sábado, 7 de abril de 2012

O Baobá

A primeira vez que topei com a palavra baobá, lembro, foi quando muito jovem li o “Pequeno Príncipe” de Saint Exupéry. Despertada a curiosidade consultei uma enciclopédia e descobri que se trata de uma árvore de aparência bem exótica para não dizer inusitada, nativa da África.
Acho que “bem exótica” é eufemismo frente imagem dessa portentosa planta que pode alcançar altura de 5 a 30 metros e diâmetro do tronco de 7 a 20 metros, sendo que a relação entre espessura do tronco e altura da copa pode ser 15 por 10, por exemplo. Ou seja, a árvore pode ter o diâmetro do tronco maior que a altura da copa! Coisa de louco.
O nome científico do vegetal é Adansonia digitata em homenagem ao naturalista francês Michel Adanson que o descreveu pela primeira vez. O baobá é um gênero de oito espécies de árvores, seis nativas de Madagascar, uma nativa do continente Africano e da Península Arábica e uma da Austrália, do estado de Queensland, onde é conhecida por bottle tree, a qual tive oportunidade de fotografar quando lá estive. A espécie do continente Africano também ocorre em Madagascar, mas foi transplantada para aquela ilha.
Os botânicos do século dezenove ao “descobrirem” os baobás se valiam de datas gravadas em seus troncos para estimar suas idades. Há registros que os primeiros exploradores europeus no século quinze – portugueses por certo – gravavam as datas de suas primeiras visitas nos troncos das árvores, de modo que os estudiosos da flora nos séculos seguintes estimavam a idade delas por aquelas datas, coisa de uma imprecisão energúmena digna de curiosos dos primeiros tempos da ciência. Depois que se desenvolveu a técnica de análise de datas pelo decaimento do carbono quatorze, que permite saber a idade de seres orgânicos, os botânicos ficaram surpresos com a idade que o baobá poderia alcançar, alguns espécimes de Madagascar, constatou-se, teriam entre oito e dez mil anos de existência, idades próximas as de sequóias gigantes do Canadá e de cedros do Líbano, árvores que podem ter até dez milênios. Façamos uma comparação: quando Jesus viveu sobre a Terra, essas enormes árvores já eram adultas há muitos milhares de anos.
Outra curiosidade, assim como outras grandes árvores como as castanheiras da Amazônia e as sequóias gigantes, os baobás funcionam como mini universos biológicos. Suas raízes, tronco, galhos, folhas e flores constituem um sistema complexo que abriga uma enorme variedade de seres que vivem e se alimentam por ali, alguns jamais deixando suas imediações por toda vida. Desde fungos e bactérias nas raízes até primatas nos galhos, passando por insetos, aves e répteis nos buracos dos troncos, galhos e folhas, a fauna que se abriga e faz do baobá sua fonte de alimento, chega a ordem de milhares. Considerando que a árvore pode viver muitos milênios, dá para imaginar milhares de ciclos vitais se desenvolvendo a custa e ao abrigo dela. É uma arvore que não solta raízes para os lados, e sim uma só raiz bem profunda que vai em busca de água.
Certa ocasião,vi um programa no canal Discovery que acompanhava a vida diária e as tentativas de reprodução de um casal de calaus, ave africana que tem aparato alar perfeito, mas que prefere andar pelo chão aos invés de voar, só alçando voo em emergências ou para acessar o ninho no alto. Esse casal nidificara em um buraco no tronco de um baobá imenso e aparentemente milenar. Ainda que o foco do ornitólogo cinegrafista fosse os calaus, a intrincada e buliçosa vida em torno deles não podia deixar de ser levada em conta, tendo em vista as interações de todo o sistema biológico a volta das aves. Dezenas de colônias de formigas patrulham o “território” de galhos e folhas em busca de possíveis parasitos que podem faze mal à árvore, em troca recebem néctar das flores, abrigo em fendas e buracos e seiva doce que exuda de algumas áreas do tronco; aves comem insetos e atraem répteis que comem seus ovos e filhotes; os répteis, como pequenos lagartos, vivem nos galhos e servem alimento aos calaus e macacos que também comem os frutos; frutos caem no rio abaixo e servem de comida para peixes que acabam transportando as sementes para outros lugares onde estas germinam e perpetuam o plantel de baobás em outras áreas.



Pela pesquisa que fiz na web, no Brasil existem bem poucos exemplares dessa planta. São conhecidas em torno de vinte e uma árvores no país. Em Pernambuco existe a maioria delas, dezesseis, três no Rio Grande do Norte, uma no Ceará e uma no jardim botânico do Rio de Janeiro. Mas, por que estou falando dessa árvore que, afinal, é oriunda de terras distantes e pouco se vê por aqui? Porque, justamente, vou plantar algumas em Floripa. Acontece que fizeram um aterro, tipo aterro do Flamengo, mas de tamanho bem menor, justamente aqui “debaixo de minha janela” por assim dizer e estão na fase de ajardinamento com plantio de grama e árvores. Consultei gente da prefeitura sobre a possibilidade de plantar uma árvore e me disseram não haver problema desde que ela fique alinhada com as demais. Como não lhes disse que tipo de árvore a qual pretendo plantar, colocarei algumas mudas de baobá bem em frente ao prédio que moro, pois comprei dez sementes através do Ebay para esse fim. Plantei as sementes em vasos e algumas já eclodiram e formaram mudas, depois as transplanto para este aterro chamado beira-mar continental.
Como sonhar é válido e barato, me dou ao luxo de imaginar que daqui a dois ou três mil anos, algum curioso passante por estas plagas verá a majestosa e instigante árvore e ficará imaginando quem a teria plantado, ou como ela teria vindo parar aqui na terra dos menézinhos. JAIR, Floripa, 20/02/12
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28 comentários:

espacoscep.blogspot.com disse...

Bom dia Jair!
Em virtude de ter o meu blog bloqueado e sem acesso p/logar, abri um novo, motivo da minha ausência em sua grandiosa página.
Acabo sobre o "Baobá", em Recife conheço a do centro na Fac de Dir., a que fica em dois irmãos e a de Ponte D'Uchoa, realmente são exemplares de uma beleza monstruosa, gostei de muito de ler seu texto bem detalhado sobre a origem e vida do "Baobá", coincidentemente estou relendo o Peq Príncipe.
Obrigada por me proporcionar tão bela leitura e parabenizo-lhe por plantares um "BAoba"!Aplausos de pé pra vc querido!

Um Feliz sábado de Páscoa pra vc e todos os seus!

Grande abraço!

espacoscep.blogspot.com disse...

Deixo aqui meus endereço :
http://umaparaibana.blogspot.com

http://compartilhandopoesias.blogspot.com.
PS: o link do blog pelo qual postei o comentário não funciona mais. Vou te seguir!

Abç!

Cristiano Marcell disse...

Jair, você é genial! Você descobriu uma maneira de se tornar imortal! Sim, pois o que nos torna eterno são nossos atos.

Muito legal! Parabéns, meu caro amigo!

Professor Alexandre disse...

Desde que vi o desenho 'O Pequeno Principe' pela primeira vez, me interessei pelo Baobá... Mas nunca li nada a respeito... Esse belo texto veio fundamentar teoricamente um de meus interesses de infancia...

Bela postagem!

Abraços...

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
também fui apresentado a um baobá por Saint Exupéry. Devo dizer que já tenho inveja daqueles que poderão amarrar redes nos baobás de tu presenteias aos floripolitanos.
Que tu possas curtir a sombra desta fabulosa promessas que fazes
attico chassot

R. R. Barcellos disse...

O filósofo ensina os três caminhos da imortalidade: "Escreve um livro. Gera um filho. Planta uma árvore."
Espero que teus baobás não entrem em conflito com o ecossistema das tuas vizinhanças, meu caro imortal.
Abraços.
PS: Meu coqueiro vai bem, obrigado. Mas será que tenho que provar que não sou um robô?

Taís Luso disse...

Não só fiquei fascinada pela história do 'baobá' que se tivermos outra vida e eu puder escolher - e for atendida -, quero vir um lindo pé de baobá! Esses míseros 80, 90 anos que vivemos, não se compara a este baobá calminho e contemplativo!

Adorei conhecer a história.
Abraços, Jair.
Tais

Luci Joelma disse...

Meus votos de Feliz Páscoa!

Uauuu!Que lindo! Parabéns ao meu vizinho, dando vida a umá "Adansonia digitata" ou a uma "Bottle tree",ôba, ôba acho que dai
se originou o nome "baobá!". Acho que perdi a vontade de mudar de residência, só para acompanhar os primeiros passos delas.
Plantei pinhões aqui na minha sacada e estão nascendo três pinheiros. Será que levo um para ser vizinho do Baobá? Mas, que
árvore interessante, gostei dela. Acolhe todos e fica inteiraça, além do que a magia da vida!!! Já pensou, se o homo sapiens do texto anterior copiasse um pouco desta partilha? Meu amigo,pena que a vida é curta,gostaria de contemplar a frondosa árvore, do papai Jair,rodeada de gaivotas, quero-quero, ben-te-vis, garças , biguás, pombos, tico-tico, pardais...Já pensou no espetáculo? Bravos!Luci.

Leonel disse...

Alô, Jair!
Parece "síndrome de miss" mas eu, como quase todos aqui, também fui apresentado ao baobá pelo principezinho de Saint Exupéry.
Agora, o que me deixa frustrado é que meu "bottle body" segundo dizem, encurta a minha vida, enquanto uma "bottle tree" é tão longeva...
Bela iniciativa, plantar árvores milenares!
Espero que se adaptem bem!
Abraços!

Giba disse...

Bela iniciativa e belo texto, parabéns.
Estou com meus pinheiros em casa e terei que leva-los para outro local. Terei saudades.
Eu gostaria de plantar Cecóias, gosto destas árvores.
Um grande abraço

Anônimo disse...

Só pra tirar uma dúvida,essa árvore,da qual se refere,Jair,não é aquela que fez parte daquela novela,rei do gado da tv globo,em que o personagem enfiou um punhal,logo que chegou nas suas novas terras?O personagem do Antonio fagundes?

JAIRCLOPES disse...

Caro Anônimo,
Não tenho como responder à sua pergunta. Não assisti a novela alguma em minha vida. Peço desculpas por essa falha.

Jalmo disse...

Nesse site tem uma história interessante de um pernambucano que quer plantar cem mil baobás: http://www.oeco.com.br/reportagens/24002-a-capital-dos-baobas

Anônimo disse...

Eu amo as ÁRVORES, e o BAOBÁ é o BAOBÁ! Aquela a qual vc se refere da novela caro anônimo é um Jequitibá, nativa ,originalMENTE BRASILEIRA.

Anônimo disse...

Cara,Obrigado por essa matéria,percebi tanta dedicação em um ato tão simples que acredito que vai estimular várias pessoas a fazer o mesmo. obrigado também pelas informações,sou amante de árvores anciãs.. fico imaginando tudo que ela passou e está ali forte imponente.

Anônimo disse...

eu também me enterecei pelo baobá assim que li o livro O Pequeno Príncipe e depois vim procurar na internet

cacroska disse...

Oi, meu nome è Michel e sou de recife e tambem tenho uma paixão pelo baoba, mas estou aqui para divulgar que vendo sementes e mudas do grandioso baoba, caso queiram envio para todo Brasil, vai ai meu email.
michelg87@hotmail.com
abrigado.

cacroska disse...

Oi, meu nome è Michel e sou de recife e tambem tenho uma paixão pelo baoba, mas estou aqui para divulgar que vendo sementes e mudas do grandioso baoba, caso queiram envio para todo Brasil, vai ai meu email.
michelg87@hotmail.com
abrigado.

Gilberto Vasconcelos disse...

Mapa dos Baobás do Brasil disponível a venda.

Gilberto Vasconcelos, Viveirista Florestal - Olinda-PE.

www.biomaurbano.com

Gilberto Vasconcelos disse...

Mapa dos Baobás do Brasil disponível a venda.

Gilberto Vasconcelos, Viveirista Florestal - Olinda-PE.

www.biomaurbano.com

Scala disse...

Hey: Jair Plante também um pé de AURAUCARIA essa arvore vive 200 anos sua altura atinge 50 mts!!
Boa sorte companheiro.

JAIRCLOPES disse...

Scala,
Sou paranaense da região centro sul (primeiro planalto) daquele estado, onde existem as maiores concentrações de araucária e sou apaixonada pelas Araucarias barsiliensis, símbolo de meus estado. Já plantei inúmeras araucárias em minha cidade, Palmeira, e, numa joga não ecologicamente correta, plantei também três mudas na Austrália, no estado de Queensland. Se quiser dê uma olhada no texto "O Pinheiro" publicado em 04/03/1909 neste blogue. Abraços, JAIR.

Leonardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
http://estoriasdenossahistoria.blogspot.com/ disse...

Olá, Jair!! Foi um imenso prazer e deleite ler esta sua crônica. Estava pesquisando o tipo da raíz de um baobá e tropecei em seu blog. Vejo a data da sua postagem e o dia de hoje.. exatamente um ano depois me deparo co as suas palavras. Alegria!
Recebi de presente sementes de baobá que da África foram levados a Portugal e de lá para cá, no Rio de Janeiro. A semente que mais tardiamente germinou está justo no tamanho da sua foto... emocionei-me. Voce já plantou as suas mudas no aterro de Floripa? Teria curiosidade em saber como elas estão se aclimatando com as temperaturas daquela região, pois justo queria presentear alguém de Floripa com uma muda de baobá.
Fico no aguardo de suas palavras e agradeço a sua atenção.

eunice k disse...

já estamos em maio de 2014, e aí? como estão as mudas que voce plantou de baoba?? que tamanho estão?? tenho uma muda aqui em Curitiba...ainda está no vaso... acho que aqui não é um bom lugar para ela por causa do frio... (se bem que ultimamente os frios aqui não são como antigamente! rsrsrs). Só passei para perguntar a respeito das mudas... crescem muito devagar mesmo??

JAIRCLOPES disse...

Cara Eunice
Das quase dez mudas que eu fiz, fiquei com apenas uma que plantei numa praça na frente da janela do meu apartamento. Não só acompanho seu crescimento como cuida da mudinha como se minha filha fosse. Ela está com um metro de altura e apresenta um viço promissor. Veremos no futuro. As demais mudas foram plantadas em chácaras e sítios de conhecidos meus, mas só tenho notícias delas esporadicamente. Pelo que sou elas também estão saudáveis. Abraços, JAIR.

Celina Novi disse...

Adorei!! Vou comprar as sementes para plantar em Serra Negra SP.
Minha filha de 8 anos está apaixonada por esta maravilhosa Árvore. Bjo

Dulce Leão disse...

Boa noite Jair, para acrescentar, existe um belo Baobá na ilha de Paquetá.Nunca tinha visto esta arvore maravilhosa, só no livro do Pequeno Principe, que aproveitei para reler depois do passeio à Ilha de Paquetá/RJ.