sexta-feira, 16 de abril de 2010

SEMPRE O TEMPO



Muito antes dos tempos existia o ovo cósmico e o TEMPO. Após a mega explosão que a tudo deu início, ele criou a matéria e a dispersou pela infinitude do cosmos. Onde nada existia, agora surgiam galáxias pejadas de estrelas, cometas, quasares, buracos negros, horizonte de eventos e tudo mais. O TEMPO, tendo semeado estrelas, agora se ocupava em orná-las com planetas que as circulavam feito moscas que rodeiam a lâmpada. Ainda que não existissem lâmpadas, tampouco moscas, tanto estas como aquelas teriam que aguardar que o TEMPO as criasse. Planetas eram rochas flamejantes que lembravam estrelas-crianças que, como Peter Pan, se recusavam a crescer. Ele, o TEMPO, se encarregou de jogar água na fervura dos planetas, esfriou-os de modo a se tornarem lugares menos hostis. Por que não? Feito isso, verificou que agora era possível criar um ambiente profícuo, uma espécie de sopa primeva onde moléculas elementares podiam bem se relacionar criando novas e mais complexas moléculas. Isso se deu a 3,7 bilhões de anos, coisa que, para o TEMPO, nada significa. Nesse caldo de cultura, substâncias orgânicas concentravam-se localmente, talvez em gotículas em suspensão, ou espuma que secava nas margens dos mares. Com o TEMPO e a influência da energia dos raios ultravioleta do sol, combinavam-se em moléculas maiores e mais complexas.

O TEMPO a tudo comandava como um mestre perseverante e calmo cuja paciência mede-se, não em décadas ou milênios, mas em milhões de anos. Naquelas eras as grandes moléculas orgânicas podiam boiar livremente no caldo cada vez mais denso sem serem molestadas, o TEMPO estava a seu favor. Num dado momento formou-se por acidente, uma molécula notável, uma molécula que podia replicar-se. O TEMPO havia proporcionado esse fausto acaso. Na verdade, uma molécula que possa fazer cópias de si mesma não é tão difícil de imaginar como parece à primeira vista e só teria de surgir uma única vez e, para isso, basta que exista TEMPO suficiente. Nada tão insólito, portanto. Não terá sido necessariamente a molécula maior ou mais complexa de todas, que adquiriu essa propriedade extraordinária de ser capaz de tirar cópias de si mesma, mas, por certo, terá sido uma molécula que sofreu um acidente singular. Um acidente nem um pouco improvável, no entanto, certamente, um acidente fundamental, desde que houve TEMPO para que acontecesse. Que acidente fantástico seria esse, já que, replicar-se significa reproduzir-se, significa perpetuar-se, deixar descendência, enfim, significa VIDA? Bem, o TEMPO criou-a e soube esperar que raios cósmicos que, em geral, atravessam nossa atmosfera aos bilhões por minuto, atingissem o âmago da molécula e modificassem a estrutura dos átomos que a compunham, proporcionando à sortuda molécula o poder de auto replicar-se. Foram necessários milhões de anos, na verdade um TEMPO enorme, até que grande quantidade de substâncias muito mais complexas que as originais surgissem. Com o TEMPO são encontrados aminoácidos – os blocos de construção das proteínas, classe de moléculas biológicas. Mais TEMPO ainda, e foram surgindo substâncias orgânicas chamadas “purinas” e “pirimidinas” – blocos de construção da molécula de DNA.

E o TEMPO facultou que a vida evoluísse em variedade e complexidade, porque a evolução é um atributo do TEMPO. Milhões de espécies povoaram lagos, rios, ares, mares e terra do Planeta numa variedade infinita graças ao TEMPO. De moneras a plantas e bactérias, de peixes, répteis e aves a mamíferos. Grandes e pequenos, de sequóias a insetos, todos seguiram crescendo e multiplicando-se, variando e ocupando todos os nichos habitáveis, e até os tecnicamente inabitáveis da Terra, ao longo do TEMPO.

Mas, o TEMPO que havia criado a vida também a suprimia, exterminava. Seres que não se adaptassem a novas condições eram, implacavelmente, varridos do Planeta pelo TEMPO. Assim, todas as criaturas estavam agregadas ao TEMPO que dispunham para evoluir ou morrer. O TEMPO as criou, o TEMPO as destrói. Infeliz é a criatura que acredita ser possível driblar o TEMPO, no fim este não a perdoará, transformá-la-á nos elementos que a compõe. O pó ao pó retornará, o TEMPO se encarrega disso.

Bem, agora tudo funcionava como o TEMPO havia determinado, o relógio cósmico andava para frente há bilhões de anos e o universo se expandia para além de fronteiras sequer imagináveis. Só que o TEMPO, cuja dimensão excede o próprio universo, continua, enquanto os efeitos da grande explosão perdem impulso e, finalmente cessam, daí uma força colossal chamada gravidade se encarrega de contrair aquele universo dilatado ao extremo. Novamente, éons se passarão até que o universo se converta naquele ovo onde tudo começou. TEMPO não faltará. JAIR, Floripa, 24/04/10.

4 comentários:

serpai disse...

Que post dotado de escritura inteligenta....

serggio

R. R. Barcellos disse...

A quarta dimensão de Einstein parece exercer um domínio transcendental sobre as outras três, sobre a entropia do universo, sobre o universo dos filósofos e sobre a filosofia de alguns bloggers mais inteligentes. A famosa "seta do tempo" aponta sempre em um único sentido: o desconhecido. E os profetas que se virem...

Leonel disse...

Atualmente, duas entidades parecem conspirar contra mim: o tempo e a gravidade.

Bruno Cassiano disse...

deixei um selo pra vc lah no mundo leitor, se quiser aceitar é só seguir as regras e pegar o selo.