sexta-feira, 18 de março de 2011

Sobre os EUA


A América é imodesta sobre muitas coisas, mas sobre seu status de império nem seus líderes nem seus cidadãos costumam usar a expressão ou admitir que o sejam. Enquanto impérios anteriores como Roma e Grã Bretanha faziam questão de alardear suas condições de potências e deixar claro que se orgulhavam disso, o império americano diz simplesmente que não existe. Os americanos acreditam que são ricos porque são um povo decente que trabalha duro (o mais das vezes isso é verdade), sem perceber a vantagem gigantesca que o poderio presencial de suas forças armadas e, principalmente de suas multifacetadas empresas ciclópicas, lhes proporcionam explorando as fontes baratas de recursos naturais no exterior. Petróleo no oriente médio e mão de obra barata na China são apenas dois exemplos entre inúmeros que podem ser citados.

No início os EUA agiram como império usando repetidamente a força para expandir seu território. Começaram expulsando os nativos de suas terras produtivas e os levando para desertos ou áreas inóspitas nas quais privações atrozes e morte por inanição ou doenças os esperavam, quando não os exterminaram simplesmente. Depois, em 1812, empurraram os britânicos para o Canadá de uma vez por todas, de modo que intimidaram os espanhóis que cederam suas terras no sudoeste, onde hoje se encontra a Califórnia. Na guerra de 1898 contra a Espanha ficaram com Cuba, Porto Rico e Filipinas, transformando-as em virtuais colônias americanas embora com disfarce de protetorados. Daí em diante, contando mais com força econômica que militar, continuaram conquistando mais e mais países para sua zona de influência especialmente na América Latina, considerada seu quintal desde então.

Nós cidadãos de outros países achamos estranho e apavorante que cidadãos comuns têm permissão para portar armas na América, e vemos as altas taxas de criminalidade e tiroteios em escolas um corolário previsível dessa suposta liberalidade. A imprensa nos dá conta que depois de setembro de 2001 as compras de armas cresceram muito em todos os estados americanos. Mas, vale lembrar que durante a maior parte da história americana, sempre que o interesse econômico era contrariado, o recurso às armas não tinha pudor de ser empregado. Aliás, o gosto por armas, que distingue os EUA de outros países, tem suas raízes na sua história econômica, uma vez que o uso da força teve desde o início uma participação essencial na busca pela riqueza. O chamado oeste selvagem é icônica prova desse apelo armamentista voltado para aquisição de riqueza. Um revólver e um rifle tinham mais utilidade que uma enxada e uma pá na conquista de novas fronteiras. Na fronteira o homem só podia manter o que pudesse defender, e, como quase sempre estava expulsando os nativos americanos, a defesa era uma necessidade constante. Outros colonos também eram uma ameaça potencial, um vizinho belicoso devia ser enfrentado à bala. A ironia e a sutileza eram pouco valorizadas na fronteira; os americanos eram um povo caloroso e aberto que não tinha vergonha do desejo incontrolável pela riqueza, a venalidade nunca foi uma falha de caráter. Foi lá que nasceu o adágio: “Todo homem tem seu preço”.

O moderno império americano coloniza mentes, não territórios. Faz isso principalmente através do domínio daquela que talvez seja a tecnologia mais importante dos últimos cinquenta anos: a tela. Houve tempo em que nós do mundo afora ficávamos sabendo sobres os EUA principalmente através das telas de cinema, na verdade a versão oliudiana para a vida na América. Mais tarde os filmes foram suplementados pelo lixo televisivo e agora temos a internet e suas redes sociais, cujo idioma (inglês) expressa bem a medida que a colonização se processa. Todas essas tecnologias se dirigem principalmente aos jovens. Todas refletem e ampliam o domínio global do inglês. Todas podem levar impulsos diferentes, até mesmo contraditórios, mas estão unidas num comprometimento principal com o comércio, todas dizem: compre!

Os americanos são os melhores comerciantes do Planeta, até porque sua economia é baseada no consumismo desenfreado. Através das telas eles convencem o mundo a querer o que são especialistas em produzir: uma definição consumista da felicidade. A definição americana consumista de felicidade está matando o Planeta. O estilo de vida americano é sedutor, faz o resto do mundo sonhar com ele, mas se todos os mais de seis bilhões de habitantes da Terra o alcançassem, seriam necessários no mínimo três Planetas para proporcionar toda a matéria prima necessária e para acomodar todo o lixo produzido. Mas, como só temos essa Terra é preciso repensar tecnologias melhores, mas, sobretudo, redefinir o que é desenvolvimento e até onde a humanidade pode ir se quiser usufruir do que os americanos definem como progresso e bem estar.

Não faz sentido o americano comum sentir culpa da riqueza que goza, mas será considerado idiota se não perceber como é privilegiado. Num mundo que é assustadoramente pobre, a maioria dos americanos é incrivelmente rica, às vezes esbanjadoramente rica. Essa riqueza tem consequências enormes, mas eles não percebem isso, estão dizimando os recursos que a Terra dispõe e os quais não são renováveis, como o petróleo, por exemplo, e nem sequer pensam a respeito. Isso é estultice pura, uma Terra devastada é tão ruim para o pobre como para o rico.

Existe algo torpe em consumir de modo tão insensato quando um terço dos habitantes do Planeta vive abaixo da linha de pobreza. Aliás, não deveriam se surpreender que o comportamento deles provoque os mesmos sentimentos que os ricos atraíram durante toda a história: inveja, admiração, mas também ressentimento e ciúme e os atos perversos que essas emoções podem provocar. 11 de setembro de 2001, é consequência dessa situação, não tenhamos dúvida. JAIR. Floripa, 05/03/11.


6 comentários:

R. R. Barcellos disse...

- O polo do poder deslocou-se de Roma para Paris, daí para a Londres, deu uma parada curta mas trágica em Berlim - e agora está em Washington, onde o Capitólio e o Pentágono ditam os destinos do planeta. Os veículos dessa transferência de poder são sempre o comércio e a guerra, e o alvo é sempre o domínio econômico. Até quando o planeta aguentará permanecer nessa órbita instável em torno do dólar?
- Brilhante, Jair - mais uma vez. Abraços.

Leonel disse...

Interessante, Jair!
Mais um texto provocativo, naquele estilo que eu já conheço!
Na verdade, todos os países do novo mundo tomaram o território dos antigos donos indígenas e os confinaram ou exterminaram, mas só um deles prosperou e se tornou uma nação poderosa!
Não podemos é cair na armadilha dos medíocres e atribuir a riqueza dos EUA à miséria dos latino americanos!
As causas da pobreza da América Latina estão mais relacionadas com as escolhas, com a falta de consciência nacional e com o individualismo inerente ao seu povo, adeptos da "lei do Gérson" e do "farinha pouca, meu pirão primeiro"!
Em resumo, a amoralidade de povos que aceitam tudo de seus governantes, desde que se identifiquem com eles ou levem alguma aparente vantagem!
Já vimos que não é uma questão de "classes dominantes", pois recentemente tivemos um membro da "classe operária" no poder e vimos no que deu!
Sentir culpa de ser rico entre miseráveis só faz sentido se enriquecemos roubando deles!
Só que os que fizeram isto por aqui são os que menos sentem culpa!
Resumindo: é mais fácil atribuir a culpa pelos nossos problemas aos EUA do que aos que elegem pessoas como estas que são membros exaustivamente reeleitos do nosso legislativo, justamente o poder que tem nas mãos os meios de realmente mudar nosso país!
Sobre o consumismo, como foi mesmo que falou no ano passado o nosso líder carismático do proletariado?
"Vamos consumir, gente! É assim que se movimenta a economia..."
Quem diria...
Abraços!

Luísa N. disse...

E o que dizer das usinas nucleares, Jair? Os americanos possuem em número assustador! Você bem disse: é a arma e não a cabeça (deles) que pensa...

Ruy disse...

Caro Jair:

Bem resolvido o texto que vc postou sobre a ação da dominação Ianque agindo de encontro às aspirações das demais nações, seja num primeiro momento pela pura e simples força das armas, seja numa sequência futura pela expansão do seu poderio econômico (quase sempre decorrente daquela primeira fase). Poderio econômico esse não menos nefasto (do que o peso do coturno no pescoço) para os países que lutam para sair da condição de meros fornecedores de mão-de-obra barata e de matérias primas estratégicas para o grande consumidor do Norte. Mas, o que mais me chamou a atenção nesse seu escrito, foi o fato de que vc sem mencionar sequer uma vez a palavra, fez uma excelente descrição do mecanismo da Ideologia. Sim, a ideologia está presente nesse processo todo, seja abertamente seja subrepticiamente, através dos variados ramos da rede de comunicação; e — como vc já bem citou, tbm através do cinema — se expande assim o sentimento de que o que é "bom", "desejável", "imitável", enfim, tudo que possa atrair o bixo hômi no seu eterno "querer mais", pois tudo isso está "disponível" lá nas terras do Grande Irmão do Norte. Assim ficará mais fácil entendermos essa grande atração que as gentes sentem pelos Estados Unidos e, inclusive, até aceitarmos o desprezo sarcástico que alguns desses "mente-cooptados" — destituídos de um senso crítico mais aprofundado — sentem pelo seu próprio país de nascimento. E para não ficarmos aqui no vazio, ou seja, só nessa minha modesta opinião, incluo aí um linque de artigo publicado originalmente pelo "The Guardian", e aqui replicado por jornal brasileiro insuspeito: O Globo, um dos maiores defensores da prática que aqui critico. E acho que nós dois podemos inferir, depois que vc ler essa matéria, que se trata de mais um escancarado método para reproduzir a "ideologia" do dominador através do mundo.
http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2011/03/18/estados-unidos-criam-programa-para-manipular-com-perfis-falsos-que-dito-em-redes-sociais-924039538.asp

Anônimo disse...

Pai,

Que texto excepcional!

Um leitor inundado de preconceitos para um lado ou para outro pode ler seu texto e perguntar "Mas de que lado esta tal Jair está". O texto apresenta fatos somente e como um grande estimulador intelectual não julga nem empurra conclusões goela abaixo. Mas, sim, faz pensar.
Meus neurônios agradecem, paizão.

Augusto Lopes

Chassot disse...

Muito estimado Jair,

preliminarmente um destaque: só quem tem o perfil que eu li na tua referência, pode escrever um texto como brindas aos leitores, mesmo que a blogada que o catalisou está distante.

Quanto ao significativo experimento que destacas (que eu desconhecia) há uma evidência: os bebes têm bom gosto.

Concordo contigo que os padrões de beleza variam, mas sabemos o que é belo.

Hoje, dia imediato da morte de uma mulher linda: Liz Taylor, recordamos um dos ícones de beleza.

Obrigado por prestigiares esta blogue e cumprimentos desde Campo Grande, onde cheguei há não muito, contando com as benesses dos deuses que cuidam dos voos que tu muito bem conheces, por tua profissão.

Com admiração
Attico Chassot