terça-feira, 15 de março de 2011

As uvas


Não longe de onde eu morava existia uma chácara conhecida por “do seu Ângelo”, onde costumávamos buscar leite in natura para a mamadeira do bebê, e quase sempre havia um bebê em cada casa. Naquele tempo e lugar, leite era uma iguaria não disponível para adultos e crianças maiores. A chácara do seu Ângelo Delfrate era uma propriedade de médio porte na forma aproximada de retângulo inserido entre dois riachos, o Do Monjolo e Do seu Ângelo, que limitavam o quadrilátero nos seus lados maiores, os lados menores eram lindeiros, à frente com terras dos Krambek, no lado oposto com um pântano sob um carrascal de espinheiros de dois metros de altura tão fechados que era impossível atravessá-los. Se as terras fossem uma cidadela esta estaria defendida naturalmente daquele lado. A propriedade produzia um pouco de leite oriundo de seis ou sete belas vacas, confinadas em currais e com pasto abundante logo à direita da entrada, a esquerda havia plantação de milho para a ração dos animais; também vendia frutas nas estações em que essas maduravam, mas, sua atividade produtiva que rendia um bom dinheiro, era o feitio de vinho. Para isso existiam parreirais bem cuidados de uvas terci, bregerá e isabel, frutas em geral usadas para consumo natural, mas que podem ser transformadas em vinho tipo “de garrafão” de baixo preço, consumido pelas camadas mais pobres. Os parreirais circundavam pomares de maçãs, laranjas, mimosas, peras, pêssegos, caquís e alguns pés de butiás muito saborosos, frutas que eram cobiçadas pelos piás da área.

A chácara também possuía bambuzais que atendiam duas das mais comuns necessidades da gente do lugar: caniços de pesca e varas para cutucar pinhas nos pinheiros. Meu tio Beto era um exímio colhedor de pinhões. Quando estes amadureciam, mas ainda se encontravam na pinha, ou seja, quando as pinhas ainda não haviam debulhado suas sementes para o chão da mata como costumam fazer ao sazonar-se o suficiente, tio Beto cutucava com uma vara de bambu comprida o bastante, os pinhões caíam e nós juntávamos. Caniços de pesca eram feitos a partir de certo tipo de bambu bem resistente, o mesmo que se vê nas casas especializadas por aí.

A disposição “mesopotâmica” entre os dois ribeiros orlados de matas ciliares dispunha as coisas de tal forma que as cercas da propriedade ficavam paralelas às beiradas das matas. Aquelas florestas eram nosso ambiente, sempre estávamos por lá pescando, comendo frutas silvestres ou brincando de Tarzan, Jim das Selvas ou outro herói do momento, então, era natural que os pomares e os parreirais do seu Ângelo estivessem em constante observação por nossos olhos cobiçosos. Tão natural, que acompanhávamos cada nova etapa do florescimento ao sazonamento das várias frutas, uvas por serem deliciosas e mais fáceis de colher eram as mais visadas, quando mal maduravam nós costumávamos “colher” alguns cachos para controle de qualidade. Significa que tínhamos que chupar algumas uvas para garantir que estivessem boas para consumo, nada muito radical ou que trouxesse prejuízos perceptíveis à vinicultura do seu Ângelo. Tal eram as investidas da gurizada às uvas que ele cuidava que houvesse certa vigilância na época da colheita. O Paulinho Krambek, neto dele, estava sempre pronto a fazer ameaças aos guris ousados que atravessassem a cerca mocosados pela mata. Havia o mito a respeito de tiros de sal que poderiam ser disparados na bunda dos invasores, tiros que não matariam ninguém, mas deixariam em carne viva por várias semanas o traseiro do atingido. Nunca ficou comprovado esse mito, tampouco alguém levou tiro de sal na bunda para comprová-lo ou refutá-lo.

Pois bem, de um lado da cerca, uvas deliciosas prontas para serem colhidas, de outro, piazada ávida por frutas grátis condizentes com o ditado que a grama do vizinho é sempre mais verde. Lembrando que a maioria das casas tinha suas parreiras, pés de caquís e pêssegos. Uvas e piás sempre se atraíam, de modo que estes, na impossibilidade daquelas se moverem, pulavam a cerca que os separava às vezes, e isso resultava num ato ilícito de apropriação do bem alheio. Estávamos Joel e eu certa feita fazendo uma incursão na mata ciliar lindeira da chácara, quando fomos atraídos pelo canto das sereias, ou melhor, pelo encanto das uvas maduras. Mal pensamos, saltamos a cerca de arame e já estávamos enchendo a camisa à moda de sacola, com as bagas suculentas. Pé lá outro cá, em questão minutos, voltamos à mata, onde, numa pequena clareira gramada, sentamos e pusemo-nos a chupar os frutos proibidos. Distraídos em comentar a ousadia de termos subtraído as uvas num impulso, não nos demos conta que o seu Libório, ajudante que cuidava dos pomares, havia nos visto e pulara a cerca no nosso encalço. Achou-nos no exato momento que o vimos, a menos de dez metros. Foi um tal dele saltar em nossos calcanhares e nós sairmos como campeões de corrida de obstáculos, pularmos o córrego e nos embrenharmos na mata da outra margem. Foram segundos cruciais em que presas e predador puseram a prova suas melhores habilidades, nós vencemos, apesar de perdermos as frutas que estavam na grama para serem degustadas.

Saímos da mata pelo outro lado e, só então, o Joel percebeu que havia deixado o calçado no local do delito, agora estava descalço e antes usava um chinelo de couro. Diga-se, o chinelo era de sua mãe, ele o havia pego “emprestado” porque calçados, naquela nossa pobreza, eram artigos disputados e raros. Saídos ilesos do corridão por causa das uvas, o problema agora era o Joel justificar-se junto a minha tia Francisca. Tia Francisca trabalhava na fábrica dos Malucelli e foi lá que ela soube da nossa traquinagem mal sucedida. Uma colega de trabalho “prestativa” anunciou para ela que o chinelo que o Joel havia perdido enquanto roubava uvas estava à disposição dele na casa do seu Ângelo, era só o piá ir buscá-lo. E eu fui buscar? Nem o Joel! Aquele chinelo, embora fizesse falta aos pés de minha tia até ela poder comprar outro, jamais foi visto por nós, e as uvas tiveram sossego por muito tempo, deixamos de subtraí-las. JAIR, Floripa, 18/01/11.

8 comentários:

marly disse...

Bom demais!
Säo tantos os detalhes e täo bem narrados que estive naquela mata com voces,roubei as uvas e corri...(rs)
Mais um texto que me convence do quäo "rica" foi tua infância,Jair!
D E L Í C I A de leitura,parabéns mais uma vez!

Joel. disse...

Jair, bem lembrado este episódio da nossa pré adolescência. Vale acrescentear que quando minha mãe deu falta no tal chinelo e começou a procurá-lo pela casa, eu tbm ajudei-a a procurar mesmo sabendo que não encontraria. Eu não podia falar a verdade pois, se o fizesse, corria o sério risco de levar uns cascudos.
Grande abraço,
Joel.

Comunicação disse...

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Obrigado,
Ministério da Saúde

Leonel disse...

Jair, bela narrativa, ainda mais enriquecida pelo comentário do protagonista, seu cúmplice na molecagem!
Quanto aos tiros de sal, o meu pai contava que ele e o irmão dele, exímios "provadores" de melancias alheias, diversas vezes foram alvejados (com má pontaria) por disparos de NaCl! Mas também nunca soube de alguém que levasse mesmo um tiro de sal!
Obrigado por mais esta aventura Mark Twainesca, protagonizada por Jair Sawyer e Joel Finn!

R. R. Barcellos disse...

- O chinelo da tia foi um preço barato que você e o primo pagaram por tão ricas memórias. Parabéns, e um abraço.

Ruy disse...

Jair, gostei muito desse teu escrito nicolate-uval. Esse lance do Joe ter perdido o chinelo da tia, foi hilário. Acho que o que aconteceu quando a minha tchurma roubava frutas do pomar nicolatiano, num domingo à tarde também teve seu quinhão de hilaridade. Pois nesse dia nosso grupo era d'uns cinco piás. Lembro que nessa corrupela estava o "Lorenço" Bornancim, mais conhecido como Xiko Cobra e o Maíco Tatu Pizzato, mano da sempre cobiçada Suely Pizzato, (a Sulinha). A gente estava no bem bom enchendo o vão entre a camisa e a barriga com maçãs e outras frutas, quando de repente pinta lá embaixo da trilha o Paulinho Krambeck, o neto do seo Ângelo, vinha correndo, gritando e trazendo junto uma chusma de guapecas que atiçava pra cima da tchurma. Foi só gente se despinicando de cima dos galhos onde tinha se empoleirado e todo mundo passando o mais rápido possível por baixo da cerca de arame farpado. Parece que havia como que um tipo de acordo, não explicitado, entre os piás que roubavam frutas e o dono/defensor do pomar, mas que era respeitado, ou seja, se guri passasse a cerca, do lado de fora estava seguro, pois Paulinho desistia de estumar a kaxorrada pra cima dos piás, que daí podiam usufruir tranquilamente do produto da despropriação frutal. Acontece que o Maíco Tatu, ao se atirar por debaixo da cerca, teve a gola da camisa enganchada numa farpa do arame e, como a camisa era já de muito uso, o esforço que o Tatu fazia pra sair do enganche, com a guapecada latindo perto da sua/dele bunda, acabou por rasgar a camisa nas costas em todo o seu comprimento, dividindo-a em duas! Após o susto e quando já estávamos saboreando as frutas sentados à sombra duma árvore, o Maíco, todo choroso, só ficava dizendo, como se perguntando pra galëre em voz alta: "E agora, o que queu vô dizê pra minha mãe?"

Grande abraço,
Ruy.

Adri disse...

Adorei

luci disse...

Estava lendo tão seriamente o artigo sobre os americanos,quando me deparei com "as uvas".O riso saiu tão espontâneo,no momento em que viajei nos tiros de sal, o imginário veio à tona...Que delícia
a nossa infância,acho que a natureza nos convidava para dela
destrutar e nos alegrar...pulando cercas, atravessando riachos,cachorros latindo... e frutas que te quero...Coisa boa! Abraços.Luci.