunha.
Custa-me aceitar que certamente não estarei aqui quando minha neta que nasceu recém fará 15 anos.
Para mim isto complicado.
Por outro lado só quero estar aqui enquanto estiver física e mentalmente saudável para aproveitar estar vivo.
Com desejo disto para ti e para teu muitos leitores,

attico chassot

Zilda Santiago disse...

Esto9u entre os que leem ainda no corpo,mas poderia discernir um pouco sobre a morte,direi porém apenas que a morte não existe.O espiritismo matou a morte há muito!!!Será que vc lembra de alguma outra encarnação?Se bem não precisa de tanto para saber,é só estudar o assunto com profundidade.Bjs na alma ainda encarnada!!!

Luci disse...

A morte,rito de passagem...Meu pai,minha mãe e a irmã caçula,se foram para a eternidade e, nestes três momentos não estive presente... A vida, a distância física dos entes queridos, a separação...Só resta-nos o consolo da fé e a crença na eternidade,nos anjos que os acolhem! Que reflexão!!!Luci.

Diná Fernandes de Oliveira Souza disse...

Bom dia Jair! Nossa! Um tema que me assusta, (a passagem pro outro lado)talvez meu grau de espiritualidade não seja tão desenvolvido para uma aceitação tão pacífica, mesmo sabendo que a morte nunca foi preconceituosa, ela vem para todos... Viver é tão bom!!
Parabéns pelo reflexivo texto!

Tenha um feliz 2012!
eguindo seu blog.
Abç!

Anônimo disse...

Caro Farizeu,
" morrer deve se bom pois Deus nunca me faria passar por uma coisa que fose ruim." Vice Pres. Jose de Alencar. Cabo velho, eu como tu sabes tambem estive nos umbrais, e la era tudo muito bom e reconfortante, eu não queria mais voltar, so voltei por ter sentido muita or quando o neuro e a marilene me puxaram para a maca e me levaram de novo para a UTI. Cara la tava muito bom, e eu la teria ficado numa boa. Nossa passagem é inexoravel queiramos ou não, seremos levados a outro plano de acordo com nossa evolução. " Aquele que cre em mim ainda que morra vivera. Tudo de bom para ti e tua turma neste ano de Oxala.
Fabio