sábado, 25 de julho de 2009

OS GURKAS


A história militar registra que os Gurkas, unidade do exército de Sua Majestade Britânica formada por soldados nepaleses, tropa equivalente à Legião Estrangeira a serviço da França, constituem o mais letal corpo de soldados do mundo. São altamente disciplinados, e tornaram-se as mais eficientes máquinas de matar do planeta. Costumam fazer o “trabalho sujo” que os soldados regulares britânicos preferem evitar, isto é, são especialistas na luta corpo-a-corpo e costumam eliminar o inimigo a sangue frio. Implacáveis e determinados, atacam amoque, em geral sem qualquer chance de defesa para o inimigo. São movidos pela eficácia e lealdade, não pela vaidade. Os Gurkas integram o Exército Britânico desde o século XIX e são assustadoramente lendárias suas ações militares na II Grande Guerra onde mais de 250.000 deles atuaram, ou, mais recentemente, nas Malvinas onde aterrorizaram os argentinos os quais os chamavam de “terríveis selvagens” e fugiam desesperados à sua aproximação. Os ingleses lutaram duas vezes contra os Gurkas na Índia, em 1813 e 1816. A dificultosa vitória das tropas coloniais resultou em considerável respeito pelas qualidades militares desses soldados nepaleses e na criação, já em 1815 de três batalhões Gurkas a serviço do Império Britânico, numa evidente demonstração que a melhor política é unir-se ao inimigo se é difícil vencê-lo. Os Gurkas são recrutados entre montanheses tribais do Himalaia, e constitui ponto de honra para as famílias da região conseguirem que um membro de seu clã seja incluído na tropa que é reconhecidamente uma tropa de elite, e onde poderão ascender até ao posto de major. Usam um punhal, uma arma ancestral dos nepaleses, o kukri. A arma, de origem grega, foi uma (ou talvez a única) herança de Alexandre, o Grande. Hoje, o kukri é uma extensão do braço de um gurka. De osso, marfim ou metal no cabo, aço da mais alta qualidade na lâmina. Sem uma dimensão exata, o kukri tem em geral 28 a 30 centímetros que servem para apenas uma finalidade: matar. Num rencontro, num embate, um Gurka nunca exibe o seu kukri em vão, uma vez desembainhado o punhal, a lâmina tem de verter sangue, só depois podendo regressar ao escuro descanso da bainha. Os argentinos que os enfrentaram nas Malvinas sentiram quanto é letal essa determinação milenar. Hoje, batalhões gurkas ainda fazem parte dos exércitos indiano e britânico. Neste, a Brigada continua em ação, adaptando-se aos novos tempos – em março passado, o ministro da Defesa Derek Twigg anunciou estudos para admitir pela primeira vez mulheres na unidade. O lema, porém, permanece o mesmo: “Melhor morrer que acovardar-se”. Os Gurkas usam uniforme camuflado de combate que seria igual ao dos militares britânicos, não fosse a bainha para o famoso kukri, conhecido como "pé de cachorro", com o lado cego da lâmina bem rombudo o que a faz uma arma bem pesada, mas o lado do corte é extremamente afiado tornando-a muito eficiente no combate corpo a corpo. Arma, cercada de mitos, foi muito utilizada contra alemães e japoneses na Segunda Guerra Mundial. Mas os gurkas notabilizaram-se mesmo foi pela luta corporal com técnicas desenvolvidas ao longo de milênios pelas artes marciais. Graças a essa fama sinistra, um terror paralisante costuma percorrer as fileiras adversárias quando ouvem ressoar o grito de guerra "Jai Mahakali, Ayo Gorkhali" – em tradução literal, “Glória à deusa da guerra, aqui vão os gurkas”! O uniforme de gala é verde para locais de clima frio e branco nos trópicos, com botões e insígnias em preto. Usam ainda boinas verdes ou o chapéu mole de aba larga e desabada, típico. O armamento padrão é o fuzil americano M 16, de calibre 5,56 mm. Atuando na Malásia e em Bornéu, na Ásia, esses temíveis montanheses se destacaram como excelentes combatentes de selva. Mas tornaram-se mundialmente famosos por sua participação na Guerra das Malvinas, em 1982, com o 1° Batalhão - 7th Duke of Edinburgh's Own Gurkhas Rifles - integrando a 5a. Brigada de Infantaria inglesa. Desembarcaram na Baía de San Carlos e na primeira semana organizaram patrulhas para cercar grupos dispersos de argentinos, o que realizaram com uma eficiência mortal para azar dos portenhos. Finalmente, depois de quase dois séculos de serviços prestados à Coroa Britânica e tantas vezes recompensados apenas com o sangue e as vidas derramadas, os soldados Gurkas conseguiram obter do Governo de Sua Majestade pensões e direitos de Férias idênticos às dos restantes militares das forças britânicas. O processo começou há dois anos, sob pressão de associações Gurkas no Nepal, de onde são oriundos, o Ministério da Defesa do Reino Unido cedeu nas posições anteriores que defendiam que os Gurkas que regressavam ao seu país natal deviam seguir os padrões de vida locais no que concerne ao nível das suas pensões. Mas o argumento começou a cair por terra porque a maioria dos soldados Gurkas que se retiram ficam no Reino Unido e nunca mais regressam ao Nepal, tendo que sobreviver na Europa com uma pensão que é, normalmente, seis vezes inferior à dos seus congêneres britânicos. É até compreensível que continuem vivendo no Reino Unido depois de se retirarem da ativa do exército. Tendo vivido, às vezes, três décadas nas forças armadas, seus costumes e padrões de vida não são mais compatíveis com aqueles encontrados em suas aldeias de origem no Nepal. Entretanto, a medida não vai englobar os 22 mil Gurkas que já se retiraram do serviço ativo e que vivem no Reino Unido, mas com pensões só aplicáveis ao nível de vida no Nepal. Existem atualmente 3400 soldados Gurkas ao serviço do Exército Britânico reunidos na Brigada Gurka atualmente cumprindo missões no Afeganistão e que resultam de uma das seleções mais exigentes de todo o mundo. Todos os anos 28.000 jovens nepaleses concorrem e apenas 200 são escolhidos através de um conjunto de provas físicas extremamente exigentes, como subir correndo uma trilha de dez quilômetros na montanha conduzindo uma mochila de quarenta quilos, mas que produzem um dos corpos militares mais eficientes do mundo como provam suas ações em todas as guerras nas quais participaram e mais recentemente durante as operações de pacificação em Timor Leste após a independência. JAIR, Floripa, 25/07/09.

9 comentários:

iamdoc disse...

PÕ Fariseu, adorei o artigo dos Gurkas, sou apaixonado pelo assunto, leio bastante sobre eles mas nunca algo escrito por alguem aqui da "terra brasilis". Parabens.
Fabio

Efigênia Coutinho disse...

JAIR CORDEIRO LOPES , disse:
GOSTO DA NATUREZA, aqui disse tudo, o melhor da vida, serei uma seguidora deste seu espaço,
com admiraçâo,
Efigênia Coutinho
Escritora

angela disse...

Jair
Que horror! perdi o folego enquanto lia.
Beijo

Leonel disse...

Amigo, eu já sabia alguma coisa a respeito destes temíveis guerreiros. Apesar de tudo, é inevitável lembrar que eles foram crias do colonialismo britânico. Você destacou bem o fato de que os militares desta corporação, após a passagem para a reserva, eram discriminados nos seus vencimentos, em relação a outros soldados britânicos. Eram ao que tudo indica, mais eficientes que seus confrades ingleses, mas recebiam menos ! Parece que suas vidas valiam menos para seus mestres ! E só há dois anos corrigiram esta falha, mas deixaram de fora os já inativos, que, pelos padrões europeus, ficarão na indigência. Bastante ingratidão dos ingleses, hein?

Jorge disse...

Mais uma vez um excelente texto que nos conta muito sobre um tema quase não divulgado. Parabéns.

Anônimo disse...

Os "Terríveis Selvagens" são de muita prática e ação, no entanto não carregam tantas medalhas quanto aos generais burocrátas medalhistas (Sobre Medalhas) que nunca saem de seus gabinetes.

Eis a vida com mais uma de suas contradições.

Saulo

Prof. Manoel Granja disse...

Excelente texto. Só uma correção. Portenho é o argentino natural de Buenos Ayres. Não se deve chamar qualquer argentino de portenho assim como não se pode dizer que todo brasileiro é carioca.

Prof. Manoel Granja.

Cleide Leal disse...

PARABÉNS PELA MATÉRIA , QUAL LIVRO EM PORTUGUES VC ME INDICA PARA ME APROFUNDAR NO ASSUNTO.UM ABRAÇO APLUONGO@YAHOO.COM.BR

Cleide Leal disse...

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