segunda-feira, 27 de julho de 2009

SOBRE MEDALHAS


Sinceramente, nunca consegui entender bem os critérios e as justificativas que enchem os peitos dos militares de medalhas. Nada contra que se reconheça o mérito ou bravura do soldado e se lhe conceda condecorações como prova desse merecimento, já que compensações pecuniárias não são permitidas por lei, e é impraticável quantificar quanto vale uma ação heróica, por exemplo. Então, não é o conceder-se medalhas que me intriga, é a veneração que a maioria dos militares sente por essas insígnias; é esse fascínio pela maior quantidade possível delas, um uniforme com dúzias de medalhas é melhor que um com apenas uma ou duas. Mesmo aqueles que nunca participaram de uma batalha, de uma ação de combate ou praticaram um ato heróico ostentam, às vezes, pencas de condecorações. Vaidade pode ser uma explicação, mesmo porque, civis, o clero e os políticos também se pavoneiam com comendas, brasões e faixas sempre que podem, o que parece indicar que é condição humana gostar de adornos, enfeites, adereços. Antes que alguém, preconceituosamente, diga que isso é coisa de “cucarachas”, de militares do terceiro mundo, ou de generais africanos deslumbrados, vou transcrever abaixo notícias de duas ações de guerras. Das notícias dá para inferir que a maior nação guerreira do planeta também tem apego algo exagerado por medalhazinhas e não é seguida pela, talvez, terceira maior nação guerreira do mundo, a Inglaterra, que parece ser parcimoniosa na hora de distribuí-las. ¹ Em 1983 os Estados Unidos com cerca de 6000 homens invadiram a ilha de Granada para depor um governo de esquerda que contrariava os seus interesses, implantando um governo pró-EUA. Seguindo a política de intervenção externa de Ronald Reagan, os Estados Unidos invadiram a ilha caribenha depois de um golpe contra o presidente marxista Maurice Bishop. Alegando prestar proteção a 600 estudantes americanos que estavam no país. Bishop é destituído e fuzilado num golpe de radicais de esquerda, liderados pelo general Hudson Austin e pelo vice-primeiro-ministro, Bernard Coard. Tropas dos EUA invadem a ilha, depõem o regime e retiram-se gradativamente deixando um governo pró-Estados Unidos, até 1985. Coard e outros 14 envolvidos na morte de Bishop são condenados à morte em 1986, mas a pena é comutada em prisão perpétua. O governo americano distribuiu oito mil medalhas aos seus guerreiros que haviam combatido em granada, sofrido dezoito baixas tendo causado setenta e nove no inimigo. ² Para tentar manter-se no poder e assegurar um mínimo de popularidade, a junta militar que governava a Argentina decidiu executar o Plano Goa, a invasão das ilhas Malvinas ou Falklands para os ingleses, que a habitavam desde 1833, com o objetivo de retomá-las. Assim às 4:30 do dia 2 de abril de 1982, 150 homens do Tático Buzo, uma unidade de elite dos fuzileiros argentinos, desembarcou na capital Port Stanley para prender o governador, mas encontraram forte resistência do destacamento de 68 fuzileiros britânicos que defendia a área em torno da sede do governo. Londres reage de imediato à invasão argentina. A primeira-ministra Margareth Tatcher corta relações diplomáticas com a Argentina. Os Estados Unidos e as Nações Unidas tentam mediar a disputa. Mas Tatcher, sentido-se obrigada a defender uma possessão imperial (afinal o Reino Unido era a terceira potência militar e nuclear do mundo), enviou uma task force, uma força tarefa, para recuperar as ilhas, mobilizando a Marinha Britânica, que parte para as ilhas a 10 mil quilômetros de distância de sua pátria. Os britânicos afundam o destróier argentino Belgrano com trezentos e cinqüenta marinheiros a bordo, mas seu navio de guerra Sheffield é atingido pelos mísseis franceses Exocet, lançados pelos aviões argentinos. A resistência argentina é surpreendente e os dois lados sofrem muitas perdas. A reconquista das ilhas prova-se mais difícil do que os britânicos previam. A Inglaterra gastou 2 bilhões de dólares no conflito. O destaque ficou para os caças-bombardeiros Harrier, aviões que decolam e aterrissam verticalmente, como se fossem helicópteros. Em 14 de junho, os argentinos capitulam. Estima-se que mais de sessenta mil homens das forças armadas britânicas foram mobilizados. O saldo de mortos é de setecentos e doze soldados argentinos e duzentos e cinqüenta e cinco soldados britânicos. Resultou daí que os Britânicos condecoraram seus militares pelos feitos bélicos, fora os 255 mortos que receberam suas medalhas póstumas, 8 outras medalhas foram distribuídas aos que lutaram. Da Argentina, que empregou 10 mil militares na guerra, não se tem notícias de quantas medalhas foram atribuídas a seus heróis e mártires. JAIR, Floripa, 25/07/09.

9 comentários:

iamdoc disse...

Dear Fariseu,
Esta paixão por medalhas é universal, mormente aqui na "patria Brasilis", a querida FAB, a qual tivemos a honra de servir, deveria ter em seu simbolo em vez do "sabre alado" um belo pavão. Qual tera sido a contribuição da nossa querida primeira dama Mariza Leticia, para como tantos outros como Marisa Abnreu, Sergio Zuanazzi, receber medalha do mérito aeronautico? se existem ninguem sabe,acho que militares em tempo de paz so poderiam receber medalhas por tempo de serviço, caso as mereçam.
abração
Fabio

Obs. O ARA GEN. Belgrano era um cruzador e não destroiler

Leonel disse...

Amigo Jair: Os militares em todo o mundo parecem prezar muito medalhas. Isto já foi até objeto de vários filmes, como "A Cruz de Ferro", "Blue Max" (não lembro o nome em português) e outros. Na Inglatera, as condecorações recebidas chegam a ser citadas ao lado da assinatura do militar em documentos oficiais. Na RAF, A famosa DFC (Distinguished Flying Cross) era uma meta constante dos ases da II Guerra. Na antiga U.R.S.S., a medalha de Herói da União Soviética foi dada a muitos heróis e heroínas da II Guerra e a pioneiros como os cosmonautas Yuri Gagarin e Wladimir Komarov. Mas, ninguém gostava mais de medalhas que Idi Amin, que dizem ter copiado algumas de garrafas de vinhos premiados!

Mistérios, Magias ou Milagres. disse...

Maravilhoso seu blog, gostaria de segui-lo se você permitir. Parabens. bjs.

Eu disse...

Jair,

Sao as recompensas materiais que, ao que tudo indica, o ser humano nao vive sem. De uma forma ou de outra o reconhecimento sempre parece se materializar.
Parece mesmo que perdemos o senso...
Por isso mesmo amo os animais. Estao contantes com o que tem e a exemplo de um cao que tive que venceu um concurso no meu Estado: mordeu a faixa at'e ficar esmigalhada. Imagina que valor tinha aquilo para ele...

Um abraco,

Susana

acrimar disse...

verdade seja dita, as medalhas nao sao ganhas, mas conquistadas.
Para poucos merecedores e outros nem tanto, só formalidades midiadicas (nao preciso citar nomes elas sao estampadas, mas parece que nada houve).
Mas podes ter certeza para muitos sobram apenas cicatrizes de batalhas, enquanto centilam brazoes em bustos burocraticos.
boa reflexao um abraço Jair.
Acrimar FL-SC 28.07.09

Anônimo disse...

Gostei da foto dos "Senhores Medalhas"!

Saulo

Maringa disse...

Opa Jair, valeu pela visita e pelos elogios no meu blog. Estou pensando em escrever um romance, mas pra isso to procurando juntar elementos suficientes... vai levar um tempo rsrss

Quanto as medalhas, acredito ser uma forma dos militares alimentarem a falsa ideia de que todo o sacrificio valeu a pena. Eles vão pra guerra, passam por verdadeiras provações e voltam mutilados... as medalhas e condecorações seriam um consolo simbólico. O Estado não vai dar indenizações milionárias pra quem se estrepou, então eles dão medalhinhas que não possuem nenhum valor material em si. Sai mais barato e, pela força da tradição, todo mundo fica feliz.

PS.: É uma opinão minha, não sei muito sobre esse assunto.

Abração

Fco.Assis disse...

Essas formas de recompensas ou reconhecimentos nem sempre são direcionadas às pessoas merecedoras. Deveriam existir somente as comendas por tempo de serviço e, talvez, nem essas. Por que? Porque tudo é julgado, avaliado por seres humanos que somos e nem sempre estamos observando a verdade, ou seja, somos falhos. Exceto, nas catástrofes. Também poderia...
Aquele falastrão, que às vezes não é bem observado, por vezes passa à frente de uma pessoa que é competente, dedicada e, por ser introvertida, não sabe fazer o cocorocó após tarefas executadas, leva desvantagens sobre os alguns.
Valeu meu amigo Jair!

ademirbo disse...

Recentemente o novo ditadorzinho da Coreia do Norte foi introduzido no lugar do falecido pai portando dez quilos de medalhas no peito.

Eu vejo sua imagem e morro de rir.E olhe que nem assiti o filme ainda.

Então me vem à memória a imagem do Einstein com os cabelos brancos desgrenhados, mostrando a língua.

Aqueles que merecem ser reverenciados não costumam se dar tanta importância.