domingo, 15 de julho de 2012

Formigas verdes


Na região leste australiana, no estado de Queensland, existe uma espécie endêmica de formiga chamada de formiga verde porque possui o abdômen dessa cor. Talvez por existir apenas naquela região não é muito conhecida pelos entomólogos e não figura em destaque em quase nenhuma produção literária, aliás, nem mesmo os australianos de Queensland sabem muita coisa sobre ela.
Talvez nunca se viesse a conhecer qualquer coisa a respeito dessas formigas se não fosse o cineasta alemão Werner Herzog que fez um filme nem um pouco conhecido que tem como atração a fantasia mística que esses insetos exercem sobre o imaginário de tribos aborígenes que vivem no out back e têm as formigas como portadoras de bons augúrios. “Onde sonham as formigas verdes” é o nome da obra do diretor alemão. No coração selvagem da Austrália, um grupo de aborígenes de uma tribo em extinção defende um local sagrado contra o avanço dos tratores de uma companhia de mineração. É o local onde sonham as formigas verdes. Perturbar o seu sonho irá destruir a humanidade, eles acreditam. Os nativos entram em conflito com as leis da Austrália moderna, e a disputa é feita em um tribunal.
Não é caso de falar sobre as mensagens do filme onde há um confronto dos valores cultuados pelos nativos com o capitalismo selvagem que só vê lucro a tirar daquele pedaço de deserto. Mas, vale falar sobre como os australianos nativos incorporam as verdes formigas à sua cultura.
Em meados dos anos setenta, geólogos da Queensland Mines Ltd. se depararam com um pequeno sítio de terra numa região remota da Austrália, região norte de Nabarlek que acabou sendo o mais rico depósito de urânio do Planeta. O minério enterrado abaixo da paisagem encontra-se em formações altamente concentradas de fácil acesso, a menos de 18 metros de profundidade. Assumindo que os direitos de mineração poderiam ser facilmente obtidos a partir dos proprietários indígenas, a empresa australiana rapidamente assinou contratos para vender US $ 60 milhões de minério para empresas japonesas. O que os executivos de mineração não levaram em conta foi a relutância dos indígenas em perturbar as formigas verdes que vivem perto do local.
A formiga verde é um incômodo para os moradores de regiões urbanas e suburbanas da Austrália. As formigas geralmente constroem seus ninhos no subsolo sob a maioria dos tipos de gramíneas, ninhos que muitas vezes passam despercebidos até que alguém, ou às vezes algum animal, é mordido. A mordida da formiga em si é muitas vezes invisível, no entanto, o veneno que ela injeta através de uma picada, em seu abdômen, inicia uma forte sensação de queimadura segundos após a picada e permanecendo por um tempo de cinco minutos até duas horas ou às vezes mais. O veneno é geralmente inofensivo, mas se um grande número de mordidas for recebido de uma só vez, a enorme quantidade de veneno injetado no corpo às vezes pode tornar uma criança pequena doente por algumas horas ou mais, geralmente nada para se preocupar, exceto um choro perseverante que incomoda os adultos.
Contudo, para os australianos nativos que são místicos e cultuam a natureza com uma mãe benfazeja que tudo lhes dá sem nada pedir em troca, a existência das formigas verdes naquele pedaço de chão é um sinal de fartura e futuro tranquilo. Qualquer mudança no clima ou nas condições do terreno que prejudique ou impeça o sonho das formigas é um mau sinal que angustia suas mentes e traz desconforto social para todo o povo porque o mundo pode acabar. Elas fazem tudo para preservar o ambiente das formigas, equivale dizer, eles preservam a natureza e pouco modificam as condições em que elas vivem. 
Então, como entender que homens brancos, movidos por alguma coisa tão execrável como dinheiro, quisessem cavar o solo e desalojar as formigas que ali viviam por milhares de anos sem serem incomodadas e sem incomodar ninguém? Como entender que homens ditos civilizados pudessem matar as formigas para se apossar de um produto enterrado no solo que os nativos nem sabiam para que servia, e que, mesmo aqueles escavadores incréus não sabiam explicar exatamente qual era seu uso?
O conflito resultante da visão mística e até certo ponto ingênua dos aborígenes, e da fome de lucro dos capitalistas em explorar as jazidas de urânio, deu azo ao filme de Herzog. O que vemos na obra é o choque de cultura, o abismo enorme criado entre a visão natural dos nativos e a prepotência do homem branco. É um filme sobre as coisas pequenas e simples que vão além de qualquer ganância ou providência que o dinheiro pode tomar. Os nativos, mesmo seduzidos com a promessa de milhões de dólares a ser doados à sua comunidade em troca da exploração das minas, não aceitaram perturbar o sonho de suas amadas formigas, deitaram-se no solo e impediram que as máquinas iniciassem os trabalhos de escavação. A “disputa” entre esses liliputianos ecologistas, contra os gigantes operadores de máquinas famintas e poderosas, se estendeu por vários meses até que o capital irracional perdeu a luta e resolveu procurar urânio em paragens onde não moram nativos e tampouco existem formigas verdes.
Há que se notar que, a não ser pelo filme de Herzog, a imprensa mundial jamais publicou uma linha sequer sobre esse incidente em que uma comunidade, “selvagem” por definição, travou uma luta contra todo-poderosos empresários e saiu ganhando. Que o sonho das formigas verdes não seja perturbado jamais em nome daqueles que se preocupam com a sobrevivência da humanidade. JAIR, Canoas, 12/07/12.

9 comentários:

R. R. Barcellos disse...

Ah, mas se o resultado do embate fosse outro haveria repercussão? Onde e como?
Perguntas...
Abraços, garimpador de raros minérios... nós somos as formigas verdes.

Tais Luso disse...

Muito interessante. Vemos que o dinheiro não compra tudo, que ainda existem povos que preservam suas culturas, embora seja difícil de acreditar que possa existir tal coisa num mundo capitalista.
Muito curioso isso. E louvável - minha opinião.É bom deixar os 'caras' quietos por lá. São felizes.
Abraços
tais

J. Muraro disse...

Dá o que pensar uma tribo de nativos recusas muito dinheiro para preservar o sonhos de suas adoráveis formigas. Será que o homem dito "civilizado" conseguirá algum dia compreender que existem valores mais importantes que o dinheiro. Parabéns pela ótima postagem.

Cristiano Marcell disse...

Gostaria de ver um homem branco se sentar na grama e afirmar com veemência que o que vem de baixo não o atinge!

Não posso deixar de agradecer por citar um grande diretor da sétima arte. O herzog é demais! Consegue fazer até mesmo atores canastrões, como Nicolas Cage, brilharem na interpretação!

Muita paz!

Leonel disse...

Para aborígenes, incompreensível esta fixação pelo dinheiro e pela riqueza!
Entre eles, no seu estado natural e tribal, não existem ricos nem pobres, e todos têm o que é essencial à sobrevivência.
A ideia de ter coisas além disto soa como uma inutilidade, ainda mais quando sacrifica uma das suas instituições naturais.
Mas, grande foi o teu mérito ao revelar esta história, para mim inédita!
Abraços, Jair!

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
encantou-me a pureza do texto.
abraços soteropolitanos,
attico chassot

Professor Alexandre disse...

Muito interessante... Desde criança as formigas verdes me intrigam... primeiro como insetos e atualmente como metáforas...
Seu texto é brlhante!
Parabéns...

Abraços!

Luci disse...

Que lindo! Lembrei do filme "Avatar".A natureza agradece.Que vivam as formigas verdes!Luci.

Juno disse...

Pena que nossos nativos não tenham suas "formigas verdes"
Texto fantástico! Parabéns!