sexta-feira, 23 de outubro de 2009

KAFÚ



O lugar comum, “o cão é o melhor amigo do homem” ou a expressão, “fidelidade canina” não são suficientes para retratar o comportamento dos companheiros de quatro patas com relação aos humanos. Conta a mitologia que Ulisses, ao retornar de Tróia para onde fora guerrear e de onde retornara após vinte anos, encontrou seu cão, esperando-o. Ao chegar em casa disfarçado, velho, alquebrado, ninguém o reconheceu, nem sua esposa Penélope, nem os criados, somente seu velho e fiel Argos que, a vê-lo, tentou se levantar de onde se encontrava, mas só conseguiu abanar o rabo num aceno de boas vindas. Diga-se, Argos encontrava-se abandonado, doente e cheio de carrapatos, mas isso não o impediu render homenagem a seu dono mostrando-se feliz com seu retorno. Ulisses não resistiu: virou a cabeça de lado e chorou. Nem Poseidon, nem os troianos, nem os ciclopes gigantes, nem as bruxas dos mares bravios arrancaram lágrimas do herói. Argos, sim.
Kafú era um pastor alemão capa-preta de três anos buliçoso, saudável, inteligente e extremamente fiel. Veio dar em nossa casa em fins dos anos setenta, presente de um amigo que não tinha como acomodá-lo em seu pátio pequeno e gramado. Conquistou-nos desde o primeiro dia, nada exigia e procurava entender nossas ordens e preferências quanto à hierarquia dentro do pátio e da casa. Cachorro não entra em casa, primeira regra que ele assimilou e nunca transgrediu. O pátio não é lugar de fazer buracos nem necessidades fisiológicas. Para fazer cocô, terreno baldio ao lado, que ele alcançava depois de pular o muro de um metro e trinta. Nem sempre conseguia voltar pulando de fora para dentro, às vezes precisava de ajuda. Suportava com estoicismo o banho de mangueira com xampu e desinfetante todos os sábados, mas, depois de secar-se, procurava sujar-se quase imediatamente, parecia querer dizer: “submeti-me ao banho de acordo com a vontade vocês, agora me sujo de acordo com a minha, e estamos conversados”. Era afeiçoado ao nosso primeiro filho, de pouco mais de um ano, o qual respeitava e, apesar de ser maior e mais pesado, jamais o afrontou ou feriu, pelo contrário, permitia até que Augusto lhe tirasse comida da boca, em geral um osso de peito de boi, do qual ele gostava imensamente. De manhã para ir ao trabalho eu necessitava caminhar uns setecentos metros até o ponto de ônibus na avenida principal. Kafú me acompanhava até o ponto e lá ficava comigo até o ônibus chegar, depois que eu embarcava ele retornava para casa tranquilo, sem meter em encrencas com outros cães que abundavam na área. Numa dessas vezes teve a infelicidade de se atropelado por um ônibus, nada de muito grave, nenhum osso quebrado, apenas uma escoriação na coxa direita. Acontece que sentia dores, muitas dores e não conseguia dormir, ficava ganindo a noite. Solução: dávamos leite morno com trinta gotas de novalgina e ele dormia com os anjos. Isso até que o ferimento sarou e ele passou a não sentir as dores. Era um cão dócil que, estranhamente, tinha optado por apresentar hostilidade apenas se muito contrariado por pessoas desconhecidas, especialmente se estas portassem embrulho nas mãos. Ele veio ao mundo, como os demais cachorros que adotam os humanos, para fazer parte de uma família; para se integrar ao mundo dos seres que, às vezes, desprezam e maltratam outros animais; para trazer alegria e amizade descompromissada a todos que o cercavam; para transpor a fronteira das espécies, mostrando que animais, por diferentes que sejam, por mais distantes que suas heranças genéticas estejam, partilham um universo comum de afeto e lealdade; para dar exemplo de como se pode conviver sem atritos e tensões; para provar ao homem que este é apenas mais um ser da fauna do planeta e não superior a nenhum outro. Kafú viveu feliz, irradiou alegria e descontração para seus companheiros de viagem neste Planeta, e se foi para onde vão os cães depois que cumpriram sua missão na vida terrena. Deixou saudades em todos que o conheceram e tiveram a felicidade de compartilhar sua vida. Como os demais que convivem com os homens, foi o cão mensageiro da lealdade; foi escolhido pela natureza para estabelecer, com sua alegria de viver, harmonia onde houvesse discórdia, paz onde houvesse atritos e felicidade onde houvesse tristeza. JAIR, Floripa, 23/10/09.

7 comentários:

neo-orkuteiro disse...

Gostei, Jair, de ler esse seu texto carregado de afetividade, homenageando um amigo que já se foi.

Maringa disse...

Meu tipo predileto de texto: carregado de afetividade (como disse o amigo acima).

O amor entre as pessoas é mais intenso do que qualquer outro, mas sem dúvida alguma o amor entre um cão e seu dono é do tipo mais fiel possível.

abração

Alma inquieta disse...

Olá Jair!

Em primeiro lugar quero pedir desculpa pela minha ausência, mas o meu tempo e a minha saúde têm-me pregado partidas!
Mas hoje fiquei emocionada com esta homenagem a quem se dedica sem pedir nada em troca!
Os animais às vezes são mais dedicados do que os seres humanos...!

Um beijo enorme!

Kotta1947 disse...

O cão é um animal tão sensível que pressente quando o dono/a estão tristes e manifestam-se com carinho tal que nos faz pensar que ele é um verdadeiro amigo. É nosso familiar chegado. Recentemente faleceu o dono de um pastor alemão que o acompanhou até onde o deixaram ir e esteve dias e dias deitado ao lado da campa acabando por morrer nunca mais comeu nem bebeu e ninguém conseguiu tirá-lo do cemitério. São extraordinários os animais. Bjos.

lia disse...

toda a gente devia ter o privilégio de aprender na escola dessa lealdade e altruísmo...

Anônimo disse...

Pai,

Um grande muito obrigado por me fazer lembrar de um trecho importantíssimo da Odisséia. Mais obrigados ainda por me contar coisas que desconhecia ou havia esquecido sobre o Kafú.

Augusto

Anônimo disse...

Kafu

Nostalgia regada por afetividade, trazendo alegria e demonstrando que existe vida após a morte para humanos e quase humanos(sobretudo àquelas pautadas nos bons e virtuosos exemplos).

Saudemos o Kafu e o quanto hoje ele tem a nos ensinar. Releiam o texto aqueles que não vislumbraram isso!.

Saulo