quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Filme: O ovo da serpente




Bem, porque o filme me impressionou demais, me fez refletir sobre a intolerância e o preconceito humanos, quero registrar o que penso a respeito dessa obra de Ingmar Bergman filmada na Alemanha em 1977, e tendo David Carradine e Liv Ullmann como protagonistas. Bergman havia saído meio que em fuga da Suécia, em virtude de estar em desacordo com o fisco, e foi morar em Berlim ocidental onde rodou a película. O produtor é Dino de Laurentis, Carradine faz o papel de Abel Rosenberg e Liv de Manuela Rosenberg, sua cunhada, ambos com atuações impecáveis.
Abel é um judeu americano, trapezista desempregado e alcoólatra, que ficou sabendo que seu irmão acaba de se matar. Manuela, que fora casada com o irmão dele, (daí o sobrenome Rosenberg) convida Abel para morar com ela já que ele está meio desarvorado.
A história se passa em 1923, época em que o povo da Alemanha está lambendo as feridas da guerra perdida; as voltas com a hiperinflação aviltante que lhe corrói o poder aquisitivo em questão de horas; e no meio de uma indefinição ideológica que coloca direita e esquerda em conflitos armados nas ruas de Munique e outras grandes cidades. A República Weimar, recém inaugurada depois da guerra, é olhada por ambos os lados do espectro político como uma instituição vacilante e fraca, resultado de acordos espúrios entre os aliados que ganharam a guerra e a nobreza alemã que a perdeu, mas que não deseja entregar o osso, digo, o poder ao povo. Nesse caldo de cultura explosivo nascerá o Nacional Socialismo e Hitler, e o filme se antecipa a essas tragédias anunciadas mostrando uma sociedade “pronta” para absorver qualquer ideologia espúria que lhe venda um futuro, mesmo em troca de sua alma.
O angustiado Abel e sua cunhada se veem compelidos a trabalhar numa clínica clandestina que realiza experiências em seres humanos, embora isso eles não saibam. A clínica centenária “Clínica Santa Ana” é apenas um disfarce para experimentos terríveis com pessoas comuns, os cientistas que ali trabalham veem pessoas como meras cobaias que podem ser usadas para qualquer fim, sob quaisquer condições, a maioria das experiências termina em morte. O irmão de Abel - mais tarde ele veio saber - matou-se nessa instituição.
Acho que Bergman, na sua forma genial de dar recados, aponta o dedo acusatório para a sociedade alemã - ao invés de apenas para o Nazismo, Hitler e seus sanguinários acólitos – pela eclosão da guerra e pelo holocausto que a acompanhou. A alusão ao ovo da serpente é porque este permite que, através da translucidez de sua casca, pode ser visto o filhote que um dia eclodirá em forma de réptil peçonhento e maligno. A sociedade alemã dava toda indicação que buscava uma ideologia e um líder drásticos que a conduzisse ao inferno, se essa fosse a condição para sair do atoleiro de recessão e indefinição republicana que a deixara com o pincel na mão depois de lhe tirar a escada.
Por último, o filme se presta para uma reflexão sobre o momentum político que os aliados criaram ao tirar da Alemanha qualquer chance de se reerguer após a guerra de 1914-1918. E aqui cabe uma porção de “ses”: Se os aliados tivessem tratado a Alemanha com indulgência; se o ocidente interferisse na reestruturação alemã após a guerra; se o mundo tivesse enxergado o potencial sinistro daquela sociedade desenvolvida, culta, mas racista até a medula. A respeito desse último “se”, existe um livro, “Os carrascos voluntários de Hitler” que dá a medida que a sociedade alemã estava envolvida no extermínio de judeus. Nesta obra polêmica, o cientista político Daniel Goldhagen procura demonstrar que o Genocídio não foi um espetáculo de horror, organizado e perpetrado por nazistas insanos, ao qual os alemães teriam sido obrigados a assistir, mas, na verdade, foi o resultado de anseios amplamente compartilhados pela maioria do povo alemão durante a primeira metade do século. Segundo Goldhagen, o alemão médio não politizado até aplaudiu quando da instituição de medidas de genocídio do povo judeu. Parece que Bergman tinha a mesma opinião do escritor e conseguiu transmiti-la de maneira sutil através de “O ovo...”. E o apavorante dessa constatação é que fica implícito que Hitler e o Nazismo apenas tinham uma “antena” sensível para captar a vontade do povo alemão e levá-la até as últimas consequências, para horror daquela parte da humanidade menos afinada com a intolerância. JAIR, Floripa, 09/01/12.

11 comentários:

Cristiano Marcell disse...

Esse filme, assim como todos os outros de Bergman,é imensamente magnífico. O diretor não se preocupa com o grande final, haja vista que o pesonagem de Carradine simplismente nunca mais foi encontrado, contudo a sua essência é uma mostra irrefutável de que o nazismo se estabelece por conta de uma sociedade alemã decadente.

Aconselho, meu enciclopédico amigo, que você assista também uma película de nome A fita Branca. Trata do mesmo tema e é muito bom.

Um forta abraço!

JAIRCLOPES disse...

Caro Cristiano,
Já assisti "A fita branca" duas vezes e ainda estou "cozinhando" minha impressão para depois escrever algo a respeito.

Cristiano Marcell disse...

Aguardo ansiosamente. Longe de mim querer ditar o rumo de suas belas postagens. Por favor não me entenda mal, entretanto seria intrigante vê-lo escrever sobre a parte mística do movimento nazista, onde os mesmos acreditavam existir a energia Vril.

Fica aí a sugestão!

Troquemos mais ideias sobre filmes. Sou um eterno aprendiz de cinéfilo!

Muita Paz, enciclopédico amigo!

Leonel disse...

Há alguns anos eu assisti esse arrepiante e sombrio filme, que mostra a manipulação impiedosa do casal...
Quanto às barbaridades cometidas pelo nazismo,eu estou convencido de que houve grande cumplicidade de muita gente aparentemente inocente nas cisrcunstâncias que levaram ao holocausto...
Muitas pessoas se calaram e aguardaram os benefícios provenientes do extermínio de seus vizinhos da porta ao lado...
Muitos até cooperaram trazendo denúncias sem motivo, e condenando à morte famílias inteiras...
Excelente resenha, Jair

R. R. Barcellos disse...

Parece que as sociedades "civilizadas" têm no seu DNA cultural um gene recessivo que, quando ausente o alelo dominante, provoca essa doença mortal. E isso não é exclusividade germânica. Perseguições étnicas pululam no nosso pobre planeta.
Abraços.

J. Carlos disse...

Com essa sua descrição do filme fiquei curioso. Já gosto de filmes que referem ao nazismo, então sou obrigado a assistir esse ovo.

Professor Alexandre disse...

Sinceramente, conheço muitos filmes que apresentam aobrdagens históricas ou historiográficas... Mas esse eu não conhecia, com certeza vou assistir!
Ótimo post, ótima indicação!

Abraços...

JGCosta disse...

Caros Cristiano e Jair, não vi nenhum desses dois filmes, mas com certeza estão na minha agenda, afinal refletir sobre o mundo em que vivemos e utilizando como método o estudo sobre o comportamento dos seres humanos que fizeram a diferença, para o bem ou para o mal, é uma ótima maneira a meu ver.

Grato pelas indicações!

Abraços renovados!

Anônimo disse...

Jair, infelizmente ainda não vi este filme de Bergman, que como outros, deve ser fantástico. Suas reflexões a respeito dele são precisas e aguçou mais a minha curiosidade sobre este trabalho deste grande diretor sueco ("Gritos e Sussurros" e "Persona" são dois filmes que me marcaram bastante). Parabéns pelo post e pelo blog que é pensante até a medula. Abraços!

Marco Aurelio Ferreira Nunes disse...

Gostaria apenas de fazer uma pergunta pertinente, mas antes, quero dizer aos amigos que NÃO CONCORDO COM OS NAZISTAS e nem com o HOLOCAUSTO IMPOSTO AOS JUDEUS. Minha pergunta é: O NAZISMO foi fundamentado em segregações e preconceitos raciais, principalmente contra os judeus. Mas, e se EU, um rapaz POBRE e descendente de NEGROS, mulato, tentasse, NOS DIAS DE HOJE, casar com um JUDIA daqui de PORTO ALEGRE/RS, rica (como todos são), frequentadora de clubes chiquérrimos desta cidade (conhecidos e reconhecidos racistas e sócio-segregadores), EU CONSEGUIRIA? Acho que algumas visões são turvas demais diante de interesses ainda mais obscuros, por isso, não julgo, não condeno e não absolvo ninguém, sem os meus próprios olhos terem visto de TODOS OS ÂNGULOS da situação. Abraços.

J. Muraro disse...

Pois é Marco Aurélio,
Você tem toda a razão. Digamos que se EU, um rapaz POBRE e descendente de NEGROS, mulato, tentasse, NOS DIAS DE HOJE, casar com uma CATÓLICA daqui de CURITIBA/PR, rica (como ALGUNS são), frequentadora de clubes chiquérrimos desta cidade (conhecidos e reconhecidos racistas e sócio-segregadores), EU CONSEGUIRIA? Tenho certeza que não, e mais, se substituirmos a palavra CATÓLICA, por MUÇULMANA ou qualquer outra religião funciona do mesmo jeito. Então me pergunto, será que você é realmente é o que diz ser? me parece que você é um neonazista da pior qualidade. Ah, e antes que você diga, não sou JUDEU, fui criado com orientação cristã. Tenha um bom dia com suas SUÁSTICAS! Abraços.