quarta-feira, 2 de março de 2011

Pombos



Na minha infância eu era fascinado por pombos, não sei dizer por que, não sei se pelo fato das aves representarem a liberdade de voar para onde quisessem, se por causa da fidelidade que dedicavam ao local no qual viviam ou porque são facilmente adaptáveis à criação caseira. Em cidades do interior, principalmente no sul do país, ainda hoje é possível verificar a existência de pombais em residências com a única finalidade de alojar as aves, como se fossem albergues ou hotéis de estadia gratuita, e onde os casais podem se reproduzir a vontade. Aliás, quando morei no Rio de Janeiro observei que em bairros antigos e tradicionais como Bonsucesso e Ramos ainda existem pombais em algumas casas. No local em que eu trabalhava na Ilha do Governador os pombos haviam escolhido um hangar da FAB para viver e ali estabelecer uma colônia.
Segundo a Wikipédia, o pombo-comum, também conhecido como pombo-doméstico (Columba livia), é uma ave columbiforme bastante frequente em áreas urbanas. A plumagem é normalmente em tons de cinzento, mais claro nas asas que no peito e cabeça, com cauda riscada de negro e pescoço esverdeado. Caracterizam-se, em geral, pelos reflexos metálicos na plumagem, cabeça e pés pequenos, bicos com ceroma ou elevação na base e a ponta deste em forma de gancho. O bico é vermelho, curto e fino, com 3,8 cm de comprimento médio, foi criado por asiáticos desde a antiguidade mais remota - há imagens que o representam, na Mesopotâmia, datadas de 4.500 a.C. Alimenta-se de sementes, grãos e frutas e, nas cidades, do que estiver disponível nas ruas, incluindo resíduos.
A parceria homem-pombo se fez quando as aves viram a possibilidade de “almoço grátis” na relação. O Homo sapiens havia estabelecido as primeiras aldeias permanentes onde praticava atividades de pastor e agricultor, o que conferia à comunidade maior concentração de esforços na resolução de problemas e partilhamento imediato de inovações. Animais começaram a ser domesticados e os pombos tanto adotaram os homens quanto estes viam as aves como eventuais fontes de proteínas. Desde quando se sabe os aglomerados humanos convivem com pombos domésticos.
Então, nenhuma novidade que desse consórcio surgissem relações novas entre os convivas, as aves assumiram novas formas e passaram ter outras utilidades e os homens deram mais espaço em suas cidades para elas viverem, construíram pombais. Darwin, que além de cientista, gostava imensamente de pombos, os criava em sua casa conhecida como Down House, no condado de Kent, Inglaterra. Não só os criava como fazia experimentos de seleção artificial através de cruzamentos programados. Darwin chegou a classificar 120 “raças” diferentes de pombos domésticos oriundos, segundo ele, de uma única espécie selvagem, o Pombo-das-rochas, nome popular do Columba livia. Dentre as tantas estudadas pelo cientista, uma das mais estranhas é a do pombo-cambalhota, uma ave que faz piruetas enquanto voa. Fazendo comparação com uma aeronave, é como se esta voando reta e nivelada, de repente, fizesse um looping inesperado e prosseguisse o voo como nada tivesse acontecido. Pois é, o “cambalhota” procede assim por que tem uma deficiência genética no cérebro que o induz a um “espasmo” momentâneo, uma espécie de curto circuito em neurônios responsáveis pelo voo. Podemos comparar esse sintoma às manifestações daquela doença que nos humanos é conhecida como “dança de São Guido”, a qual faz o portador mostrar movimentos descoordenados e estranhos num breve instante, em seguida, seu comportamento volta ao normal.
Os pombos-correio são os representantes columbófilos talvez mais estudados em todo o mundo. Esses pombos, como os demais, são monógamos e extremamente apegados ao local onde vivem, o que os diferencia dos outros é sua capacidade de orientar-se de modo a voltar para casa, praticamente de qualquer lugar onde estejam. O homem, há centenas de anos, explora em seu benefício essa aptidão da ave. Hoje existem, em todos os continentes, centenas sociedades columbófilas que se dedicam a criação de pombos de raças, principalmente os pombos-correio. A ciência não se cansa de teorizar sobre como o os pombos-correio conseguem se orientar. Há uma teoria a qual afirma que eles possuem no lóbulo frontal do cérebro um nódulo que “lê” as linhas magnéticas da Terra; outra diz que os pombos têm uma espécie de GPS que se orienta pela posição em relação a um ponto inicial qualquer; e, ainda outra, conclui que a posição relativa do sol diz ao pombo o local exato em que ele está e, como sabe a posição onde vive, é só se dirigir para lá. Teoria à parte, os pombos-correio são navegadores extraordinários que fariam Colombo morrer de inveja.
De qualquer forma, minha afeição aos bichos se traduziu na confecção de um pombal no quintal de casa. Um palanque vertical de dois metros e meio fincado no meio do pátio, encimado por uma caixa cúbica coberta de material impermeável, com seis divisões à guisa de abrigos para ninhos. As aves, alimentadas com canjica, afeiçoam-se rapidamente ao local, fazem suas excursões, mas sempre voltam à base onde comem e dormem, são fiéis umas com as outras e às suas casas. Algum incremento nas vendas de sucatas me permitiram aumentar e variar o plantel inicial que era de apenas um casal que eu havia ganho de um criador que morava rua acima. Formou-se uma comunidade columbina, cujo número de aves era limitado pelo número de abrigos pra ninhos, parece que os “excedentes” mudavam-se para outras comunidades onde houvesse mais espaço, de modo a manter a população equilibrada.
Ainda que as populações urbanas de pombos, segundo alguns sanitaristas rancorosos, ameacem os humanos com o perigo da disseminação de doenças através de suas fezes, não há constatação que isso aconteça, não mais do que o perigo representado pelo lixo acumulado ou pelos ratos que infestam as grandes cidades. O fato é que os pombos urbanos estão perfeitamente adaptados a viverem em nossas cidades e o fazem a centenas anos. Roma, Paris, Londres, Rio de Janeiro, Buenos Aires, todas essas grandes cidades têm seus plantéis de columbiformes desde sempre incorporados as paisagens das ruas e devem continuar assim para deleite dos aposentados e viúvas que fazem deles seus bichos de estimação e lhes proporcionam alimentos em troca do prazer de vê-los esvoaçando sobre suas cabeças. JAIR, Floripa, 23/01/11.

11 comentários:

Leonel disse...

Interessante esta aula sobre os pombos.
Eu, particularmente não gosto muito da companhia deles, devido ao cocô e aos piolhos que esses pássaros costumam deixar como lembrança.
Mas, enfim, quem os trouxe foram os homens, como sempre!
Abraços!

Luísa N. disse...

Bom dia, Jair
Amo ver pombos! Matéria brilhante! Parabéns pelos livros, amigo!
Abraços!

R. R. Barcellos disse...

- Estou lendo no momento "A Causa Sagrada de Darwin" (Adrian Desmond e James Moore) - um calhamaço de 650 páginas, presente de aniversário do filho caçula. Segundo o livro, o nosso conhecido pombo doméstico - o Columba Livia - é o mesmo Rock-Pigeon de Darwin - uma espécie de pombos, do qual se originaram várias raças e que sobrevive hoje pela miscigenação, como os vira-latas.
- Isso expica a grande variedade de cores, formas e comportamentos e a adaptabilidade dessas aves fascinantes. Bela matéria, Jair.
- Abraços.

Ângela Coelho disse...

Amo ver os pombos e aqui na praia tenho um casal de pombinhos que vem comer na nossa horta. São lindos.
Beijos.

J. Muraro disse...

Também gosto muito de pombos, é uma maldade dizer que eles causam males aos humanos. Quem mais causa males aos humanos é o próprio homem. Prabéns pelo belo texto.

Marly disse...

Belíssimo texto,Jair!Uma verdadeira aula.
Também tenho grande admiracäo por pombos e nem imagino determinados lugares sem a presenca dos mesmos.
Beijo e parabéns!

João Concliz disse...

Texto interessante, Jair, sobre esses seres controversos, que certamente fazem parte da memória afetiva de todos.


Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com fome", 
disse o primeiro,
"e não tem nada para comer."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha carpir.
"Eu acho que ela ficou presa",
disse o segundo,
"e não sabe como fugir."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com saudade",
disse o terceiro,
"e com certeza vai morrer."
(Cecília Meireles - Pombinha na mata In: Ou isto ou aquilo, 1964).

LEREIA ITA disse...

JAIR , PARABENS PELO TESTO .EU SOU ATE SUSPEITO PRA FALAR AFINAL SOU CRIADOR DE POMBOS DESDE MEUS 12ANOS E OLHA QUE HOJE EU JA TENHO FILHO COM 21 ANINHOS DA PRA VER QUE SOU BEM ADMIRADOR DOS BIXINHOS. VALEU JAIR ,UM GRANDE ABRAÇO DOS CRIADORES DE ITAPECERICA MG.

Tais Luso disse...

Gostei imensamente da matéria, Jair. Sempre tive curiosidade pelos pombos, e nada contra eles, muito pelo contrário. Sobre serem causadores de doenças? Ah... tem coisa muito pior causada pela nossa espécie. E continuam por aí...Soltas!

Abraços
Tais Luso.

Anônimo disse...

Cadê os créditos da ilustração do pombo? Vou te processar

alien13 disse...

Amo todos os passarinhos.
Mas, os pombos são mais carinhosos, estão sempre perto dos humanos.
Infelizmmente, no Brasil, nem todos pensam assim...
Na Europa e em outros países civilizados, as pessoas valorizam os pombos.
Porque os pombos limpam as ruas e calçados, comendo o restos que as pessoas deixam cair, assim como os ratinhos.
HÁ UMA GRANDE VERDADE, QUE OS IGNORANTES E BURROS DESCONHECEM:
ONDE EXISTEM POMBOS, RARAMENTE EXISTEM RATOS, PORQUE OS POMBOS COMEM OS RESTOS DO ALIMENTOS, ANTES QUE OS RATOS.
Em todas as cidades brasileiras, onde os ignorantes exterminaram os pombos, não se pode sair às ruas, quando anoitece, porque os ratos saem, para comer os restos de comida, que os pombos comiam.
Castigo bem merecido!!!