quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sobre Mao


Já publiquei textos referentes ao desgoverno de Mao Tse-tung, o qual foi mandatário mor da China entre 1949 e 1976, ano de sua morte. Apesar de lembrar as monstruosidades que o líder comunista cometeu contra seu próprio povo para alcançar e se manter no poder, descalabros que custaram a vida de 70 milhões de chineses, me ative apenas à moldura tétrica da vida privada de um homem que sob quaisquer aspectos individuais não era um exemplo de ser humano ou cidadão a ser seguido. Mau marido, péssimo comandante de tropas, extremamente mordômico, covarde, lascivo, egocêntrico, desprovido de compaixão ou sentimentos para com o próximo, traidor de amigos, companheiros de partido e das esposas (teve quatro ao longo da vida), não tomou banho por mais de vinte anos e nunca escovou os dentes.
Durante os anos trinta e quarenta do século passado, Mao já filiado ao PC chinês e, junto com outros camaradas, formou tropas para instituir uma revolução comunista na China que se encontrava semi invadida pelos japoneses e semi governada pelo general Chang Kai-shek. A fim de tornar-se comandante das tropas, seguidamente traia seus pares induzindo-os a entrarem em combate contra tropas nacionalistas melhores armadas, bem posicionadas e bem treinadas para que fossem massacrados. Diante dos fiascos anunciados, Mao mandava executar os comandantes e assumia o comando. Covarde como era, jamais entrou em combate ou compareceu aos campos de batalhas. Sua ascensão custou centenas de milhares de vidas, mas isso nunca lhe causou qualquer arrependimento ou remorso.
Casou-se pela segunda vez durante essa época de lutas, mas sua esposa, embora lhe tenha dado dois filhos, um dos quais com problemas mentais, foi morta por tropas nacionalistas quando estas invadiram a aldeia na qual vivia. Mao encontrava-se nas proximidades comandando tropas cinco vezes mais numerosas que as invasoras, mas não fez qualquer gesto para salvar sua esposa, deixou-a ser morta depois de torturas horríveis mesmo sendo informado por seus espiões que isso ia ocorrer.
Durante a “Longa Marcha”, empreendida em 1934 com 80 mil homens que fugiam das tropas de Chiang Kai-shek, Mao se fez conduzir em liteira levada por ombros de quatro homens em condições terríveis. Sua natureza mordômica fez com que só pernoitasse em mansões arrestadas de chineses ricos que eram expulsos ou mortos a mando de Mao. Os demais componentes do assim chamado “Exército Vermelho” dormiam ao relento, mesmo no rigoroso inverno das montanhas.
Desde essa época, Mao costumava rodear-se de belas garotas as quais tinha por amantes – muitas vezes a força – e as dispensava assim que “enjoava” delas, adquirindo outras em seguida. Esse hábito durou toda sua vida e foi tolerado pelas esposas, pois estas não tinham como contrariá-lo porque corriam o risco de “desaparecer”. Mao cercava-se de homens competentes para “carregar o piano”, mas estes não poderiam fazer sombra a ele. Chou En-lai é dessa época e só conseguiu sobreviver porque era poliglota, articulado e fazia a ligação com os russos os quais forneciam as armas que o Exército Vermelho necessitava.
Depois da subida ao poder em 1949, Mao continuou sua política de terror para manter-se no poder e transformou a China num grande campo de concentração onde as pessoas só tinham direito de trabalhar até a exaustão e morte em nome do comunismo. Os direitos deixaram de existir, não havia constituição e o que valia era o “Livro Vermelho dos Pensamentos de Mao”, uma compilação de frases nas quais ele determinava por parábolas todas as ações da vida de todos. Seus pensamentos, mal comparando, eram a bíblia do povo chinês.
Mao lia muito desde criança, sempre gostou de livros e sua cama era bem larga para acomodar muitos livros os quais estava lendo. Durante a Revolução Cultural comandada por ele a partir de 1966, mandou queimar todos os livros ocidentais ou de autores chineses “não autorizados”. Aproveitou para aumentar sua biblioteca de livros raros, todos roubados por seus Guardas Vermelhos quando seus verdadeiros donos foram presos ou mortos por possuí-los. Mao orgulhava-se dessa biblioteca e fazia questão de receber e ser fotografado ao lado de mandatários estrangeiros em frente às prateleiras abarrotadas de livros roubados.
Durante seu desgoverno mandou construir muitas mansões em vários lugares do país para se hospedar quando viajava. Várias dessas moradias jamais foram usadas, permaneciam fechadas para a eventualidade de que viesse a ocupá-las. As luxuosas construções continham sempre abrigos atômicos e túneis de fuga para o caso de ser necessária uma saída de emergência. Todas continham piscinas aquecidas e eram localizadas em locais aprazíveis onde os camponeses foram expulsos para isolar o Grande Líder.
Como Mao nunca escovou os dentes e mantinha o hábito de fumar desde muito jovem, seus dentes eram enegrecidos, cariados e ele tinha mau hálito, verdadeiro bafo de bueiro, segundo quem o conhecia. Em pouquíssimas fotos aparece sorrindo e, quando isso acontece, os assessores de imagem costumavam disfarçar seus dentes pretejados, mas isso nem sempre era possível de modo que existem fotos que mostram sua dentição horrorosa. Mao deixou de tomar banho em 1949, só permitia ser esfregado com toalhas úmidas por suas camareiras durante o verão. Imagina-se que não tivesse um odor muito atraente.
Apesar da fome que grassava em virtude de suas políticas desastradas quase todo o tempo que foi o “Grande Timoneiro” do país, Mao vivia na fartura e sua comida vinha de certas regiões da China que produziam galinhas, arroz e porco só para ele. Sua comida era exclusiva e não era permitido a ninguém comê-la, a não ser seu provador oficial o qual experimentava os pratos para verificar se não se encontravam envenenados. Mao temia envenenamento por que havia mandado envenenar um de seus acólitos que lhe fazia sombra durante sua ascensão.
Ao fim da vida, quando soube que Chou En-lai estava com câncer na bexiga, impediu que fosse tratado porque queria viver mais que seu êmulo o qual, sob todos os aspectos era melhor que ele, Mao. Mao se sentiu realizado quando em 08 de janeiro de 1976, Chou veio a falecer vítima do câncer não tratado. Em nove de setembro de 1976, Mao Tse-tung morreu. Permaneceu lúcido até o fim e em sua mente havia apenas um pensamento: ele e seu poder. Não deixou herdeiros políticos, testamento ou filhos homens, o mais velho havia morrido na guerra da Coreia e o outro num manicômio na década de cinquenta. JAIR, Floripa, 31/08/11. 

10 comentários:

Paulo disse...

Registe-se ainda que Mao, além de poeta de estilo clássico, é autor de uma vasta produção escrita, de carácter político, ideológico e de doutrina militar, em tom ora polémico ora didático, que são o reflexo e a expressão da sua luta e das suas ideias.

Abraço
Paulo

Carlos Morelli disse...

Que "dupla infernal" (junto com o Stalin !), heim ??!!

Anônimo disse...

Muito interessante, ao longo do texto tem-se a impressao de se estar lendo sobre alguem que viveu a pelo menos 3 ou 4 seculos atrás. No entanto, isso tudo aconteceu na China muito recentemente. Incrivel como em apenas 50 anos, a historia de um país pode mudar tão radicalmente.

J. Muraro disse...

Parece coisa bastante comum, mandatários tiranos que regam seus governos com sangue, sempre são covardes. Mao não fugiu a regra. Ótimo texto, parabéns.

Attico CHASSOT disse...

Muito estimado Jair, independente de qualquer avaliação histórica, permito-me registrar que, quando estive na China, no ocaso do 20, conotei num sebo um "livrinho vermelho" daquelas edições que os militantes levavam nas marchas. Tenho também em português edição de suas obras que são preciosidade.
Por tal foi muito bom ler teu texto.
Com admiração, attico Chassot

Leonel disse...

Difícil mesmo é achar uma má qualidade que este tirano não tivesse!
O engraçado é que as barbaridades ocorridas na China são quase nunca comentadas no ocidente...
Belo resgate, Jair!

Júllio Machado disse...

Gostei muito. Algumas peculiaridades aqui descritas eu desconhecia. Eu tenho um livro da Hedda Garza, que descreve "O pai sagrado da revolução chinesa como sendo, em alguns momentos, um relevante líder de um povo que , deveras era oprimido por mais um daqueles governos tiranos que despontaram no século vinte. Mas enfim, ainda que sua natureza tenha sido sinistra, a sua inteligência, liderança, a sua perspicácia política e militar é inegável. ("Muitos" ainda o cultuam)

R. R. Barcellos disse...

Mao, Idi Amim e outros do mesmo quilate representam o lado mais execrável do chamado "culto à personalidade".
Muito bom texto.
Abraços.

Professor Alexandre disse...

É sempre bom saber um pouco mais...
Ótima postagem!

Parabéns pela qualidade...

Malgaxe disse...

O comunismo é algo desprezível, e a politica chinesa, até hoje, relega o ser humano a condição de escravo do estado.