terça-feira, 10 de abril de 2012

Lambança aviatória

Corrigan e seu Curtiss-Robin 29.



No início do século vinte, com o surgimento do avião apareceram os primeiros aviadores intrépidos que faziam da aviação um esporte praticado para deleite de um público ainda muito espantado com o “mais pesado que ar”. Era a época da chamada aviação romântica. Nos EUA, e também na França, surgiram os tais “Circos voadores” os quais davam espetáculos aéreos para um público pagante. Aviadores e seus acompanhantes realizavam acrobacias ousadas, voavam de dorso, passavam através de celeiros de portas abertas, cruzavam por de baixo de pontes, faziam rasantes sobre o público; acrobatas penduravam-se em cordas em pleno voo, outros ficavam sobre as asas durante acrobacias radicais e toda uma série de ações que tiravam o fôlego dos espectadores.
Voos de longas distâncias eram disputados por aviadores em busca de prêmios e fama; aviões experimentais eram construídos e sofriam acidentes na mesma proporção, e a aviação ia se desenvolvendo graças à audácia desses pioneiros. Pois foi nos EUA, querendo conquistar o reconhecimento de aviador emérito que acabou surgindo a fama de Douglas Corrigan.
Corrigan nasceu em Galveston, Texas, em 22 de janeiro de 1907. Seu pai era engenheiro civil e sua mãe professora. Eventualmente, os pais se divorciaram e Douglas saltou de um pai para outro antes de se estabelecer em Los Angeles com a mãe. Lá, ele começou a trabalhar na indústria da construção. Na época, a aviação não parecia estar em seu futuro.
Então, numa tarde de domingo em outubro de 1925, Douglas decidiu visitar um campo de pouso local. Corrigan viu um piloto levar passageiro para passeios em um "Curtiss Jenny” biplano. Excitado com a possibilidade de fazer seu próprio passeio, voltou no domingo seguinte com U$ 2,50 na mão e convenceu o piloto a levá-lo para o ar. Voando sobre Los Angeles naquela tarde, Corrigan teve uma revelação: estava determinado a aprender a voar. No domingo seguinte, ele retornou para a sua primeira lição de vôo e continuou por semanas. Corrigan também passou um tempo aprendendo tudo que podia de mecânica de aeronaves, considerando que naquela época saber mecânica era fundamental para fazer as aeronaves saírem solo, Corrigan estava certo. Em 25 de março de 1926, ele fez seu primeiro vôo solo.
Casualmente, Corrigan teve aulas de voo no aeródromo onde BP Mahoney e TC Ryan, fabricantes conhecidos de aeronaves, os quais estavam operando uma pequena companhia aérea. Não demorou muito para que Corrigan começasse um trabalho com os dois homens e foi trabalhar em sua fábrica de San Diego. Contudo, pouco depois que Corrigan começou a trabalhar para Mahoney e Ryan, um novo cliente se aproximou deles para saber sobre como fazer um avião especial. Charles Lindbergh queria projetar e construir o Spirit of St. Louis. Corrigan, montado asa da aeronave, instalou os tanques adicionais de gasolina e o painel de instrumentos.
Uma meia dúzia de pilotos famosos, entre eles Amelia Earhart e Wylie Post, já havia atravessado o Atlântico desde que Lindbergh abrira caminho com o Spirit of St. Louis em 1927. Corrigan estava determinado a realizar um feito que ombreasse com esses heróis americanos. Comprou um bem maltratado Curtiss-Robin 1929 em Nova Iorque em 1933, por 310 dólares, e na volta para a Califórnia, pousava de fazenda em fazenda oferecendo passeios em troca de grana. Nos dois anos seguintes passou a modificar o avião tendo em vista a meta que se propunha, inclusive trocou o motor Curtiss OX5 de noventa HPs por outro 165 HPs montado a partir de dois Writh antigos, ou seja, estava transformando um avião velho e decrépito numa traquitana estranha e perigosa. Também instalou quatro tanques extras, dois dos quais à frente da cabine de modo que lhe obstruíam a visão. Coisa de maluco. Em 1936 Corrigan realizou vários voos de ensaio para alcançar a melhor regulagem entre aceleração e consumo, a fim de obter o máximo desempenho. Pelo menos tinha grande habilidade mecânica e a usava para melhorar a performance da geringonça esquisita.
Ele havia comentado abertamente com amigos a ideia de realizar uma travessia não autorizada, até porque sua máquina era apelidada de lata velha aérea e as autoridades lhe deram apenas certificado de aeronave experimental. Então, voou até Nova Iorque em 10 de julho de 1938, estabelecendo um recorde de 27 horas e cinquenta minutos para percurso de 4300 quilômetros. Quando decolou na semana seguinte levando apenas algumas barras de chocolate, duas caixas de biscoitos baratos e uma garrafa de água, era impensável que viesse a realizar o voo que o deixou famoso pelo resto da vida.
A partir de um voo não autorizado tornou-se um aviador lendário, não por causa de suas realizações como piloto, mas sim por causa de uma suposta lambança aviatória. Em 1938, conquistou o imaginário de um público cansado da depressão ao sair do Blooklyn num vôo solo sem escalas para Los Angeles e no dia seguinte pousar sua aeronave tipo “feita em casa” em Dublin na Irlanda, aparentemente porque ele interpretou mal sua bússola. Para os americanos, que foram apanhados no meio da Grande Depressão, Corrigan forneceu um motivo para bom humor e soerguimento e ele se tornou um herói popular nacional. Por este dia foi apelidado Douglas “Wrong Way" Corrigan, e essa continua a ser uma expressão tornada coloquial na cultura popular. As pessoas a usam para descrever qualquer um que contraria a lógica e vai pelo caminho errado, especialmente em eventos esportivos.
As pessoas presentes no Campo Floyd Bennett quando ele decolou, às 15:15 horas de 17 de julho de 1938, ficaram intrigadas quando Corrigan inclinou a aeronave e fez uma curva para o leste quando todos sabiam que Los Angeles fica a oeste. Quando o mundo soube que seu monstrengo todo remendado e com excesso de peso havia pousado no aeroporto de Baldonnel em Dublin na Irlanda, 28 horas e trinta minutos depois, Corrigan já voara direto para o coração do povo americano. Teve direito até a desfile em carro aberto nas ruas de Nova Iorque.
Registrou-se que, com a cara mais cínica, ele teria dito aos embasbacados irlandeses: “Sou Douglas Corrigan e vim direto de Nova Iorque, onde estou?”. Continuou a sustentar, com um riso disfarçado, que fora vítima de uma bússola defeituosa. Quando as autoridades questionaram Corrigan sobre o incidente, ele jurou de mãos postas que havia deixado Nova York em rota para a Califórnia, mas depois perdeu-se nas nuvens e voou para o lado errado por causa da bússola em pane. Complacentes, as autoridades suspenderam sua licença por pouco tempo. Corrigan foi piloto de testes durante a Segunda Guerra e depois montou um serviço de carga aérea. Em 1988, foi convencido a voltar aos holofotes após convite para exibir seu avião que se encontrava desmontado numa garagem. As autoridades policiais acharam prudente amarrar a cauda da aeronave em uma viatura para evitar que ele decolasse.
Douglas Corrigan morreu em 09 de dezembro de 1995. JAIR, Floripa, 24/02/12.

7 comentários:

Attico CHASSOT disse...

Estimado Jair,
texto marcado pelo teu DNA de aeronauta, Imaginei o sr. Corrigan, já octogenário, querendo alçar voo.
Há muito não via registrada uma palavra de minha infância: lambança. Fui a dicionários e recordei a adequação do que ouvia quando guri: “Não escutem a Dona Cidoca: e dada a só fazer lambanças”.
Obrigado por me fazeres evocar saudades,

attico chassot

Professor Alexandre disse...

Nobre Colega... Sou fã do seu Blog e me divirto muito com seus textos... Com esse não foi diferente... pude aprender um pouco mais sobre um assunt que não domino, a historia da aviação...

Parabéns pela postagem!

J. Muraro disse...

A história da aviação como todas as histórias de pioneirismos está prenhe de "causos" pitoresco, curiosos e até estranhos como esse apontado por você. Gostei muito desse relato e aposto que existem outros do mesmo teor. Parabéns.

Fred Caju disse...

Saudações quem aqui posta e quem aqui visita.
É uma mensagem “ctrl V + ctrl C”, mas a causa é nobre.
Trata-se da divulgação de um serviço de prestação editorial independente e distribuição de e-books de poesia & afins. Para saber mais, visitem o sítio do projeto.

CASTANHA MECÂNICA - http://castanhamecanica.wordpress.com/

Que toda poesia seja livre!
Fred Caju

Cristiano Marcell disse...

Belo texto meu caro! Informações e entretenimentos que nos levam ao céu. Céu de brigadeiro, diga-se de passagem!

R. R. Barcellos disse...

Áureos tempos da aviação romântica... o próprio "Spirit of St Louis" era provido de um periscópio para permitir a visão da pista nas decolagens.
Abraços.

Leonel disse...

Caramba! Esse cara era bem aquele tipo de piloto malandro, como alguns que conhecemos!
Certamente não teria aprovado seu plano de voo se revelasse que pretendia fazer a travessia do Atlântico!
Mas, se fez de "migué" e acabou fazendo "na marra"!
Um maluco, sem dúvida, mas teve seu mérito!
Grande post, Jair!
Eu confesso que desconhecia essa façanha aviatória!
Abraços!