domingo, 10 de junho de 2012

O canhão


A chamada guerra fria, que era um arreganhar de dentes entre o ocidente democrático (EUA) e o oriente comunista (URSS), requeria de ambos os contendores vigilância constante e demonstrações aparatosas de poder bélico visando impressionar o oponente. Nós, expectadores compulsórios, quase sempre com taquicardia, éramos vítimas de notícias de novas ameaças e de novas armas desenvolvidas especialmente para aniquilar uma conquista tecnológica do outro lado. Assim, bombas “A” cada vez maiores e mais potentes eram “testadas” no atol de Biquíni no Pacífico pelos EUA, e artefatos semelhantes detonados no deserto do Kazaquistão pelos russos. Lembrando que a bomba “A” detonada em Hiroxima tinha uma potência equivalente a 20 quilotons (vinte mil toneladas de TNT), as bombas de ambos os lados na década de cinquenta andavam na casa dos megatons (milhão de toneladas de TNT). Sempre que os soviéticos anunciavam uma bomba especialmente potente, os americanos respondiam com uma maior, e a recíproca era verdadeira. Parecia que aquela disputa ia acabar com a humanidade por um mero acidente quando alguém meio destrambelhado apertasse um botão numa má hora.
Aviões, submarinos e belonaves de superfície cruzavam céus e mares 24 horas por dia armados com as tais bombas do fim do mundo, não havia limite para a potência dos artefatos, nem dos meios empregados para transportá-los da forma mais ameaçadora possível. Não bastava tê-las nos respectivos arsenais, havia necessidade de intimidar a outra parte com o que se convencionou chamar de “bombardeio estratégico”. Estratégia: (Houaiss) arte de coordenar a ação das forças militares, políticas, econômicas e morais implicadas na condução de um conflito ou na preparação da defesa de uma nação ou comunidade de nações. Foi aí que os senhores da guerra americanos resolveram ampliar a ameaça criando uma arma nuclear tática. Lembrando que tática é: (Houaiss) arte de dispor e manobrar as tropas no campo de batalha para conseguir o máximo de eficácia durante um combate.
Diante dessa nova visão de intimidação, o arsenal Picatinny foi encarregado de criar uma peça de artilharia capaz de lançar uma bomba nuclear tática. O engenheiro militar Robert Schwartz, criou os primeiros desenhos de tal arma baseados no canhão 240 milímetros (então o maior do arsenal dos EUA) e usou o sistema alemão desenvolvido para transportar o canhão K5, (descomunal canhão alemão que foi utilizado contra a França na segunda guerra) como ponto de partida para o transporte.
O projeto foi aprovado pelo Pentágono, em grande parte através da intervenção de Samuel Feltman, engenheiro civil que trabalhava para o exército americano no desenvolvimento de novas armas. Um esforço concentrado de três anos de trabalho foi iniciado. O projeto passou com rapidez suficiente para produzir um modelo de demonstração para participar do desfile em homenagem ao presidente Eisenhower em janeiro de 1953 quando da assunção ao seu primeiro mandato.
O canhão era transportado por dois conjuntos de esteiras especialmente concebidos, capazes de direção independente. Cada um dos conjuntos tinha 375 cv de potência nos motores, e podia atingir velocidades de 35 quilômetros por hora e possuía habilidade de manobra para fazer curvas com 28 metros de raio, em estradas pavimentadas ou terrenos não preparados. Pode parecer que curvas com esse raio sejam muito grandes, mas é bom lembrar que a arma era imensa e pesadona, tinha quase trinta metros de comprimento e pesava 84 toneladas, calibre 280 milímetros, tinha um alcance de 30 quilômetros e foi batizada de M65. A peça de artilharia poderia ser liberada para uso em 15 minutos e, depois dos disparos, voltar a deslocar-se em outros 15 minutos. A intenção era baseá-la na Europa onde pudesse ser utilizada contra tropas soviéticas ao longo das fronteiras da guerra fria. Não ficou registrado a reação dos russos sob essa nova ameaça.
Em 25 de maio de 1953 às 8:30 horas da manhã no estado de Nevada, o canhão atômico foi testado, como primeira parte de uma série de testes nucleares programados. O teste de codinome Grable - contou com a presença, do secretário de defesa Charles Erwin Wilson - e resultou na detonação com sucesso de um projétil contendo uma bomba “A” de quinze quilotons. Este foi o primeiro artefato nuclear a ser disparado de um canhão.
Após o teste bem sucedido, houve pelo menos 20 outros canhões fabricados a um custo de 800.000 dólares cada. Eles foram destacados no exterior para a Europa e Coréia, eram muitas vezes continuamente deslocados para evitar serem detectados e servirem de alvo para as forças oponentes. Devido ao tamanho do aparelho; a sua gama de utilização um tanto limitada; o desenvolvimento de projéteis nucleares compatíveis com peças de artilharia de 155 e 203 milímetros já existentes; e o desenvolvimento de mísseis nucleares terra-terra, o M65 tornou-se obsoleto logo depois que foi implantado. No entanto, até 1963 manteve-se como arma de prestígio sem sequer ter um plano de utilização em caso de conflito, acreditava-se que sua presença era suficiente para amedrontar os soviéticos e seus aliados.
Dos vinte canhões produzidos hoje existem oito deles em exposições em museus. O que se deduz dessa tecnologia é que a imaginação do homem não tem limites quando se trata de produzir morte nos seus semelhantes. JAIR, Floripa, 23/03/12. 

10 comentários:

elvira carvalho disse...

Infelizmente o homem gasta muito mais tempo e dinheiro a produzir artefactos de guerra do que a promover a paz.
Um abraço

JGCosta disse...

Nunca simpatizei com armas, de qualquer tipo ou calibre, mas tive que trabalhar com elas por algum tempo!
No último livro que li (Uma Breve História do Século XX - Geoffrey Blainey) percebi um lado positivo, se é que pode-se chamar assim, nas guerras. O quanto de avanços científicos para suprir inúmeras necessidades das últimas guerras, que foram reutilizados e aperfeiçoados de forma pacificadora em nosso meio desde então, não deixa de ser um fato positivo resultando. Obviamente que a meu ver o preço foi caro demais.
Assim pensando, quem dera o homem tivesse gasto todo o seu potencial de inteligência sempre em prol da humanidade, da paz, e não motivado por um ódio crescente em seu coração. É muito claro também para mim que para se conter um mal maior, muitas vezes é necessário ser mais poderoso e eficaz que esse inimigo, mas as guerras, seus reflexos atômicos, tudo isso poderia ter ficado fora dos livros que contarão a história do século XX, mas como regressar no tempo é impossível, que sejam então estes fatos, tal como a guerra fria o foi, aprendizados para uma raça com melhores valores de incentivo no futuro. Abraços renovados.

Leonel disse...

Eu me lembro de ter lido notícias na época sobre esta invenção absurda!
Só um maluco pensaria em usar armas táticas nucleares!
Isto foi mais uma mostra de que os americanos sempre estiveram mais próximos de desencadear uma guerra!
Suas armas eram quase sempre ofensivas!
Belo resgate histórico, Jair!
Abraços!

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
Aqueles De nos que acompanhamos os renovados placares capitalismo versus comunismo urrando sua potência megatonicas temos que recomendar que se leia e releia a frase de clausura de teu texto. Ela diz -- lamentavelmente -- tudo!
Achassot

J. Muraro disse...

Acho que a ignorância e a ambição desmedida é que fazem o ser humano guerrear, matar seus semelhantes em nome de uma crença, uma ideologia, um pedaço de terra ou bens como petróleo e outros. Mas essa mesma ignorância faz com que os homens se esmerem na arte de matar, com requinte, com tecnologia, com grande eficácia. Quando nos lembraremos que somos todos irmãos e podemos perfeitamente viver neste planeta todos juntos em harmonia? Parabéns pela postagem que é uma espécie de alerta para quanto somos selvagens.

R. R. Barcellos disse...

Esse brinquedinho era filho do "Big Bertha"... pra não dizer coisa pior.
Abraços.

Tais Luso disse...

Aprendi bastante nesse seu texto!

'Os homens que viverem daqui a 300 anos, talvez olhem para nós da mesma forma como hoje olhamos para aqueles que viveram na Idade Média e... talvez nos chamem de Bárbaros, observando que à nossa época, matávamos inocentes com a maior frieza e premeditação, justificando nossos crimes como perpetuados em nome da justiça social. Eles dirão que vivemos numa época de obscurantismo intelectual, de medo, de terror, enfim.
Resta-nos a esperança de que nossos críticos futuros, diferindo de nós, pelo menos não inventem meios mais sofisticados, ainda, para matar ou cinismo mais requintado para mentir'. (R.Ropp)

Abraços!

Luci disse...

Este texto faz com que meus pensamentos criem uma analogia: numa cidade do interior do Paraná,um cidadão criava cães de raça,até que um dia foi atacado e morto por um deles.Aquele velho ditado:"Quem semeia ventos colhe tempestades", vale por um alerta-cuidem-se para que estas armas não explodam sobre si mesmos.Luci.

Professor Alexandre disse...

Interessantíssimo!
Adorei essa postagem... com certeza recomendarei aos meus alunos do E.M. que a leiam como complemento...
Parabéns,
Abraços!

junior disse...

Se os americanos russos e aliados não estivessem preparados para guerra , hoje vcs q falam d paz e mimimi teriam q falar alemão isso se não fossem negros , por que se se fossem , já sabem né . Então se quer paz prepara-te para guerra .