segunda-feira, 2 de julho de 2012

Os diamantes


Diamantes exercem um fascínio inexplicável sobre os seres humanos. Não se sabe por que povos de civilizações e culturas completamente distintas, e em lugares distantes uns dos outros, em um ou outro estágio de suas existências, parecem ter sucumbido à magia que essas pedras possuem. Diamantes, diferente de outras pedras preciosas quaisquer, são as únicas gemas constituídas de um elemento apenas: carbono. Na história contemporânea, embora a maioria – cerca de oitenta e cinco por cento – da produção de diamantes se destine a uso industrial, são os diamantes usados na confecção de jóias os quais geram os maiores negócios que chegam a bilhões de dólares por ano. O centro mundial dos diamantes, onde se fazem as maiores transações e onde as cotações das pedras nascem, fica na Antuérpia e onde o gigante do ramo, o grupo De Beers, tem seu centro nervoso.
O grupo De Beers possui mineradora e empresa comercial de diamantes multinacional que tem controlado o fluxo de diamantes no mercado EUA por décadas. Talvez um título mais apropriado seja cartel, a De Beers foi formada como um grupo de produtores, cujo objetivo era a fixação de preços, abastecimento de controle e limitação da concorrência, e isso é exatamente o que a De Beers fez historicamente com o comércio de diamantes. Seu slogan “Um diamante é para sempre”, traduz a perenidade das gemas, mas bem poderia invocar a primazia da empresa na produção e comercialização de diamantes: “De Beers é para sempre”
O nome "De Beers" originou-se de dois agricultores africanos do sul, Diederik Arnoldus De Beers e Johannes Nicolau de Beers. Os irmãos De Beers descobriram diamantes em sua fazenda e incapazes de lidar com a constante tensão de proteger a fazenda contra o afluxo de aventureiros em busca de diamantes, eles venderam as terras e as minas. A terra foi local de duas minas de grande porte: Premier e Kimberly.
A posse dessas minas deu origem a competição entre grandes companhias e grandes investidores de forma que no fim das contas surgiu uma empresa De Beers com posse das duas minas e de outras mais existentes na África do Sul. De Beers Consolidated Mines Limited foi assim formada em 1888. Como grupo, eles possuíam as minas Premier, a maioria dos Kimberly, e várias outras minas. Mais de uma década depois a De Beers formou cartel.
Em 1930, Sir Ernest Oppenheimer, presidente da De Beers Group, surgiu com a idéia de "marketing de canal único", que ele definiu como "uma 'cooperativa de produtores’, incluindo a grande parte externa, ou não de produtores da De Beers em conformidade com a crença de que apenas através da limitação da quantidade de diamantes colocados no mercado, em conformidade com o pedido, e com a venda por um meio de canais, pode a estabilidade do comércio diamante ser mantida". Na prática, o que Oppenheimer quis dizer com “limitação da quantidade” é que através do controle da oferta, limitada apenas pela estrita observação da demanda, os preços poderiam ser mantidos lá no alto e as pedras gerariam lucros astronômicos. É o que acontece até hoje em nível mundial. A De Beers estipulou que colocaria à venda nos EUA um número de diamantes correspondente a exata quantidade de casamentos previstos no ano, assim não haveria excesso de oferta e os preços seriam mantidos, ou aumentados de acordo com a vontade de Sir Ernest. Considerando que nos EUA o costume dita que as noivas ganham um anel de diamantes ao receberem o pedido de casamento, a estratégia da De Beers foi (e continua sendo) tremendamente bem sucedida. Hoje um anel de noivado com diamante de boa qualidade de um quilate custa em torno de oito mil dólares. Na mina ou no garimpo um diamante assim custa de duzentos a trezentos dólares.
Esta estrutura nova do marketing de canal único, eventualmente, veio a ser conhecida como a Central Selling Organization (CSO). Basicamente, Oppenheimer formou um cartel com a premissa de que ele estava operando uma empresa legítima. Ele colocou para fora toda a competição e manteve o domínio sobre o fornecimento de diamantes, elevando seu valor e raridade através de uma oferta limitada que a De Beers distribuiu cuidadosamente. É legítimo dizer que desde então a De Beers tem possuído e controlado cerca de 90% da produção de diamantes no mundo, assim eles podem controlar a "raridade" e valor e manter um controle sobre a indústria lucrativa. Muitos dos seus negócios são obscuros, e eles são conhecidos por especial crueldade contra os seus concorrentes.
Além dessa óbvia jogada que mantém os diamantes sempre em alta, a De Beers foi acusada de ser cúmplice dos contrabandistas e guerrilheiros de Serra Leoa que, nos anos 80 e 90, extraiam diamantes através de trabalho escravo, e vendiam as pedras para comprar armas. Os trabalhadores dos garimpos eram mantidos sob regime de terror onde qualquer falta era punida com o decepamento da mão ou das mãos. Esse triste episódio deu surgimento à produção de “Diamante de sangue”, filme estrelado por Leonardo Di Caprio que relata a crueldade dos rebelados para com os garimpeiros de Serra Leoa.
Os diamantes não são raros, e a única razão de parecerem raros é por causa da De Beers. Sua regulamentação estrita de diamantes apóia preços ridiculamente altos e um valor artificialmente inflado e que permanece até hoje. E parece que governos e órgãos internacionais nada fazem a respeito porque diamantes não são gêneros de primeira necessidade, aliás, nem de última necessidade, o mundo pode passar perfeitamente bem sem eles, então a De Beers vai continuar dando as cartas e faturando bilhões “para sempre”, como diz o slogan deles. JAIR, Floripa, 01/07/12.

11 comentários:

Camila Paulinelli - Aquila Box disse...

Olá,
Ótimo texto explicando a caristia dos diamantes. Bjos

R. R. Barcellos disse...

Coisa parecida está acontecendo com o nióbio brasileiro...
Abraços, amigão.

J. Muraro disse...

Pois é, o estranho nesse monopólio por parte da De Beers é que, a rigor, ninguém precisa de diamantes, então seria, teoricamente, contraproducente estabelecer preços altos e escassez artificial. Num caso desse, segundo as teorias econômicas (estudei economia), as pessoas deixariam de comprar, mas na prática acabam comprando até com sacrifícios em alguns casos. Dá prá entender?
Parabéns pela postagem.

Cristiano Marcell disse...

http://www.youtube.com/watch?v=bSiIM07bELI

Tais Luso disse...

Acho que essa foi a aula mais cara do mundo!! A peso de Diamante. Adorei ter lido e conhecido mais.

Abraços
Tais

Karina pink disse...

olá seguindo,segui de volta bjs
http://pinkbelezura.blogspot.com.br/

Professor Alexandre disse...

Adorei sua explanação sobre a história da ganância e da exploração ocasionadas pelo alto valor dos diamantes...
BRILHANTE!

Abraços...

Leonel disse...

Incrível esta reportagem, pois desvenda como uma empresa criou um mercado e ditou hábitos de consumo de forma a assegurar sua própria existência!
E ainda mantendo os preços lá em cima!
Ainda bem que por aqui não cultivamos tanto este hábito de pedir a mão a troco de um anel de brilhantes, senão muita gente já começaria a vida de casado cheio de dívidas...
Excelente post, Jair!
Abraços!

Graça disse...

Maravilhosa explicação, Jair. Muita coisa aqui a gente de fato não sabia!!
Ou seja, quase tudo, tirando apenas

- o monopólio (intragável, como qualquer outro!)
- a "raridade" falsa das pedrinhas "verdadeiras"
-o cartel...

Obrigada pelas informações e dicas, amigo! Muito pertinentes! Eu tb estou para me casar (oficialmente) e já encontrei o jeito de "não esperar um anel com a tal "pedrinha"! Coitado do meu amado marido!!!rs(Mesmo porque eu vivo muito bem sem ela...)


Uma pergunta que não quer calar, Jair:

-Onde é que você foi "garimpar" esta postagem tão "rica"???rs

Grande abraço!

Zilani Célia disse...

OI JAIR!
ACHEI LEGAL ESTA LEITURA E ORIENTAÇÃO A RESPEITO DOS DIAMANTES.
MAS, A QUE SE ATRIBUI ESTE FASCÍNIO QUE EXERCE SOBRE AS PESSOAS, TÃO BEM DITO NO INICIO DO TEXTO?
AO PREÇO, QUEM SABE.
ABRÇS

zilanicelia.blogspot.com.br/
Click AQUI

Attico CHASSOT disse...

Muito estimado Jair,
como o R,R. Batcellos já referiu aqui o quanto nióbio, mais precisamente o Coltan{= mistura de dois minerais: Columbita e Tantalita. Em português essa mistura recebe o nome columbita-tantalita. Da columbita se extrai o nióbio e da tantalita, o tântalo] é como o diamante, o ouro e outros minerais catalisador de ódios e morte de menos apossados.
Por outro lado me pergunto sempre, porque o ouro, metal menos útil que o ferro, por exemplo, e todos os tempos e em todas as geografias tão cobiçado.
Abraços interrogantes,
Attico chassot