sexta-feira, 25 de março de 2011

A Caverna


Espeleologia é estudo da formação e constituição de grutas e cavernas naturais, espeleólogos ou espeleologistas são as pessoas que se dedicam a explorar e pesquisar esses ambientes. Em formações do subsolo nas quais haja predominância de calcário a formação de cavernas é uma possibilidade muito acentuada.

As cavernas formam-se normalmente em áreas de rochas calcárias, embora na zona costeira possam ocorrer em outros tipos de rochas. As rochas calcárias são formadas por calcita, que se dissolve quando entra em contato com a água que contém algum teor de ácidos. Estes ácidos são, normalmente, provenientes de matéria orgânica decomposta, que em contato com a água forma o ácido carbônico. Esta água ácida, num segundo momento, penetra pelas fendas do calcário ataca a rocha, produzindo o bicarbonato de cálcio, que é solúvel e facilmente transportado pela água. Com a dissolução do bicarbonato de cálcio, as fendas vão-se alargando lentamente e formando as cavernas.

O processo continua, as águas da chuva, aciduladas pelo gás carbônico da atmosfera e do solo, ao penetrarem pelas fendas da rocha calcária, vão dissolvendo-a e transportando o bicarbonato de cálcio em solução até emergirem no teto de uma caverna pré-existente. A gota dessa solução aquosa fica pendurada no teto até que atinja volume e peso suficiente para cair. Nesse período ocorre a liberação do gás carbônico e, como conseqüência, ocorre a precipitação de parte do bicarbonato dissolvido. Formam-se assim os primeiros cristais de carbonato de cálcio, que vão dar origem à estalactite. A gota, ao cair, ainda carrega consigo bicarbonato de cálcio em solução, o qual vai sendo depositado no piso logo abaixo, formando estalagmites. Pode-se ter uma idéia aproximada da idade das cavernas pelo tamanho e quantidade de suas estalactites e estalagmites. Não é uma ciência exata, mas não é ingenuidade afirmar que uma caverna com maiores formações dessas é mais antiga que uma com formações menores. As vezes essas duas formações se encontram formando verdadeiras colunas que parecem estar suportando o teto da caverna.

Independente dessas tecnicidades e dados chatos, o fato concreto é que cavernas exercem um fascínio sobre os humanos. Se olharmos a história do Homo na sua dinâmica conquista dos espaços do Planeta, onde acabou ocupando tudo com exceção da Antártida, Pólo Norte e algumas áreas muito inóspitas, veremos que as cavernas foram fator importante para sua segurança e fixação em determinados locais. Talvez, por serem defesa natural contra predadores e abrigo das intempéries, as cavernas sempre foram ocupadas onde o homem se fixou. Não é à toa que humanos do Paleolítico são chamados “homens das cavernas”.

Pois bem, sou nascido e criado numa região do Paraná onde o subsolo é predominantemente calcário, daí nenhuma surpresa existir cavernas naturais em abundância na área em que me criei. Os campos gerais, como são chamadas as formações geográficas da região, são, como o nome diz, campos. Sua vegetação é gramínea eivada de touceiras baixas de arbustos densos. O perfil do relevo se caracteriza por terreno ondulado com riachos pequenos e correntosos nos entre morros. De longe em longe há formações vegetais de árvores bem juntas, que se dá o nome de capão de mato. Os capões, normalmente, são abrigos da fauna e se formam em torno de um afloramento de rio subterrâneo. Cada capão tem um “buraco” no centro onde se pode enxergar as águas que por ali passam. Em geral, essas águas estão fluindo dentro de uma caverna cujo teto desabou. Caverna essa, nem sempre digna do nome, porquanto, o mais das vezes, são apenas fendas no subsolo preenchidas pela água que passa. Excepcionalmente, contudo, encontram-se cavernas maiores, onde a água dissolveu a matéria calcária por milhões de anos e construiu túneis amplos e compridos.

Pois é, as cavernas dos campos circundantes à Palmeira não eram notáveis, pelo que se sabia. Que eu me lembre, ninguém saía pelos capões procurando cavernas e, se isso ocorresse, não era costume alguém se arriscar para dentro de um buraco que não se sabia o que podia conter: cobras, lacraias, insetos venenosos e escorpiões, talvez. Então, como eu e meu primo Joel tínhamos certo elã aventuresco, certo espírito de Indiana Jones, se este existisse na época, gostávamos de procurar nos capões de mato a entrada de cavernas. Registre-se que por muito tempo nada encontramos, parecia que não existiam cavernas notáveis, só aqueles buraquinhos com água subterrânea barulhando enquanto fluía. Entretanto, um dia num descampado conhecido por campo do Pugas, num capão especialmente fechado e bem maior que outros, encontramos o procurávamos: uma caverna que, na entrada, não tinha mais que um metro de altura, dava para entrar de gatinhas, mas, logo adiante, talvez quatro ou cinco metros à frente, abria-se numa área de dois metros de altura por uns três de largura que ia aumentando na medida em que descia. Olhamos aquilo com algum receio, não estávamos preparados para entrar naquela escuridão, a pequena entrada não permitia que luz natural adentrasse a não ser uns poucos metros. Marcamos o local com referências fáceis de encontrar e voltamos excitados para casa convencidos que havíamos descoberto algo formidável.

Pois bem, silenciamos sobre o achado e nossa primeira providência foi conseguir lanternas e cordas para fazer a exploração. Com esforço extra, conseguimos, naquela semana, incrementar as vendas de sucata de modo a dispor da grana necessária às nossas aquisições. Duas boas lanternas “flash light” de três pilhas, vinte metros de corda de cânhamo e um faca, nos pareceu o bastante para nossa aventura. Tão logo as obrigações estudantis nos permitiram, saímos à socapa numa bela tarde rumo à “nossa” caverna misteriosa. Depois de verificar que ninguém estava nos vendo, adentramos a boca da caverna, boca esta parcialmente coberta por vegetação. Vencidos os primeiros quatro metros agachados, pudemos ficar em pé e, com as lanternas acesas começamos a nos maravilhar com o que víamos. A “sala” em nos encontrávamos era de dimensões em torno de dois metros de altura por três de largura e terminava uns quinze metros adiante numa espécie de degrau que descia. As paredes eram brancas brilhantes como costumam ser as paredes de calcário. O degrau adiante tinha uns cinco metros de descida a quase noventa graus e terminava num amplo salão de vinte metros de comprimento, dez ou doze de altura e uns quinze de largura; no centro corria o fiozinho de água que era o rio que construiu em milhões de anos aquele colosso. Estalactites e estalagmites atestavam a antiqüíssima idade da caverna. Estávamos maravilhados como ficaria o próprio Lidenbrock, personagem do livro de Júlio Verne: “Viagem ao centro da Terra”. Havíamos descoberto a oitava maravilha do mundo natural, ficamos embasbacados, extáticos ali, sentados numa protuberância rochosa branca como alvaiade.

Hoje, mais de cinco décadas se passaram, mas ainda sinto aquela palpitação que quase sufocava minha alma, não sei quanto tempo ficamos parados sem fala, mas, depois de um tempo, resolvemos penetrar mais naquele paraíso. Havia, a partir do salão, três ou quatro túneis irregulares que se curvavam para baixo. Fomos até a entrada de cada um e verificamos que a exploração deles poderia requerer muito tempo, não quisemos arriscar e voltamos à superfície.

Por muitos meses passamos a frequentar nossa caverna secreta sempre arriscando um pouco mais, entrando mais fundo de cada vez, explorando os caminhos que levavam (levam ainda) a não sei que entranhas distantes e desconhecidas. Resumindo, nunca chegamos a uma conclusão onde terminava a caverna, se é que terminava em algum ponto encontrável. Nunca passamos a informação sobre sua existência a ninguém. Sei que ela ainda se encontra lá como a conhecemos, sei que o campo no qual ela está, continua o mesmo, com as vaquinhas pastando na superfície, e aquela maravilha entranhada num mundo misterioso que, espero, ninguém jamais venha a conhecer. “A caverna”, como sempre a chamamos, merece permanecer desconhecida pelo resto da humanidade pelo resto dos tempos, a depredação que o homem causa onde põe a mão é perfeitamente desnecessária naquele pedaço intocado do passado do Planeta. Faço minhas as palavras dos espeleólogos: “De uma caverna nada se tira, a não ser fotos; nada se deixa, a não ser rastros; nada se leva, a não ser lembranças JAIR, Floripa, 17/01/11.

8 comentários:

R. R. Barcellos disse...

- Acho que os dois trogloditas fazem bem em manter segredo sobre a localização de seu palácio subterrâneo; mas agora que você espantou a lebre, será difícil conter os galgos.
- Parabéns por mais uma reminiscência cheia de riquezas. Abraços.

Leonel disse...

Quando você começou a falar da caverna que vocês acharam, eu lembrei logo da história de Julio Verne!
Quando eu tinha seis ou sete anos, não tihamos caverna nenhuma, mas havia um barranco de terra vermelha nos fundos do meu quintal. Como a casa era de esquina, em cima deste barranco ficava a casa dos vizinhos, uma família de alemães, em angulo reto com nosso quintal. Pois bem! Eu e os garotos deste vizinho resolvemos cavar uma caverna, que deveria passar sob a casa deles!
Ainda bem que minha mãe descobriu a nossa idéia e nos fez parar, antes que provocassemos um desabamento, ficando nós mesmos soterrados!
Mas uma beleza mesmo foi essa autêntica caverna que vocês sabiamente mantiveram em segredo!
Mais uma excelente viagem, Jair!

Luci disse...

k.k.k.,rsrss...Estou rindo do espírito aventureiro dos meninos...Lá nos campos gerais,mais precisamente em Ponta Grossa,terra dos avós,quanta alegria na infância desbravando um riacho,alguns olhos d´àgua no quintal, e a galera colhendo argila,etc. Caverna, só de faz de conta, mas e o"Buraco do Padre"? as furnas, a Vila Velha...ah! campos que te quero verdes,ainda não descobrimos ,por inércia, outras tantas belezas ocultas dos campos gerais.Vcocê tem a magia de motivar e inspirar o leitor para o imaginário, que no fundo é real.Prometo que vou, ainda, desvendar as maravilhas naturais da nossa terra.Abraços. Luci.

J. Muraro disse...

Puxa, carinha, como eu gostaria de estar lá com vocês tentando adentrar o mundo até seu núcleo. Seria a maior experiência de minha vida. Parabéns pelo texto e por não terem divulgado a localização desse paraíso.

Mercia Köppel disse...

BOA NOITE JAIR, GOSTEI DO QUE LI SOBRE AS CAVERNAS, TENHO TIDO COPIAS DE TUDO Q VC TEM ESCRITO, AQUI PASSAMOS MUITO TEMPO NO TREM(MEIO DE TRANSPORTE MAIS USADO NA SUISSA) E VC TEM SIDO 1 GRANDE COMPANHIA PARA MIM, VOCE SIMPLESMENTE TEM ESCLARECIDO MUITA COISA DO MEU LADO ALQUIMISTA, Q É A DIREITA, ESQUERDA, FRENTE EVERSO,KKKKKKKKKKKK
OBRIGADA POR ENRIQUECER SEMPRE MEUS CONHECIMENTOS...
QUE DEUS TE MANTENHA IMORTAL, COM SEUS RELATOS...
VC É PATRIMONIO NACIONALLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

FALEI, KKKKKKKKKK. BJOS.

António Gallobar disse...

Olá amigo Jair

Mestre na arte de prender o leitor até à ultima linha. A facilidade com que expõe de forma clara e lúcida faz com a passagem, não tão assídua como devia, seja sempre proveitosa e me remeta inevitavelmente para a minha juventude e às infindaveis aventuras que vivi, não no campo da Espeleologia, no meu caso é zero.

Gostei muito como sempre. Grande abraço deste lado do atlantico.

Joel disse...

Jair, lembro bem dessa nossa descoberta. Lembro da emoção que sentimos, das voltas subsequêntes ao local, lembro da escuridão, dos insetos rastejantes esbranquiçados, da água quase gelada, do eco das nossas vozes, das estalactites e estalagmites, ou seja: Lembro de tudo. Também, como esquecer? Impossível.
Abraço de com força,
Joel.

Malu disse...

Olá,
mesmo nunca tendo visitado uma caverna, fiquei maravilhada com o seu relato. Fico triste em saber que as crianças das cidades, que vivem da escola para casa (ou apartamento) e vice-versa, tem pouca chance de viverem aventuras inesquescíveis como a que nos relatou. Moro num pequeno condomínio em um bairro de Curitiba onde as crianças vivem trancadas e não convivem com a natureza. Eu, morando na cidade, ainda conheci o canto das cigarras, observava o tisiu e outros pássaros dos terrenos baldios próximos de minha casa, vi o piscar dos pirilampos e ouvi o coaxar dos sapos e das rãs no quintal... e as crianças de hoje, são vizinhas e convivem com o concreto, asfalto, pichações, lixo, rios poluídos...