terça-feira, 9 de junho de 2009

CASA DE MADEIRA



Nasci e fui criado numa casa de madeira sem atrativos, pequena, paredes de tábuas verticais, janelas e portas de madeira maciça pintadas de vermelho, assoalho de tábuas corridas quase brutas, caiada por fora e por dentro, cobertura em duas águas de telhas francesas. A casinha de três quartos, sala e copa/cozinha, tinha uma pequena varanda nos fundos era muito aconchegante, não quente em excesso no verão, nem fria demais no inverno, e constituía o abrigo no qual, normalmente, uma família bem pobre podia morar naquele tempo e lugar. Casas como aquela eram comuns no sul do Paraná onde a abundância de madeira permitia construções bastante duradouras de qualidade razoável a baixo custo. Ainda hoje na região é normal encontrarmos grande quantidade de casas de madeira, modestas nas bem conservadas, que foram construídas há décadas por pessoas de baixo poder aquisitivo. Essas casas ainda são uma opção barata de moradia para pobres e também possibilidade de sofisticação para quem quiser gastar bastante numa casa de paredes duplas, avarandada, grande e confortável, como quase a totalidade das casas de moradia na cidade de Brisbane na Austrália. Nos primórdios o homem vivia em cavernas e reentrâncias de rochas. Era ali que se abrigava das intempéries, se defendia de animais selvagens, dormia e praticava os atos comuns da vida familiar. Há indícios que, assim que saiu dos buracos, a madeira foi a primeira matéria prima a ser utilizada pelo homo sapiens para construção de abrigos mais ou menos permanentes. Em qualquer lugar que fosse possível encontrar com facilidade materiais vegetais aptos para a construção, eles eram aproveitados para serem utilizados sobre qualquer tipo de estrutura de madeira. Deste modo, as escassas exigências de um abrigo para algumas tribos paleolíticas, ficavam satisfeitas com uma simples armação de ramos ou pequenos troncos, que se cobriam com folhas, capim, peles de animais ou cascas de árvores. Troncos e galhos que serviam de apoio e suporte para coberturas simples, foram os precursores das estruturas de madeira atuais cuja evolução técnica foi gradualmente e ao longo dos séculos servindo as exigências do homem de acordo com o clima e outros fatores que influenciavam na construção dos abrigos. Os diversos modos com que se realizavam os encaixes das distintas partes da estrutura de uma casa foram determinados pela qualidade das ferramentas, mais ou menos sofisticadas, que os diversos povos desenvolveram ao longo do tempo. Assim como, a complexidade das construções e a durabilidade dos materiais empregados estavam de acordo com a intenção de maior ou menor permanência no local, em geral determinada pela disponibilidade de alimentos e a inclemência do clima da região. Como atestam as habitações de tribos seminômades ainda remanescentes, em muitos locais a união das peças de madeira era realizada apenas com o auxílio de cordas tecidas com as fibras de folhas e cipós. Estas uniões eram muito resistentes e graças a sua grande flexibilidade, resistiam a ventos fortes e mesmo a vendavais violentos. Na cobertura destas habitações, eram utilizados materiais de origem vegetal, que aos poucos foram substituídos por outros, (tecidos fortes e esteiras feitas com fibras de palmeiras) que mais tarde serviram de suporte a camadas de barro e argila, que, posteriormente, deram origem as telhas, mais transportáveis e de fácil reposição. A grande variedade de casas construídas a base de peças de madeira unidas entre si com fibras vegetais, fala por si mesmo da solidez da sua construção e da sua segurança estrutural, constituindo e talvez desde sempre o método mais eficaz e mais econômico de utilização de materiais naturais que se encontram em toda a parte do mundo. Algumas dessas estruturas como as das casas da Ásia central alcançaram um nível tão grande de desenvolvimento que dificilmente a tecnologia moderna terá algo a acrescentar. Estas construções chegaram até hoje, como testemunho da sua extraordinária tecnologia. Mesmo quando a intenção do homem sedentário, ou a abundância de material lhe impunham construção de algo mais sólido e duradouro como casas de pedra, alvenaria ou de barro, a casa de madeira ainda era uma alternativa a que muitos povos recorriam em função de sua praticidade e rapidez de construção. Assim, ao longo dos séculos, casas construídas com os mais variados materiais conviveram mais ou menos harmoniosamente, apresentando arquiteturas próprias, antagônicas, complementares e até misturadas mas, quase sempre, o que definia se a casa seria de madeira ou de alvenaria, por exemplo, era o poder aquisitivo do proprietário. Madeira para os pobres, materiais mais nobres para os aquinhoados. Há dois problemas para quem mora em casas de madeira: o estigma e as dificuldades de manutenção. As pessoas normalmente vêem a casa de madeira como demérito e sinal de pobreza. Há um preconceito que envolve o assunto. A outra questão é a dificuldade de manutenção das casas, se a manutenção é cara ou difícil as casas deterioram-se sem que os a ocupantes façam algo para mantê-las bem, atraentes e funcionais. No mundo ocidental em que vivemos, onde nos é permitido verificar os desníveis sociais naturais da sociedade capitalista, no qual existe uma maioria de despossuídos, e uns poucos ricos e poderosos, as casas de madeira como aquela na qual nasci, tornaram-se símbolo do operariado que vive de salário mínimo. Não por saudosismo gratuito ou nostalgia indefinida ainda guardo boas lembranças da casinha humilde que passei minha infância. A madeira parece ter vida. Nos veios e nos nós, você lê a história e nobreza dela. Os mais sensíveis, até sentem as vibrações do ambiente onde ela esteve no passado, sentem a alma da árvore que lhe deu origem. Não chego a tanto, mas sinto que minha infância não teria sido a mesma sem aquela casinha simples, teria sido menos alegre e despreocupada por certo, e, talvez, menos interessante. O fato de a moradia ser singela, desprovida de ornatos, "clean" como se diria hoje, influi nos espíritos das pessoas de modo a tornar suas vidas menos complicadas, casa de madeira é um importante componente minimalista, só quem viveu numa delas é que sabe do que estou falando, abraços. JAIR, Canoas, 09/06/09.

5 comentários:

Jorge disse...

Não tive a oportunidade de morar em casa de madeira, mas o texto dá um boa idéia de como seria, Parabéns.

Adri disse...

Tenho lembracas das muitas ferias que passavamos em Palmeiras... as casas eram realmente aconchegantes...

Leonel disse...

Jair, eu também fui criado em uma casa de madeira e me lembro bem os estalos que a madeira dava ao anoitecer, quando a temperatura começava a cair e a madeira a se encolher ! Também me lembro das goteiras escorrendo do forro de madeira, depois que o granizo havia despedaçado algumas telhas ! E do minuano assobiando pelas frestas, que minhas irmãs tentavam vedar com folhas de jornal dobradas em diagonal, como fitas enfiadas entre os espaços dos mata-juntas! Por causa destas lembranças, eu hoje não tenho mais nenhuma vontade de voltar a morar em uma casa de madeira. Realmente, naquela época, o status era ter uma cas "de material", como se chamava no Rio Grande as casas de alvenaria !

Abraços !

Jair disse...

Também eu não tenho a menor vontade de morar em casa de madeira de novo, mas, a idéia que eu quis passar e, talvez, não tenha conseguido, foi que a simplicidade de uma casa de madeira pode influir no comportamento das pessoas de modo a tornar as vidas delas mais descomplicadas, mais singelas, mais minimalista para usar um expressão em voga. Até porque quem mora em casas simples, em geral é pessoa simples.

lila rizzon disse...

Jair,
Adoro casas de madeira. Sério! Acho bem mais aconhegantes. Creio que me identifico com a madeira... Quanto ao ser mais barato, nem sempre é, amigo. Há também projetos caros - e liindos -feitos em madeira. Os quais, por sinal, sou fã confessa!
Grande abraço,