domingo, 17 de junho de 2012

O Canal


Depois que a megalomania da França, capitaneada pelo engenheiro Ferdinand De Lesseps, foi derrotada pela selva tropical, a falta de experiência e um fatal erro de projeto, na construção de um canal que unisse dois oceanos no istmo do Panamá (que fazia parte da Colômbia), quem assumiu a companhia francesa falida e o compromisso da construção foi o governo dos EUA. Como primeiro ato dessa nova etapa histórica, Roosevelt não hesitou em apoiar forças rebeldes colombianas que contestavam o poder de Bogotá, que era muito distante e lhes faltava com qualquer tipo de apoio. Resultado, fundou-se em três de novembro de 1903, um novo país com nome de Panamá, o qual já nasceu estigmatizado como protetorado americano. De imediato, os EUA conseguiram uma concessão de terras que englobava a parte mais estreita do istmo onde já existia uma ferrovia de empresários americanos e onde a França havia enterrado milhões de francos, deixando cicatrizes na terra e imensas clareiras na selva demarcada onde passaria o canal.
Theodore Roosevelt, presidente ousado e autoritário, convenceu o Congresso em aprovar a fundação da Companhia do Canal que seria encarregada de administrar a recém inaugurada Zona do Canal, e construir a ligação aquática entre os oceanos. Os pragmáticos americanos, embora escorados no dinheiro verde abundante que o Congresso aprovou, sabiam que o empreendimento era “coisa de gente grande”, mas não se intimidaram, em 1904 iniciaram de imediato a contratação de engenheiros especializados em grandes construções.
Milhares de trabalhadores especializados oriundos da construção de ferrovias que se faziam no país foram atraídos por promessas de bons salários, mas, sobretudo, foram convencidos que se tratava de um empreendimento patriótico indispensável para integração do vasto território americano. De certa forma, era uma verdade incontestável que o transporte de grande porte entre as costas do país e a defesa de seus litorais antípodas por uma marinha que começava a tornar-se onipresente, seriam facilitados com a construção do canal.
Chegadas as primeiras equipes no porto de Cólon no Atlântico, tiveram elas um impacto negativo com as condições que encontraram numa terra de selva tropical, nenhuma estrada a não ser ferrovia que ligava Cólon à cidade do Panamá no Pacífico, muitas doenças, muitos insetos e répteis perigosos e nada mais. Contudo, máquinas e instalações como hospitais, hotéis, barracões, casas e alojamentos para empregados foi uma espécie de bônus que os franceses deixaram para os novos construtores aventureiros. Os administradores da ferrovia, agora sob o comando do governador da Zona do Canal e do chefe da construção, deram o apoio necessário e essencial para o início do trabalho. Como eu disse, existia muito material deixado pelos franceses, o primeiro passo seria fazer um levantamento minucioso do que estava disponível e poderia ser utilizado e o que era mera sucata. Daí, pedidos de material e gente se fazia necessário para que as obras iniciadas pelos franceses pudessem ser continuadas. Tudo bem, só que a falta de experiência dos gringos não lhes alertou para o problema maior que os engenheiros de Lesseps tinham criado. Na concepção dos franceses era possível e desejável por ser tecnicamente mais simples, construir um canal ao nível do mar. Só que esse projeto era extremamente complicado para não dizer inviável, na região existiam muitos rios, inclusive o caudaloso Chagres, cujos leitos corriam a doze metros ou mais acima do nível do mar.
Mesmo assim, os heróicos e ingênuos engenheiros colocaram a mão na massa para cortar o maciço de Culebra, divisor de águas continental que é a continuação dos Andes. Para se ter uma ideia, o corte dessa elevação teria que ter mais de quatorze quilômetros de extensão com profundidade de 120 metros e paredes laterais de inclinação pouco acentuada para evitar deslizamentos de um terreno instável como aquele, de forma que no topo do corte a largura era de cinco mil e quatrocentos metros.
Para formar o quadro de trabalhadores não especializados começaram a recrutar homens do Panamá e do Caribe, dando preferência as populações da Jamaica e Tobago por causa da língua inglesa, no entanto, no auge do trabalho em 1907, existia mais de 53 mil operários de 27 nacionalidades se comunicando numa babel de idiomas, entre eles grego, mandarim, japonês e polaco. Os trabalhadores americanos brancos, replicando as condições de sua pátria, ganhavam o dobro dos “não brancos” e recebiam em moedas de dólar ouro, os demais recebiam em moedas de prata (Balboa) do Panamá. A sociedade do Canal era estratificada, brancos e não brancos só podiam ser encontrados juntos no trabalho, nos demais lugares como escolas, salões de festas, bares, armazéns, clubes, hospitais, bibliotecas, times de rúgbi e basebol, cada um no seu quadrado. Sendo que os brancos tinham suas atividades extra trabalho custeadas pelo governo, os demais, apesar de ganharem menos, eles próprios tinham que se virar. E dois grandes problemas que a Companhia do Canal teve que administrar foi a rotatividade de pessoal, algo em torno de 80% por ano em alguns casos; e mortalidade por doenças e acidentes que ceifou a vida de mais 25 mil operários.
Como os trabalhos estavam sempre fora do cronograma devido a deslizamentos e inundações durantes as chuvas, os diretores começaram a desconfiar que algo estava errado. Depois que uma comissão de nível internacional nomeada pelo presidente Roosevelt inspecionou as obras e emitiu um relatório desfavorável, é que se deram conta que um canal ao nível do mar era simplesmente inviável, optou-se por um canal de desnível com comportas. Resolveu-se então represar o rio Chagres próximo a sua foz no Atlântico, formal um grande lago navegável que seria ligado ao Pacífico através de outras comportas. Heureca! Agora o trabalho tinha outro objetivo, construir uma imensa represa que passou a se chamar Gatún, no rio Chagres e outra menor, Miraflores, próxima ao Pacífico. Claro que a construção das represas e comportas demandou imensa mão de obra e emprego de máquinas como nunca se tinha visto, mas de 1908 até 1914 eles o conseguiram, o empreendimento ficou pronto ao custo de 400 milhões de dólares, mas Roosevelt que era o “pai do canal” já não era mais presidente, fora substituído por Woodrow Wilson em 1912.
Agora, nesta quadra da história em que os navios se tornaram colossais, o canal tornou-se subdimensionado de modo que está sofrendo um upgrade o que o tornará capaz de operar por muitos  anos ainda. JAIR, Floripa, 16/06/12. 

8 comentários:

Leonel disse...

Excelente sequência desta empolgante história!
A inviabilidade de um canal sem comportas era também acentuada sobretudo pela diferença de nível causada pelas marés do Pacífico e do Atlântico, que ocasionariam muitas variações de profundidade.
Recentemente, eu vi um documentário sobre as obras atuais de alargamento do canal...
Show de bola, Jair!

Leonel disse...

Na realidade, o redimensionamento é mais determinante na parte das eclusas (comportas)...

Rafael Soares disse...

Show esse texto sobre o canal, sempre me interessei muito pela história da construção e pelo canal em sí, muito bom Jair.

Abraço.

Rafael

J. Muraro disse...

Muito bom, conta com detalhes a construção dessa que foi a considerada a maior obra da humanidade. Parabéns.

Attico CHASSOT disse...

Realmente impressionante Jair,
não tinha ideia de mutas das informações que trazes. Mais que as peripécias de engenharia, impressionou-me uma citação do texto: "no auge do trabalho em 1907, existia mais de 53 mil operários de 27 nacionalidades se comunicando numa babel de idiomas",
Muito bem posta a metáfora de babel.
Com admiração
attico chassot

Professor Alexandre disse...

Muito interessante seu texto que vem de encontro à sua outra postagem, Inventando um país...
Parabéns pela qualidade de suas postagens!

Abraços...

R. R. Barcellos disse...

O canal, mesmo com uma "bitola" maior, não atenderá à demanda. Há estudos para uma ferrovia transcontinental no norte da Colômbia; e talvez sejam ressuscitados projetos para um canal a nível na Guatemala. É esperar para ver.
Abraços.

Luci disse...

Nos seus 3 últimos textos ,percebi uma guinada no pensamento: nem tanto ao céu, nem tanto à terra.
No espaço infinito muitos mistérios; com os pés no chão, homens buscam o domínio, o poder...As ideologias vão bem enquanto duram.Você pesquisou exemplos claros de extravagãncias,erros de percurso nas conquistas econômicas,prejuizos...A dura penas caminha a humanidade e se faz uma história de barbaridades no afã do progresso.Duro é contemplar a necessidade dos miseráveis, a fome como na Coréia do Norte...Tudo é tão estúpido e bestial! O pior cego é aquele que não vê, não mede as consequências
das bestialidades. Luci.