quinta-feira, 12 de abril de 2012

Inquisição ibérica

A inquisição católica medieval que teve início em 1184 no Languedoc (sul da França) para combater a heresia dos cátaros ou albigenses, teve sua sequência mais perversa e duradoura na Península Ibérica. Em 1249 foi implantada no reino de Aragão, como a primeira Inquisição estatal e, já na Idade Moderna, com a união de Aragão e Castela, transformou-se na Inquisição espanhola (1478 - 1834), sob controle direto da monarquia hispânica, estendendo posteriormente sua atuação à América e todas as colônias espanholas e portuguesas espalhadas pelos diversos continentes. A Inquisição portuguesa foi criada em 1536 e permaneceu até 1821.
Há que se notar que na ausência de “bruxas” nas nações ibéricas, os alvos primordiais das inquisições teriam sido inicialmente os conversos ou cristãos novos, como eram chamados os judeus convertidos ao cristianismo espontaneamente ou por decretos reais. Na visão dos inquisidores os conversos eram todos criptojudeus, isto é, católicos na aparência, mas judeus no íntimo. Embora em muitos casos a conversão tenha sido sincera e espontânea, para a inquisição todos os conversos eram pecadores que deviam expiar suas culpas através da fogueira.
Aos cristãos novos, vivendo há centenas de anos na Península Ibérica, era extremamente difícil entender a perseguição de que eram alvo e mais difícil ainda se defender quando eram acusados de judaizantes. Alguns, muito poucos na verdade, conseguiam desvincular-se de suas raízes ibéricas e migravam para regiões mais tolerantes com a diversidade, Países Baixos, norte da África e até o Brasil eram metas desses cristãos que não eram aceitos no país que os viu nascer.
Na Espanha, a partir de 1474, quando Isabel I de Castela, jutamente com Fernando II de Arãgão, assumiu o trono, as coisas se tornaram piores para os conversos, principalmente porque os que detinham riquezas eram alvos primários dos reis que viam na inquisição um instrumento útil para encher as burras públicas com o dinheiro confiscado. As perseguições eram atrozes e, uma vez que o indivíduo era acusado, a primeira providência era confiscar todos seus bens. Se muito depois – lembrando que os processos inquisicionais eram extremamente longos – se provasse que a acusação era infundada e o acusado inocente, seus bens jamais regressavam novamente. A inquisição tinha um caráter eminentemente venal, mas disfarçada de pregação moral, os inquisidores geralmente se tornavam muito ricos.
Pois bem, perseguidos e sugados de suas riquezas os cristãos novos, em 1492 os que restavam foram expulsos da Espanha, sendo que não tinham direito de levar quaisquer bens, mostrando claramente de onde os nazistas tiraram suas “leis de Nuremberg” que permitiam que judeus saíssem da Alemanha com uma mão na frente outra atrás. Muitos morriam de fome. Parece que Portugal sentiu-se na obrigação de seguir o mesmo caminho, então, em Dezembro de 1496, Dom Manuel assinou o decreto de expulsão dos hereges, concedendo-lhes prazo até 31 de Outubro de 1497 para arrumar suas trouxas e cair fora. Foi outra debandada que desenraizou milhares de famílias e trouxe como consequência um esvaziamento da intelectualidade e de artesãos na Ibéria, posto que judeus e conversos se dedicavam ao mister das artes manuais na sua maioria. Sapateiros, oleiros, peleteiros, pedreiros, marceneiros, carpinteiros e também advogados e médicos passaram a fazer falta na região depois desses decretos expulsórios.
E agora José? Agora que já não temos hereges judaizantes na região, que fazer? Muda-se o alvo ora! Lembremos que a Península estava ocupada parcialmente há quase novecentos anos por povos oriundos do norte da África, árabes ou, como queriam os ibéricos, mouros. Pois a inquisição imediatamente apontou seu colimador para essa potencial fonte de riquezas, passou a ver iniquidades e heresia em todos os seus atos, era uma nova temporada de caça às bruxas que se abria, sem que necessariamente existissem bruxas a serem caçadas.
Vejamos a que ponto chegava a paranóia da inquisição. Embora psicologicamente a sociedade ibérica que apoiava a inquisição o fazia pelo orgulho de se sentir cada vez mais limpa, na prática o oposto é que ocorria: para ser reconhecido como bom católico era importante feder. Explico. Os povos árabes muçulmanos tinham (ainda têm) o hábito de fazer abluções antes das orações. Significa que antes de cada prostração para orar ao profeta eles lavam as mãos e o rosto. Para os ibéricos se tornou prova de infidelidade cristã, acreditem, lavar-se. Os mouros eram denunciados por se lavarem o que era considerado suspeito por causa das abluções rituais prescritas pelo islã. As abluções e a simples limpeza corporal se confundiram e quem apresentasse cheiro de limpeza, de um corpo higiênico, era denunciado aos inquisidores. O fedor dos ibéricos “genuínos” passou a ser um atestado de pureza religiosa. Durma-se com um barulho desses!
Bem, depois que os mouros foram expulsos, os alvos da inquisição mudaram mais uma vez. Perseguiam-se agora os protestantes e quaisquer dissidências católicas, reais ou imaginárias, por menores e mais insignificantes que fossem. A inquisição ibérica havia se tornado uma máquina autônoma que se alimentava de cadáveres e riquezas dos cidadãos espanhóis e portugueses que apresentassem qualquer dessemelhança com o protótipo do cristão velho, o primevo criador da máquina. A monstruosa criatura continuou engolindo almas e corpos de modo que passou a ficar escasso o material para deglutição.
Mas, logo que a França inaugurou o iluminismo decorrente da revolução em 1789, a perseguição inquisitorial se voltou para os pregadores da igualdade, fraternidade e irmandade. A partir de então, a erudição e a leitura passaram a ser encaradas com extrema cautela. A inquisição se deparou com novo oponente que, especialmente depois da revolução francesa, passou a ser sua principal fonte de preocupação: o livro. Livros impressos na França eram sumariamente incinerados em praças públicas de Madri sem ao menos terem sido lidos pelos censores da inquisição. A origem desses escritos já era prova suficiente de sua perniciosidade. Na verdade é ocioso lembrar o que disse Heinrich Heine quase um século depois: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”, porquanto os ibéricos já estavam queimando pessoas, sendo que queimar livros era apenas um apêndice de suas paranóias inquisitoriais.
Como resultado desse obscurantismo que assolou a Península Ibérica até o início do século dezenove, depois de 1834 a Espanha e Portugal emergiram como os países mais atrasados tecnológica, cultural e em humanidades da Europa. O reflexo dessa incúria se faz sentir até hoje em pleno século vinte e um. JAIR, Floripa, 09/04/12.

9 comentários:

R. R. Barcellos disse...

A intolerância é o pecado mortal mais mortífero que existe. Torquemada gerou Hitler.
Abraços.

Tais Luso disse...

As chamadas guerras de religião raramente se travaram por um motivo religioso, ou melhor dito, esse foi quase sempre o pretexto, achando-se a verdadeira razão em qualquer interesse mais 'positivo'.
Abraços.
Tais

Paulo Sempre disse...

gerUm artigo muito importante. Obrigado

Abraço

Paulo

Attico CHASSOT disse...

Estimado Jair,
excelente fonte de aprendizado a edição de hoje, que ratifica o título de Polímata que tens. A inquisição na Espanha foi a maior e a pior. Tive o privilégio durante me pós doutorado em 2002 ‘habitar’ por dias inteiros bibliotecas espanholas. Ali escrevi um livro — Educação conSciência — onde há um capítulo acerca da Inquisição.
A propósito, permito-me um pequeno reparo acerca do consorte de Isabel I: O título de Reis Católicos é o nome pelo qual ficou conhecido o casal composto pela rainha Isabel I de Castela e o rei Fernando II de Aragão, que unificaram os reinos ibéricos no país que se tornou Espanha.
Com admiração

attico chassot

JAIRCLOPES disse...

Obrigado Chassot,
Meus anos, cada vez mais, levam meus velhos neurônios e, com eles, minhas lembranças.

Cristiano Marcell disse...

Você me fez lembrar de "O poço e o pêndulo" de Edgar A.Poe.

Leonel disse...

Pode-se ver que os nazistas não inventaram nada de novo! Nos métodos de saque e nas vítimas, muita semelhança!
E Ray Bradbury teve onde se inspirar para escrever "Fahrenheit 451".
Incrível quantos séculos essa barbaridade se manteve!
Brilhante revisão histórica, Jair!

Professor Alexandre disse...

Como historiador apaixonado por Idade Média e Renascimento, adorei esse ótimo texto sobre a Inquisição Ibérica... Apesar de ter sido um período de intolerancia e insanidade, analisar e interpretar as razões psicologicas que provocaram esse periodo é fascinante... Gostaria de indicar-lhe o livro.: História das Inquisições de Francisco Bithencourt...

Abraços e Parabéns por essa postagem fascinante!

Nathan disse...

É Dani. O artigo do seu Tio está bom, comungo com a ideia dele que
foram esbulhos, e , ocorreram em datas proximas:Egito, Iran,Iemem e
teme-se na França.
Parece que, com a criaçao do estado de Israel os esbulhos diminuiram,
mas os assassinatos permanecem como na França recentemente... A
huumanidade é deshumana .
Beijos.