quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pimenta

Há quem goste e também quem abomine, mas quase ninguém é indiferente a esse acessório culinário que contribuiu enormemente para os grandes descobrimentos. Sob o codinome genérico de especiarias, o cravo-da-índia, a canela, a noz moscada e a pimenta impulsionaram as navegações ibéricas rumo ao Oriente o que resultou na dobra do Cabo da Boa esperança, “descobrimentos” do oceano Índico e do caminho marítimo para as Índias e no desembarque de portugueses e espanhóis nas terras do que passou a se chamar Novo Mundo. Não foram poucas as consequências do apreço por uma especiaria que tinha como uso mais difundido a faculdade de conservar os alimentos contra a putrefação, num tempo em que inexistia refrigeração artificial. De lá para cá a pimenta continuou a dar sabor – às vezes excessivo – as mais diversas iguarias tanto do mundo ocidental quanto Oriental das mais diversas culturas.
Como falei, a pimenta suscita paixões culinárias desafiadoras para os adeptos de sabores menos ou mais picantes, e é execrada por aqueles de paladares mais sensíveis. Ouso fazer uma projeção sem qualquer dado estatístico que a respalde com respeito ao gosto pelas pimentas: 40% por cento dos brasileiros gostam de pimenta, 50% detestam e os restantes não têm opinião ou a planta lhes é indiferente. Me coloco entre aqueles que a apreciam em doses mais que moderadas.
Na minha casa, quando eu era criança em Palmeira, a pimenta em forma de molho bem picante sempre marcava presença na mesa, principalmente para uso em sopas, uma das especialidades de minha mãe que era cozinheira de grande talento. Talvez daí venha minha razoável resistência às aguilhoadas nas mucosas bucais e estomacais que possuo, e que hoje meu filho mais velho também desfruta.
Pois bem, certo dia, estava meu avô paterno nos fazendo uma visita e ficou para o jantar, que naquela noite bem fria de inverno era sopa. Na mesa, toda a família reunida e uma saborosa sopa de feijão foi servida pela minha mãe. Meu avô sentou-se ao lado de meu pai, à minha frente. A conversa estava rolando, todos se serviram da sopa e o vidro de pimenta encontra-se à frente de meu avô Joaquim. Parece que ele estava meio “arçado” (tinha tomado umas pingas) e não se deu conta que estava colocando doses maciças daquela pimenta agressiva no seu prato. Meu pai, ao lado dele, conversava sem notar o exagero culinário que ele praticava, e eu fiquei olhando admirado. Daí, o velho Joaquim engoliu uma colherada bem generosa daquela sopa super apimentada e de seus olhos escorreram lágrimas abundantes. Meu pai, empolgado com a conversa, voltou-se para meu avô e disse: “olha aí, papai, tem uma pimenta bem gostosa, coloque na sopa”. Meu avô, num esforço visivelmente dramático, com uma voz baixinha, sibilante, parecida com grasnar assoprado de ganso ou de pato rouco: “já coloquei”. Claro que crianças não podiam rir de adultos, mas, confesso, a situação era hilária e se eu não podia rir de modo ostensivo, nada me impedia de rir por dentro, foi o que fiz. Meu avô só não chorou de verdade porque naquele tempo o mote era: homem não chora. Pela primeira vez achei que a pimenta, além de sua utilização como condimento, podia ser usada como estressante natural de gente sem noção. Esclarecendo, meu avô naquele momento encontrava-se sem noção por causa da cachaça.
Bem, além de terem desenvolvido centenas de espécies dessas plantas, hoje o campo de uso das pimentas ampliou-se muito além do simples tempero picante, e agora podem ser encontrados cremes, cosméticos, geléias, os tradicionais molhos e até sorvetes e bolos nos quais entram doses variadas de pimentas. A pimenta é até recomendada com agente preventivo anti câncer pela medicina ortomolecular. Viva a eclética pimenta! JAIR, Floripa, 04/01/12.

11 comentários:

Cristiano Marcell disse...

A situação de seu avô, por conta da uca, foi realmente engraçada!

Não me dou com esse condimento e já me dei mal quando muito novo fui comer um prato baiano. Perguntaram-me se eu o queria "quente" ou "frio". Mal sabia eu que "quente" não tinha referência com a temperatura e sim com a quantidade de pimenta que seria posta. Foi horrível!

Alexandre Taissum disse...

Jair, interessante como você desenvolve comentários, descrições ou narrativas sob qualquer tema. Agora fala da pimenta, da mesma forma falaria do grão de areia ou do universo, da pulguinha ou da baleia... Pra você basta um nome, basta uma palavra, o que vir depois é boa pesquisa banhada de enorme criatividade.
Excelente!

Professor Alexandre disse...

Pimenta é coisa de mexicano ^^ Os antigos astecas adoravam essa iguaria ^^
Gostei do texto...

Abraços!

Zilda Santiago disse...

Esqueceu do chocolate amigo e segundo os nutrionistas também ajuda a emagrecer por ser termog~enica!!!Bjs na alma Jair!!!

luci disse...

Riso maroto! Mata o velho,rapaz!Rssrss.... Estou brincando,mas que pimenta é fogo, é sim. Já chorei de ardência de pimenta, brincadeira de criança; acho que é na semente que a coisa pega. O interessante é estudar as suas benesses e saber usá-la.Luci

J. Carlos disse...

Bacana, sou pimentista juramentado, tenho vários tipos em vidros para usos em quase qualquer comida. Parabéns pelo post que faz jus a ssse condimento maravilhoso.

Jarbas Genubath disse...

Boa noite!

Com licença,

Seu blog é show!

E se me permitir estarei sempre por aqui.
Sou novato nesse negocio de blog ,mas deixo
Um convite para conhecer o meu canto!



http://confissoesdomalandro.blogspot.com/

R. R. Barcellos disse...

Também sofri com um acarajé "quente"... mas aprecio o condimento quando usado moderadamente.
Abraços.

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
primeiro um aviso: não estou mais recebendo há alguns dias teus alertas de novas postagens, sempre tão oportunos.
Acerca de teu saboroso e apimentado texto evoco que:
1) minha mulher é pimenteira fanática. Eu gosto com moderação.
2) No Rio Grande do Sul existe um quase ignoto município, próximo a Pelotas, que ostenta o titulo de capital Brasileira da Pimenta: TURUÇU.
3) No segmento de minha biblioteca que se localiza na cozinha tenho um livro Capsicum, pimentas e pimentões do Brasil de REIFSCHENEIDER, Francisco José Becker editado pela Embrapa, que tem ilustrações e informações preciosa.
4) Por fim algo de minha infância: quando dizíamos nomes feios (bunda, cu...) uma ameaça implacável de minha mãe: ‘se repetires isso te esfrego pimenta na língua’.
Obrigado por um texto tão significativo, marca de tuas blogadas

attico chassot

Marcos Tulio disse...

Jair, "vida longa às pimentas", que lotam os consultórios dos proctologistas. RSSS
Abraço. Marcos Tulio

Josauro S.J. disse...

Grande Jair, sou apaixonado por pimentas, estou cultivando em casa como hobby dezenas de espécies de pimentas de todo lugar do planeta, caso interesse acesse pimentas.org um grupo que faço parte, vai ter muito assunto para falar.
Grande abraço, coitado do avo Joaquim.
Josauro S.J.